limites humanos: acima, abaixo, à frente! mas até onde?

tenho uma amiga que já pautou diversos posts desse blog, e que tem fortíssimas cólicas menstruais. cólicas que passam quando ela pedala. mas voltam assim que ela desce da bicicleta.

tenho uma outra amiga a quem tenho profunda admiração, uma mulher pequenininha que tem uma força tremenda. ela curou a si própria, curou sua mente (mente sofrida, traumatizada por um estupro), sobreviveu a uma tentativa de suicídio, e achou o caminho do equilíbrio cuidando de fortalecer os músculos.

tenho um amigo que é montanhista e agora se torna randonneur. esteve a altitudes tremendas, e paga um preço alto por isso.

e tenho dois amigos com mais de 50 anos que terminaram o paris-brest-paris, coisa que quero fazer um dia. são meus modelos, pessoas boas e generosas e que pedalam pra dedéu, e admiro isso.

eu mesmo já fiz algumas pequenas proezas (proezas apenas para o meu pequeno círculo de amigos). fiquei acordado por tempo demais, em cima de uma bicicleta. fiz trilhas no mato, “escalaminhando”, durante a noite e sozinho (com uma lanterna ridícula de 1 led e a luz da lua)…. entre outras aprontadas, como resistir a uma hora de dor em razão de uma fratura exposta, sem socorro médico.

mas todas essas atividades acima, minhas ou dos meus amigos, não têm nada de sobre-humano. muito antes pelo contrário, é aí que nos vemos humanos. é isso que nos caracteriza como humanos, e não sermos “pessoas ajustadas” que acordam todo dia, vão a um determinado trabalho, trabalham os horários certinhos, almoçam certinho sem sujar a gravata, vão para suas casa no horário certo….

o que nos caracteriza como humanos também não é o extraordinário pedalar 1200 kms em si. nem o levantar trocentos kgs. ou controlar a dor. mas é o movimento, o movimento físico que nos permite fazer tudo isso, movimento físico esse hoje tão esquecido, esquecimento esse fonte de tantos males, de saúde física e mental. não comecei citando o caso da amiga cujas cólicas suavizam e desaparecem ao pedalar à toa. nosso corpo precisa movimentar-se para ser o que é.

claro, eu compartilho a tese da marília coutinho acerca do exercício, da força, do movimento, e sou enfático: não há saída possível sem o movimento do corpo. não há vida possível sem a movimentação. pois foi assim que nos constituímos, desde quando sequer éramos humanos.

nossos corpos parecem estar regulados para essa ação, por isso produzem uma série de hormônios reguladores, a circulação funciona bem, e a fisiologia parece ir melhor quando nos movimentamos, quando pelo menos andamos regularmente. pois assim somos desde sempre.

 

nós começamos a nossa evolução descendo das árvores e andando sobre as pernas. isso muito antes de desenvolvermos nossos grandes cérebros, antes de nos tornar cabeçudos.

este andar, essa capacidade é perceptível nos fósseis de australopitecos, os macacos andantes que da cintura para cima eram chimpanzés e da cintura pra baixo eram humanos. mais ou menos nessa época incluímos a proteína e gordura animal no nosso cardápio (nos tornamos onívoros, e não exatamente carnívoros, coisa que só o neanderthal foi).

essa dieta incluindo proteína e gordura animal permitiu o crescimento do cérebro (pois nos hominídeos o cérebro consome de 20 a 25% da energia gasta pelo corpo),  mas proteína e gordura animal não é coisa que dê em árvores. é uma comida que tem o costume de sair andando….

obter essa comida que anda, e que tinha o péssimo costume de ser mais forte que os pré-humanos, gerou uma evolução fantástica nesses australopitecos. ainda mais que de vez em quando eles também eram comida de outros predadores.

entre mamíferos, há dois tipos de caçadores: os caçadores solitários (tigres e onças, por exemplo) e os caçadores grupais (leões e lobos, por exemplo, ou mesmo orcas).

