o indivíduo e o cidadão

alexis de tocqueville, numa obra chamada “da democracia na américa”, certa vez afirmou que o maior inimigo do cidadão é o indivíduo. é frase para de pensar.

perceber-se cidadão é ir além da maravilhosa vista do próprio umbigo. aliás, os gregos tinham uma expressão para caracterizar quem apenas pensa no próprio umbigo, ou seja, aquela pessoa que se preocupa apenas com as necessidades do “eu”, do “id” (e não do “ego”). quem concentra-se no “id” é o “idiotes”.

é preciso enxergar além do próprio umbigo. é preciso perceber que vivemos num mundo maior do que o círculo de 1 metro ao nosso redor. mas isso não é exatamente o que as pessoas fazem.

é fato que pessoas procuram apenas soluções individuais. é o caso de grande parte dos usuários de carros de são paulo. friso, grande parte, não todos. há exceções. mas são raras.

há uma grande recusa em se misturar com outras pessoas num vagão de metrô, por exemplo. ou pedalar pela cidade, fora da casca que representa um carro.

pessoas não percebem que no momento em que recusamos essa casca, partilhando o espaço comum, transformamos esse espaço comum em espaço público. essa é a base do conceito de república, de “res publica”, “coisa pública”, em latim.

o cidadão é o que tem a cidade. é o que nela vive, e vive-a. ou seja, ele enxerga essa tessitura do real que nos circunda. olha além do seu próprio umbigo.

é interessante como vemos percepções diferentes do mundo nas falas de usuários de sistemas públicos de transporte e de carrólatras (o carrólatra não é apenas um usuário de carro – isso pode ser qualquer um – mas é um entusiasta desta caixa alienadora).

vemos generosidade no transporte público. o passo atrás para que outra pessoa entre. o sair da frente da porta para que outros passem. o segurar no colo o peso da bolsa alheia, cujo/a dono/a sente o alívio da carga.

mas vemos selvagerias na pista. vemos carros sendo dirigidos por pessoas que se valem daquela massa de aço para forçar passagens, jogar-se em cima dos outros, livrar-se dos outros que estão à sua frente. não raro agredindo-os.

já fui vítima desse tipo de agressão. recentemente, sem a agressão física que sofri, mas com muita agressão verbal e sustos, gratuitamente recebidos, passou minha amiga evelyn por esse tipo de agressão. colo embaixo do post o seu relato.

mas pensemos. que lógica é essa que passa pela cabeça dessas pessoas que não vêem o outro como outro ser humano, mas como estorvo? isso não é cidadania.

mas, em outra ponta, há os que preferem olhar em volta. um projeto interessante tem sido tocado por amigos, o 360 pedais. nesse projeto alguns ciclistas usaram uma máquina fotográfica que tira fotos em sequência em um movimento circular sobre o próprio eixo para fotografar seu entorno. o projeot está em andamento, mas já vale à pena contribuir, ou apenas visitar o link.

é preciso abrir os olhos e olhar o entorno. é preciso desentorpecer os sentidos. é preciso sentir a cidade. ver e interagir com os outros. existe algo de mágico em estar pedalando num dia quente, parar num semáforo ao lado de um carrinheiro, cumprimentá-lo e receber uma oferta de água gelada vindo da grande garrafa térmica escondida embaixo dos papelões recolhidos.

o fato que acabei de relatar aconteceu comigo há algum tempo atrás. foi um reconhecimento mútuo entre cidadãos em condições iguais diante da cidade, usando-a.

mas há tanta gente que age diferente! leia o relato da evelyn. é assustador. uma violência gratuita.

Hoje foi, talvez, a primeira vez na minha vida que eu achei que uma motorista ia me matar de propósito no trânsito.

Em plena Rua dos Pinheiros uma mulher, com um bebê segurado no colo por uma babá no banco de traz (o uniforme branco na mulher negra dava a entender que ela era funcionária da motorista ), começou a me insultar cada vez que passava por mim. Pois, sim, eu ultrapassava ela em vários m

omentos e ela me alcançava novamente para me insultar com frases do tipo “sai da rua”, “você vai morrer”, “sai da minha frente”…Incrivelmente, eu consegui juntar muita calma e maturidade e parar no semáforo ao lado dela para conversar numa boa. Ela argumentou que eu estava atrapalhando ela. Eu retruquei que estava no meu direito e que ela devia me ultrapassar a uma distância segura (pois em todas as ultrapassagens ela fazia questão de me dar uma mega fina). Ela simplesmente concluiu em tom sarcástico: “ohhhh minha linda, eu não vou atrapalhar os outros carros só para te ultrapassar com segurança”!!!

