bicicletada: 10 anos de massa crítica no brasil

dia 29 de junho, sexta próxima, na próxima bicicletada, fará 10 anos exatos da primeira bicicletada. sim, 10 anos.

ousar viver uma das diversas formas de amor na megalópole. foto de autumn sonichsen.

em setembro, em san francisco, 20 anos de bicicletada por lá.

essa semana coloco pelo menos um post ao dia sobre a bicicletada brasileira. é tempo de começar a resgatar as histórias.

mas vamos pelo fim. o que resultou destes 10 anos? comecemos pelo mais importante: as pessoas. podemos começar a dizer que realmente pedalar hoje pela cidade tá melhor que há 10 anos. o trânsito mais travado deixa tudo mais seguro pra nós ciclistas. podemos dizer das ciclo-faixas dominicais que permitem novatos mexerem-se aos domingos, podemos dizer de algumas ciclo-rotas sinalizadas por aí. nada disso havia há 10 anos.

mas ainda há muito, muito mesmo a se fazer de modo a tornar a cidade de são paulo de fato ciclável, plenamente ciclável, e não apenas ciclável para ogrinhos do pedal que pedalam em qualquer circunstâncias. não, esses ogrinhos (eu inclusive) não servem de parâmetro. ainda não é razoavelmente seguro para todo mundo pedalar na marginal, por exemplo. mas deveria ser, numa cidade ciclável.

mas houve sim uma mudança. uma mudança brutal que só pode ser vista por quem tem olhos de ver. claro, como diz o teorema do chifre, o desconhecimento não implica na inexistência.

o que há de diferente? oras, o povo da bicicleta! 10 anos depois, criou-se em são paulo uma quantidade de gente, grande, com características comuns, que são características sobretudo urbanas, civilizadas, avançadas do ponto de vista de uma série de critérios caracterizadores do que seja cidadania, civilização, e etc.

o povo das bikes, é como chamo. como se definem essas pessoas?

– primeiro, há uma característica intrínseca a qualquer um que se meta a pedalar pela cidade. há um otimismo insano. pois se não houver, não se coloca a bicicleta na rua.

– segundo, uma abertura para o novo. por que arriscar uma receita inédita na classe média, se o caminho seguro de se endividar e engordar sentado no carrinho é a mainstream? é o caminho que todos aí fora, todos os de lá, dizem ser o correto? arrisca-se também pela novidade, pela sensação de liberdade, pelo lado hedonístico que cerca o pedalar nosso de cada dia.

– terceiro: a visão ampliada da realidade é característica do povo das bikes. sim, como diz a kika, bike é óculos privilegiado pra ver a realidade social. joão lacerda amplia: bike é óculos pra ver toda a realidade! o que vemos nos afeta, de uma forma ou outra.

– quarto: e aqui o mais importante: uma empatia, uma abertura ao outro. ou como diria heidegger, a transcendência ao outro. uma transcendência horizontal. usando uma expressão de jeannette a. maman: “ser-aí-no-mundo-com-os-outros”. sim, somos ser-aí, somos este ou aquele humano, e não o ser humano genérico ideal. somos eu, somos o raphael, ou a letícia, ou o felipe. cada com suas individualidades, mas com a percepção de estar no mundo (e não fora dele), e estar no mundo com outras pessoas. jungido a elas.

isso gera um grupo, uma quantidade não desprezível de pessoas que não apenas montam em suas bicicletas por aí, mas fazem disso uma escolha de vida. fazem disso uma identidade coletiva. e não neutra em relação ao mundo, mas com ela interagindo, de uma forma que, ao menos nas propostas, é positiva.

por isso no entorno do “planeta bicicletada” nós tenhamos tantos coletivos, associações, grupos e etc. são pelo menos duas associações (instituto cicloBR, associação ciclocidade), vários coletivos (bike-anjos, coletivas, pedalinas, só para citar 3) e mais um monte de gente que atua das mais diversas formas não apenas pela bicicleta, mas pela cultura da bicicleta como uma parte de uma ideologia centrada no direito à cidade.

é esse o ponto. o direito à cidade. o direito à cidade não é individual. é coletivo, e o povo das bikes tem percepção disso.

são pacíficos. mas claro, são humanos. uma rusguinha aqui e ali ocorrem. de vez em quando alguém trolla os outros. mas os conflitos internos permitem a formação de uma identidade.

mas quem são essas pessoas? são todos, de todos os perfis. o que une é a bicicleta (e o que advém de seu uso), mas não a origem. brancos, negros. homens, mulheres. heterossexuais, homossexuais. níveis de escolaridade os mais diversos. níveis de renda também.

