don’t believe the hype!

don’t believe the hype” é uma das minhas músicas preferidas. é sempre bom voltar a ouvir esse clássico do senso crítico.

da hype!

mas isso é cultura americana, e somos brasileiros. é outra cultura. não temos na nossa literatura, por exemplo, um personagem tão legal quanto tom sawyer. suas histórias são dum tempo pré-abolição da escravidão nos e.u.a. e tom é criado por sua tia polly. um dia apronta alguma, como castigo tem que pintar gratuitamente a cerca da casa.

mas está tom pintando a cerca, mal-humorado, quando chega um primeiro amigo e pergunta o que está fazendo. tom esnoba o amigo, diz que aquilo era pra ser feito apenas por pessoas capacitadas, inteligentes, não era pra qualquer um. o amigo logo lhe implora pra que tom o permita pintar um pouco a cerca. e tom permite, via remuneração. em pouco tempo diversos outros meninos estão pagando para pintar a cerca no lugar de tom sawyer….

esperto esse tom sawyer! bobos os demais. ou apenas acreditaram na propaganda.

da hype! como dizem os manos do bronx! a fala doce que lhe convence que algum produto é interessante e necessário. mas que no final é só uma forma de drenar seu dinheirinho….

um exemplo temos bem delineado numa matéria da revista forbes. pra quem não se vira no inglês nem com tradutores on line, há um resuminho comentado da matéria no uol carros. a reportagem mostra como brasileiros abobados acham que algo caro é bom. e o barato é ruim. e, por isso, preferem pagar mais.

bom, esse é o resultado de um trabalho de marketing bem feito. trata-se de convencer corações e mentes de que ter aquela coisa, fazer aquele gasto, fará a vida da pessoa melhor. e claro, pagando mais caro.

para isso, o trabalho vai desde trabalhar o imaginário acerca daquele consumo até refinar a embalagem desse mesmo produto, de modo a “agregar valor” – uma expressão que basicamente quer dizer: “como fazer com que paguem o dobro do preço justo”.

sim, claro, vivemos numa economia de mercado. sim, vivemos num mundo capitalista. sim, empresas são necessárias. sim, esse post não é uma pregação para uma reedição da revolução bolchevique – e nem uma defesa insana do livre mercado.

quanto será que a nike pagou pelo espaço na pele dessa pessoa?

mas prestemos atenção em grandes corporações que nos fazem de bobos. como marcas esportivas que cobraram caro para fazer você andar com o logo estampado na camiseta. sim, você paga para fazer a propaganda. e acha que isso lhe traz status.

propaganda é a alma do negócio. e sim, estamos rodeados dela. mais ou menos como naquele futuro distópico descrito em “idiocracia”, que colo abaixo em versão dublada – pra ninguém sofrer com a falta de habilidade para ler as legendas.

se assistir ao filme verá que no futuro descrito tudo tem patrocínio. sim, inclusive o uniforme do médico que cuidará do herói do passado que viajou séculos à frente é devidamente patrocinado.

o interessante é que, quando comparamos as estruturas econômicas de países diversos, quanto mais elevado o nível médio de escolaridade, quanto mais “espontaneamente” organizado o país (em pequenos detalhes, como ausência de lixo nas ruas não por que o sistema de varrição seja eficiente, mas pois existe um conhecimento médio disseminado acerca das políticas sobre dejetos – ninguém joga papel no chão!), menor é a influência das grandes corporações nas políticas públicas.

por outro lado, quando mais desestruturado o país, mais presente são as grandes corporações, os grandes fabricantes, as grandes instituições financeiras…. nas repúblicas de bananas a legislação é mais esgarçada, mais relaxada, e permite a atuação livre de grandes grupos econômicos…. não é à toa que é justamente no dito terceiro mundo que acontecem as maiores tragédias ambientais.

pois é. estamos rodeados destas “entidades”. sua presença é tão grande que muitos, mas muitos mesmo se vêem obrigados a trabalhar para elas – sobreviver é preciso, e poucos de fato podem escolher o que fazer da vida, e também como fazer. e são submetidos a jornadas de trabalho insanas, pressões gigantescas, e, por fim, danos psicológicos e físicos.

mas o discurso é de que as coisas são assim mesmo. que apenas empresas resolvem. que elas sofrem no país, o custo-brasil é muito alto… será mesmo?

o custo-brasil só é alto no andar de baixo. não no andar de cima. e isso pois sim, nos contentamos com migalhas, com esmolas das corporações, brindes, patrocínios… e assim no balcão das necessidades até as almas são vendidas. e isso ocorre com tanta frequência que as pessoas já veem isso como algo normal. como era normal há menos de 2 séculos ter escravos, como era normal  há um século mulheres não votarem e muito menos usar calças compridas….

