bicicletada 10 anos: elas

quando aconteceram aquelas 17 tentativas de homicídio em porto alegre, quando um indigitado bancário usou o carro como arma e atropelou a massa crítica, eu soube logo depois, comunicado por uma menina.

horas antes, durante a bicicleta em sp (ocorrendo em outros locais do mundo simultaneamente) uma amiga liga lá da bicicletada em florianópolis pra dizer como estavam a coisas por lá, naquele dia a bicicletada em são paulo estava linda! e pelo jeito em florianópolis também, e em porto-alegre idem até ricardo neis aprontar das suas.

maíra

cito isso pra marcar um diferencial. ricardo neis: sexo masculino. é interessante que, em 10 anos indo a várias bicicletadas, muitas vezes tendo presenciado carros tentando passar à força por elas, eu nunca vi isso acontecer com uma motorista no volante, mas sempre com homens dirigindo. pode ser que tenha ocorrido e eu não tenha visto. mas são casos raros, a predominância desse tipo de violência é masculina.

sabrina

já vi mulher surtando no trânsito (uma motorista me chamou de pobre e retardado), mas nunca uma mulher tentou me dar um tapa enquanto eu pedalava. mas já tomei soco de homem passageiro, já fui atropelado por homem motorista – que me xingou enquanto eu estava no chão, ainda.

kelly

mulheres parecem não fazer isso. e na bicicletada, e nos diversos ativismos, elas têm uma forma diferente de agir. elas resolvem os conflitos de outra forma, que não o simples uso da força. mas pela comunicação.

silvia

a presença delas é essencial na bicicletada. a presença delas nas redes de comunicação (redes de comunicação são a grande característica de qualquer movimento social contemporâneo no mundo mais urbanizado) é essencial para a solução de conflitos, mas nem sempre como pacificadoras, mas como mediadoras e árbitras também, quando não participantes dos conflitos.

carol

elas mostram uma força diferente da força física pura e simples. já escrevi aqui sobre a resistência física feminina (que pode ser maior que a masculina em muitos casos), mas não é essa a discussão aqui. aqui não se discutirá quem pedala mais forte ou por mais tempo. mas quem pedala melhor.

juliana

qualquer urbanista sabe que um bom termômetro da civilidade do trânsito de uma cidade é a quantidade de mulheres pedalando. quanto mais mulheres pedalam no trânsito, mais pacífico ele é. pois, afinal, elas não tem aquele gosto por pedalar na marginal ou em grandes avenidas, ou descer estradas no pau… em resumo, elas não se candidatam frequentemente para demonstrar como a evolução da espécie humana se dá por tentativa e, principalmente, erro….

taíza

de fato, são mais inteligentes que os homens que pedalam. de fato, são mais influentes também. de fato, resolvem melhor os conflitos. de fato, desarmam muitos homens só com um sorriso.

nina

mas poderiam ser em número muito maior entre nós. e não o são não exatamente por um não acolhimento do grupo, que inclusive tem coletivos femininos bem atuantes. mas principalmente por uma forma de violência simbólica constante que pesa não apenas sobre a mulher ciclista, mas sobre todo o gênero feminino. o medo permanentemente instilado. a mania de ficarem falando “cuidado!”.

talita

a mulher ciclista não apenas recebe aquelas constantes admoestações que todo ciclista recebe (“cuidado! você vai morrer atropelado!”, p. ex.). mas ainda recebe admoestações constantes sobre uma violência sexual última que nunca se verifica. por que diabos então ficam falando pras meninas que serão estupradas se pedalarem por aí? elas recebem essas pressões de tudo quanto é lado, do pai ao ascensorista do prédio, do taxista ao professor!

verõnica

é nesse aspecto que as mulheres são mais fortes que os homens, ao pedalar nas cidades. elas enfrentam a pressão que todos os homens enfrentam mais essa pressão específica.

gabi

afora a pressão generalizada sobre o aspecto físico. que acredito seja hoje umas das formas mais perversas de opressão sobre a mulher, pois não se trata de discussões acerca da saúde, mas apenas e tão somente de aparência.

evelyn

o sistema é perverso: rebaixa a auto-estima para vender uma pseudo-solução. assim, milhões são gastos numa época para encrespar os cabelos, em outra época para alisá-los. milhões são gastos para injetar bolsas de silicone no corpo. milhões são gastos em acessórios, roupas e etc, cuja satisfação se dá nos segundos em que ocorre a compra, para depois virar frustração, dívidas… e novas compras!

renata

enquanto isso, outras fontes de satisfação, de prazer, que são as experiências de vida (viajar ou simplesmente pedalar na cidade na madrugada, por exemplo) lhes são negadas, proibidas e etc.

kika

a mulher-ciclista tem que furar todo esse gigantesco bloqueio antes de simplesmente colocar a bicicleta na rua… mas é incrível, elas furam! e duvido que grande parte dos homens que agora pedalam, fizessem o mesmo se tivessem que enfrentar as mesmas pressões. du-vi-do! duvido mesmo!

aline

e no entanto, também duvido que os movimentos a favor do uso das bicicletas nos centros urbanos do mundo tivessem a mesma cara que hoje têm sem a presença feminina. elas moldam esses movimentos. e trazem à discussão a questão do bem-estar, do viver melhor, do necessário ímpeto de ser feliz.

