é o público!

ontem foi aniversário da renata falzoni. renata é uma das responsáveis pela introdução das mountain-bikes no brasil, entre outras diversas coisas. foi responsável por me fazer pedalar mais, conforme relato aqui.

renata falzoni

hoje é aniversário da fiona, mais uma moça que pilota uma cecizona pela cidade. fiona é uma pessoa cujo trabalho admiro muito, é profissional da saúde, e da saúde dos menos assistidos nessa sociedade. trabalho árduo, pesado, entre as insanidades, não é para qualquer pessoa.  admiro muito a força que tem que ter nesse trabalho, nessa labuta, nesse labor, nessa ação.

são duas mulheres que, como outras, forçam-me a ver coisas que o meu olhar desatento não veria. a grande verdade é que se não ouvirmos o que as mulheres tem a dizer, não veremos o mundo de uma forma mais completa.

o olhar feminino sobre o mundo nos provoca a olhar as coisas diferentes. não falo daquela besteirada de pintar tudo de rosa, mas falo de perceber o caos e o perigo de diversas situações do mundo, do aprender a sentir situações, de perceber determinados riscos como devem ser percebidos: ameaças, e não simples desafios.

as cidades que temos sempre como parâmetro de cidades boas para se viver são cidades onde as mulheres circulam livremente. as cidades que nos assustam são aquelas onde as mulheres sofrem diversos tipos de violência.

sarajevo, bósnia (entre 1992 e 1995). em uma cidade insegura ciclistas estão entre os primeiros alvejados. esta foto representa o máximo de insegurança que se pode ter ao pedalar, vai além dos “acidentes”. foi um crime.

sim, a mulher é o termômetro da civilidade, do grau de urbanidade de uma localidade, de uma cidade, de um país. se a mulher que carrega o filho ou a filha na cadeirinha da bicicleta está na rua, o trânsito é pacífico, se ela trafega na calçada, o trânsito é selvagem. isso é só um exemplo de como observando as mulheres enquanto seres viventes (e não como pedaços de carne, como muitos fazem de forma exclusiva) conseguimos medir a civilidade de uma sociedade.

um local no qual mulheres não saiam sozinhas à noite não é seguro. um um namoro no qual a moça não possa sair com as amigas num sábado à noite não é saudável.

mas não se trata de dizer que a mulher é frágil. não, se trata sim de dizer que a mulher é menos imbecil que os homens, que muitas vezes correm riscos desnecessários apenas para impor uma imagem de força, coragem, virilidade  e etc., que no mais das vezes é apenas irresponsabilidade.

e o local sem maiores riscos é o local externo à nossa casa, ao espaço privado. é o local de fora.

durante milênios o local de fora era  a natureza selvagem, era o correr dos tigres e correr atrás da comida. o local das picadas de cobra, mordidas de onça…

o humano criou as cidades para evitar não saber se estaria vivo na hora seguinte. o humano criou a cidade para viver sem sobressaltos.

mas as cidades cresceram, e em algumas a vida sem sobressaltos consolidou-se, em outras a selva apresentou-se como selva de pedra.

o que diferencia um modelo de cidade de outro modelo? é a noção que se tem do espaço externo à casa. se é espaço público ou espaço de predação.

o espaço de predação é a terra de ninguém. é a selva de pedra. local de disputa, onde achado não é roubado, e chegar antes importa muito, conquistar espaço importa muito. e o espaço conquistado é privado.

o espaço público é o espaço de todos. ou seja, pertencente a cada um, mas não de forma individualizada, mas em conjunto.

no espaço de predação joga-se lixo no chão pois é terra de ninguém. no espaço público o lixo vai para a lixeira, pois é espaço de todos, inclusive de quem joga o lixo.

no espaço de predação a prioridade é da força, da circulação de espaços privados móveis, quanto maiores mais fortes, por isso o fetiche por grandes jipões pretos. no espaço público são as pessoas que circulam.

trânsito em monróvia, libéria.

é interessante que o brasileiro adora falar que vai a paris. admira o 1º mundo. mas quando volta faz de suas práticas na cidade as mesmas dos países que acabaram de sair ou passam por guerras civis, onde o cuidar de si mesmo e ferrar com os outros é regra de sobrevivência.

ou como dizia elio gaspari, “é obama nos e.u.a. e bush no brasil”.

ou seja, adora a construção do espaço público em outros locais, mas no seu local, prefere agir como se estivesse no espaço de predação.

é nessa hora, nesse agir, e suas consequências que a cidade se torna um espaço de predação, no qual vemos as mulheres fugindo dessa violência cotidiana que vai além da agressão física, mas também da agressão moral, do descuido, do não enxergar o outro e suas singularidades, suas idiossincrasias.

aqui vale ver a bela aula de marilena chauí, divertida no início, mas profunda no seu conteúdo. sim, aula necessária.

como bem se entende a partir dessa aula, há algo de proto-fascismo, proto-nazismo na forma como o trânsito de são paulo se organiza e na defesa arraigada do uso do carro. o fascismo que não reconhece outra forma de vida: o motorista que acha que ruas foram feitas para carros, e outros veículos nelas não devem trafegar.

claro, há algo de calhordice nas práticas da prefeitura de são paulo no que tange à bicicleta. a denúncia está aqui, nesse link, e não é minha. o texto indignado de renata falzoni coloca os pingos nos is.

fazer algo para nada fazer, isso é o que tem feito a prefeitura. enquanto o que é feito nada de fato, no mundo real, de segunda a sexta, tem qualquer resultado. há mais dados aqui. não há política de mobilidade, ou seja, é cada um por si: espaço de predação, e não espaço público.

mas há possibilidade de construção de espaço público em são paulo? há, mesmo que transitoriamente. escrevi sobre isso aqui. a bicicletada é uma espécie de zona autônoma temporária, para usar a expressão de hakim bey.

mas espere lá. a questão não é transformarmos o espaço exterior em espaço público temporariamente. mas é necessário construir o espaço público de forma permanente. é nessa hora que a circofaixa da avenida paulista é irritante. pode agradar ao indivíduo, mas é um insulto ao cidadão.

pois cidadão é aquele vive a cidade, em relações não mediadas pelo privado. cidadão vive a cidade em qualquer lugar, em qualquer dia, seja no jardim helena, seja no morumbi.

e aí voltamos às vidas das aniversariantes citadas no começo, renata falzoni ontem, fiona hoje. duas cidadãs cujas profissões estão voltadas à construção de uma cidade melhor. pessoas que de alguma forma contribuem ao bem estar alheio, cujas práticas contrariam a tendência proto-fascista do paulistano. pessoas que eu me orgulho de conhecer.

um dia a cidade vai virar de fato o que deve ser: uma cidade para pessoas. e deixará de ser o que é hoje, um lugar árido sem espaço para a vida como deve ser: suave, tranquila, bela. vida que teima em aparecer e crescer nas rachaduras da selva de pedra. veremos, sim, veremos, o dia em que a moça que leva sua filha à escola na cadeirinha da bicicleta transitará pela rua, como deve ser, né silvia?

 

 

 

vemos as mulheres tendo que recorrer à sua proverbial sabedoria para driblar a opressão do trânsito.

 

 

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Uma resposta para “é o público!

  1. Eu já chorei em cima da bike por diversas vezes
    Chorei de alegria e chorei de medo,
    agora escorreu lágrimas nos olhos por não desistir de lutar

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