bicicletada 10 anos: um balanço

hoje (na verdade ontem, dia 29, agora já é dia 30) realizou-se a bicicletada de 10 anos exatos. a primeira em 29 de junho de 2002, e essa em 29 de junho de 2012.

a foto é de hoje, mas a faixa é de 2002/2003. foto de juliana diehl.

quero fazer um balanço dessa bicicletada específica e desses 10 anos. acho a análise feita pelo meu amigo pablo a melhor de todas. ela pode e deve ser lida nesse link aqui. ela é importantíssima. sim, de alguma forma ainda somos autonomistas. mas talvez autonomistas pálidos.

é fato, enquanto éramos menos de 20 pessoas, o nível de discussão política era altíssimo. sim, éramos leitores de negri, deleuze, castoriadis. inclusive alguns de nós éramos mais autonomistas que ciclistas. ciclistas sedentários, como dizia o pablo. talvez, ali, naquele momento, só eu não fosse assim, por ser mais velho, por ter mais tempo de pedal, por já estar inserido no pequeno mundo brasileiro das bikes pra quem passou da oitava série.

mas isto de alguma forma se perdeu. sim, a bicicletada nos últimos 5 anos cresceu muito. mas também perdeu grande parte da “pureza” que tínhamos na sua pré-história. mas como o pablo, concordo que focar o local de alguma forma rendeu frutos. não os que queríamos, mas rendeu frutos.

em certa medida, conforme já descrevi aqui, é um resquício desse autonomismo original que se manifesta na miríade de coletivos e grupos. inclusive os que não citei anteriormente, os grupos mais esportivos, conforme reclamou hoje o labeda, com e sem razão. com razão pois eles existem e não são poucos, sem razão pois a prática esportiva não era a pegada da bicicletada. nem deve ser.

mas por outro lado, eu vejo o sedentarismo como uma das variantes da dominação capitalista. um sedentarismo que custa muito para se efetivar, e custa muito para se curar seus males. como exemplo cito uma amiga que sempre ia andar no parque, e um dia não foi andar no parque pois seu carro quebrou. andar era “esporte”, e não transporte.

eu não sou favorável ao fitness. às academias. minhas pernas, sempre comentadas, são resultado do meu transportar e do meu divertimento em cima da bicicleta, pela cidade. é o resultado do meu viver pela cidade. e assim é com muita gente que conheço.

mas infelizmente a grande parte dos usuários da bicicleta, e mesmo dos participantes da bicicletada, não consegue perceber o quão político é o uso da bicicleta. política vem de pólis, “cidade” em grego. política é o pensar e agir sobre a cidade. mas infelizmente se pensa que política se resume à luta entre os partidos pelo poder constituído. não se consegue perceber que não há neutralidade, não há atos neutros, do acordar ao dormir.

camille laurent, jovem francesa que pedala em são paulo até daqui a poucos dias, quando retornará à frança e terminará sua pesquisa sobre o uso da bicicleta em são paulo, manifestou sua angústia ao não entender a dificuldade dos paulistanos – na verdade dos brasileiros – em se organizar politicamente. a ela, pelo olhar estrangeiro, grita, salta aos olhos que o paulistano não se mexe pra nada. e de fato, ela tem toda razão.

é a nossa herança escrava, nossa mentalidade inculcada pela escravidão até pouco tempo atrás (escravidão abolida só em 1888) e mesmo assim ainda encontrada em tantos locais. daniel santini, outro ciclista paulistano, mas que conhece esse dado melhor que eu, pode dizer o quanto de trabalho escravo ainda há na própria cidade de são paulo. mas os principais resquícios de uma escravidão que era predominantemente doméstica ou de poucos escravos por senhor, é de se achar que as coisas se resolvem no jeitinho, no falar com alguém, alguma autoridade, e esperar que alguém dê jeito em tudo…

a ação direta, tão querida por mim e outros, é muito mal vista no imaginário brasileiro. muito mal vista. “gente que faz” é sempre gente que faz a favor. é só lembrar que se quer que empregado que está com salário (e contas) atrasado, pressionado pela fome, aguarde pacientemente, pois grevista é visto como bandido baderneiro. quantos não são pela criminalização das greves?

mlle. laurent ficará mais escandalizada ao conhecer melhor o brasil. como dizia tim maia, único país onde “puta se apaixona, cafetão tem ciúmes, traficante se vicia e pobre é de direita”. e não é isso?

claro, os ganhos da bicicleta ao focar o local e não o global não são nada desprezíveis. fiquei hoje feliz ao ajudar uma menina que tacou sua bicicleta no seu carro, veio lá do morumbi, pra participar da bicicletada. ficaria ainda mais feliz se ela viesse pedalando, mas está no começo ainda. não consegui resolver o problema do freio da bike da bela helô, mas ela pedalou e pelo jeito gostou muito da bicicletada.

