macacos me mordam! ou por que fazemos audaxes…

o humano não descende dos macacos. o humano é um macaco.

hipster!

somos uma das 5 espécies hoje existentes de macacos sem rabo. há os orango-tangos, gorilas, chimpanzés, bonobos e nós, humanos. hoje somos apenas uma  espécie de humanos, mas já fomos 3 espécies  ao mesmo tempo, pois o homo sapiens surgiu, conviveu e se mesclou ao neanderthal, e surgiu antes que o homo erectus estivesse totalmente extinto.

em inglês, os macacos sem rabo são chamados de apes, e eu prefiro, é uma expressão mais curta. dos apes, nós humanos atuais (h. sapiens) somos os que têm o aparelho vocal mais refinado, por isso capaz de tantas vocalizações, fonemas, o que nos permitiu desenvolver uma rica linguagem sonora, falada.

até algumas décadas se dizia que apenas isso significava uso de linguagem (e cazzo! e as linguagens de sinais, que já existiam?), mas hoje não se afirma mais isso. e depois que alguém teve a brilhante ideia de ensinar linguagem de sinais a alguns outros apes, o resultado foi um assombro! a gorila koko chegou a desenvolver um vocabulário de cerca de 2.000 palavras (ou seja, ganha de longe de quase todos os meus alunos….).

no vídeo acima koko recebe a notícia de morte de all ball, o gatinho que ela escolheu (e também batizou). koko entende a notícia e expressa: “mau! triste!” – e parece chorar.

não é o domínio de uma linguagem ou ter sentimentos que nos caracteriza como humanos. não é consciência de si que nos caracteriza como humanos. os outros apes também se reconhecem no espelho. outros apes também usam o sexo como forma de interação social (aliás, bonobos, os “macacos hippies” adoram orgias!), matam seus semelhantes… aliás, há quem defina que apes até tenham alguma forma de moralidade, conforme a entrevista com o primatologista frans de waal neste link.

normalmente se atribui o QI de um chimpanzé ao equivalente a 70 a 90 pontos. george w. bush atingiu 103. acho que esse dado explica muita coisa…

pobre chimpanzé… comparado ao alfred e. neumann

mas claro, os outros apes não construíram catedrais góticas, não foram à lua, nem são capazes de entender o funcionamento de um relógio mecânico… mas peraí, grande parte dos seres humanos também não….

mas sim, temos diferença. além de não seguirmos a mesma proporção de tamanho de cérebro que os demais apes (x/y para eles, 3x/y para nós), temos uma habilidade que nenhum deles tem.

temos corpos e mentes adaptados para esforços contínuos, de longuíssima duração. aliás, somos o único mamífero que dispõe dessa habilidade. nenhum outro mamífero é capaz de passar o dia inteiro correndo (nem pedalando). nós somos.

somos o macaco que mais sua – e mais fede – e está mais bem adaptado para refrescar o corpo durante exercícios longos. por isso nosso corpo é coberto de pelos ínfimos perto daqueles outros macacos. nossas cabeças costuma ter uma cobertura que regula a temperatura do cérebro – cabelos mais crespos e arejados nas populações adaptadas aos climas quentes, mais liso e compactado nas populações adaptadas ao clima mais frio, assim como a cor da pele, formato das narinas e etc. isso sem falar em todo o fomato das pernas, dos ossos e etc. somos verdadeiras máquinas de correr.

pelo que já se pesquisou, nas savanas primitivas caçávamos basicamente correndo atrás dos animais, assustando-os, até que ou ficam fracos demais para fugir, ou simplesmente morriam do coração… pois somos bem capazes de correr durante mais tempo que qualquer corredor animal. somos fracos aceleradores – quem ganha num sprint de um guepardo? – mas corremos durante muito, muito, muito tempo….

não afirmo isso sem base. em 2004 foi publicado na revista nature um sério artigo sustentando a tese de que correr talvez é que tenha nos moldado como humanos. o artigo pode ser lido aqui. lembrando que a nature é uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo.

claro, não se trata apenas de correr. mas de caminhar muito. por que não uma escalada ao aconcágua? por que não pedalar por 20 horas?

são atividades correlatas às grandes e longas ultra-maratonas. mesmo triathlons como o iron-man são variações do mesmo tema.

sim, uma das grandes diferenças que temos em relação aos grandes apes é o esforço contínuo e o prazer que dele advém. a sensação de transcendência que advém daquela atividade. quem não se sentiu perto da divindade ao passar um dia inteiro subindo um longo e árduo caminho morro acima, e vendo o por do sol encarapitado no cume? se chegasse lá de helicóptero não teria a mesma sensação. é a mesma sensação que temos ao terminar um grande e montanhoso audax de 400 kms, ou fazer uma longa cicloviagem de vários dias, semanas, meses… anos!

pois são as grandes jornadas percorremos que nos fazem humanos. e o resto é apenas vaidade e correr atrás do vento.

(em tempo, eu adoro macacos. mas nem todos. não gosto do diogo mainardi, por exemplo).

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7 Respostas para “macacos me mordam! ou por que fazemos audaxes…

  1. Felipe Fernández-Armesto tem um livro bem bacana sobre humanos: Então você pensa que é humano? Ele é historiador e filósofo, nem um pouco ligado aos esportes, mas também derruba os principais argumentos que nos diferenciam (segundo o senso comum) dos macacos. Tá certo que ele não olha pras pernas, mas é interessante.

  2. na verdade somos dois hominideos: os bonobos não são pongideos. (e são uns fofos! – até neologismo os bichos fazem)

  3. Leio sempre teus textos, desde que me propus a tentar um Audax, mas só agora resolvi comentar. Delicioso! Esse finalzinho com o Mainardi foi de matar, morri de rir! Parabéns!

  4. Odir, comparar o Mainardi aos macacos foi pura maldade. Os bichinhos não mereciam…

  5. Belo artigo, li há algum tempo, que os homens começaram a comer carne não pela caça, mas por encontrar algum animal morto antes da decomposição. Em seguida bolaram estratégias, como você citou e como não tinham como conservar a carne, convidavam seus semelhantes para o banquete, isto tornou o ser humano um animal sociável!!

    Acredito que na GoOutside, alguma edição do ano passado, fizeram um experimento com um ultramaratonista correndo atrás de sua caça até a exaustão, pelo fato de ser a primeira tentativa ele não chegou aos “finalmentes”, mas com prática e outras pessoas auxiliando achou possível a caça desta maneira.

  6. Muito bom, só faltou falar um pouco mais do audax 🙂

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