é interessante que notamos em todas as espécies que caçam em grupo uma capacidade de comunicação mais refinada que aquela dos caçadores solitários. afinal, essa comunicação é necessária para coordenar a caça. e note que obtivemos sucesso em adestrar essas espécies, quando não humanas. leões sempre foram mais numerosos em circos que tigres (e mesmo onças!), o lobo foi domesticado a ponto de virar outra espécie, o cão, e há shows de orcas em aquários em alguns locais do mundo….

a caça coordenada dos caçadores grupais exige que a espécie tenha uma série de características que vão desde formas específicas de funcionamento dos músculos a capacidades mentais específicas. e é interessante ver como isso nos fez virarmos o que somos hoje.

nós humanos atuais, homo sapiens, temos algumas características interessantes. somos atualmente o único mamífero terrestre capaz de exercitar-se, de forma moderada, durante horas a fio. cães, cavalos, bois, veados, búfalos, todos ficam exaustos antes do homo sapiens.

isso nos difere em muito dos parentes colaterais, os “apes”, gorilas, chimpanzés, bonobos, gibões, orango-tangos. mas partilhamos com eles algumas características que nos hominídios foram aperfeiçoadas à exaustão.

os colaterais (os apes) também são capazes de usar ferramentas (bem simples), resolver determinados problemas, ter alguma forma de raciocínio abstrato que permita o planejamento, o que implica portanto em aprendizado. mas somos aquele cuja infância é mais longa, não apenas comparando-se com os colaterais distantes (os apes), mas com os ancestrais mais próximos (h. heilderberguensis, h. erectus, todos os australoptecos) e com os colaterais próximos (h. neanderthalensis, h. floriensis).

a infância é o tempo de aprendizado mais intenso. uma infância longa (convenhamos, tem gente de mais de 20 anos entre nós que parecem estar na adolescência…) implica portanto em um tempo mais longo de aprendizado, portanto uma capacidade maior de compreender a complexidade do mundo e nela interferir, interagir.

o tempo de infância aumentou progressivamente desde o surgimento dos primeiros hominídios até o temo atual, o que indica o aumento da importância da transmissão inter-geracional de conhecimento, à qual vou me referir como “cultura”. é essa transmissão de conhecimento que explica não apenas a existência de espécimes humanos que não estão gerando filhotes, como a sua necessidade na reprodução da espécie. sim, a reprodução em todos os apes, incluindo o gênero homo, vai muito além da geração e gestação.

é uma reprodução social, ampla, em que a criação do filhote é partilhada com um sem número de outros espécimes (da avó ao professor, passando pela vizinha ou o vendedor de picolé ou o monitor de trânsito que atravessa o pimpolho pela faixa de pedestre na frente da escola…).

a natureza é interessante, pois ela não permite a vida de algum espécime que não contribua para a preservação da espécie de alguma forma, pois ele concorrerá com os recursos – quase sempre escassos – de sobrevivência daquela espécie. então, por qual motivo verifica-s entre humanos a sobrevivência de quem não mais reproduz? uma vaca reproduz e dá leite até momento antes da sua morte por velhice. uma vaca que não mais reproduza com certeza está à beira da morte natural.

mas na fêmea humana verificamos a menopausa. e uma sobrevida longa após esse período. entre os machos há algo semelhante mas menos marcado, menos visível (e hoje quase apagado graças ao viagra).

a igual modo, em todas as comunidades humanas verificamos a presença de homossexuais, em minoria em relação aos heterossexuais, mas sempre presentes.

ora, são justamente os que não geram que são essenciais à reprodução humana, pois de formas diretas e indiretas partilham da criação dos gerados!

se observarmos bem, um espécime pode gerar poucos mas contribuir muito para a reprodução, e exemplos vão desde um einstein formulando a teoria da relatividade ao seu zé caminhoneiro atravessando o país com uma carreta com carga de fraldas descartáveis a um einstein, de uma margaret mead à dona zefa parteira.

