queluz: 10 anos de audaxes no brasil

a coisa era assim. no final dos anos 90 todo mundo que pedalava e tinha acesso à internet estava ligado numa lista de discussão no yahoo, a bikeonelist.

eu, no meu primeiro audax. estarei com essa camisa em queluz.

eu, no meu primeiro audax. estarei com essa camisa em queluz.

nessa época ainda a internet era discada e não tinha a praga do gmail que agrupa os e-mails em “conversas”. assim, todo mundo recebia cada e-mail separado. e demorava a receber cada e-mail, ocupando a linha telefônica. se alguém enchesse um e-mail de fotos, demorava a baixar todos os e-mails.

assim, gente sem noção logo adquiria a percepção do quê era importante escrever, por quê era importante escrever. e era comum simplesmente se imprimir os e-mails, ler em casa, rascunhar resposta em lápis, digitar tudo no dia seguinte. não tinha aquela de mandar e-mail só escrito “ok”, “wow” “vtnc”. logo, as discussões eram boas, de alto nível, eram muito, mas muito legais. 

em 1999, ano em que o kayo oliveira se tornou o primeiro brasileiro a fazer o paris-brest-paris, o thierry roldan publicou seu TC sobre cicloturismo, ao se formar em educação física pela unicamp. nesse TC, thierry falava dos audaxes.

discutíamos na bikeonelist esse assunto, discutíamos quando pedalávamos. era um assunto normal entre a gente: “cara, tem umas provas, onde não tem competição, você tem que só fazer o percurso dentro dum tempo, de média 15 kms por hora” , “que legal, então vamos fazer” ‘mas peraí, a brincadeira começa com 200 kms” “como assim?” é”, 200kms, depois 300kms, depois 400kms, depois 600kms” “nossa, que doido!”  – pergunte ao rogéio polo, até hoje organizando audaxes em são paulo, como eram essas conversas.

aí a questão. tivemos que desenvolver a forma de organizar os audaxes. e também de completá-los!

esse foi um trabalho conjunto de muita gente. o cristiano cordeiro e o manuel terra fundaram o Clube Audax Brasil, cujo estatuto eu assinei como advogado, lá pelo final de 2002, e em 2003 tivemos a série completa, na qual o manuel terra brevetou e se tornou em 2003, o primeiro brasileiro a completar um paris-brest-paris tendo feito os brevets no brasil.

mas o fato é que não sabíamos nada de longa distância. nada! hoje, quanto conhecimento acerca disso não há? e o detalhe, conhecimento desenvolvido pelos randoneiros. pois nãodá pra usar muito conhecimento dos profissionais. eles fazem provas de até 200 kms em média. o conhecimento deles é voltado no desempenho máximo dentro desses limites. o nosso, além desses limites.

eu sempre converso com um antigo profissional, vizinho de bairro. ele colecionou títulos no brasil e afora. no começo ele coçava a cabeça quando via minhas bicicletas. mas depois de achar esquisito uma bicicleta que eu preparei para 400kms, passou a trocar figurinhas comigo.  como ele diz, ele não sabe o que é pedalar 400kms num dia, e ainda mais sem pelotão, com a cara no vento.

com a cultura randonneur, não competitiva e exploradora dos limites do corpo, o único parentesco com a cultura ciclística  competitiva possível é com os pedalantes da Race Across America e eventos parecidos. por exemplo, o bike-fit de uma bicicleta de competição pode garantir um desempenho ótimo. mas matará suas costas se você tiver que ficar 25 horas pedalando essa bicicleta.

o ciclismo de longa distância pede geometrias diversas, fits diversos, pneus diversos, rodas diversas, selins diversos! e pede faróis….

o primeiro audax do brasil foi em queluz. cujo trajeto será refeito nesse sábado agora, dia 02 de fevereiro de 2013. gente, é um evento histórico esse audax!

é uma pedreira? é! mais de 3.000 mts de altimetria acumulada! logo, as médias serão baixas. então, co mmédias baixas, temos que ser espertos e evitar problemas na bicicleta. use os melhores – entenda-se mais resistentes a furos – pneus que puder. use fita anti-furo, se está acostumado a usá-las.

além de todo o equipamento obrigatório constante dos regulamentos – que você deve ler – leve de forma organizada e prática de pegar e usar: pelo menos duas câmeras de ar, espátulas, e um jogo de ferramentas simples. se você não sabe trocar uma câmara sozinho, aprenda rápido!

vá com uma bicicleta em ordem, cuja corrente não abra, não quebre.

não deixe de se alimentar bem antes da prova: um café da manhã reforçado: café, café, café, pão, pão, pão, banana, banana, banana. alguns preferem um bom prato de  macarrão antes dum pedal longo.

café da manhã de audax não é aquele café da manhã de quem tá de regime: granola, mamão, sucrilhos, suquinho de laranja, iogurte… tudo o que solta os intestinos vai fazer você procurar uma privada nos arredores da estrada…

não esqueça de encher suas caramanholas. duas, no mínimo! em todo PC, coma algo. bananas, preferencialmente. suaremos muito naqueles morros, logo perderemos muito sal. é também a hora de tomar gatorade, aquele troço que se tomarmos no dia-a-dia nos dá pedras nos rins, mas num pedal longo e cansativo nos repõe eletrólitos necessários.

