12 de junho e a bicicleta

eu não deveria contar essa história, mas vou contar. a pessoa não me autorizou, mas vai entender, pois sabe que é para que outras pessoas não passem pelo mesmo.

ensinei uma pessoa adulta a pedalar há algum tempo. não conto quem foi. havia um misto e vergonha no seu olhar. tinha que ser de madrugada, num certo local da cidade. ensinei. ela aprendeu. num dia. ou melhor, numa noite. mas depois a pessoa chorou por horas.

é normal ver adultos emocionarem-se por aprender a pedalar. são muitos os motivos pelos quais não aprenderam quando criança. falta de bicicleta, falta de dinheiro, medo dos pais. mas o motivo que mais me deixa puto, puto da vida mesmo, foi o motivo pelo qual essa pessoa não aprendeu. ela não teve infância.

3 anos de idade, e trabalho penoso. que futuro há nisso? clique na imagem.

ela não lembra de brincar. já nas suas mais antigas lembranças, ela trabalhava. pra comer. para viver. alfabetizou-se já com mais de 20 anos. fez supletivos. e em muitos momentos reconheceu-se como uma pessoa amarga, agora não mais, feliz, em sua bicicleta.

12 de junho é o dia de combate ao trabalho infantil. trabalho infantil é uma forma perversa de escravidão. escraviza no presente, escraviza no futuro.

criança tem que brincar. brincando ela desenvolve o corpo, desenvolve o cérebro. ouvindo estórias e criando estórias, em seu mundo de fantasia ela desenvolve o raciocínio abstrato, a capacidade de entender, imaginar, projetar, visualizar e, por fim, realizar.

brincado a criança desenvolve seu físico. seus músculos, seus tendões, sua capacidade respiratória. fazendo uma atividade repetitiva, quebrando pedras, ela não desenvolve o corpo inteiro. só uma parte, em desequilíbrio.

ajudar a mãe lavando louça é uma coisa. lavar louça de uma casa de família, do momento em que acorda ao momento em que cai de sono, é outra coisa. passar o dia quebrando pedras. carregando peso. ou até o cúmulo da maldade, servindo sexualmente adultos, tudo isso transforma uma criança num adulto triste. duro. amargo.

a gente mede o desenvolvimento de um país pela situação dos mais vulneráveis: os idosos, as crianças, os condenados. o que mede nosso país são nossas cadeias, nossos asilos, nossos orfanatos, nossos campos de trabalho infantil, nossas crianças que chegam à fase adulta com dedos faltando, perdidos em máquinas de desfiar sisal….

eu queria ter publicado esse post hoje de manhã. mas não queria acabar com o dia dos namorados de ninguém falando de um assunto espinhoso. mas é preciso sempre lembrar desse assunto. pense nisso. pense no trabalho infantil. e se puder, sempre dê uma bicicleta a alguma criança que não a tenha. crianças que andam de bicicleta viram adultos seguros, equilibrados, confiantes. crianças a quem se nega esse prazer carregam tantas mágoas!

sempre que puder ajude uma criança a andar de bicicleta. custará pouco tempo da sua vida. mas gerará tantas alegrias!

e depois que ela crescer, doe a bicicleta para outra criança. e antes de doar, faça uma pequena revisão. não doe lixo, doe uma bicicleta. vai custar alguns míseros reais a revisão de uma bicicleta de criança. a regulagem dos freios, a troca de sapatas, uma limpeza, um selim plástico novo, talvez uma câmara nova. não custa nada, quase nada pra quem tem dinheiro pra ter internet e pode ler esse blog. mas é de tanto valor àquela criança que estará recebendo essa doação!

o peso causa dores, gerará problemas futuros. clique na imagem.

e sempre que puder, converse com as crianças que conhece, principalmente as mais pobres. dê lápis, dê cadernos. mesmo que sejam pra desenhar, rabiscar. nada que a criança faz é besteira, sem sentido, tudo pode ter jeito de brincadeira, mas é aprendizado. crianças mais felizes serão adultos melhores. lembre disso.