todas essas atividades contribuem de alguma forma com a preservação da espécie. (e aqui é importante notar que a discriminação aos homossexuais, a homofobia, do ponto de vista da reprodução da espécie, é burrice, uma verdadeira idiotice, uma vez que possuem papel destacado nas atividades de reprodução que não exatamente de geração. reprodução que se faz também pela transmissão inter-geracional de produção intelectual).

mas claro, precisamos também compreender que todo esse edifício foi erigido sobre uma fundação. o limite do edifício é o que suporta a fundação. e no nosso caso, o andar, perambular, caçar em grupo, por persistência, é que serviu de fundação para o desenvolvimento de todas as espécies do gênero homo.

assim, a capacidade de esforço continuo, que nos fez perder os pelos sobre o corpo (há como como nos comparar nesse aspecto a um gorila?), nos fez suar horrores (para refrescar o corpo), nos fez antar eretos (para diminuir a área do corpo sujeita à insolação), especializou nossa bacia, nossas pernas, colocou em nova posição o crânio e nos fez progressivamente desenvolver as áreas cerebrais ligadas à visão, à comunicação e ao raciocínio abstrato.

e tudo ao mesmo tempo, coordenado com uma produção hormonal que nos faz sentirmos bem, e regularmos nosso metabolismo de acordo com essa movimentação.

assim pudemos ocupar áreas de caça e de coleta mais amplas, transpor cadeias de montanhas, procurar novos territórios, ocupar melhor o mundo. nisso, nosso antecessor mais longevo, o homo erectus, foi extremamente eficiente. tanto que se acham fósseis do h. erectus praticamente em todo o planeta, havendo inclusive uma sub-espécie minúscula, o h. floriensis, da ilha das flores, que provavelmente originou-se a partir do processo do nanismo insular: isoladas em ilhas, espécies diminuem de tamanho. na ilha das flores, onde foi achado um esqueleto desse hobbit, com menos de 1 metro de altura, também se achou fósseis de elefantes do tamanho de vacas…. e outros mamíferos diminuídos.

o homo erectus é o primeiro a fazer ferramentas complexas, que dependiam de uma percepção acurada das pedras que seriam usadas: deveriam ser de um determinado tipo e não poderiam ter falhas ou fissuras. senão esses machados de pedra poderia se quebrar durante o uso. esse detalhe é muito importante se levarmos em conta que também se acham esqueletos de h. erectus com marcas de dentes de grandes carnívoros… para ele, um machado de pedra que falhasse não apenas poderia fazer com que sua caça fugisse. mas poderia também implicar em que fosse ele a caça.

esse conhecimento não se adquiria no tempo de uma vida, mas dependia de aprendizado e aperfeiçoamento. pelos restos encontrados junto a esses fósseis, pode-se ver que sua dieta era variada, de vegetais a carne, mais especificamente carniça….

notemos que mesmo o h. sapiens é carniceiro. caçador-coletor-carniceiro. por isso bacon defumado (defumação é uma das formas de decomposição da carne) faz tanto sucesso. sendo nossa espécie existente há cerca de 200.000 anos, e a agricultura existente há cerca de 10.000 anos, percebe-se que a alimentação vegetal dependia apenas da coleta nesses 2 ou 3 milhões de anos de existência do gênero homo. e os restos indicam muita, mas muita caça.

mas não somos a espécie hominídea mais carnívora. esse posto pertence aos neandertais, cuja dieta era praticamente restrita à carne. foram caçadores exclusivamente. agindo em grupos pequenos e com contato próximo à caça. espalharam-se na europa durante um período glacial. especializaram-se na caça da megafauna então existente, usando lanças que funcionavam como chuços – espetando, e não sendo lançadas – e por isso se encontram tantos esqueletos com fraturas múltiplas: o contato direto com um mamute pode provocar isso…. a forma de caçar dos neandertais era extremamente perigosa.

