o capacete!

primeiro, esse não é um post dizendo para você usar ou não capacete,e as razões estão expostas abaixo:

1. o Código de Trânsito Brasileiro não obriga seu uso.

2. não há ainda consenso científico acerca da sua proteção. parece esquisito pra você? pois é, o capacete de bicicleta é apenas uma casquinha leve. note que em 3 casos notórios de ciclistas assassinados mortos no trânsito em são paulo, márcia prado (2009), antonio bertolucci (2011) e juliana ingrid dias (2012), os três usavam capacetes quando foram assassinados mortos no trânsito.

3. não sou eu que vou fazer campanha para você usar ou não. a escolha é sua. mas se escolher usar ou não, que não seja por fatores estéticos. escolher usar ou não o capacete, ou escolher usar este ou aquele capacete, por uma questão estética… ai meu deus, essa é uma escolha séria demais pra ser feita em cima de um critério absolutamente fútil. você escolhe que remédio tomar pela cor do comprimido?

claro, tem gente que não quer “parecer ciclista”. mas eu acho que a melhor forma de não parecer ciclista é não pedalar. deixe sua bicicleta em casa, vá de carro. assim com certeza você não parecerá ciclista.

4. o uso do capacete pode aumentar os riscos que você sofre ou não. veja esse estudo sobre finas tomadas por um cientista, usando capacete, sem usar, e usando uma peruca de cabelos compridos para simular a visão de longe de ser uma mulher pedalando. as conclusões dele são de que usar o capacete pode ser mais perigoso: depois de um longo estudo, tomou muito mais finas usando capacete do que sem usá-lo. leia o estudo publicado no site da BBC clicando aqui.

5. o fato é que o capacete aumenta a proteção apenas contra suas próprias manezadas ao pedalar, e mesmo assim limitadamente. tive vários tombos sérios, um atropelamento, e uma agressão física séria enquanto pedalava. uma única vez o capacete tocou o chão, foi num tombo absolutamente imbecil, a menos de 4 kms por hora, que tomei na estrada de manutenção da rodovia dos imigrantes.

quando fui atropelado, quando me agrediram numa estrada no interior e me derrubaram, e em um zilhão de tombos, os ombros sofreram muito mais. e se um ônibus me atropelar, nem usando capacete de moto eu sobrevivo se o ônibus atingir minha cabeça.

6. mas mesmo assim eu uso capacete. usei de diversas cores. mas noto uma mudança de postura dos motoristas. há 10 anos, usar capacete colorido ao pedalar na rua causava um respeito maior. muito mais pelo capacete colorido ser visto de longe, do que por qualquer atitude (ir)racional do motorista.

mais recentemente, nos últimos 3 anos, usei 2 capacetes, um preto (que foi o que rachou no tombo em que bati a cabeça no chão), e hoje um branco e vermelho.

uso capacete hoje muito mais pra não ouvir gritos na minha orelha do que por acreditar na sua proteção.

7. a silvia ballan passa pelo mesmo. é incrível como motoristas tiram finas de nós quando pedalamos usando capacete, e como gritam na orelha da gente “olha o capacete!” quando estamos sem o mesmo. é o paradoxo da invisibilidade que vemos também na pedalada pelada: nus no trânsito prestam uma atenção danada na gente, usando roupas verde-limão tiram finas, não nos vêem…

sem capacete chegam a diminuir a velocidade pra gritar pra nós usarmos, mas usando o capacete passam muito perto!

sábado passado um motorista de idade chegou a tocar o retrovisor direito no guidão da minha bike – quase me levando ao chão – de tão perto que passou.

se você resolveu não usar o capacete, o problema é seu. se resolveu usar, também é problema seu. apenas espero que sua escolha não seja por motivos meramente estéticos.

e, para isso, listo algumas vantagens e desvantagens de alguns modelos usados:

a. capacete de moto: fechado, pesado.

b. capacete de skate: não tem ventilação adequada. e não tem aquela proteção atrás pra evitar o efeito chicote de um tombo de costas. falo daquele bico pra trás que quase todo capacete de ciclismo tem.

cadê a ventilação? ou é um balde com alças?

c. capacete de pista: ele é fechado, para ser aerodinâmico, e como é usado por pouco tempo, a ventilação pode ser suprimida. como o competidor espera suar, esse aspecto é irrelevante para seu uso em pista, mas não para o uso na rua.

zabriskie usando capacete de contra relógio.

d. capacete de contra-relógio: tem aquela imensa cauda atrás para melhorar a aerodinâmica. tem pouca ventilação. alguns modelos usados em triathlon tem alguma ventilação.  esquenta um pouco.

e. capacete de ciclismo de estrada e ou de mtb: basicamente o mesmo modelo, sendo que um tem viseira e outro não. na mountain-bike o ciclista fica mais ereto, e uma viseira não atrapalha a vista, e protege o nariz do sol. no ciclismo de estada a posição é mais inclinada, de modo que a viseira atrapalha o enxergar. então é melhor usar sem viseira. costuma ser o mais arejado de todos.