Só disse para ela tomar cuidado, pois atitudes como aquela ia fazer um ciclista detestá-la e ela poderia perder um retrovisor ou um para-brisa por causa da ignorância dela. Ela riu. Eu segui em frente. 

Poucos segundos bastaram não só para ela me alcançar, mas para jogar de vez o carro em cima de mim, ao ponto em que ela estava prestes a me esmagar entre o carro dela e um carro estacionado na rua. Naquela hora pensei “morri”!.

Um pedestre na esquina gritou esbravejando contra a mulher, ela xingou ele. Mas no mesmo instante chegaram dois rapazes de moto. Foi uma coisa meio filme de super heróis, quando a mocinha está em apuros e aparece aquele super herói para salvá-la.

Os rapazes gritaram com ela, um esbravejava em um tom assustador “qual o seu problema? você é louca? vai matar a ciclista?”. Ela se assustou e voltou para o lugar dela. Eu segui pedalando tremendo da cabeça aos pés.

O motociclista, não satisfeito por ter me salvado, continuou conduzindo a moto lentamente ao lado da motorista, xingando ela e dizendo que não sairia de perto da mulher enquanto ela não se afastasse de perto de mim… ela estremeceu e virou na esquina seguinte para se livrar daquela situação que ela mesma se colocou.

Agradeci no semáforo o motociclista. Ele disse que não precisava agradecer, pois as pessoas estão doentes nesse trânsito e precisamos proteger uns aos outros.

Hoje essa motorista, provavelmente, aprendeu que já vivemos em uma cidade e em uma sociedade onde algumas agressões contra os ciclistas já não são mais aceitas. Fiquei feliz em perceber que cada dia mais as pessoas enxergam os ciclistas paulistanos também como sujeitos de direitos.

Portanto, atenção biciclofóbicos. A cidade não está mais disposta a tolerar as suas agressões.

Espero que o bebê do banco de traz do carro concorde comigo!

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6 Respostas para “o indivíduo e o cidadão

  1. eita porra!!!! sua reflexão muito boa, essa relação entre a gentileza no metrô e a briga na pista… mas esse relato no final é absurdo. credo.

    • absurdo ou não, há uma positividade nele: a solução de conflitos pelo comum e sem violência – ao invés de pela Lei e pela Violência Monopolizada do Estado.

      Numa cidade em que usuários de bicicleta militantes ficam com demandas punitivistas (o que não deixa de ter a ver com o capacetismo – é em real seu outro lado da moeda), isso devia ser exemplar. Mais para o bem que para o mal.

      • Lucas pode estender seu raciocínio? Como o uso do capacete se relaciona negativamente com o relato?

      • não se relaciona. Eu não falei disso. Eu falei que punitivismo e hiper-protecionismo são duas faces da mesma moeda. Isto é: falei de capacetismo, não do uso de capacete. Muita gente conheço que usa e está longe de ser capacetista.

        Assim como eu quero, claro, aplicação da lei mais constante a motorista que, por exemplo, estaciona sobre a calçada (é bizarro, mas comum em Salvador). Nem por isso fico apelando ao Papai Estado nem achando que mais punição vai evitar que comportamentos indesejáveis aconteçam.

        Um comportamento acontece porque o ambiente o permite ou estimula ou reforça. Punições, na melhor das hipóteses, o encobrem.

        (embora eu seja, claro, a favor do aumento da punitividade – isto é: de que entre o ato indesejável e sua consequencia aversiva haja o minimo de hiato possível. Mas isso tem de vir pari-passu a diminuição da punição, não ao seu aumento: aversivos menores, mas mais frequentes, modelam melhor o comportamento).

  2. Pingback: can’t miss [13] asbicicletas.wordpress.com | na bicicleta

  3. Ogum, a reflexão inicial é bastante interessante, mas deve-se ter cuidado com seu extremo. Ser apenas um cidadão, como ocorre nos paises comunistas, é um pesadelo sobre o qual já nos alertou Orwell!

    O relato da Evelyn é chocante! Absurdo mesmo!

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