sexta-feira à noite não se entupa de proteínas. entupa-se de carboidratos. durma cedo. não consegue dormir cedo? há um truque: remédios para alergia dão um sono desgraçado, e não dão efeitos colaterais no dia seguinte. eu tomo um comprimidinho de polaramine, durmo cedo, no outro dia estou ótimo: não terei os efeitos da minha rinite atrapalhando o pedal, e estarei descansado…

sua bicicleta tem que ter marchas adequadas às subidas. a não ser que você seja um escalador nato de nível do pelotão profissional, evite subir pedalando em pé pelo menos na primeira metade dos 200 kms. pedalar em pé é muito eficiente, mas gera um aumento dos batimentos cardíacos em cerca de 20%, a longo prazo, extenua. então, guarde essa técnica para o final, onde até lombada você quererá escalar pedalando em pé…

pela precisão, o dia estará relativamente quente e com eventuais pancadas de chuva. se sua bicicleta tiver pára-lamas, ótimo. se não tiver, paciência com os respingos. use óculos, pois podem os respingos vir nos olhos.

use um capacete arejado.

se você é friorento, não se preocupe em carregar grandes jaquetas e etc. lembre, pode estar fresquinho de manhã, mas logo esquentará, e muito. toda roupa a mais fará você suar em demasia.

e há um equipamento especial para completar um audax difícil: bom-humor. seja bem humorado. isso facilitará em muito transpor os obstáculos.

no mais, estude o trajeto, estude as planilhas que a organização já enviou a você, deixe sua bike nos trinques, leia mais uma vez os regulamentos dos audaxes, o regulamento internacional e o regulamento da organização paulista. e leia as instruções para a prova!

e sobretudo, faça tudo o que Herr Richard P. Dunner mandar. se ele mandar você rolar na lama, role, pois algum motivo tem, e será para melhorar o seu pedal. se ele mandar você, que odeia multinacionais e odeia refrigerantes tomar uma coca-cola, é por quê você está precisando daquela bomba de açúcar e sódio.

bom, nos vemos lá. sofreremos os morros. e completando ou não, participaremos dum evento histórico!

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27 Respostas para “queluz: 10 anos de audaxes no brasil

  1. Muito bom o texto, legal saber de onde veio algumas coisas.
    Sobre os preparativos e o andar da prova, o esquema é ir com pneu de cravo, alforjes e se preparando para tomar suco de milho e comer pastel.

  2. Lindo, Odirzinho! Arrepiei!!! Queria estar lá com vocês pedalando. mas… foram com os olhos rasos d’água que optei em não cometer esse suicídio! Mas estarei la no apoio moral tambem com um caveirão resgatando os corpos!!!

  3. Entre randonneurs e faquires, tenho uma estranha atração pela prática dos primeiros para atingir a qualidade dos segundos.
    Qualquer hora encaro meu primeiro.

  4. Amei tudo! Me arrependi amargamente por não ter me inscrito nessa prova, mas cansei de desistir. Audax agora só qdo eu tomar vergonha na cara e treinar. Enfim… Estarei na largada pra desejar boa prova a todos (e dormir na seqüência)!

  5. Odir, vc foi a primeira pessoa a me falar sobre audax, perto do final de 2011. Lembro que passei o resto daquele sábado pesquisando a respeito e concluí que audax parecia ser um negócio muito legal de se fazer e que um dia ia tentar fazer um brevet de 200km.
    No domingo, comentei com alguns colegas de pedal sobre o audax, que o próximo ia ser em janeiro, que eu ia tentar primeiro fazer o desafio mas que a meta era fazer 200km, que ia ser legal, que isso, que aquilo, que conheci um cara que pedalava pra caramba e já tinha feito vários e me falou dessas coisas, aquela empolgação, virei criança. A grande maioria olhou para aquele gordinho fantasiado de ciclista com muita incredulidade…. “100km é? e depois 200km é?”
    Alguns toparam a parada, gnomos e afins, mas, por ironia, quebrei meu pé na semana do desafio e fiquei em casa.
    Recuperado e muitos kms depois, fiz dois desafios, brevetei 200km naquele forno ironicamente chamado de “Holambra” e estou aqui roendo as unhas pra chegar logo o histórico brevet de Queluz….
    Enfim, mais do que pedalar, participar dessa história é muito empolgante.
    Que venham mais e melhores brevets para todos nós!

  6. Bacana demais o texto, Ogro. Vontade – muita – de participar. Não dá mais. Estou ensaiando pra participar de um. Em breve, em breve…
    Obrigada pela inspiração.

  7. Grande Odir! Excelente texto, principalmente sobre o “rolar na lama”! hehehehe. É a mais pura verdade! Compartilhei no FB ok? Nos vemos em Queluz! Abração. Fabio Guariglia.