também conversei muito com uma alemã que chama-se bartira (coisas de brasil, gente!) e também pedala há pouco em são paulo. também um tanto nova no mundo do pedal nessa cidade. é perceptível o aumento do número de mulheres na bicicletada. pra mim isso é bom.

mas é pouco. precisamos ir além. não se trata apenas de dar uma volta de bicicleta pela cidade, gritar “mais amor, menos motor” ou “menos carros, mais bicicletas” no estacionamento de um shopping center. não é aí que se faz a mudança. talvez o mesmo número imenso de ciclistas de hoje, pedalando nas ruas atravancadas e cheias de bares e restaurantes da vila madalena fosse mais eficiente na propaganda pro-bicicleta. mas é uma suposição minha.

acredito ser ainda muito pouco termos um número imenso de pessoas que episodicamente ocupa grandes avenidas. precisamos ir além, precisamos por exemplo questionar a ordem escravocrata que faz do motorista o senhor de escravos, e o ciclista ou pedestre o corpo disponível para qualquer abuso, ou simplesmente traste a ser afastado.

sintomaticamente voltando para casa junto com a amiga andrea sacco por pouco não sou agredido pelos ocupantes de um carro que tentaram me dar tapas na bunda. simples assim. andrea é testemunha. a agressão que quase sofri já foi sofrida por uma colega, a marina chevrand. duvida? leia isso.

sim, o paulistano é conservador. o paulistano é apolítico, privatista. e isso é uma desgraça, pois nem pela lógica conservadora republicana, não somos uma república, de “res publica”, coisa pública. não entendemos o público, o que dirá o autônomo

se somos autonomistas, querendo um mundo igualitário e sem autoritarismos, não percebemos isso na bicicletada. ainda não há uma percepção generalizada de que a liberdade individual é apenas um resquício da liberdade coletiva. ainda há quem pense que liberdade é soltar rojões na praça do ciclista, quando isso é apenas uma forma de se permitir que uma autoridade policial queira impedir a manifestação-festa por ser evento armado, mesmo que com arma imprópria, como é feito com torcidas organizadas.

bakunin sabiamente disse que a liberdade do outro estende a minha ao infinito. mas o que fazemos dela? essa é a questão. a turma do pedal verde usa essa liberdade, autônoma (livre e não subordinada) para plantar árvores pela cidade. alguns mais atirados pintam bicicletinhas pela cidade. pintam sinalização “ilegal”. intervêm no urbano. mas isso basta?

é pouco, muito pouco, pensarmos que apenas devemos ocupar o espaço urbano uma vez por mês fazendo uma festa, por mais subversivo que seja ser feliz numa cidade grande. mas ninguém se torna uma pessoa melhor por ser ciclista. mas se torna uma pessoa melhor se aprender a não assediar mulheres na rua, por exemplo. ou deixar de buzinar na frente de um hospital. estamos sendo cidadãos melhores? por mais conservador que seja o conceito de cidadania, esta pergunta é válida.

precisamos ir além. além da própria bicicleta. mas isso é trabalho para os próximos 10 anos.

—————-

em tempo. sempre vale à pena participar e conversar com as pessoas. essa é a parte mais divertida. conhecer pessoas novas. hoje conversei com várias: helô, bartira, tomaz, pra lembrar o nome de alguns.  e com os velhos amigos, vários, também conversei. isso é sempre bom. eu gosto. espero que outros gostem também.

——————————

por fim, sim, a bicicletada é mais um fragmento. movimentos sociais fragmentados, característica contemporânea. “novos movimentos sociais”, pra usar a expressão de habermas. mas será que a luta será apenas por afirmação de identidade?

————————————————————–

bicicletada gigante, hein gente? gente pra dedéu. nesse ponto gostei. gostei muito. gosto de ver tanta gente assim no pedal. é bonito. lindo. não pensávamos há 10 anos que teria tanta gente assim de bicicleta. é, de alguma forma estamos vencendo, não como queríamos, mas estamos. mas a história é de fato dialética. como diz a periferia: o barato é louco mas o processo é lento…

e só assim pra eu entrar num shopping. eca!

Anúncios

10 Respostas para “bicicletada 10 anos: um balanço

  1. Eu gosto!

    Em tempo> “é a nossa herança escrava,” Lindo: nunca tinha visto por este viés.

  2. Falando por mim e somente por mim, participo da bicicletada para celebrar a minha autonomia do dia a dia. A mudança nós fazemos ao fazer nossas escolhas diárias.

    Eu sou muito grato à bicicletada porque aqui em São Paulo é um dos raros momentos nos quais o apoio ao meu modo de vida não vem estritamente de dentro de mim mesmo.