priscila

é fato, sem elas as bicicletadas do mundo seriam apenas pedais-ogros com ciclistas raivosos chutando portas de carros. e carros passando por cima… mas, ainda bem que não são, e isso devemos a elas. se temos algum sucesso, grande parte (a maior parte!) do crédito é delas. simples assim.

tarsila

em tempo: todas as fotos desse post foram colocadas sem autorização das fotografadas. são fotos que eu fiz ou  foram roubadas de seus perfis no facebook, de seus blogs, e etc. conheço todas e com elas tenho alguma forma de contato. e todas elas possuem alguma característica que eu admiro. a ordem de postagem é a da facilidade de eu localizar as fotos. não tem critério de importância, e as amigas que aqui não apareceram que deixem suas fotos mais acessíveis da próxima vez… hehe. mas eu deveria colocar muito mais gente, muito mais fotos. mas acho que todas as mulheres ciclistas do mundo estão bem representadas por estas cujas fotos aparecem aqui.

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21 Respostas para “bicicletada 10 anos: elas

  1. com certeza!!!!!!!!!!!!!! LINDO TEXTO!!!!!!
    minha mãe não deixava eu participar do night bikers, mas eu cresci
    e tchan tchan tchan… ninguém me segurou
    Quanda a gente acredita numa coisa verdade
    essa coisa nunca morre dentro de nós
    simplesmente
    um dia explode dentro de nós!
    O amor pela BIKE cresce a cada pedal, cada aventura, cada ventinho no rosto… a cada novo amigo e amiga!

  2. Que homenagem linda! E que mais e mais mulheres e meninas descubram o quão bom é pedalar !

  3. Há uma qualidade, rara em acto nas mulheres mas universal em potencia nas mesmas – no entanto inexistente em ato ou potência nos homens (salvo em alguns por emulação e esforço): embelezar o ambiente.

    Não quero dizer enfeitar. Quero dizer contaminar com sua graça tudo ao redor, fazer do homem com quem se está (como amigo ou como amante) mais charmoso, etc etc.

    É como uma tapeçaria de Fragonard na parede.

    E não deixa de ter a ver com os atributos que você aqui listou…

  4. Eu também acho que as mulheres possuem atitudes bem melhores que os homens!!! Tirando quando estão de TPM, é claro!!! Abraços, Ricardo.

  5. SILVIA N. B. OLIVEIRA

    aaaaah q lindo odir!!! adorei o txt, adorei as fotos! (em especial a minha hehehehe)
    pra variar vc mandou super bem!
    e q venham cada vez mais mulheres nas ruas pra dar um colorido de garra e graça por onde passam!

    bjinhus e brigada pela homenagem!!! ^^

  6. Muito obrigada! Sou francesa e moro no Rio, já morei em Sao Paulo, e onde vou tento andar e promover o uso da bicicleta como o melhor meio de transporte do mundo…Eu a uso desde que tenho 10 anos….Sempre foi parte da minha vida, da minha qualidade de vida, do meu ser…é um grande prazer…Porem, muitas vezes e muita mais aqui do que na França, quando estou no “transito”, tenho a sensacao de ser ninguem…onibus aqui no Rio é o pior…mais todos os otros…tantos..passam a meu lado como se nao existisse…e varias vezes achei que nao fosse mais existir mesmo…sem falar dos poucos estacionamentos ou predios com bicicletarios….parece ser uma doenca estar de bike…pelo menos se eu pudesse contaminaria a todos!!…vamos pessoal sair do seu carro…sair dos seus preconceitos e pedalar! respirar o ar ouvir os passarinhos…Ao mesmo tempo, me sinto muito libre, e existem tb muitas pessoas super simpaticas e respeituosas…e isso sempre faz abrir um grande sorriso, bato um papo, e continuo meu caminho feliz da vida! Comprei há 2 meses uma dobravel bem pequena, muito boa, consigo leva-la no metro a qualquer hora depois de dobra-la ( só tive que bringar com cada estacao…para explicar que ela acaba tendo o tamanho de uma mala…!!) e muitas pessoas gostam e ficam impressionadas e me pedem informacoes sobre onde a comprei etc.!! Não vou desistir!…vamos multiplicar!!..Parabens a todas as mulheres..todos os ciclistas urbanos do BRasil!

  7. muito obrigada, professor ❤

  8. Maravilhoso texto! Parabéns…
    Eu também amo as mulheres… Especialmente as que andam de bike comigo… Hahaha

  9. Linda homenagem … Bjs

  10. Sensacional!!

  11. puxa, emocionô! e pensar que consegui conhecer muitas das fotografadas… bem incríveis mesmo cada uma delas, cada uma dum jeitinho próprio. um beijo

  12. Amei Odir, muito linda a homenagem! Chorei de emoção 🙂
    Beijos

  13. Lindo texto. Lindas fotos. Bela homenagem.
    Obrigada, Odir.
    Nos vemos hoje a noite.

  14. Lindo!!! E quanta ciclista linda!!!!!! Amei essa homenagem para as meninas ciclistas!

  15. As mulheres deixam tudo mais lindo… e esse seu texto deixa tudo mais lindo ainda! Obrigada querido. Você como sempre nos surpreendendo!

  16. Perfeito, Mais amor menos motor.

  17. Uma mensagem e tanto, um agrado tao sensível e verdadeiro! Lembrando que as mulheres tem participação desde os primórdios dos tempos das bicicletas! É claro que nao há jardim perfeito sem as flores, então parabens, e vamos pedalar,pedalar pedalar…

  18. pô, que post bonito, odir! 🙂

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