  8. Grande Odir, bons tempos da Bikeonelist, foi lá que comecei a buscar informações quando tive a idéia de comprar uma bike, lembro que quase comprei uma Caloi 10, mas esta é outra história. Queluz é realmente inesquecível, lembro que um dos motivos deste local ter sido escolhido é pelo fato de estar entre São Paulo e Rio, para terem mais participantes, na época eram poucos que conheciam e menos ainda os que se aventuravam a fazer os 200km. No primeiro foram menos de 15 ciclistas, e sábado agora estaremos em mais de 100, boa evolução!! Nos veremos lá. Rogério Polo.

  9. ótimo texto, com tantos complimentos fica difícil manter a credibilidade, vou ter que estudar mais um pouco, abs

  10. Demais este texto! Neste sabado nos encontraremos! Saudaçoes

  11. olá Odir, há muito tempo venho lendo o seu blog, e sempre gosto muito. finalmente criei coragem e neste final de semana será a minha estréia no audax. devido à altimetria e à minha inexperiência optei pelo desafio. entendo que há muito tempo a minha relação com a bike está muito mais próximo do espírito do audax do que do ciclismo profissional.
    bom, nos vemos lá.
    um grande abraço
    Ale Otsuka

  12. Muito legal a história do nascimento do Audax no Brasil.
    Já participei de Queluz 2 vezes e é uma prova atipica e fantástica!

    Ahh, sobre o Herr Dunner, ele sabe muito sim, e tu sabe Richard que não precisa te aprimorar mais nos estudos para fazer jus aos comentários!

    Abração pra galera de SP! Saudade de vocês!

  13. Quer dizer que vc usa polaramine, hein! cuidado com o dopping 🙂 risos… Adorei esta dica. Eu antes de qualquer evento fico muito ansioso e tenho dificuldades de dormir e sofro demais com uma droga de uma renite alérgica… farei uso dessa dica, quando eu puder voltar a pedalar. Abraços!

  14. parabéns, de aqui a pouco aparecem as fotos dos 3 sobreviventes do audax 2003, odir, abel e flavio, todos presentes em 2013 tendo completado a prova com certificado e medalha na mão, abs

  15. Muito bom texto mesmo, o primeiro audax aqui no RS foi em 2004, organizado pelo Marcelo Lucca, e era bem assim como está escrito aí, as listas de discussões na internet, os preparativos, depois veio PBP2007 e o 2011 feito com a Ceci 10, emprestada pelo amigo Jorge Martins de Portugal….abraço Richard

  16. Tive o prazer de participar da criação do Clube Audax no Brasil e participei desta primeira prova em Queluz. Não me lembro o dia e mês, e sino falta de encontrar na net o registro dessa história e de outras dos primeiros anos do Audax no Brasil. Participei de mais outros em Queluz 2004 e 2005.Tendo só brevetado em 2004.Seria legal termos um blog ou outro espaço, para postarmos: datas, participantes, homologações e fotos de todos estes eventos que se iniciaram em 2003.
    Abraços reclineiros
    Pedro Zöhrer

    • pedro, vc chegou a fazer parte daquele primeiro evento, teste, uma espécie de corrida, desafio em duplas? foi na dom pedro, saindo da décathlon em campinas. em 2004 foi também feito um audax ali.

  17. Sim, fiz o 2x200km em 2003 e 2004 onde deu o maior bafafá, eu ia fazer de reclinada junto com o Cezar Barbosa, e a organização vetou duplas de reclinada alegando vantagem em relação as outras bikes. Tive de encontrar outro ciclista não reclineiro para a minha dupla e o Cezar também. Depois da prova fiz uma apresentação para provar aos organizadores que a proibição de duplas de reclinadas além de ir contra o estatuto do Clube Audax não era desleal para aquele tipo de terreno e percurso com muitas subidas, até por que na época nossas reclinadas eram pesadas e destinadas a passeio e cicloturismo, não competição .Mas me lembro de ter participado de 2x200km sendo que o primeiro eu fiz dupla com o Alan Wilter( nós dois de reclinada), isso em 26/01/2003.Depois houve outro em 2004 que foi seguido por uma reunião dos associados do clube Audax Brasil.

    • Grande Pedro Zöhrer, você e o Cezar precisam voltar a participar de nossos brevet aqui em SP, muita coisa mudou nos últimos anos, seria um prazer contar com a presença de vocês!! Lembro daquele brevet 300 que fizemos em Itaipava, percurso bem legal passando por Petrópolis, parece que não usam mais esta estrada nos brevets do Rio, não lembro de ter visto pelo menos.
      Então, eu tenho foto desta reunião depois deste 2×200, em que você fez a apresentação, preciso procurar com calma, hoje vou viajar, depois do carnaval com mais calma vou procurar. Boas festas a todos. Rogério Polo

      • Grande Rogério Polo!
        Se depender de mim é claro que vamos pedalar com nossos amigos randoneiros de São Paulo,nas provas de Audax em terras bandeirantes!
        Quase fui ao de Queluz, mas a vida de pai de primeira viagem não é fácil!!

  18. Acho que vale o registro do TCC do Thierry que pode ser baixado em: (http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?down=000325141)
    Parabéns pelo texto e parabéns pela iniciativa dos pioneiros do BRM no Brasil

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