bicicleta: subversão em mode on.

subversão é todo movimento, todo ato, que questiona o status quo atual. a palavra acabou tomando um significado negativo por conta da propaganda oficial da ditadura militar, mas para redimensioná-la, basta dizer que le corbusier tinha uma arquitetura que subverteu  os cânones anteriores, a bauhaus subverteu uma série de cânones da arquitetura e do design, e oscar niemeyer subverteu o modernismo ao inserir a curva em seus projetos.

boa sacada de andy singer.

boa sacada de andy singer.

a bicicleta é uma ferramenta de subversão. ela, por si só, não é subversão. mas seu uso é, dependo de como é feito. pois, como bem nos lembra ani di franco em “my i.q.”, “every tool is a weapon -if you hold it right” (toda ferramenta é uma arma, se você a usa corretamente).

o buda, enquanto sidarta gautama, era um príncipe que vivia num dos cercadinhos que se reproduziram em são paulo (clique nesse link, leia o texto, a tarsila matou a pau!), mas um dia sidarta gautama, por curiosidade sai do palácio e descobre a doença, a morte, a miséria. sidarta pirou, largou tudo, foi tentar seguir o caminho hindu da ascese. um dia ouve, à beira do rio, uma pessoa idosa dando aulas de música a uma criança, num barco, e ouve essa pessoa explicar à criança sobre a afinação da corda dum instrumento: solta demais não produz som, esticada demais arrebenta. e no meio termo, a afinação fina para se chegar à nota. esse é o momento da iluminação do buda.

a vida contemporânea é muito alienada de sentido. as pessoas percebem isso, mas não sabem de onde vem o desconforto. em são paulo vigora um “just in time” de gente, sendo o tempo perdido no trânsito um componente dessa alienação. a pessoa acorda 5 ou 6 horas da manhã, mal se veste, perde uma ou duas horas n trânsito e chega no trabalho justo no tempo de trabalhar. na hora do almoço tem o justo tempo de comer alguma comida comprada e engolida, mas não saboreada. sai no final da tarde e perde algum tempo para ir à faculdade, chega justo no tempo de entrar em aula, sai justo no tempo de gastar uma ou duas horas no trânsito e chegar em casa para dormir algumas horas. e no dia seguinte recomeça a labuta, trabalho sem fim.

apenas no sábado ou domingo ela vê de fato a casa onde mora. vê o espaço que ocupa. e claro, desespera-se, e então vai perder algumas horas andando em círculos ou parada numa fila qualquer, dentro de um caixote, o shopping center.

essa pessoa vive assim. ela não conhece as distâncias que percorre. ela não conhece o relevo da região onde mora. ela não sabe o que come, ela nem sabe de onde vem o que come. carnívoros não sabem a origem da carne que comem, e vegetarianos não sabem a origem da soja que comem. nem entendem os malefícios da pecuária extensiva ou da plantation de grãos. nem se importam.

a vida não dá espaço para se importar. não é uma vida, é apenas uma sobrevivência. essa sobrevivência implica em cegueira ao alheio, e a uma sede por sensações fortes, pois o dia a dia está entorpecido. é aquela coisa, não basta pular de pára-quedas, precisa ser o salto do avião roxo que saiu dum porta-aviões blá-blá-blá…  não pode ser um passeio de bicicleta, tem que ser um passeio de bicicleta na toscana…

claro, há os facilitadores, negociantes, de todo esse sistema. do just in time de gente ao mundo das sensações fortes. pra quem quer ir pedalar na toscana (sem ter lá grande know-how de bicicleta, sem ser capaz de pedalar nem uns 30 kms), vai ter a agência que leva essa pessoa até lá, carrega suas malas enquanto ela está na bicicleta, e carrega a própria com a bicicleta quando ela cansa.

depois dessa janela de um mês chamada férias, ela volta ao just in time de gente.

dahmer

tirinha de andré dahmer.

para que as pessoas sobrevivam a isso, 11 meses de vida alienada, um mês de adrenalina misturada com um pacote da CVC, é que existe toda aquela literatura de auto-ajuda empresarial, existem os seminários de motivação (pois essa vida não é nem  um pouco motivadora), existem os prozacs da vida.

existem alternativas. mas todas elas implicam em custos. não necessariamente cu$to$, mas custos. implica em tomar atitudes que talvez sejam incompreensíveis para outras pessoas. implica também em perder um pouco paciência com os que entusiasticamente permanecem no just in time de gente. como disse a minha amiga luciana, “tá difícil conversar que esse povo que nem sabe o que é bicicleta!”