mas o perfil imensamente diverso não impede a convivência pois, pautada pela bicicleta, outros caracteres distintivos de classe não têm a mesma força. a realidade comum permite o diálogo, mesmo que assimétrico. permite trocas, mesmo que assimétricas. permite admirações mútuas. e trocas não restritas à bicicleta, mas a formas de vida: trocam-se receitas de comidinhas mais saudáveis, de como fazer coisas em casa, de endereços de locais interessantes, de produtos de características diferentes. trocas no mais das vezes gratuitas, como o que ocorre na oficina comunitária mão-na-roda.

aliás, isso não é algo restrito a são paulo, mas presente em diversos locais. apenas o colorido é local. aqui no brasil são necessárias oficinas episódicas para consertar bicicletas em locais mais carentes, por exemplo. mas em paris a oficina comunitária é permanente, mas fisicamente fixada. mas o interessante é que essas trocas, mesmo que assimétricas, não sejam de todo mercantilizadas.

gosto de brincar e dizer que nesse povo a diferença não é o preço da bike, mas a perna, e essa não se compra. e de fato é. assim, temos uma subversão do padrão que impõe as relações mercantilizadas. o motorista de carro não conversa com o carrinheiro, que puxa seu carrinho cheio de papelão e outros artigos a serem reciclados. mas quantos de nós não tem o costume de parar no farol e conversar com eles? isso é comum, relatos assim são comuns. e isto decorre da abertura ao outro, possível pois derrubada a barreira do dinheiro.

o povo das bikes é aberto, e é pacífico. a bicicletada tem 10 anos sem ter qualquer liderança e nunca, entre seus membros, saiu uma briga daquelas onde voam socos pra tudo quanto é lado. há rusgas? há. há discussões e bate-boca com motoristas agressivos? há. mas nunca uma u-lock mirou outro ciclista.

não podemos fazer o mesmo tipo de observação acerca de jogos de futebol dos finais de semana. das peladas. em quantas delas não saem tapas pela disputa? entre o povo das bikes essa disputa (tão humana!) é amainada.

claro, podemos ter as mais diversas explicações para tudo isso. daquelas afeitas aos conceitos da política ou da psicologia social às mais místicas, mas os próprios membros do grupo reconhecem essa característica: uma nova forma de ser paulistano, sem deixar de gozar a cidade, sem deixar de ter seus pequenos e idiossincráticos prazeres, mas sem devastar para isso obter.

posso dar dois pequenos exemplos da noite de ontem. um grupo percorreu um monte de quermesses. para comer, isso mesmo, para pular de uma barraquinha à outra. se pode fazer isso de carro? foram pedalando. curtiram adoidado, não congestionaram o trânsito da cidade, não poluíram, mas sobretudo, divertiram-se de uma forma que carrólatra nenhum consegue.

um outro grupo, de quase 200 pessoas fez uma festa. festa de arromba, como se diria há anos atrás. sem nenhuma briga. muita bebida? sim. muita! mas onde há tanta bebida e não saem brigas? onde se pode fazer uma festa desse tamanho com um único banheiro sem que haja disputa nas filas? pois é, a melhor definição dessa festa é a frase do maurício:” Festa ótima com gente ótima que eu só conheci porque há 3 anos troquei o carro pela bicicleta.”

a bicicleta humaniza. esse é o detalhe. humaniza. andar a pé humaniza. como bem rememorou o roger:

“Quinta passada vi um adesivo em um carrão, escrito:
‘Vamos humanizar São Paulo”” Dentro do mesmo dois homens engravatados, o passageiro fumava.
Estava logo atrás de bike, a vontade que me deu de falar, foi;
Pedale ou vá á pé para humanizar.”

e 10 anos depois que as pessoas passaram a se reunir mensalmente para reivindicar o seu direito à usar a cidade por meio da bicicleta, e celebrar o prazer de se estar vivo, esse tipo de visão social, que antes era atributo de um ou outro visionário solitário, hoje é senso comum entre o povo das bikes. é isso que caracteriza o efeito civilizatório da massa crítica: a visão avançada e progressista ser incorporada. tornar-se senso comum. ser a visão de todos.

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nos próximos posts vou recuperar um pouco de história. de como já no final de 2001 se pensava em tudo isso. a bicicletada antes de ir ás ruas foi antecedida por muita discussão acerca do que é, ou o que deveria ser a vida de todo mundo, menos esmagada por uma série de pressões econômicas. mas antes era uma discussão de poucos, hoje é prática de muitos! é isso que é fantástico!

viver a vida de outra forma, tendo experiências intensas não endividando-se por 3 anos para pagar uma excursão na áfrica, mas ali, no quarteirão de cima, na rua de cima! ser capaz de fazer as coisas de outra forma: transformar a ida de são paulo a santos numa epopéia divertida por bairros diferentes, por áreas diversas, por outros ângulos.

