são paulo tem jeito, mas o problema é o carro.

eu sou um humanista. isso não quer dizer que sou um babão que enaltece o ser humano. simplesmente quer dizer que me assumo como ser humano, e que toda e qualquer visão de mundo que eu tenha se dá nos limites da percepção dos sentidos humanos. não acredito numa racionalidade a priori, muito menos pairando como um espectro acima dos outros, por aí. a racionalidade a priori, para mim, não difere daquela razão instrumental vista por adorno e horkheimer: levou ao holocausto, até em razão da soberba humana.

pixação fotografada pela amiga drielle alarcon, a caminho da feira, em algum lugar de são paulo.

pixação fotografada pela amiga drielle alarcon, a caminho da feira, em algum lugar de são paulo.

mas não nego ao humano sua capacidade imaginativa. talvez toda forma de religião seja justamente isso, a forma de preencher os espaços vazios na percepção do mundo, e uma necessidade de atribuir sentido àquilo que pode parecer absurdo. na base das origens (não origem histórica, mas da raiz deste fenômeno) está também a capacidade de projeto que o ser humano tem. usamos essa capacidade quando projetamos uma casa, quando planejamos um regime para emagrecer ou mesmo quando planejamos uma viagem. é o raciocínio abstrato.

pois uma cidade é o resultado dos projetos do passado. das visões de mundo daqueles que no passado imaginaram a cidade. e aí vemos a falha da razão: sempre imaginamos a partir do que conhecemos. sempre nomeamos a partir do que já conhecemos.

o novo, de fato novo, normalmente nos assombra. num começo, talvez não o aceitemos, até que o compreendamos. e aí chegamos ao ponto que quero abordar.

eu passei quase 3 semanas fora de são paulo, zanzando por santa catarina e paraná. visitando a família, e pedalando. pedalei algo em torno de 400 kms por estradas, vias, ruas. visitei muitos familiares, ouvi muitas conversas.

um tio meu, casado com uma irmã de minha mãe, comentou acerca de outro tio meu, casado com outra irmã da minha mãe:

– no início eu não entendi pq o W. dirigia tão lenta e cuidadosamente aqui em navegantes. ele tem cuidado e todas as esquinas. depois que vim para cá entendi: aqui tem muitos pedestres e muitos ciclistas, e a gente tem que tomar cuidado para não atropelar alguém.

de fato, o tio que fez o comentário acabou de se mudar para navegantes vindo de curitiba, cidade grande, com grandes avenidas de mão única. ambos dirigem picapes grandes, de cabine dupla. ambos hoje estão na faixa dos 60 anos, ambos com longas carreiras profissionais “de sucesso” em multinacionais ou órgãos públicos. nenhum dos dois ciclista ou pedestre habitual.

mas diante de comportamentos diversos de dois homens muito semelhantes, deu pra perceber a influência do ambiente. no que navegantes difere de curitiba, além do tamanho?

a forma como as vias são usadas!

navegantes tem uma maioria absurda de vias de mão dupla. mesmo as mais estreitas. isso faz com que o motorista tenha que reduzir a cada esquina.  e também não tenha espaço para sentir-se seguro a acelerar, como numa via de mão única.

curitiba, por sua vez, tem uma lógica de trânsito circular, de vias largas de mão única. há algumas passagens de nível facilitando o fluxo dos veículos. claro, também tem suas ciclovias, sistema de ônibus fantástico e etc, mas não é esse detalhe que importa nessa análise.

o fato é que o motorista de carro curitibano tem à sua disposição vias que permitem meter o pé no acelerador. em maior velocidade, o tempo de reação é menor, o campo de visão parece diminuir.

por outro lado, o fato de haver uma estrutura que permita esse uso faz com que o motorista se ache no direito de não ver o outro ou estar numa posição acima dele.

em são paulo, essa lógica de trânsito de curitiba foi elevada ao máximo. há grandes avenidas expressas. há largos espaços inóspitos aos não motorizados. rotatórias largas e de velocidade mais alta, como a praça panamericana ou a praça campo de bagatelle.

qual é portanto a mensagem que se passa ao motorista? a de que tem supremacia sobre outros seres que estão no mesmo espaço. é a visão expressa pela frase: “a rua é para os carros”.

esses são comportamentos condicionados pelo ambiente. é fato que em cidades praianas o uso da bicicleta é constante e disseminado, e os motoristas locais acostumam-se com sua presença.

não é portanto de se estranhar que, em 2 semanas pedalando por santa catarina eu tenha tomado apenas uma dessas fechadas assassinas, na qual o carro mal passa você e já faz um conversão à sua direita, e a única forma de não bater no carro é freiar fortemente.

foi na entrada de um shopping em camboriú, eu passava reto e o carro fechou para entrar no shopping. e a placa do carro era de são paulo. claro, o motorista dirigia como se dirige em são paulo ou em outras grandes cidades, hoje ou em outros tempos: o carro é rei e o resto que se dane.

toronto star, 9/06/1938. carta de bike messenger reclamando do descaso dos motoristas de carros.

