tinta e corpos no chão

é assim.

na hora o susto do atropelamento. e kapluft! e se está no chão. kaputt! imóvel.

julievive

os olhos numa posição, se pudessem ver, veriam apenas um ponto fixado, sem se mover, veriam tudo a partir da perspectiva do chão.

pessoas passam, olham, ninguém mexe. carros, ônibus, passam devagar. e o corpo imóvel. os olhos, se abertos, parados.

os carros passam, diminuindo a velocidade.  os ocupantes dos carros, olhando o corpo. nos ônibus, a mesma coisa. e o corpo imóvel no chão. talvez algum choro de alguém. talvez algum grito. talvez algumas palavras. mas o corpo no chão.

o estranho é que tudo isso me passava pela cabeça enquanto estava eu lá, deitado, na avenida paulista, deitado no asfalto, ao lado de um amigo. deitado, como se atropelado fosse, como se morto estivesse, parado. já fui atropelado, sei o que passa naqueles átimos de segundo que antecedem o choque do veículo no nosso corpo. fui atropelado duas vezes, tenho experiência nisso.

desde o final da tarde havia pessoas chegando na avenida paulista, na praça do ciclista, onde seria a concentração. eu evitei chegar cedo. evitei ficar ali conversando, horas antes. seria árduo fazer isso. entendo perfeitamente os amigos que não compareceram. essas nossas cerimônias são sempre muito intensas. é muito ruim perder um amigo, numa forma que também pode nos acontecer.  todos nos colocamos na posição de quem está ali sendo homenageado.

fomos a pé, caminhando, empurrando nossas bicicletas até a ghost bike da juliana ingrid dias. para quem não sabe, uma ghost bike é uma bicicleta pintada de branco, sempre instalada próxima ao local onde um ciclista foi morto pela violência do trânsito. por isso talvez eu não goste de bicicletas brancas., embora minha primeira bicicleta tenha sido branca.

caminhamos, uma longa fila de pessoas, ocupando uma faixa. quantos? uns 400? não sei. o suficiente para ter que se interromper o cruzamento de ruas que atravessam a paulista, algumas vezes. atrapalhamos o tráfego? sim.

sim, é importante sim atrapalhar o tráfego. é preciso lembrar que há outras coisas importantes, como a vida, além do seu trafegar.

alguns motoristas irritadinhos sabem buzinar, acelerar. tentar forçar a passagem sobre pessoas que não estão protegidas por uma tonelada de lata.

mas nada demais aconteceu nesse sentido. apenas as irritações de quem se acha acima de tudo. de quem se acha acima da vida alheia, da dor alheia.

chegando ao local, acendemos algumas velas. colocamos flores. grafitamos o chão. surgirão no negro asfalto, pássaros brancos, as silhuetas de bicicletas de braços abertos como se fossem voar, e alguém escreve no chão a frase “julie vive!” – pois se há tanto a dizer, o que escrever? não há como dizer mais, apenas citar que ela vive em nossa memória.

deitamos no chão. do chão, aquela perspectiva diferente dos prédios.  das pernas de quem ao lado passa.  deitamos em muitos. muitos corpos – porém vivos – deitados no lugar onde outrora houve um corpo sem vida.

é…. voltamos para a praça. nenhum discurso.  nenhuma grande fala. apenas aquele gosto amargo na boca. e a dor da saudade.

conversei com amigos depois. tentamos sempre retomar a vida. mas, no caminho de casa, a mesma brutalidade de sempre. por mais sinalizado, munido de luzes e um colete refletivo visível a quilômetros de distância, o velho descaso dos motoristas, protegidos por suas couraças de aço, indiferentes aquela coisa que ali está, mas que é um ser vivo, não um cone de sinalização.

mas sim, na volta à casa, também a volta ao quase. o eterno quase em que vivemso. “quase fui atropelado”, “quase me quebrei”, “quase morri”… – o único “quase” que ciclista nenhum profere é o “quase matei”.  ciclistas não matam, só morrem.

ciclistas não matam. só morrem. não há guerra no trânsito, pois não é guerra quando só há mortos de um lado. é massacre, simples assim.

que essa seja das últimas ghost bikes que tenhamos que instalar e fazer a manutenção.  trabalho fisicamente simples mas emocionalmente muito árduo.

é… um ano se foi, nada mudou. carros continuam acelerando nas avenidas de são paulo. motoristas continuam dirigindo bêbados.  e vidas continuam sendo ceifadas.e é uma verdadeira insanidade essa cidade cujo urbanismo foi pautado pela carrolatria. em cada auto-entusiasta um apoiador da máquina de moer gente… um acólito do moloch contemporâneo.

quem sabe um dia esse tempo seja descrito como uma era de insanidade.  uma era onde o egoísmo de quem quer se locomover sem usar as pernas se sobrepôs à vida alheia. onde o mais forte matava o mais fraco sem dó nem piedade. onde o poluidor-assassino matava o que nenhum mal à sociedade fazia.

mas esta é nossa realidade. hoje, duramente lembrada, mais uma vez. um ano se passou e nada mudou. nada mudou. pois não há nada de novo debaixo do sol.

a juliana ingrid dias, nossa saudade. que descanse em paz.

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2 Respostas para “tinta e corpos no chão

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