o legado de márcia

não conheci márcia prado. e por isso estou mais capacitado a falar dela que outras pessoas. pois conheci muita gente que a conheceu, e só podemos avaliar alguém pelos rastros e impressões que deixa em outras pessoas, outros fatos, outras coisas.

ghost bike de márcia prado, na avenida paulista. foto da wikipedia.

eu estava afastado da bicicletada. fisicamente afastado da bicicletada nos anos de 2005 até 2009. estava minha vida muito mais voltada ao interior de são paulo do que à cidade. mas lembro dos ecos de sua morte, e logo em seguida, num evento de recuperação do uso público do espaço urbano, andré pasqualini, tiago benicchio, mathias fingermann, liu e outros me falaram muito dela, de sua morte e do clima pesado, de luto, da bicicletada, e então consegui aos poucos equacionar minha vida a voltar a a participar.  no final de 2009 não consegui participar da primeira edição da descida da rota márcia prado, por estar hospitalizado. vi pela TV do quarto de hospital a notícia, vi as imagens. chorei.

márcia regina de andrade prado era uma pessoa tranquila, de fala amena e bem atuante no cicloativismo. é isso que nos diz william cruz, aqui. e inspirou muita a gente a meter amão na massa.

márcia prado também foi a mulher que pedalava sua bicicleta seguindo todas as regras de trânsito, pela avenida paulista, e foi assassinada por um motorista de ônibus. a palavra é essa. assassinato. li as peças do processo em que se apura o homicídio causado pelo motorista de ônibus, também chamado márcio. não quero entrar em detalhes, eles são o suficientemente descritos por sabrina duran neste post aqui.

aos que histericamente gritam “use capacete” como se isso fosse a única medida de (questionável) segurança a ser tomada pelo ciclista, vale frisar que o capacete de márcia foi igualmente esmagado com seu crânio.

márcia teve o direito à vida e sofreu uma pena de morte por exercer o direito a transitar dentro da lei, e causando menos danos aos outros no exercício do seu direito, do que usando outros modais. foi punida por fazer o certo, o c0rreto, o mais adequado. absurdo isso? mas isso dá a medida do que se tornou são paulo e as grandes cidades brasileiras. a vida não é uma prioridade em são paulo.

claro, toda tragédia tem impactos. toda tragédia tira o dasein, o ser-o-aí, o être-le-là, do enevoamento da banalidade. suspende o véu da cotidianidade. nos faz pensar sobre as coisas. chacoalha o ser humano.

de 2009 para cá a ação de cicloativistas e urbanistas se intensifica em são paulo. aqui vale citar que nem todo mundo que usa a bicicleta defende seu uso, e nem todo mundo que defende seu uso pedala. mas quase todo mundo que pedala defende seu uso. o eixo dessa defesa é uma palavrinha mágica: vida.

o que essas pessoas chamadas de ciclochatos, ecochatos, e etc, defendem é que as cidades sejam lugar de vivência, não de mera sobrevivência. local onde vivamos tranquilos. não sendo mortos esmagados, não tomando tiros pois investiu-se num bem de valor agregado alto com quatro rodas pra se dar bem individualmente, e esse bem tem valor de repasse para bandidos.

lembrando, primeiro mundo não é onde os pobres andam de ferrari. é onde os ricos andam de transporte público, andam a pé livremente, pedalam, andam de patinete…

primeiro mundo não é onde somos indivíduos-consumidores, mas cidadãos.

pois é. essas ideias minhas não são só minhas. é de qualquer um que pedale por aí e se dê ao trabalho de reclamar de algo para o poder público, por exemplo. era o caso da cidadã márcia regina de andrade prado.

uma sociedade deve questionar-se se um dos seus membros é morto impunemente. uma sociedade deve questionar-se se não é seguro aos seus membros nela permanecer.

esse questionamento é legado da morte de márcia prado. esse questionamento é legado de toda morte no trânsito de são paulo, e não “em combate”, como diz o jargão policial.

que sociedade é essa onde uma mulher pacífica, boa cidadã, preocupada e ativa com a melhoria da cidade,é assassinada por exercer seus direitos?

o legado de márcia prado é fazermos esse questionamento o tempo todo. vai muito além do hercúleo trabalho de realização e promoção de uma rota cicloturística. vai muito além de uma bicicleta pintada de branco na avenida paulista. vai muito além do luto das pessoas próximas, do luto dos que se colocam na mesma situação, do luto dos invisíveis de são paulo.

hoje faz exatos 4 (quatro) anos de sua morte. ciclistas farão homenagens em sua ghost bike, na avenida paulista, nº 1148, sentido do paraíso à consolação. compareça. leve uma flor. leve uma vela. leve seu respeito. pois esse anda muito em falta em são paulo.

