bicicletada 10 anos: a primeira massa crítica.

com o cu na mão!  era assim que se pedalava na paulista no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.

a polícia e a CET, ali atrás, pra tentar descobri quem era o líder responsável e proteger os cidadãos de bem daquela meia dúzia de perigosos gatos pingados de bicicleta. mas prender ladrão que é bom….

não só os carros. não era só busão se jogando pra cima de você, gente mandando você ir pedalar no parque, no mato, na puta-que-o-pariu que não fosse a rua, ainda mais a paulista!

já tinha night-bikers, já havia outros passeios noturnos organizados, bonitinhos. mas cazzo!, a paulista era campo de guerra! ali não podia!

mas por quê? tem que puxar lá pra trás…

desde os anos 30 tem movimentos autogestionários em são paulo. nos anos 70, 80 e 90 a autogestão passa pelo movimento punk. e autoritarismo, bom, isso tem no brasil desde sempre.

mas após a queda do muro de berlim (bem na verdade, desde maio de 68) os movimentos sociais mudam de feição. com a queda do muro temos um escancaramento da exploração capitalista, a bem da verdade os pobres do mundo inteiro enfrentam novas formas de pobreza… em um tempo de discursos de “reengenharia”, “downsizing”, terceirizações, o que sobrou pros povos do mundo foi: desemprego, desemprego, desemprego…

mas se governos e grandes corporações estavam irmanados no mundo inteiro, os povos também se uniram pra reagir. não à toa vemos a eclosão zapatista em 1994 no méxico. em 1998 foi fundada a AGP, a ação gerado dos povos, e em 1999 aconteceram os violentos protestos em seattle durante a reunião ministerial da OMC.

e no brasil?

em 26 de setembro de 2000 protestos na frente da bolsa de valores. 39 manifestantes são presos. em 20 de abril de 2001 (o famoso a20), os protestos contra a criação da ALCA em quebec, geram uma batalha campal na avenida paulista: 79 presos. mais de 100 feridos. 10 torturados.

isso pra citar apenas duas manifestações. ocorreram diversas outras. uma delas importantíssima. em 20 de julho de 2001 5 mil pessoas se manifestam na avenida paulista contra as reuniões do G8 em gênova, na itália. no mesmo dia, em gênova, um manifestante, carlo giuliani, é morto pelas forças policiais. 3 dias depois o consulado intaliano em são paulo é bloqueado por 4 horas por 300 manifestantes.

muitas destas manifestações eram violentas. não violentas por parte dos manifestantes, mas por parte das forças policiais, sempre empenhadas em restringir os direitos de manifestação. mas as manifestações em si eram criativas. a de 20 de julho de 2001, em são paulo, contou com patinetes, fubebol e inúmeras bicicletas. veja abaixo o cartaz que a convocou:

a rua é de todos!

note que já se usa o termo “bicicletada”, e não exatamente com o significado de passeio. mas o termo “bicicletada” já era usado nos anos 90, por exemplo, por sérgio beck, editor e principal redator da lendária revista “aventura já”, com o sinônimo daquelas pedaladas rurais longas, cicloturismo puro.

mas, se de um lado havia toda essa organização anticapitalista por trás do uso da bicicleta, havia também os que pedalavam por que… pedalavam!

e onde estavam? também se organizavam pela internet, e essa organização era a bikeonelist, uma lista de e-mails do yahoo, que na virada dos anos 90 pros 2000 congregava todo mundo, todo mundo mesmo, que tinha acesso a internet e pedalava. da bikeonelist saiu também a bicicletada, mas também o clube de cicloturismo, os clubes de audax, e mais um monte de coisas. todos os nomes hoje consagrados no ciclismo nacional andavam por lá. todos!

eu frequentava os dois meios. mas não só eu. um monte de gente. e uma hora, lá no ICAL, o instituto de cultura e ação libertária, que ficava ali atrás da estação vila madalena do metrô, numa daquelas rodas em que organizavam-se protestos, ações e etc. o pablo falou da massa crítica de san francisco.

e eu entrei na conversa. adorei ouvir sobre aquilo. começamos ali as conversas sobre a massa crítica.

logo no começo de 2002 a primeira lista que trata do assunto (antes da lista bicicletada-sp no riseup) começa a funcionar e começam as conversas. em 27 de junho de 2002 eu mando um convite na bikeonelist, ainda por cima dizendo que eu não ia… mas fui.

em 29 de junho ela aconteceu. a primeira. num sábado de manhã. com um carro de polícia seguindo todo mundo. e o relato de um dos participantes – não meu – está nesse link aqui.

note, ao ler o relato, que apareceu polícia, CET, e até a rede globo. sabe por que, né? nossas listas eram vazadas, furadas, e policiadas, pela polícia sim. é, sempre foram. por isso muitas das discussões eram presenciais, em outros locais. o que era importante mesmo não rolavam em listas. e você não vai achar na internet.

bom, o resultado está aí. 10 anos depois que pouco mais que 10 pessoas fizeram a primeira bicicletada ela reúne centenas de ciclistas aqui em são paulo ou em outras cidades. estamos aí nós, que pedalávamos, ouvíamos public enemy,  rage against the machine e líamos império e sem logo, estamos vencendo.

e num outro post, se o joão américo me ajudar, eu conto da bicicletada muito louca em que fomos parar ali no meio do bixiga e conversamos com uma senhora negra muuuuito idosa que colou na gente e começou a falar do futuro do joão… e ela acertou tudo! “sinistro”, como diria o aleba!

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6 Respostas para “bicicletada 10 anos: a primeira massa crítica.

  1. Odinn, infelizmente ainda acho que não estamos vencendo, embora hoje aparente ser melhor que ontem… sou bem pessimista quanto a isso.

    • lívia, quando fazemos um retrospecto mais amplo, de década ou mais, a mudança é visível. não consolidada, mas visível. no mundo inteiro, nas grandes cidades, decresce o interesse pelo automóvel. são muitos fatores envolvidos, a bicicleta é apenas mais um deles. nesse sentido sim estamos vencendo. se vc pensar que a indústria automobilística só consegue vender pois tá tendo incentivo fiscal, dá pra perceber. é que estamos naquele momento crítico de auge (e início de declínio) de uma visão de mundo e crescimento de outra. tempos interessantes! daqui a algumas décadas será talvez até estranho contar pros netinhos como foi o início de tudo…
      bom, eu sou um otimista. insano até, pois ando de bicicleta em sp… se não fosse, não estaria nessa há tantos anos. persisto. e sim, estamos mudando o mundo. como se diz na periferia, com sabedoria: “o barato é louco mas o processo é lento…”

  2. Concordo contigo. Na verdade, sim, eu vejo as pessoas desejando outras coisas, avaliando seus conceitos, adotando outros modelos de vida (eu mesma fui uma que passei a ver carros e o uso dele com outros olhos, em parte porque fui buscar saber do que se trata uma massa crítica, do que se tratam essa e outras movimentações). Mas eu também vejo, antes de mais nada, reações muitas antes do turning point, por assim dizer. Sei lá, ninguém vai desistir tão fácil. Mas antes de desistir, o trânsito pára, né? Tudo colapsa. Então, de fato, você tem razão. Deve ser só uma questão de tempo até vencermos por ninguém ter mais outra escolha…

  3. Acho que vocês se dão muita importância…
    Comparar esse passeio de bicicleta com protestos importantes é como se eu quisesse comparar minha corridinha de domingo com as Olímpiadas!

  4. Pingback: bicicultura 2016 SP: por que ir | as bicicletas

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