dica esperta de amiguinho do autor desse blog.

bah! dirão alguns… bah! deixa pra lá. as pessoas querem ser felizes. então que se deixe que peguem bicicletas de um banco para andar na ciclo-faixa de outro banco. do jeito que está, está bom, está pingando dinheiro pra muita gente, que precisa mesmo. não podemos condenar quem precisa de trabalho. pois é fácil ao rico bancar o moralista. quem precisa comer, pagar contas, é muito pressionado e não podemos condená-lo por acabar por se vender a políticos ou corporações. a necessidade impõe condutas que nem sempre são bem aceitas por outros ou pela própria pessoa, mas são imposições da vida. o desconforto existencial é inevitável. ou não…

mas é uma pena que esteja tudo tão corrompido… ou não, podem ser apenas delírios de quem leu as aventuras de tom sawyer há uns 30 anos na mesma época em que leu hamlet e macbeth, e ligou uma coisa à outra. é, crianças não deviam ler essas coisas. mas fazer o quê? na época não havia harry potter.

é… paciência. o mundo vendeu-se, a bike virou hype, e até aquela antiga resistência à mercantilização que era o fato de que a grande diferença era a perna e não a bicicleta, já caiu. hoje se compra perna sim. duvida? clique aqui.

desculpem as elocubrações de quem leu demais, e agora, só vê autenticidade na dor do joelho estourado num tombo de bicicleta. mas, como dizia krishnamurti, “não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.”

(prometo que o próximo texto é sobre câmbios traseiros e o cálculo necessário para a escolha entre cage curto, médio e longo).

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12 Respostas para “don’t believe the hype!

  1. que nada, quero mais textos desse tipo!

  2. Continue assim. Texto muito bom.

  3. No mundo das bicicletas, temos também as roupas de ciclismo com marcas enormes, coisa que sempre me deixou encafifado… Claro, quando vc ganha é uma coisa, mas a gente vê para vender (e caro) nas lojas…

  4. Don’t ever belive the hype. Curti as adesivagens, hein? Por aqui, se pans, ainda teria uma pá de ciclista chamando de “vandalismo”.

    O interessante é a passagem do tempo é a única senhora da razão.

    O hype não se sustenta. Ou melhor, só se sutenta com muito dinheiro gasto para que acreditem que ainda está de pé.

    A máquina é da pesada e tá tudo em liquidação. Mar de prosperidade no brasil-il-il do neoliberalismo feudal.

    Santo congestionamento que fez os trabalhadores ricos (os tais classe média) andarem de bicicleta pra “escapar do trânsito”, hein? E parabéns para as meninas da torcida adversária.

    Mas é isso aí, hype é hype. Logo mais a fumaça abaixa e a coisa assenta para começar de verdade a ser feita. Até lá, é resistir sorrindo e construir cantando. Por enquanto, vamos em frente no “de banco em banco, sempre de bike”. Marighella teria uma boa opinião sobre isso.

  5. Roubando as duas fotinh@s pro tumblr. 😎

  6. Lamento mesmo, profundamente, com muito pesar, a ausência descabida das maiúsculas. Singelos signos do arranque de uma frase, foram-se todos. Por quê? perguntamos atônitos.
    Mas tudo passa. Inclusive o hype. Ou Hype?
    Confesso sussurrando: quando bike virou hype (desculpem a rima) parei de fazer proselitismos e fingia ignorar o assunto. Toda unanimidade é burra, parece.
    Não se avexe com minha saudade das maiúsculas. Leitor do blog há anos, acostumado a ler Leminski e Saramago, acabo por divertir-me com devaneios estilísticos.
    Saudações e força no pedal.

  7. É, parece que aquelas nossas conversas surtiram efeito!

    Mas não me importo com o hype. Não ando nem comecei a andar de bicicleta por que acham bonito. Sigo minha consciência e vamos em frente!

    Também acho que certas leituras fazem mal a mentes ainda em formação. Depois é um esforço analisar as coisas sem um viés disto ou daquilo. Mas há dois tipos de anarquistas: O raivoso e ressentido e aquele com um deboche na cara.

    Abraços

  8. odeio Hype, eles acabam com uma das poucas amabilidades de SP, quando ciclistas se cruzam, se cumprimentam, com um leve aceno, educadamente, como pessoas que tem tempo para se preocupar com pessoas. Espero que alguns ganham maturidade e se tornem pessoas.
    Ps: Ler um livro abre possibilidades inúmeras, mesmo que seja sobre um bruxo qualquer que passa por uma série de superações como um Hércules juvenil com pitadas de Sidarta e outras referências. Antes ler isto do que não ler.

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