o necessário dia mundial sem carro

pra falar do dia mundial sem carro vou escrever sobre relógios, mais especificamente, rolex. uma alegoria, mas não uma metáfora.

apareça lá!

rolex tem fama de ser relógio caro, de rico. mas sua história é outra. rolex fez sua fama fazendo relógios extremamente resistentes. mecanismos mecânicos precisos e duráveis. caixas e braceletes resistentes.

basta dizer que seu modelo de mergulho, submariner, é ícone no gênero, tendo sido usado por gerações de mergulhadores. é o relógio que aparece sendo usado por 007 nos filmes estrelados por sean connery, usando uma pulseira de tecido, de origem militar.

um outro modelo, explorer, foi usado nas ascensões ao everest desde a década de 30, sendo que pelo menos um deles esteve na conquista ao cume em 1953. a história pode ser lida aqui.

é fato que quem entende de relojoaria tem reverência por esses relógios. sejam os modelos de mergulho (submariner, deepsea), sejamos modelos que possuem o segundo ponteiro de horas (GMT, permitindo trabalhar com dois fusos horários, como aquele usando por thor heyerdahl numa das expedições kontiki).

mas, e aqui está o porém, rolex tornou-se sinônimo primeiro de relógio bom. depois, de relógio caro. e, se caro, virou símbolo de status.

aí a coisa descamba. quem procura status não compra o produto, compra a marca. compra o sinal de seu poder de compra.

ora, quem hoje precisa de um rolex para atividades mais rústicas? não que usar um rolex deepsea para mergulhar seja algo impossível, pois o relógio continua excelente. mas quantos relógios de mergulho da rolex, hoje, sequer são mergulhados em piscinas?

por outro lado, outros relógios, infinitamente mais baratos são usados em situações extremas. o baratíssimo casio g-shock se tornou o relógio preferido de militares ao redor do mundo. leve, preciso (+/- 15s ao mês, ou seja, variação menor que um segundo ao dia, o que lhe garante os padrões de relógio cronômetro), e ultra resistente e, se quebrar, barato de se comprar outro. hoje há modelos atualizados via satélite! o que permite precisão absurda na leitura do tempo.

por outro lado, ver horas hoje é algo fácil. computadores, celulares e até fornos de micro-ondas indicam horas. quem precisa de relógio?

assim, o que justifica comprar um rolex, senão mostrar aos outros que pode? claro, repiso, a exceção são os poucos aficionados em relojoaria. mas eles são minoria entre os compradores de rolex. a grande maioria não sabe nem um décimo dos dados que postei aqui nos parágrafos acima, o que dirá saber efetivamente o que têm no pulso! o que sabem é que mostram que possuem dinheiro para comprar um. e assim, outros que querem mostrar o mesmo mas não podem, compram réplicas….

hilário, não é? comportamento, afinal, risível. uns usando imitações para parecer ser quem não são, outros expondo de maneira ostensiva poder de compra, como o jogador de futebol adriano “imperador”.

mas usar relógios não causa danos a outrem.

e carros?

o que se tornaram os carros? há muito deixaram de ser meio de transporte. hoje as cidades andam abarrotadas. quem pode, nos horários piores, larga o carro pra trás. até defensores empedernidos do carro, que vivem disso, como flávio gomes, admitem: é impossível ser rápido com um carro numa cidade como são paulo, às 18 horas. em sua crônica acerca de sua participação no desafio intermodal, admite que ninguém mais liga pra automobilismo, e confessa que chegou apenas um minuto mais cedo que a pedestre!

então, por que ter um carro? basicamente, pra ter dívidas e satisfazer alguma necessidade besta do ego. talvez poderia se dizer que é o mesmo que ter um rolex. mas há uma diferença.

carros causam danos. carros atropelam, matam, poluem, congestionam. carros estão matando as cidades. basta dizer que em são paulo são quase 2.000 mortos ao ano nos chamados “acidentes” e cerca de 4.000 mortos por ano de doenças causadas ou complicadas por poluição causada por veículos.

ora, pensemos bem. quem efetivamente precisa ter carros? se é pra ter numa viagem, vale à pena alugar. se é pra uso ocasional, custa mais barato usar táxi. numa emergência, melhor chamar o SAMU… ou os bombeiros!

é fato que pouca gente precisa de fato ter um carro (sim, há pessoas com necessidades especiais, que dele precisam, e é ruim você ficar congestionando a passagem destas pessoas). tanto que cada vez mais pessoas estão deixando de usá-lo. basta mudar um pouco de hábitos.

por outro lado, o custo da estrutura urbana para se manter o hábito das pessoas em usar carros desnecessariamente é alto, altíssimo. logo, isso sai de algum lugar: tributos! e claro, nesse país, toda obra pública é oportunidade para corrupção.