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4 Respostas para “o legado de márcia

  1. Parabéns pelo texto, também não a conhecia, mas o legado é inquestionável, algo que qualquer político poderia usar para alavancar questionamentos saudáveis à condição de São Paulo. Adorei o trecho:

    “lembrando, primeiro mundo não é onde os pobres andam de ferrari. é onde os ricos andam de transporte público, andam a pé livremente, pedalam, andam de patinete… primeiro mundo não é onde somos indivíduos-consumidores, mas cidadãos.”

  2. O tempo de mudança na história não será o tempo do indivíduo, daí nosso desespero diante desse “quase nada” que sucedeu a morte da minha amiga.
    Ainda outro dia lembrava das tantas pessoas que conheci desde 2007 quando tomei contato com a bicicleta São Paulo, foram de algumas dezenas no início a algumas centenas de novas vidas a observar em muito pouco tempo, caldo que engrossou em poucos meses e deu visibilidade inédita à bicicleta, revolução silenciosa. Assim chegou a Márcia, depois mais recentemente veio a Juliana, em ambas via a empolgação por estarem exatamente no meio da mudança, fazendo a mudança, senda a própria mudança de olhar para a cidade.
    Mártires, ninguém que vem fazer a mudança através do amor à vida imagina virar mártir. Em São Paulo temos as nossas, assim como outros que ficaram anônimos exercendo o mesmo direito.
    Não consigo mais chorar; e esse passo parado, em espera, mantém o nó na garganta.
    Sei com absoluta certeza, como percebi no primeiro dia em que encontrei menos de uma dúzia de pessoas na Praça do Ciclista em 2007, que a cidade será outra, apenas que não no tempo do meu desejo. Por isso continuo pedalando cotidianamente, jamais me acovardei com os acontecimentos, mas agucei meus sentidos, meus instintos todos, para sobreviver e ver o dia da transformação que ainda não veio.

    • “ninguém que vem fazer a mudança através do amor à vida imagina virar mártir”

      Mas deveria. Paixões tristes levam a morte, não porque matem mas porque mortificam. O movimento cicloviário de São Paulo é cheio de esperança, salvo quando é cheio de medo, quando não os dois ao mesmo tempo. Isso dá em revanchismo, grupismo, capacetismo, e outros -ismos.

      A esperança, lembremos, é uma paixão triste: a rigor, trata-se da hipoteca do presente; enquanto o medo é o presente pagando uma dívida do passado. O amor pode ser uma paixão tristissima (especialmente se for esse amor cristão, eventualmente cevado no veganismo moral, um tanto salvacionista o que não deixa de ser escatológico e apocaliptico – embora um “apocalipse do bem”. Ora, apocalipse nenhum presta: nem sobre motor, nem sem ele!).

      Falta Alegria. A Alegria não dá valor a vida, mas ao viver; não só não produz dívida (como a Esperança e o Medo), como passa o calote (é pura dádiva & dom); a Alegria vence a morte, não porque impeça de morrer (a rigor, ela deixa de ligar pra isso), e sim porque impede de mortificar. A Alegria não busca uma mudança teleológica: ela é a mudança ela mesma, no aqui-agora.

      Talvez por eu ser bahiano, e a Massa Crítica daqui ser na prática uma pipoca de carnaval (pipoca = pular fora da corda, e contra as cordas & camarotes. Alegria pura e por vezes odienta – o Ódio pode muito bem não ser uma paixão triste, já que sabemos com Freud que o Ódio jamais é ignorante: ele sabe, e sabe que sabe). Mas o fato é que vocês aí de Sampa City estão precisando de muito Oswald, muita antropofagia e muito canibalismo pra sair dessa má-consciência (como se pudesse haver “boa-consciência”…) burguesa que faz voto de pobreza.

      Menos cemitério, e mais fantasia: se todo carnaval tem um pouco de enterro, todo enterro pode ser carnavalizado (e Odir sabe bem que estou citando dos poucos momentos em que Giorgio Agamben não é apocalíptico).

    • “exercendo o mesmo direito” – eia, é disso de que falo!

      é preciso abandonar os direitos, essa gramática geradora de servidão voluntária!

      Dos direitos que existem, poucos não são perdulários, talvez apenas dois: o Direito à Festa (que é direito ao espaço, mormente urbano, como diz Henri Lefebvre) e o Direito à Preguiça (que é direito ao tempo livre, como diz Lafargue).

      Vocês, em nome de combaterem o automóvel, usam exatamente a mesma sintaxe dele: “meus direitos!”. Eu não faço nada porque tenho direito, e sim apesar-de tê-lo: tenha ou não tenha direito, se me convem eu farei.

      A máxima “Nem tudo que posso (a que tenho direito) me convem” (que pode ser invertida “Nem tudo que me convem eu posso, mas não me interessa poder, interessa convir”), é, aliás, do homem que dá nome a vossa cidade: São Paulo de Tarso, em sua carta aos romanos.

      Se é pra ficar na cristandade, que se devore dela o que há de subversivo (até mesmo num reacionário como este Apóstolo).

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