algumas pessoas jogam tudo pro alto e vão sair por aí. passam 20 anos dando a volta ao mundo diversas vezes de bicicleta. vão morar num veleiro, rodar os mares, fazer uma grana aqui e ali com passeios só pra sobreviver, e ir à outra ilha.

outras preferem o árduo caminho do meio.  pois o árduo caminho do meio significa nem entregar corpo e alma ao just in time de gente, nem jogar tudo pro alto.  implica em permanecer nas cidades, mas viver nelas de forma diferente. viver com olhos de ver. viver com a percepção do que tem sentido, e qual sentido tem.

andy singer: a bicicleta liberta.

andy singer: a bicicleta liberta.

implica em ter a real leitura de tempo, a real leitura de espaço. implica em ter a real leitura dos bens, do que se tem, do que se faz, do que se come, do que se bebe, do que se consome.

calçada da igreja do sagrado coração de jesus, na alameda barão de piracicaba, campos elísios, são paulo. estes são invisíveis para os motoristas, mas o ciclista rafael dias de menezes os enxergou , hoje.

calçada da igreja do sagrado coração de jesus, na alameda barão de piracicaba, campos elísios, são paulo. estes são invisíveis para os motoristas, mas o ciclista rafael dias de menezes os enxergou , hoje.

e aí entra a bicicleta. o potencial subversivo da bicicleta é gigante. pois subverte a alienação. a começar pela alienação do espaço e o tempo, depois a alienação do corpo, depois a alienação do outro.

ao usar a bicicleta pela cidade, ainda mais diariamente com o transporte, descobrimos primeiro nossa relação com o espaço, com o relevo, e o tempo que levamos para percorrê-lo. é fantástico ver as pessoas descobrindo que elas levam muito menso tempo para percorrer uma distância que de fato era pequena, onde gastavam horas, por conta dos congestionamentos ou dos trajetos irracionais do transporte público.

paul kuzynski. o carro é excludente, desde cedo.

paul kuzynski. o carro é excludente, desde cedo.

mas o corpo antes amortecido, entorpecido pela alimentação ruim e pelo sedentarismo, acorda. as pessoas vão aprendendo a comer e passam a se relacionar de outra forma com a comida. alguns se tornam vegetarianos de diversos graus (dos ovo-lacto-pisco-vegetarianos aos veganos), outros permanecem carniceiros mas com outra relação com a alimentação. na prática, no geral, as pessoas comem menos carne e bem menos gorduras. o corpo pede a mudança da alimentação, pede descanso ritmado. e também desperta a produção de uma série de hormônios essenciais, da adrenalina à ocitocina…

mulheres e homens relatam mudanças fenomenais nos seus metabolismos.

e terceiro lugar seja em razão as ameaças constantes de morte por parte de motoristas sem noção de regras de trânsito, seja pelo desentupimento dos ouvidos e dos narizes, seja pela abertura dos olhos, a pessoa abre-se ao outro. ela passa a enxergar o outro.

motorista não enxerga, passageiro de ônibus ou metrô também não. pedestre e ciclista enxergam. enxergam o outro e não se importam em lhe estender a mão, ou entender sua situação.

esse acordar ao mundo, ao mundo em que se vive, é por si só subversivo. compreender outras formas de vida, outras estéticas, outras necessidades, outras artes, outras formas de solucionar os problemas.

aqui podemos fazer uma referência aos estádios/estágios descritos por kierkgaard, do estético onde a pessoa se consome numa tentativa vazia e hedonista, ao ético, onde os atos passam a ser tomados em razão do sentido que possuem. com uma possibilidade de salto a um terceiro estádio/estágio, o paradoxal, onde os paradoxos do mundo são compreendidos em serenidade.  não é difícil aqui tentar ligar kierkgaard à noção de satori do budismo. mas isso é especulação.

o que importa, de fato, é o que a bicicleta permite, aquilo que os zen-budistas chamavam de kensho, uma visão clara da natureza da existência.

fernanda blandino mexendo na corrente da bicicleta. mas como, mulheres entendem de mecânica? só as subversivas...

fernanda blandino mexendo na corrente da bicicleta. mas como, mulheres entendem de mecânica? só as subversivas…

e então olhar se refina. como no mito da caverna, do platão, a personagem que se liberta das correntes e sai da caverna, num primeiro instante está atordoada pela luz, mas os olhos se acostumam com ela, a pupila se ajusta à luz do mundo exterior à caverna e, enxergando direito, vê que a sombra daquilo que parecia um monstro dentuço e orelhudo, na verdade é a sombra de um coelhinho…

o olhar refinado se impõe, mesmo às pequenas coisas, aos pequenos instantes, às pequenas sensações, aos rápidos sorrisos alheios, aos olhares alheios, às formas dos corpos, às expressões das ideias. o ouvido aprende a ouvir as longas conversas, a pele aprende a sentir os abraços. desentorpecimento.