f. capacete de downhill. é quase um capacete de moto. então é pouco ventilado e fechado. não muito confortável no trânsito por causa disso.

g. capacete urbano de padrão europeu: coquinho, com viseira ou sem, bem colorido, às vezes revestido de tecido. é muito usado na europa e em cidades como nova-york. tem pouca ventilação, que é de fato irrelevante se você está pedalando abaixo dos 10 ou 5 graus celsius.

cool se você mora em londres, mas se mora em são paulo, é hot mesmo….

no brasil é usável no inverno, se você mora em cidades com porto-alegre ou curitiba. em são paulo não tem inverno de fato, a temperatura raramente está abaixo de 10 graus, e isso nunca acontece durante o dia, mas de madrugada apenas.

eu, ao escolher um capacete, uso como critério a ventilação. quanto mais ventilado, melhor para mim, pois não quero que minha cabeça vire uma paçoca. mesmo assim eu suo bastante, com capacete ou não, pois meus trajetos são sempre mais longos. meu sonho de consumo é um capacete catlike whisper verde-limão, que tem 39 buracos pra passagem de ar, mas nem a pau eu pago o que tão pedindo por ai.

não pago caro em capacetes.o atual é um bell, simples, sem viseira, que já saiu de linha, vermelho e branco.

aceito doações!

bom, faça suas escolhas. respeite as escolhas alheias. não caia na conduta altamente discriminatória de chamar quem está de capacete de “ciclista” e quem está sem capacete de “bicicleteiro”. são todos ciclistas. usar ou não capacete é escolha individual.

se resolver usar capacete, lembre que ele não protegerá você contra a imbecilidade dos motoristas. ele apenas protege contra algum tombinho besta, e mesmo assim com limites.

e lembre sempre do fator ventilação, muito importante num país tropical como o nosso. só há uma única pessoa no brasil que pode desconsiderar o fator ventilação, que já fez longuíssimos audaxes usando capacete de skate. e não é à toa que ela é conhecida como “a lenda” no mundo do ciclismo brasileiro….

em tempo, em eventos esportivos e alguns outros, o uso do capacete é obrigatório. se quiser participar deles, siga suas regras, o que inclui usar capacetes.

mas mesmo assim você pode morrer mesmo usando o capacete. em 2011, durante o giro d’italia, o ciclista belga wouter weylandt teve morte instantânea ao cair da bicicleta. e ele usava capacete quando morreu.

p.s. nem perca tempo fazendo comentários nesse post a favor ou contra o uso do capacete. repito, assim como não há consenso científico a favor, também não há contra seu uso. comentários apaixonados contra ou a favor serão todos deletados. em diversos fóruns a discussão rola solta, nos dois sentidos.

 

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18 Respostas para “o capacete!

  1. Só uma coisa a acrescentar no texto: capacetes tem validade de 3 anos.

  2. Rene José Rodrigues Fernandes

    gostei da idéia da peruca. vou experimentar uma com cabelos loiros e ruivo e testar diferença.

  3. Tava esperando esse post 🙂

  4. Interessante essa falta de certeza científica. Isso me lembra o livro Super Freakonomics onde compararam cadeirinhas para crianças nos carros com o bom, simples, barato e velho cinto de segurança e a velha invenção que levou um bocado de tempo para pegar (começaram fazendo painéis macios) ganhou de lavada.

    Quando a ciência não consegue chegar a uma conclusão a escolha fica para as experiências pessoais mesmo.

    Adorei o “não quer parecer ciclista não pedale”.

  5. Mode Troll On!
    Comecei minha viagem do Projeto Biomas com um Bell que custa uns 300 reais (claro que não comprei, se não tivesse ganho jamais teria pago tudo isso num capacete). Mesmo um capacete top, quem disse que eu suportava pedalar entre os canaviais com mais de 40 graus na cabeça?

    Logo nos primeiros dias tirei meu boné legionário da mala e ele passou o tempo inteiro na cabeça e garanto que ele me protegeu muito mais do que meu capacete, olha que levei uns tombos na viagem (sem tocar a cabeça no chão).

    Um outro fator que você não colocou é que com o capacete na cabeça, aumenta nossa sensação de segurança e abusamos mais. Aconselho qualquer ciclista que nunca pedala sem capacete a “esquecer” sem querer ele um dia desses. Vocês irão notar que suas atitudes defensivas serão bem maiores do que quando pedalam com capacete. Isso aconteceu comigo, acontece ainda hoje, quando pedalo com capacete e deve ter ocorrido com a maioria das pessoas que não usam mais o capacete.

    • de certo modo, coloquei, andré, ao dizer que ninguém deve se sentir seguro ao usar um capacete.

    • Creio que o argumento da sensação de segurança é mais verdadeiro no início, quando alguém acostumado a usar capacete deixa de usar. Com o tempo, a ausência do capacete se torna corriqueira e o grau de cautela tende a baixar.

