vidas minúsculas, morte maiúsculas.

um caminhão esmaga um menino de 14 anos que está, em cima bicicleta, espremido contra a mureta lateral de uma avenida que não existia há poucos anos, e foi aberta depois da desocupação de uma favela que havia no local. uma daquelas desocupações aplaudidas pelo partido da lei da ordem.

no chão ainda sangue. na mureta amigos do menino, surpresos por essa morte ter sido notada por alguém. velas pequenas. vida minúscula. dor imensa. foto: bicyclop.

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o chalaça, barbeiro e colega de farra de d. pedro I, costumava dizer que um homem é acordado, mesmo quando cerra os olhos ao morrer, por um desses 3 barulhos: o tilintar das moedas, o aplauso da platéia, ou os gemidos do sexo oposto. é, acabou por definir 3 dimensões dos nossos desejos, o poder de compra, de satisfazer-se de bens materiais, o reconhecimento social, a satisfação afetiva, sexual, relacional. todo humano, não importa a classe social, a etnia, a orientação sexual, a escolaridade, não importa o que o distinga dos demais, possuir essas 3 dimensões dos desejos. das necessidades.

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a vida no andar debaixo é um eterno “não dá”. não dá pra morar bem, não dá pra comprar as roupas que aparecem na revista, não dá pra pagar as contas, não dá pra ter água, luz, telefone. só dá pra ter o que todo mundo tem, até o que tem no andar debaixo. hoje todo mundo tem celular, então também tem no andar debaixo. mas sempre no andar debaixo.

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é interessante como a economia organiza-se em torno dos desejos humanos de reconhecimento social, da satisfação afetiva, da satisfação material. vendem-se o tempo todo sonhos. os produtos não são mais anunciados pelo que são, mas pelo que representam. não se compra mais o necessário. a vida não é mais tão dura que todos tenham que racionar alimentos. hoje, numa cidade como são paulo, a morte por inanição pura e simples (desacompanhada de um quadro de anorexia ou bulimia, p. ex.) não ocorre. mas se todos comem, come-se muito mal. come-se errado. pois isso dá lucro a um monte de gente. há gordos desnutridos.

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todo pai, toda mãe, quer um futuro lindo para seu filho. o futuro que consegue imaginar que seja lindo. uns querem que o filho fique rico, outros que seja bonito, outros que tenha um reconhecimento social. é difícil ser josé da silva. são muitos, impossível reconhecer. wandyklewerson já dá uma certa distinção, pois é um nome com todas aquelas letras que só se vê em nome de ator de filme ou dos “ricos” da sociedade, os ricos que eles vêem: a classe média que os emprega às vezes, tantas vezes descendente de imigrantes. às vezes basta um Y num nome menos comum, pra dar a distinção. simone vira simony, michelle vira michely. é o desejo dos pais que se expressa ali.

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a economia se organiza na venda dos desejos, que não podem ser satisfeitos pois senão não haverá nova venda. a máquina precisa girar. é preciso que a bolsa da moda seja adquirida e duas semanas depois haja o desejo de comprar outra bolsa. depois outra bolsa, e outra bolsa. a classe média é a classe que de um lado deseja o padrão de consumo da classe alta e nunca o atinge, sofre por isso, e de outro lado é acossada pelo medo de cair, de se tornar a classe baixa. ela consome principalmente pelo desejo de reconhecimento social. ninguém deseja tanto um rolex quanto a classe média. a classe alta talvez prefira patek-phillipe, IWC….

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na classe baixa muitas vezes a sensação é desespero. simplesmente isso. ou uma angústia sofrida de quem acorda não às 6 da manhã, mas às 5 ou 4 horas, que não pega seu carro para ir trabalhar, mas 3 ou 4 conduções. gente que vive o “just in time” de seres humanos. acorda justo no tempo de ir ao trabalho, chega no trabalho justo no tempo de trabalhar, sai justo no tempo de ir para uma escola, chega justo no tempo para ser um zumbi na sala de aula do curso noturno, sai justo no tempo de pegas as últimas conduções para chegar em casa e dormir algumas poucas horas. dorme nos trajetos, está sempre exausta, e o sábado é o dia de lavar as roupas, tirar o pó da casa. domingo é o dia de ficar chapado de pinga no boteco com pagode, ou chapado na frente da TV. só sai dessa rotina quando perde o emprego. ou quando pira bem antes cai na “vida louca”.

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a classe média é empurrada de um lado para o outro, na verdade puxada de um lado para outro pelos vendilhões de sonhos. criam-se maneiras de financiar seu consumo, pautado pela publicidade agressiva. vale tudo para vender à classe média. vide os comerciais de carros. de imóveis. de roupas. de acessórios. o merchandising melifluamente entranhado nos bens de consumo cultural: tv, cinema, revistas e até notícias. vende-se a satisfação de desejos insastisfeitos. passa-se a sensação de que tudo pode ser comprado. tudo. inclusive as coisas que não se compra. paga-se até para se andar numa esteira, numa academia, sendo que andar é a atividade que nos tornou humanos desde que éramos australopitecos e não sabíamos o que era o dinheiro!

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à classe baixa muitas vezes sobra apenas o sonho, mas não a possibilidade em sonhar realizar o sonho. à classe média há o sonho e a possibilidade em realizar o sonho. à classe média o direito ao fracasso, à classe baixa sequer isso.

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a quantidade de pessoas que sofrem de alguma doença mental hoje é muito grande. criou-se uma máquina de endoidecer pessoas. hoje, sabendo-se que há, por exemplo, um  componente de reações violentas na depressão masculina, pode-se intuir que há um grande número de homens agressores (em qualquer situação) que nada mais são do que insanos produzidos pela sociedade.  de outro lado, quanto da obesidade feminina não resulta do simples consumo compulsivo de comida resultante de uma angústia,uma insatisfação generalizada?