    Em dois anos passei de “estrangeiro” excêntrico a alguém que busca alternativas saindo da caixinha.

    Ontem eu acompanhava a rádio de trânsito e ouvia algumas manifestações dos motoristas prejudicados com alguns bloqueios que fizemos e a locutora tratou a questão como se fossem vários pequenos grupos de ciclistas pedalando. Enviei uma mensagem esclarecendo que eram uns 300 ciclistas em um só movimento e que fechar cruzamentos é a forma mais eficaz de garantir a segurança de todos, mesmo assim ela não mudou o argumento tecnicamente correto de que a lei precisa ser respeitada.

    Muita gente ainda não “pegou” a ideia, muita gente ainda não entendeu do que se trata e muita gente realmente acha que somos pessoas que se reúnem para passear.

    Quando eu já estava em casa – não resisti, estava tão pertinho – o pessoal relatava as dificuldades na Rebouças (é assim que escreve?). Será que eles entendem que são 100, 200, 300 pessoas se deslocando e que essas pessoas SOBEM aquela rua mais rápido do que é possível subir nas duas carro-atadas diárias?

    Até teve aquele comentário do sujeito que perguntou o que a gente iria achar se invadissem os parques com carros. Eu, particularmente acharia o máximo. Empilhemos os carros nos parques e deixemos as ruas livres.

    O problema que eu vejo é que mudar essas coisas demanda organização, só que a organização centralizada traz problemas que talvez não desejemos ter.

    Well, obrigado São Paulo. Cheguei aqui analista de negócios, quando sair (porque notei que é prejudicial à saúde permanecer aqui muitos anos) voltarei um autonomista pregador do descrescimento.

  3. E como é chato o barulho dessas buzinas…

  4. Essa foi minha segunda ou terceira bicicletada. O que mais amei foi fechar o trânsito. Sinto um prazer S&M em “atrapalhar” os motoristas.

    Concordo que só a bicicletada não mudará o modo como São Paulo é hoje, carrocrata. Mas é um começo!

    Meu filho sente imenso prazer em participar desse pedal, apesar da imensa preguiça que sempre tem em pedalar. E isso pra mim já basta.

    Enquanto pedalamos por aí, sempre explico pra ele nossos direitos e deveres como ciclistas, do mesmo modo que sempre explico os direitos e deveres dele como ser humanos, como homem, como filho.

    Acho que toda mudança é lenta, mesmo. É um processo. E eu ainda estou aprendendo a ser autônoma, porque sim, sou muito acomodada… Mas tenho pretensões de mudar o mundo! Pra melhor, claro!

    • Tatiana, não é por aí. Dentro dos carros também há pessoas, que estão voltando para suas casas, para suas famílias, cansadas depois de um dia de trabalho. Não estamos nas ruas para atrapalhá-las, apenas para mostrar que os ciclistas também tem direito a estar lá. Esse “atrapalhar”, é apenas uma consequência de estarmos ocupando nosso espaço, mas devemos restringir ao estritamente necessário (não tomando mais pistas que o necessário, mantendo o grupo coeso). A tarefa de atrapalhar mesmo, melhor deixar para os próprios carros, que atrapalham-se uns aos outros. Não queremos tirar espaço dos carros, mas que os carros respeitem nosso espaço. Pode parecer sutil a diferença entre estes dois posicionamentos, mas é conceituamente grande. Bom, pelo menos é assim que eu vejo. Abs e bons pedais.

  5. “Belo texto” Oddin, concordo em gênero, número e grau. Infelizemente ainda não consegui implementar a bike na minha vida como gostaria, isso é fruto de um trauma que tive com um acidente de moto em que fui atropelada por um onibus, mais a longa distância e o trajeto que percorro todos os dias para ir para o trabalho.
    Por enquanto pedalo em fds em locais que me sinto mais segura,respeito e admiro as pessoas que se transportam de bike e tenho o grande privilégio de participar de momentos memoráveis como os da ultima bicilcetadas. É muito legal saber que existem pessoas como você, que mesmo nunca tendo me visto na vida foi com a maior boa vontade até meu carro me ajudar com o freio da bike, e ainda, aceitou com bom humor quando paguei a ajuda com um dipin lik, afinal de contas, quem anda de bike sempre vai saber o que é ser criança.

    • arranja um emprego melhor, ou seja, mais perto, linda! gostou de andar na bicicletada, né? sim, é preciso resgatar o lúdico nas nossas vidas. pensa bem, pedalar é bom! eu gosto de repetir sempre: “coloque mais diversão no meio das suas pernas! compre uma bike!” – hehehehe – e o dip’n´link é um clássico, né?

  6. hahahaha, só assim pra eu entrar num shopping ….eca!
    gostei
    🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s