conseguir chegar todo santo dia ao seu trabalho com uma dose de bom-humor que é diferente da mentalidade dos demais. com uma energia que é diferente da energia dos demais. ler o mundo de forma diferente. é isso que o povo das bikes faz, seja em são paulo, porto-alegre, san francisco, curitiba, paris, salvador… pois somos todos humanos, mas a bicicleta nos faz lembrar disso todo santo dia, inclusive na faceta mais negativa: somos mortais.

sim, o trânsito nos faz lembrar que somos mortais, e que nossa vida depende da ação dos outros. por isso cada vez que morre um ciclista atropelado a dor seja tanta. o outro, ali morto, é também uma das minhas possibilidades.

a bicicleta dessa forma nos permitiu ter contato com os duros aspectos da vida humana: eros e tânatos. e isso é vida plena, não amortecida, chapada, entorpecida… para usar uma historinha do filme “matrix”, o ciclista tomou a pílula vermelha. a vida do ciclista é no mundo real. para o bem e para o mal.

e isso tudo não passaria de experiências individuais sem que houvesse essa grande reunião de pessoas assim. é essa reunião o fato novo. a injunção dessas pessoas e sua predisposição a tornar o mundo melhor. é… ciclistas são o futuro.

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a bicicletada/massa crítica está aí. dia 29, a partir de 18 horas na praça do ciclista em são paulo, em diversas outras cidades do brasil também. apareça, traga sua bicicleta, seu sorriso, seu bom-humor, sua urbanidade, sua vontade de viver e ser melhor, mais humano. não se surpreenda se alguém lhe der flores. e por que não? distribua flores também. é preciso mais cores no concreto cinza das cidades, e não o vermelho do sangue dos ciclistas e pedestres, mas tantas outras cores! vale até pintar a cara com guache verde!

traga sua alegria e venha ser feliz! e claro, não procure o chefe, pois ele não existe. venha ser feliz!

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9 Respostas para “bicicletada: 10 anos de massa crítica no brasil

  1. Muito bom, vou acompanhar ansiosamente a retrospectiva durante a semana! Só uma correção: no final do texto, a data é 29, não 28.

  2. êba! os novatinhos, como eu, agradecem a postagem (e a sequência q virá) sobre a história da bicicletada. sempre tive amigos que iam à bicicletada, mas eu mesma só comecei a ir no ano passado – até então não andava de bike pq tinha pavor do trânsito de sp e achava q não ia conseguir (hoje, graças ao Silas q me “bike anjou” por aí, já consigo encarar muitas das ruas de sp em cima da bike – a vida muda). sempre achei a bicicletada super importante pra cidade e tiro o chapéu pra galera q a fez/faz acontecer em sp.

  3. Resumirei tudo isto aí que descrevestes Odir em uma unica palavra:
    FANTÁSTICO

  4. Parabéns a bicicletada São Paulo e a todos nós ciclistas ativos de nosso país. Acompanho a bicicletada pelo lista(e-mail) me divirto muito. Valeu!!!

  5. Parabéns! E é verdade! Certo dia saí para pedalar de manhã, bati na traseira de um carro, continuei pedalando até a ciclovia de Rio Pinheiros, fui arrumar minha bicicleta, quebrei a gancheira de alumínio, tinha as ferramentas para arrumar a bicicleta ao menos para voltar para casa e sabia fazer o serviço. Então, experimentei algo que ainda não havia experimentado há muito tempo, andar de single-speed (a minha mountain, mesmo, pois encurtei a corrente para pedalar sem o câmbio, que retirei), testemunhei mais uma vez a cooperação entre ciclistas quando um que passava perguntou se eu precisava de ajuda e me indicou uma bicicletaria alí perto (Ciclourbano; Travessa da Doutor José Alves de Souza Neto, 49, para os que precisarem ou quiserem conhecer) onde eu poderia conseguir uma gancheira nova. Acabei, daí, conhecendo uma bicicletaria super legal numa casinha de vila, onde fui muito bem atendido. Não tinham a gancheira, mas voltando para casa encontrei numa outra bicicletaria – uma alegria incomum, sabem aqueles que já tiveram uma gancheira quebrada, tão difícil de encontrar, ainda mais no mesmo dia em que a quebrou. Cheguei em casa e ainda tive o prazer de desfrutar do labor de saber e ter as ferramentas para, novamente, arrumar minha própria bicicleta e botá-la para funcionar direitinho. E mesmo depois de tudo isso e de ter me proposto a pagar pela peça que quebrei do carro da motorista (somos civilizados, a final de contas; eu poderia tê-la deixado com o prejuízo, pois tinha trânsito), considerei aquele um bom dia pelas pequenas mas valiosas experiências que tive. É… tem coisas que o dinheiro compra, mas muitas outras só andando de bicicleta, mesmo!

  6. Reblogged this on Pescandoluzes.

  7. Oi, gostaria de confirmar o horário e dizer que estou dentro, e convocarei meus amigos.

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