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na classe média há uma série de pessoas que sentem algo injusto nas suas vidas. a menina que diz ao rapaz: “você não é o homem maravilhoso que eu tenho direito de ter”, ou o rapaz que sente o peso de um relacionamento como se fosse isso, um peso, o qual não consegue carregar. mas que “homem maravilhoso” é esse que a menina acha que tem direito, que aventuras são essas que o rapaz quer fazer e a menina se torna um peso que não pode ser levado nessa aventura?

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na classe baixa a coisa se escancara mais. gravidez aos 17 anos em razão da ausência de políticas reais e efetivas de planejamento familiar. meninos que antes dos 30 são pais de 5 crianças. empregos precários. carreiras que nunca engrenam. escolaridade baixa que não permite a compreensão de muita coisa, muitos eventos, e traz a vulnerabilidade maior ainda a um consumo imediatista, inclusive de uma industria cultura imbecilizante. no final, a fala é: “eu quero, tchu! eu quero tchá!”

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o fato é que estão todos jungidos num vale de insatisfações. todos mirando a classe acima, que também tem lá suas insatisfações. o que é o maior milionário do brasil fazendo implante de cabelo que não uma insatisfação com sua própria careca? ou os filhos das famílias mais abastadas deitando e rolando num mar de substâncias chapantes, lícitas ou ilícitas? em todas as classes sociais há inúmeros que evitam olhar no espelho pois a imagem que vêem não lhes agrada. defrontar-se consigo mesmo parece enlouquecedor, tomando ciência da fatuidade da vida.

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é fato que todos dão muita importância à própria vida e nenhuma à vida alheia. o “vida louca” que faz o sequestro-relâmpago, a mulher que obriga a emprega a trabalhar das 6 da manhã às 10 da noite, o alcaide-mor de uma cidade gigantesca que realiza obra$ que dão os votos dos imbecilizados e principalmente um caixa 2 fantástico para a próxima eleição….

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numa tarde de uma congestionada sexta-feira um adolescente de 14 anos tenta passar espremido entre a mureta e a faixa de rolamento. numa tarde de sexta-feira um caminhoneiro anda rápido pois as leis municipais lhe dão poucas horas para ali trafegar durante o dia, seu horário está espremido e precisa fazer a entrega pra garantir o pão com manteiga dos filhos. numa tarde de sexta-feira congestionada algum dos míseros 2.600 marronzinhos da CET não consegue estar no local. numa tarde de sexta-feira congestionada um prefeito pilantra circula pela cidade de helicóptero, enquanto o sangue do menino esmagado pela pressa do caminhoneiro que perderá o emprego se não fizer a entrega dentro do horário que as leis do prefeito lhe impõe, escorre pelo asfalto, respinga na mureta, enluta uma família, uma comunidade. uma vida minúscula relegada às margens da sociedade desfazendo-se na margem de uma grande avenida.

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à noite, os ciclistas ressentidos por um sistema que lhe expõem cotidianamente à  morte na atividade que lhes traz tanta vida vão ao local. alguns atravessam a cidade para isso. pixar uma mureta, pendurar uma bicicleta pintada de vermelho, acender velas no local onde o sangue ainda marcava o asfalto, o que é isso senão um ritual de luto?

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na via em que o menino morreu na sexta-feira, aos domingos passa uma ciclo-faixa de lazer. aos domingos… só aos domingos. pois durante a semana a economia tem que girar, movida a petróleo, suor e sangue.

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voltando à pergunta do chalaça, que barulhos fazem abrir seus olhos? eu ando surdo há tempos, com os olhos esbugalhados. depois da morte da minha amiga julie, não sei se tenho mais estômago para mais ghost-bikes. mas vontade de jogar ovos e tomates em alguns dos “poderosos” dessa cidade  há muita, em muita gente.

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6 Respostas para “vidas minúsculas, morte maiúsculas.

  1. mais uma x uma vida se foi, ou melhor 2 vidas se foram… uma por conta da estupidez humana e q por essa razao nao volta mais… a outra… aah a outra ta preocupada d+ com seus problemas pra parar e reparar na vida q se foi… #LUTO+umavez

    ATE QDO????

  2. foda… mal estar danado. 14 anos que coisa maluca termos que conviver com isso. Ficou muito bom o viés econômico que vc deu ao texto, mas não deu pra apertar o botão curtir. Um abraço

  3. fotos nossas, sentimentos nossos, tudo nosso
    tô mal até agora e nem o conhecia, nem precisa né….
    tô ruim mesmo, minha filha maior tem 14 anos, eu escrevi na terça feira sobre Criança na Bike e a postagem pro site rolou ontem quando o Kaique foi atropelado…
    muita coisa…
    preciso de um tempo

  4. Tendo em vista o viés econômico que você deu a este drama trago o discurso do Mujica, o presidente do Uruguai na Rio+20. Ele trata exatamente dos mesmos aspectos alienantes da nossa sociedade gerida pelo tal Mercado, mas felizmente, sem explicitar nenhuma tragédia.

  5. SÓ SAUDADES KAIQUE……. FIZEMOS ONTEM MANIFESTAÇÃO, TEVE MUITA GENTE MUITA GENTE MESMO, UMAS 400 PESSOAS… A RECORD, A GLOBO O SBT ESTEVE PRESENTE….. HJ AS 8 DA MANHA FIZEMOS OUTRA…. SENTIREMOS MUITA SUA FALTA MLK…. MUITA!!! CONDOLENCIAS AO ROGERIO E A MARCIA, SEUS PAIS…….. SÓ SAUDADES….

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