uma criança, uma bicicleta

foi assim. ela veio branca e dobrável, num natal, quando ainda se acreditava em papai noel. com rodinhas.

foi um pouco difícil se livrar das rodinhas. mas elas foram embora, e logo se andou apenas na roda traseira. andar na rua de cima, no quarteirão de trás, pois se morava numa avenida. e claro, na hora do almoço, o pai ir buscar para o almoço, e descer junto na mesma bicicleta, com o filho, a descida lateral. aro 14, um adulto e uma criança, o adulto no bagageiro da berlinetinha, a criança no selim. o riso alto.

depois, a mudança para muito longe. terra estranha, a 3 mil kms. casa nova, rua nova, vizinhos novos, nova escola, falar novo, tudo novo, tudo desconhecido. uma viagem num carro, dias de viagem. chegar antes da mudança. na mudança, veio a bicicletinha branca, logo montada pelo pai.

o primeiro passeio. a primeira expedição de longa distância. sair de casa, virar à esquerda, chegar ao que hoje se chama r. gen. edson amâncio carvalho, e que na época era apenas uma via não-asfaltada ao lado de um canal. virar à esquerda, e pedalar por uns 2 ou 3 quarteirões…

foi uma odisséia. daquelas que só se pode fazer sozinho aos 7 anos de idade, numa terra absolutamente estranha, sem saber se se vai achar o caminho de volta, e sem saber dizer o endereço de onde se mora, pois é o primeiro dia naquela casa.

não adiantaria, no caso de perder-se, dizer o próprio nome, o nome dos pais. estes são desconhecidos no bairro. não se sabia o endereço. não adiantaria descrever a casa, cujos sinais distintivos ainda não estavam gravados na memória. tudo novo, tudo novo!

a primeira percepção clara do desamparo da condição humana, pois no caso de perder-se, que ajuda poderia-se receber? ninguém poderia ajudar. um momento de solidão. mas ao mesmo tempo, um momento libertador: não se dependia de ninguém naquele momento. para usar uma expressão cara a freud: Hilflosigkeit.

parar a bicicleta, olhar para trás. perceber o contorno dos locais antes trafegados. reconstruir o caminho de volta para a casa onde ainda não se dormira a primeira noite! uma garoa fina, o ar quente e úmido da tropical recife, um dia nublado, as ruas não asfaltadas, de uma espécie de mistura entre areia e barro. poças de água.

hoje a casa não existe mais, a área está toda asfaltada. hoje as crianças não saem mais de casa pedalando sozinhas, aos 7 anos de idade.

quanto tempo durou esse “longo” pedal? meia hora? mas que importa? importa mais que ele seja lembrado 35 anos depois. lembrar de chegar à casa esbaforido, em silêncio, sabendo que aquela experiência era indizível, e como afirma wittgenstein, “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen”? (tratactus, 7). (até porque já se sabia que era necessário proteger os pais do conhecimento de certos riscos corridos…)

a infância não deve ser um tempo da vida a ser idealizado. não é um período a ser caracterizado como feliz ou infeliz, mas um período de experiências fundantes, fundamentais, experiências originárias.

a experiência originária de um pedal longo (para uma criança de 7 anos), do seu desamparo. um pedal arquetípico, uma experiência que, naquele momento foi só uma vivência mas que possuiu um apelo de sentido, por isso a ser repetido, de diversas formas, algumas vezes até sem bicicleta. a percepção clara da condição humana: a solidão existencial, aterradora para alguns, mas profundamente libertadora!

é uma pena que as crianças de hoje não se percebam mais assim. pelo menos não mais as de classe média. as de classe baixa são muitas vezes largadas à própria sorte, sem uma bicicletinha, sem uma casa para onde voltar. e as de classe média e classe alta fechadas em bunkers, preparadas para uma competição predatória.

o que esperar de um adulto que foi uma criança cujas experiências foram todas mediadas pelo dinheiro, ou seja, foram resultado de relações de compra e venda, de prestação de serviços? o que esperar senão que sejam adultos muito mais preocupados na realização dos desejos elaborados, em detrimento dos outros? esse é o diagnóstico de jurandir freire costa, nesse texto em que relaciona consumo e violência privada. (esse texto faz parte de um livro intitulado “ética“, escrito por ele em parceria com eugênio barba e frei betto). a troika sexo, drogas e cartão de crédito, conforme diagnostica, é a marca da sociedade contemporânea.

a bicicleta infantil pode ser a fonte de experiências fantásticas para uma criança. a bicicleta permite a criança não apenas desenvolver coordenação motora ou seu sistema músculo-esquelético. ela ensina a dor do risco mal calculado, pois ao contrário do tiro tomado no vídeo-game, o ralado do tombo dói de verdade.

por outro lado é também o instrumento da descoberta do mais longe, do além muros, da velocidade, da doce vertigem de uma descida longa, do coração saindo pela boca numa subida ou numa disputa pra ver quem chega primeiro na esquina…

é a descoberta de se estar no mundo, à sorte do próprio equilíbrio, da própria leitura do mundo, do ter que enxergar além de um palmo de distância do próprio nariz para poder voltar para a casa, como descrito na minha experiência, no começo desse texto.

a percepção do desamparo da existência humana, que a bicicleta permite logo cedo, nos permite perceber o desamparo alheio, desendurecer o coração, perceber o outro, e ao menos tentar entender suas dores.

essa percepção precisa ser estendida às novas gerações. então, que hoje, dia das crianças, as crianças ganhem bicicletas. novas ou usadas. bonitas ou feias. com rodinhas e sem rodinhas. e que possam sim cair, ralar o joelho, pular degraus, equilibrar-se numa roda só, ir à escola pedalando, libertar-se de roupinhas bonitinhas e trocá-las pelas confortáveis. que possam as crianças sujar as mãos de graxa, mexer naquele instrumento, naquele veículo.

pois de pessoas que acham que tudo no mundo está à venda, ah, isso tem de monte por aí. não precisamos mais.

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3 Respostas para “uma criança, uma bicicleta

  1. Excelente! Minha pequena de 2,5 anos está como joelho ralado. Caiu, mesmo com rodinhas. Mas não sai de cima da bici

  2. Engraçado, uma amiga minha disse que as crianças ricas que precisam ser salvas. Depois ela explicou porque. Elas ficam tão limitadas ao mundo que os pais criaram pra elas, que é preciso que instituições de ensino, pagas, mostrem para elas a realidade, e tentam fazer elas sentirem tudo aquilo. Acho que algo como empatia.

  3. “é também o instrumento da descoberta do mais longe, do além muros, da velocidade, da doce vertigem de uma descida longa, do coração saindo pela boca numa subida ou numa disputa pra ver quem chega primeiro na esquina…”
    este sentimento e apenas este sentimento que me mantém indo, não há caminho de volta, há apenas o novo, o desconhecido. Com a idade apenas vemos mais “longe”, mais complexo, e andamos trechos maiores, mas sem volta, apenas para a frente, agregamos nesta jornada, e se tivermos sorte, ganhamos companhia, por momentos ou para sempre, avante.
    d:)

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