é fato que com algumas mudanças de hábito a cidade poderia fazer uma moratória nas obras viárias – e claro, perder menos dinheiro.  mas também fato que muita gente prefere ver a barriga crescer e a bunda murchar do que se mexer um pouco mais.

mudanças são necessárias. é para pensar nisso que existe o dia mundial sem carro, todo dia 22 de setembro. para você, motorista, pensar na sua responsabilidade nas guerras que ocorrem nos países que produzem petróleo ou no trabalho escravo que é frequentemente descoberto na indústria do álcool, entre cortadores de cana. para pensar nas trocentas crianças que são internadas todo dia por problemas respiratórios, e também na sua esposa que hoje de manhã, dentro do carro que vc está pagando, olhou com olhos bem compridos, para as minhas coxas, enquanto eu passava num corredor, com minha bicicleta, ali perto da avenida paulista…

é, motorista. pense um pouco. faça como flávio gomes fez no blog dele. assuma, esse mundo carrólatra está acabando. e o melhor sintoma é o desejo sexual das pessoas.

não à toa, as pessoas antenadas sabem que pedalar não deixa ninguém mais bonito, mas melhora pra dedéu o desempenho na hora H. afinal, não ter que parar no meio do caminho por falta de ar….

venda seu carro, e com a grana que arrecadar, compre uma boa bike, um ótimo colchão e realize seu sonho de ter um rolex. garanto que a parte contrária vai adorar o resultado. e a cidade agradecerá o fim da sua preguiça.

p.s. aquele papinho besta de ” é perigoso!”, “vai morrer debaixo do busão!” e etc, guarde pra discutir com seu analista. se tem alguma insegurança de fato, contate os bike anjos. se não, nem perca tempo afirmando isso… enquanto você bate nessa tecla sua esposa fica olhando pras pernas daquele ciclista que passa ali do lado… vai saber o que está passando na cabeça dela, né? hehe

 

 

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7 Respostas para “o necessário dia mundial sem carro

  1. Gostei, como sempre! E VIVA O DIA MUNDIAL SEM CARRO!
    Aliás, é nesse dia – pasme – meu aniversário!
    Dessa vez, não o passarei em SAMPA como nos últimos 3 anos! Aliás, voltei ontem da PAULICÉIA e acompanhei, como sorriso no rosto, um pouco das movimentações da MASSA CRÍTICA!!!
    Também escrevi, como de costume, um artigo para o DIA MUNDIAL SEM CARRO… aqui para o jornal da região do Vale do Paraíba. E assim a gente segue… pedalando e mostrando que sim: A VIDA É POSSÍVEL SEM CARRO!
    Abraços e pedais ETERNOS, meu caro!
    Saudades, Kika (Federica)

  2. Gostei da sua alegoria-não-metáfora e do fato de você incluir “a parte contrária no texto”. Fico feliz por você!

    • as pessoas confundem metáforas e alegorias, não é? é, eu sempre ouço muito as partes contrárias. elas reclamam de muitas babaquices masculinas. o fetiche pelo carro é uma delas. o engraçado é que o vinícius realmente tava certo, não é? ouça “testamento”….

  3. Parece que virou moda. Além de “corridas” entre carro e carroça e carro e barco houve uma outra corrida entre carro, metrô e bicicleta em SP esta semana.

    http://tv.estadao.com.br/videos,CARRO-METR-OU-BICLETA-QUAL–O-MELHOR-MEIO-DE-TRANSPORTE-EM-SP,182818,250,0.htm

    Claro que nenhuma destas avaliou o impacto dos diferentes modais na poluição da cidade e do custo inerente ao uso de cada um.

    Abraços!

  4. Bem… eu sou uma pessoa que precisa de carro…
    Meu escritório fica no Itaim, três dias por semana tenho reuniões com clientes no ABC e nos outros dois visito clientes no interior do estado.
    Para ir até o escritório eu vou de bicicleta, mas daí para visitar clientes, carregando pastas e amostras não existe uma outra solução que não seja o carro (que durante a semana mora no escritório).
    Mas aqui um ponto de discórdia, o meu carro é um SUV, um Volvo XC60, um carro grande, mas mais do que status eu acho que deve-se levar em conta o conforto.
    Um carro grande supera anda com mais facilidade pelas ruas esburacadas, tem mais espaço para os passageiros e alguns itens de conforto que para mim hj são indispensáveis.
    Com esse mesmo carro posso viajar com todas as minhas tralhas, sou triatleta tenho 4 bikes (uma para trabalhar, uma road, uma TT e uma MTB).
    Concordo com o texto mas como TENHO que usar o carro, prefiro usar o melhor carro que posso, não por status mas por conforto.

  5. Adorei o texto com Rolex, meu pai era relojoeiro, sentiu bem a pressão da pressa dessa sociedade. Ele contava sobre os primeiros relógios de pulso, que o cara pagava uma nota e não podia mexer muito o braço para não desregular. No final a gente paga uma bifa pela “exclusividade” rsss..

    No dia mundial sem carro, trabalhei em Sorocaba e saí antes das 5 da matina de casa. Tinha mais bicicleta passando que carro, onde eu fui pegar ônibus, só não ganhou do transporte público. Acordei super cedo e se fosse de carro talvez não passasse por tanto perrengue para levar um monte de coisas na mochila e mais uma bolsa cheia de material para dar aula. Mas dirigir cansa pra caçamba, odeio dirigir para o trabalho. Não tem coisa melhor que alguém dirigir por você… 🙂 Fui dormindo no ônibus, comprei uma bicicleta linda em Sorocaba e voltei para casa feliz com mais uma amiga. Para pessoas que precisam de bicicleta tamanho 47 é dificil achar uma bicla de cromo com preço razoável e achei uma por lá. Penso também na economia, de ônibus custa 23 reais e estava super vazio, e voltando para São Paulo, um suuuper trânsito.

    Esse dia é muito importante para mim. Acho interessante o uso consciente.

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