neandertais descendem do h. heildelberguensis, do qual nós temos parentesco ou mesmo descendemos.  mas somos menos cabeçudos, mais delgados e mais ágeis do que eram os neandertais, e precisamos de uma quantidade menor de alimento diário. um neanderthal precisaria de no mínimo 5.000 calorias diariamente, e nós nos damos bem com cerca da metade.

somos energeticamente mais eficientes. gastamos menos energia trotando leve, do que andando vigorosamente na mesma velocidade. isso é um indicativo de que correr é uma atividade no entorno da qual o corpo desenvolveu-se.

conforme todos os apes, temos nos ombros a articulação mais complexa do corpo. ela gira em praticamente todas as direções. juntamente com o formato dos braços e o polegar opositor, temos capacidade refinada de manusear e arremessar. isso foi essencial num tempo em que concorremos com os neanderthais na caça.

o interessante é que a chegada do homo sapiens numa região sempre significou  o desaparecimento da megafauna e de eventuais outros hominídeos. pois o homo erectus, do qual desenvolveu-se o h. heidelbergensis, os neanderthais e nós, continuou a existir durante muito tempo em outros locais do planeta, sendo que o último humanídeo que não o h. sapiens a se estinguir foi o h. floriensis, conhecido como hobbit, graças ao pequeno tamanho. ele conviveu com o h. sapiens, e parece ser bem próximo ao h. erectus.

a caça por persistência, que constitui em correr e assustar o animal caçado até que esse fique exausto e seja abatido facilmente exige tanto uma predisposição física para o esforço continuado, quanto comunicação e um planejamento que muda a todo momento. isso exige muito raciocínio abstrato. implica em projetar situações.

os humanóides todos possuíam alguma forma de raciocínio abstrato e pensamento simbólico. e a partir dum dado momento, ele passa a ser fortemente relacional e simbólico. a progressiva ritualização dos sepultamentos denota isso. ser enterrado com suas armas, e eventualmente roupas, significa haver uma percepção de pertença, àquele indivíduo, daquelas coisas. pertença e não apenas posse direta. ou seja, o objeto simboliza algo além de si mesmo.

é interessante notar que o andar ereto, o correr, as estratégias de caça em grupo vieram muito antes do próprio crescimento do cérebro. dos 5 apes, somos o que tem o maior cérebro proporcional ao corpo. e é nessa massa cinzenta complexa que se desenvolveu toda a nossa capacidade intelectual.

ela se desenvolve a partir dessas atividades, logo, essa capacidade mental está de alguma forma direcionada a ela.

isso explica muito bem por qual motivo nos sentimos tão bem correndo, caminhando, pedalando, jogando determinados jogos. todas essas atividades emulam os atos que praticávamos desde antes mesmo sermos humanos. não é de estranhar que uma forma de duas pessoas se acertarem é conversando enquanto caminham. ou que einstein tenha tido o clique pra formular a teoria da relatividade andando de bicicleta.

mas aí vem o segundo fator: por onde nos movemos?

as diversas espécies humanas e antes dela os australopitecos sempre transitaram numa área que ia do nível do mar até cerca de 2.000 ou 3.000 metros acima dele. limites acima destes são recentes, muito recentes.

o montanhismo, que permitiu descobrirmos até onde conseguirmos ir, para cima, e o mergulho, que permitiu sabermos até onde ir, para baixo, nos dão alguns limites. sabemos que para cima, onde o ar se torna mais rarefeito e começa a diminuir o nível de oxigenação, os limites que atingimos sem danos são inferiores aos que atingimos vivos. isso em razão da baixa oxigenação.

por outro lado, na profundidade, sofremos muito, chegando perto dos 700 mts abaixo do nível do mar. a pressão muda a química dos gases, e isso afeta nosso corpo. basta dizer que a pressão também afeta máquinas. mas conseguimos fazer relógios que chegam a mais de 1.000 mts de profundidade sem alagar, e nós não chegamos a isso sem estarmos num compartimento com pressão interna diferente e menor que a externa. e mesmo assim há uma longa descompressão a ser observada, sob pena de embolia e morte….