esther segurando a miauzona. um átimo de tempo registrado pela câmera.

esther segurando a miauzona. um átimo de tempo registrado pela câmera. um dia tem 86.400 segundos, mas esse segundo foi atemporalizado.

os ciclistas urbanos vivem. de fato vivem. quem os vê numa sorveteria da augusta, numa tarde, num intervalo do trabalho, ou dançado num viaduto como o minhocão ao som de música eletrônica, num domingo à noite, ou descendo uma rua qualquer num horário estranho, com um sorriso no rosto estampado, ou numa tarde numa praça, ensinando outras pessoas a pedalar numa tarde de domingo, percebe que estabeleceram uma outra forma de viver nessa cidade grande de são paulo, tão opressiva.

ousar ser feliz é muito subversivo. ousar ser feliz fora da máquina que cobra caro pelas emoções fortes a serem fotografadas e expostas no facebook, é muito subversivo. ousar ser feliz nas pequenas coisas…

encerro o texto por aqui. tenho que ir na mão na roda. existem micro-pedaços de iluminação em cada gota de graxa que há numa bicicleta. como parte do caminho do samurai implicava em cuidar e limpar a katana, afiá-la, há algo de zen na manutenção das bicicletas, com a diferença de que a bicicleta não mata… e quando isso é feito em grupo… ah, como é bom! isso é iluminação, e não sucesso. sucesso é para os fracos… hehe.

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10 Respostas para “bicicleta: subversão em mode on.

  1. Ainda estou lendo o post. Mas apenas pra que nao me perca no turbilhao de pensamentos que me assolam – e a lampadas que vao se acendendo enquanto te leio – quero dizer que cada vez que leio um texto seu (assim, nao tao tecnico, com marchas, cambios, ruelas e marcas), algo mais se esclarece, mais minha escolha vai fazendo sentido. Porque nem sempre sou capaz (ou somos, talvez) de verbalizar como esses veus que nos cegaram por tanto tempo vao lentamente, nao sendo retirados, mas caindo mesmo, mostrando um horizonte cada vez mais positivo.

    Agora volto pra onde parei la no post.

  2. Vale a pena viver, vale a pena a verdade…
    A realidade as vezes machuca, mas melhor sentir a dor real que anestesia da indiferença…
    Eu quero amor, eu quero amar…

  3. Vale a pena viver, vale a pena viver de verdade…
    A realidade as vezes machuca, mas melhor sentir a dor real que viver de ilusão com a anestesia da indiferença…
    Eu quero amor, eu quero amar…

  4. “ela não sabe o que come, ela nem sabe de onde vem o que come. carnívoros não sabem a origem da carne que comem, e vegetarianos não sabem a origem da soja que comem. nem entendem os malefícios da pecuária extensiva ou da plantation de grãos. nem se importam.”

    sobre isso, e como a questão da justiça alimentar não passa pelo veganismo (que é apenas má-consciência burguesa), e sim pela equidade dos modos de produção e distribuição (mais artesanais, menos industriais – o que é puro Josué de Castro, vale lembrar), escrevi aqui http://ultimobaile.com/?p=3627

    O senhor responde email, aliás?

  5. em tempo, correção semântica importante: “ousar ser feliz”

    não é de felicidade que se trata (felicidade é querer morrer, já dizia Freud, e ela está nos carros; felicidade e infelicidade são uma só e mesma coisa), mas de Alegria.

    Alegria, a prova dos nove. A Alegria que anula a um só tempo a esperança e o medo.

    A Alegria, que gera dádiva, e impede a dívida.

  6. Puta cara chato esse Lucas!
    Odir concordo com cada palavra! A exatidão do seu texto me arrepia os cabelos do cu, parafraseando o nosso Artur!

  7. Muito bom texto, apenas uma correção sobre o consumo de soja por vegetarianos, pois a maioria não gosta desse grão, que diga-se de passagem, a sua produção no Brasil já é quase que 100% transgênica, e direcionada a produção de ração, adivinha para alimentar quem? O gado.

    Mais informações sobre a produção pecuária na amazônia em: http://www.youtube.com/watch?v=6EWA3TkoPQ8

    Ciclo abraços.

  8. Urbano não é o oposto de natural, urbano é humanamente natural.

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