    • questão diversionista, mas aí tem um ponto: é preciso se proteger do clima, estar apto a usar metrópoles (e isso implica sempre em estar trajado adequadamente), e combater a feiura.

      Capacete impede tudo isso, e longe de ser argumento fútil: é sabido que pedestres mais bem-vestidos são mais respeitados, ciclistas idem.

      Item de segurança fundamental é, não um mapa, mas a capacidade de ler a cidade em várias escalas cartográficas, não apenas de espaço mas tambem de tempo e velocidade, e conhecer suas peculiaridades para fazer escolhas mais acertadas de rotas. Capacetes parecem impedir isso, também.

  6. pedalo a 25 anos sem capacete! Quando comecei a pedalar nas ruas em 1987, meus cabelos voavam (ô cabeleira anos 80).
    faz uns 2 ou 3 anos que uso o capacete (1 X por semana) quando muitos “chatos nos seus carros” ficam me torrando:
    “põe o capacete moça”, “vc vai cair e está sem capacete?”, “ah, minha filha caiu e estava de capacete e não aconteceu nada”
    ô coisa

  7. Sempre pedalei de capacete e luvas. Já me acostumei tanto que uso até para ir à padaria. Comprovação cientifica à parte, fato é que ano passado levei um belo tombo de mtb, numa descida, a 50 km/h. Costurado e escoriado em tudo que é “ponta de osso”, nada nas mãos e apenas um ponto na testa onde o capacete imprensou a haste dos óculos. O capacete rachou todo.

  8. Muito bacana e completo o post. O mais importante é dismistificar alguns pontos. Por exemplo, no uso urbano, a importância do capacete é muito menor que em atividades como mountain bike ou ciclismo esportivo. Raramente alguém cai de bicicleta e bate com a cabeça – e, com freqüência, quando isso ocorre, há inúmeras outras lesões no resto do corpo. Outra é que o capacete SEMPRE protege. Pesquisadores dizem que, em algumas situações, o capacete pode agravar as lesões. E também a lembrança feita no post: o motorista pode ser mais agressivo em relação ao ciclistas quando este usa capacete. Costumo usar o capacete em trajetos mais longos, mas defendo a informação correta para que cada um tome sua decisão consciente.

  9. Bom, eu gosto muito da frase de impacto “Eu uso capacete para que você possa dirigir como um idiota”. Concordo que as chances de machucar a cabeça andando nas ruas é pequena e que quando sua cabeça vai para baixo de uma roda de ônibus não há capacete que resolva.

    Mesmo assim, como frequentemente pego 40 Km/h com a bike na cidade lembro do tombo que a Vivi levou na manutenção que deixou o capacete sanfonado.

    Parece que o capacete protege mais nos tombos autogerados, quando pegamos bastante velocidade e caímos sozinhos. Nos impactos com os carros, vi um médico relatar que a maior parte dos traumas está nas pernas por causa da altura dos bólidos.

    Vou continuar usando meu capacete por que ele é mais eficiente do que o boné para ostentar adesivos 🙂

  10. Aqui na minha cidade, Belém – PA, um ciclista que pedalava para indo para o trabalho levou uma fechada de um automóvel e caiu. Foi uma situação única, pois ao cair ele encontrava-se numa certa distância que fez com que seu corpo caísse próximo a sarjeta e a sua cabeça fosse de encontro a calçada… resultado, morte instantânea… se estivesse usando capacete, estaria vivo.

    • não fernando, infelizmente não estaria vivo. o capacete de ciclista não tem capacidade de proteger a cabeça do ciclista de um impacto como esse que causa morte instantânea. aconteceu aqui no sudeste o caso de fabiano nyenhuis que caiu sozinho numa trilha, com capacete e tudo mas meteu a cabeça numa pedra. se o impacto causa morte instantânea ele afunda o capacete e o crânio. é uma falsa segurança usar capacete e achar que está seguro nessas situações.

  11. Gostei muito do texto e dos comentários…
    Estou começando a pedalar agora, mas geralmente uso capacete, principalmente nos percursos mais longos… Acho que isso cria um certo respeito frente aos motoristas.

  12. Só o capacete não faz um ciclista!!! Concordo que a “aparência” de ciclista – falo pela minha experiência, só é levada a sério quando porta-se, também, um colete reflexivo, pisca traseiro e dianteiro acionados mesmo durante o dia. E, bem da verdade, sempre que vejo um “ciclista” de capacete, porém sem os piscas, fico de cara!!

    como sempre, é a atitude que faz o ciclista, o motorista, os pedestre…

    Abr

  13. Também uso capacete de skatista. Moro em Goiânia, mas meus trajetos têm menos de 5 km cada um, não dá tempo de esquentar a cabeça. kkk

  14. Pingback: 12 coisas que você precisa saber pra pedalar na cidade - Cadê o meu café?

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