o quão longe vamos já é um dado diferente. sabemos que o sono pode vir antes da exaustão física. eu mesmo já testei isso em mim mesmo. após algumas horas, o corpo passa a queimar gordura. e com a alimentação adequada e breves períodos de sono vamos muito longe, por muito tempo, podendo passarmos dia nesse esforço.

mas esse esforço não pode ser demasiado. há uma faixa na produção do lactato, que varia de pessoa a pessoa, que precisa ser respeitada.

essas características se coadunam com a atividade de caça. o caçador vai onde está a caça. e a caça vai onde está sua comida, ou seja, seu pasto. onde crescem plantas…

parece estranho falar hoje tanto em caça. mas lembremos que o homo sapiens tem entre 200.000 e 160.000 anos. h. neanderthalensis viveu por pelo menos 400.000 anos (até cerca de 25.000 anos atrás). h. erectus viveu por mais de 1 milhão de anos.

e somos agrícolas a meros 10.000 anos.

com a agricultura houve uma mudança no padrão de alimentação. grãos – e frutas, raízes, tubérculos – que possuíam bastante açúcares compostos passam a ser cultivados, cruzados, e progressivamente modificados.

mas o nosso dna não mudou nesses 10.000 anos. tanto que precisamos da alimentação ultra variada que todo hominídio (menos o neanderthal) possuía no passado para sermos saudáveis: grãos, frutas, folhas, raízes (como cenoura, batata ou mandioca, por ex.) e carne quando havia caça: ou seja, só de vez em quando (e não todo santo dia, no café da manhã – presunto! – no almoço e no jantar!). afinal, somos geneticamente idênticos ao h. sapiens de 150.000 anos atrás.

por outro lado, nosso conhecimento da alimentação, da nutrição, permite que sejamos hoje vegetarianos saudáveis, se quisermos. essa não era uma opção para um h. erectus, muito menos para um neanderthal, mas para nós é.

mas é interessante notar que, enquanto uns fazem a opção moral de não prejudicar nenhum animal comendo sua carne, outros voltam toda sua raiva a seus semelhantes.

o h. sapiens, o mais dotado dos humanos, usou toda sua capacidade de abstração, de projeto, de execução – que no passado foi necessária para a sobrevivência – para fazer coisas maravilhosas, como uma catedral gótica, ou uma sinfonia, ou mesmo ir ao espaço.

mas também soubemos aproveitar isso para simplesmente eliminar outros humanos, e muitas vezes de forma a lhe infringir maior sofrimento peri-morten.

ainda é preciso estudar muito como se dá o mecanismo do prazer perverso, até para evitar que funcione. uma coisa a se pensar é que se trata de uma degeneração de um mecanismo mental que nos permitiu caçar:  não ter pena da caça sendo morta, eventualmente rejubilar-se por isso.

é interessante que o vermelho, cor associada ao sangue, nos causa sempre sensações de euforia, júbilo ou medo. vermelho é a cor da sorte na cultura chinesa e a cor do farol que nos diz para não atravessar. a cor da pimenta, e também das embalagens de chocolate que mais vendem.

o fato é que humanos, que quase foram extintos há alguns milhares de anos, quando uma mudança ambiental reduziu a população de h. sapiens a cerca de 600 indivíduos – dos quais toda humanidade atual descende – nos tornamos o símio de maior população. não somos uma espécie em extinção.

o número hoje é tão grande que impacta a aparência do planeta. nunca uma única espécie teve tanto impacto no planeta. não à toa tantos voltam-se apenas a si mesmo ou a membros da própria espécie.

somos uma das espécies de mais longa infância, portanto menos completa ao nascer, e mais suscetível, portanto, de variabilidades nesse processo. a psiqué tão complexa que desafia a compreensão, a ser feita pelo próprio espécime!

que outro animal tem tamanha capacidade reflexiva e tamanha capacidade de realização? tamanha complexidade e tamanha agressividade a outros exemplares da mesma espécie, a ponto de refinar ao extremo a arte de produzir dor em outrem? podemos esquecer as torturas da antiguidade (como a crucificação, talvez a morte mais dolorosa inventada), as torturas e mortes da idade média (as versões do suplício da roda são um exemplo), ou os horrores do século XX, como a morte por gás da I guerra, o holocausto, ou as insanidades da revolução cultural (com decapitações públicas ou a ressurreição da antiga e bárbara morte pelos mil cortes, que consistia em fatiar a pessoa viva), os massacres da guerra civil libanesa, as amputações nas guerras tribais africanas?