e não só hoje pra pensar no trabalho infantil. é todo dia. compre produtos certificados contra esse trabalho. também é uma boa ajuda. sabe, no brasil ainda tem muito trabalho escravo. muita gente humilde, em situação de vulnerabilidade, sendo explorada. se você se incomoda ao ver alguém maltratando um cachorrinho ou gatinho, lembre que isso também acontece a crianças. mas elas ficam adultas, e devolvem ao mundo o que receberam.

ainda com a chupeta e já carregando sisal - clique na imagem.

ainda com a chupeta e já carregando sisal – clique na imagem.

ajude uma criança a pedalar, ensine. você estará plantando felicidade, fazendo o mundo melhor. e o mundo precisa sim melhorar.

em tempo, a pessoa que ensinei a pedalar durante a noite mora em outra cidade agora. disse-me que pedala todo dia. tomou um tombo, ralou o joelho e  chorou de felicidade ao ver o joelho ralado. uma coisa tão prosaica, mas que nunca acontecera na sua infância. é..

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5 Respostas para “12 de junho e a bicicleta

  1. 12 tambem é Dia dos Namorados, por ser véspera de Santo Antonio – isso nos diz respeito quer pela intensa festa do Santo Antonio Alem do Carmo, em Salvador, quer porque é uma data pedestre: o Largo Dois de Julho coalhado de gente indo comprar flores, um menino sentado no chafariz dos Aflitos solitario com uma rosa nao menos solitaria ao seu lado, aguardando a namorada.

    Sobre como o amor é uma tecnologia urbana, escrevi aqui – http://ultimobaile.com/?p=3574

  2. 12 tambem é Dia dos Namorados, por ser véspera de Santo Antonio – isso nos diz respeito quer pela intensa festa do Santo Antonio Alem do Carmo, em Salvador, quer porque é uma data pedestre: o Largo Dois de Julho coalhado de gente indo comprar flores, um menino sentado no chafariz dos Aflitos solitario com uma rosa nao menos solitaria ao seu lado, aguardando a namorada.

    Sobre como o amor é uma tecnologia urbana, escrevi aqui – http://ultimobaile.com/?p=3574

    (publiquei, sem querer, pela conta do namorado. Que belo ato falho! – sim, pedala tambem)

  3. Não sabia que estas datas convergiam…

    triste, mas verdadeiro. posso afirmar que já ensinei umas 5 crianças a andarem de bici, pelo menos!! Acho que esta é uma satisfação, não de um pai, mas que qualquer adulto são deve experimentar na vida!!

    Abr

  4. De: “Lucas Jerzy Portela”

    Dia dos Namorados, véspera de Santo Antônio, é uma data pedestre – seja pela festa no Além do Carmo (a maior junina em capital do país, negra e lusitana como só Salvador), seja pela quantidade de gente indo ao Largo Dois de Julho ontem fim de tarde comprar flores.

    Ao por do sol, vi inclusive um rapaz sozinho, num banco do chafariz dos Aflitos, em não menos aflita espera com não menos solitária rosa, aguardando a namorada.

    E eu a atravessar o Politeama de Cima, bouquet numa mão, vinho na outra, ao cair da noite. Que me desculpe Ivete Sangalo, mas amar a pé é muito mais bonito!

  5. Dia dos Namorados, véspera de Santo Antônio, é uma data pedestre – seja pela festa no Além do Carmo (a maior junina em capital do país, negra e lusitana como só Salvador), seja pela quantidade de gente indo ao Largo Dois de Julho ontem fim de tarde comprar flores.

    Ao por do sol, vi inclusive um rapaz sozinho, num banco do chafariz dos Aflitos, em não menos aflita espera com não menos solitária rosa, aguardando a namorada.

    E eu a atravessar o Politeama de Cima, bouquet numa mão, vinho na outra, ao cair da noite. Que me desculpe Ivete Sangalo, mas amar a pé é muito mais bonito!

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