toronto star, 9/06/1938. carta de bike messenger reclamando do descaso dos motoristas de carros.

o interessante é capacidade de aprendizado. um colega carioca, o joão lacerda, uma vez notou que o motorista paulistano tinha um costume incomum no rio de janeiro, que era sinalizar com os picas quando iria mudar de faixa numa grande avenida. e chegou à conclusão que isso se devia à atuação dos motoboys, andando nos corredores entre as faixas, e em grupo, sendo agressivos com o motorista cada vez que um motoboy era acertado por um carro que mudasse de faixa sem avisar.

e a política urbanística carrólatra misturada à especulação imobiliária de mais de 100 anos levou a cidade ao que é: bolsões residenciais distantes dos postos de trabalho, ligações por vias expressas construídas em locais desprezados pela especulação imobiliária: margens de rios, várzeas, brejos, áreas alagadiças.

some-se a isso a ausência de um transporte público realmente eficiente, inexistência de áreas públicas de efetiva convivência, e temos uma cidade inóspita para grande parte de seus moradores.

não à toa basta que alguém que viva a difícil vida paulistana visitar outra cidade qualquer para se coçar todo para sair de são paulo.

mas são paulo tem jeito. a solução é inverter sua lógica de ocupação. priorizar a qualidade de vida das pessoas,  não seus desejos de consumo. os desejos de consumo são delimitados pela publicidade que se orgulha de ser capaz de vender qualquer porcaria a qualquer um. vender carros numa cidade já congestionada e poluída. vender comida em excesso aos já obesos. vender produtos caros aos já endividados.

qualidade de vida não é ir a um shopping com um cartão de crédito sem limites.

qualidade de vida é poder viver com um mínimo de segurança, e quando digo segurança não me refiro a ser assaltado ou morto, mas a não ser atropelado de propósito ou não. e a não ter reflexos condicionados de pânico em razão de sucessivas agressões.

qualidade de vida é não perder 3, 4 ou 5 horas por dia transportando-se de um lado para outro da cidade, apenas por que o lugar onde se mora é distante do luar onde se trabalha.

qualidade de vida não é o pobre ter carro, mas o rico usar o transporte público.

qualidade de vida é sermos cidadãos, e não meros indivíduos consumidores, algo que qualquer animal pode ser. é sermos humanos. essencialmente iguais, existencialmente diferentes, mas humanos. e não máquinas.

nesse sentido, a prefeitura pode fazer muito. se sinalizar que de fato valoriza as pessoas e não os carros, por exemplo criando formas de travessia segura e prática das pontes das marginais, EM DETRIMENTO DOS CARROS, criando ciclovias em espaços tomados dos carros, e não dos pedestres, facilitando o trânsito de ônibus em detrimento dos carros, talvez o motorista comece a perceber que à sua frente há ciclistas,pedestres, cadeirantes, motociclistas, caminhoneiros e etc.

e daí, quem sabe, esse blog não receba comentários como esse recebido, não publicado no texto comentado, mas colado abaixo. é ou não é uma ameaça?

Ahhhh… faça-me o favor, vão tomar tudo no meio dos olhos dos vossos cús! Todo ciclista e cicloativista que eu conheço são chatos prá caralho, petulantes, acham que estão salvando o mundo com essa modinha de merda. Sem contar o uso de drogas por essa cambada de desocupado! Está achando ruim da violência em São Paulo? Culpa dessa maloqueirada fumadora de maconha que financia essa merda. Bicicleta é brinquedo sim! Deve ser utilizada somente nos parques sim! Sabem porque? Porque rua é lugar prá carro, não bicicleta! Bicicleta não paga imposto, ciclista não respeita faixa de pedestres, não respeita sinal fechado. Porque vou respeitar alguém desse naipe? Se algum filha da puta desses se enfiar na frente do meu carro, passo por cima mesmo! Ainda dou ré prá ter certeza que o fdp morreu de vez. E tenho dito!

é por essas e outras que às vezes me passa pela cabeça a vontade de sair de são paulo. eu não uso drogas, respeito regras de trânsito, não poluo, não congestiono mas não escapo de agressões, verbais como esse comentário colado aí em cima ou físicas com descrito aqui. e não só eu, né? verônica, que me socorreu, sofreu hoje uma outra violência. link repetido, pois vale ler duas vezes.

são paulo tem jeito, mas, quatro rodas, só skate.

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2 Respostas para “são paulo tem jeito, mas o problema é o carro.

  1. Convenhamos, você tá mais pra anti-humanista, no sentido de Althusser.

  2. ainda não li o seu texto, mas pela foto eu respondo:
    certo momento da minha vida eu aprendi que devemos viver de dentro pra fora

    morei fora de SP por 4 anos, fiz coisas fora de SP por mais uns 5…. e voltei

    descobri que tudo que está dentro de mim transforma o mundo à minha volta

    mas claro… basta eu querer!

    Ainda não pratiquei em 2013… não tava afins… tempo tempo tempo mano velho….

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