é fato, humanos conseguem ser muito cruéis quando querem. mas também são fantásticos e sublimes. a capacidade de realização, derivada daquela força que antes era usada apensa para correr lançar pedras e o raciocínio abstrato que surgiu apenas para organizar a caça, a linguagem que existia apenas para operacionalizar esses atos, todas essas habilidades foram levadas quase ao infinito, gerando coisas fantásticas como as catedrais góticas, o prédio do MASP (maior vão livre de concreto do mundo), e mesmo obras de arte fantásticas!

gênios, quantos não houve que, malgrado a insuficiência de ferramentas levaram a arte, a ciência e todas formas de conhecimento aos píncaros? um einstein formulando a lei da relatividade usando apenas lousa e giz. um freud fundando a psicanálise numa época em que a medicina não muito se distanciava da própria bruxaria….

e mesmo o pensamento mágico não é uma projeção fantástica da imaginação, do raciocínio abstrato? o uso de narrativas para dar sentido ao que no mundo acontece?

e é nas mitologias que vemos mais claramente a herança do andar, do transitar, do caminhar, do correr, do seguir adiante. toda grande saga é também uma grande aventura, um deslocamento. o herói sempre transita, as lutas acontecem, as superações…. é aí que o moderno montanhista, a garota que pedala 300 kms, refazem o o caminho de toda a humanidade e rende homenagens às milhares de gerações que os antecederam e os milhões de anos de evolução….

e claro, por que não dizer do longo e complexo ritual de acasalamento humano, produzindo atos, manifestações, arte! o que poder mais belo do que os antiquíssimos e sensuais versos do cântico dos cânticos (beija-me com beijos da tua boca, teus amores são melhores do que o vinho!), a beleza da correspondência amorosa medieval de aberlardo e heloísa, ou da mais bela definição já feita de um beijo, que shakespeare coloca na voz de cleópatra (antônio e cleópatra, I ato, cena III): a eternidade estava em nossos lábios e nossos olhos!

por falar em eterno, ele deve estar lá de longe olhando e pensando sobre o ser humano: “que macaquinho interessante!”

—————–

para ir um pouco além:

marília coutinho, sobre a reapropriação do corpo, aqui.

sobre a história dessa genial halterofilista, com doutorado, e sua incrível capacidade de recuperação, aqui.

sobre evolução da espécie humana, há um fantástico, didático (e longo) documentário em 3 partes, sendo que a primeira parte está aqui, a segunda parte está aqui e a terceira parte está aqui.

um texto que dá intuições acerca dos efeitos da testosterona no comportamento, que é uma entrevista com beatriz preciado. a leitura desta entrevista dá insights fantásticos sobre por que somos o que somos do ponto de vista de papéis sociais.

um texto com ótimas referências sobre a relação entre altitude e dano cerebral, do davi marski filho. leitura obrigatória para qualquer que queira aventurar-se morro acima, nem que seja fazer apenas trekking no himalaia.

aqui um verbete sobre mergulho de saturação. bem completo e correto nas informações, explicando bem todos os riscos que corremos em profundidade.

obra completa de shakespeare para download, aqui.

e se você não entendeu qual a ligação da evolução da espécie humana e as bicicletas, pergunte-se se um urso faz audaxes, ou constrói rodas de 36 raios, ou é capaz de fazer um quadro em tubos 18mcdv6.

 

 

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3 Respostas para “limites humanos: acima, abaixo, à frente! mas até onde?

  1. Excelente texto (como sempre), mandou muito bem !

  2. Cabe contudo uma ressalva sobre sua interpretação da homossexualidade como excedente de adultos capazes de cuidar da prole – correta, mas enviesada.

    Primeiro que a questão não é haver sujeitos homossexuais, mas práticas. Mesmo sujeitos cuja escolha de objeto é heterossexual podem ter práticas homossexuais eventuais ou recorrentes no Homo Sapiens e entre os primatas superiores. Isso porque nos apes a sexualidade vai paulatinamente perdendo função reprodutiva (direta) e ganhando função social (isto é: argamassa civilizatória, laços afetivos – o que garante indiretamente a reprodução da espécie: menos probabilidade de guerra interna ao grupo, maior probabilidade de cuidado mutuo).

    O comportamento homossexual aparece em outros mamíferos caçadores-coletivos em tempos de fartura e inatividade, como entre os leões por exemplo, talvez pelo mesmo motivo.

    De resto, a questão das práticas versus escolha de objeto incorreu em um modelo civilizatório ao menos: na Atenas de Péricles, não se tratava tanto de ser uma civilização que tolerava ou apreciava a homossexualidade – bem antes, a experiência homossexual do adolescente com algum homem mais velho amigo da familia, era universal, coercitiva e crucial para o desenvolvimento da experiência democrática. Outrossim, era incomum que se mantivesse na idade adulta ou mesmo entre jovens de mesma idade.

    Contudo, e aí preciso evocar os impossíveis da pulsão, que é a ética da psicanálise, não se pode obscurecer com estas explicações evolucionistas (que Freud acataria e mesmo sugeriu) o fato de que qualquer escolha objetal (homo ou heterossexual) depende de mecanismos neuróticos – é portanto falha, claudicante, mal-fadada em certo grau. Afinal, uma vez que se está dentro da linguagem de signos arbitrários, todas as linguagens anteriores (iconicas e indiciais) se modificam – tendo como consequência fundamental o fato de que a relação sexual nunca pode existir na realidade psíquica: sempre faltará um significante para dizer do gozo do outro, no limite falta mesmo um significante a representar a mulher e seu órgão sexual.

    Faço ainda outro senão hodierno: a vantagem adaptativa para a espécie de haver sujeitos exclusivamente homossexuais (o que não ocorre, por exemplo, entre bonobos) só se aplica a homossexualidade dos homens (a das mulheres por um lado não exatamente existe, e por outro não é mera escolha de objeto mas uma outra estrutura psíquica – estou pensando ai claro no Caso da Jovem Homossexual, de Freud). E mesmo assim, só se dá pela altíssima capacidade sublimatória que os homossexuais teriam – isso era verdade, de verbo não é mais: com pegação de internet, sauna, boates e Lady Gagas, o esforço de deslocamento da libido para objetivos abstratos de longo prazo se perde para a maioria das bichas (que são, convenhamos, burríssimas e neurotissíssimas – não é meu caso, Proustiano inveterado, um intelectual barroco, mas eu a rigor a rigor não sou viado, apenas prefiro os rapazes, sem excludência das moças). Inclusive os que poderiam se lançar em impetos sublimadores o fazem pela militância (queer ou GLBT, dá igual), o que por ser movimento de massa impede o eu de realizar as potências civilizatórias (ações coletivas jamais são sublimatórias – as grandes descobertas se dão na solidão. Sobre isso, Psicologia Das Massas E Analise Do Eu).

    E sublimação por sublimação, os perversos clinicamente identificáveis são capazes das melhores delas. Que o diga Hitchcock e Leonardo DaVinci. E mesmo os neuróticos com traços francamente sociopaticos e perversos (no sentido de perversidade aí) também o são. Que o diga Stanley Kubrick.

    Então, Odir, menas bem menas – que o Homo Sapiens é uma especiezinha de merda (e que tende a extinção, sim, por superpopulação e hiperconsumo do meio em que vive – é o efeito grupal da pulsão de morte).

  3. Valeu pela aula, Odir. De novo.

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