entre civilizados e bárbaros

uma das formas possíveis de se descrever o que seja civilização é notar o respeito aos outros, a supressão de conflitos evitáveis, e a não imposição de situações pela força, mas pela lei. ou seja, o império das leis, leis estas que devam ser justas.

o ciclo-ativismo brasileiro tem se pautado há mais de duas décadas pelo discurso legalista. sim, protesta muitas vezes contra o estado mas pelo cumprimento da legislação. é um ativismo que não quer quebrar uma ordem, mas pelo contrário, quer fazer a ordem legal funcionar.

note-se que, por exemplo, a ciclocidade esteve durante essa semana numa série de atividades no sesc vila-mariana, em são paulo, e amanhã, sábado, terá ainda outra atividade no local, conforme o cartaz abaixo.

compareça!

ao mesmo tempo, hoje, sexta-feira, 8 de junho, foi ao ar na rede TV! uma reportagem gravada no final do ano passado, com os bike-anjos. no veo do link abaixo, as bicicletas começam a aparecer aos 4 min. e 50 segundos, mas note o discurso legalista, de não apenas se cumprir a lei pela lei, mas para que se tenha segurança nas relações urbanas.

bike anjos

é de se notar também que faltam estruturas urbanas adequadas à bicicleta. se tivéssemos o respeito alheio, desnecessárias seriam essas estruturas, como bem nos lembra o sempre atual manifesto dos invisíveis.

mas, onde elas existem, nem sempre são respeitadas. quem não sabe que muitos querem usar as ciclovias como pistas de cooper, como local para passear com cachorros, caminhadas e etc.?

aí se manifesta a insanidade de determinados pedestres. ciclovias existem não apenas para proteger ciclistas de motoristas, mas também para proteger pedestres de ciclistas. sim, pois onde há tráfego intenso de veículos automotores, é de se esperar que ciclistas temerosos pela própria vida pulem para as calçadas, essas sim lugar exclusivo dos pedestres.

ciclovias direcionam o fluxo de ciclistas para ali. é uma forma civilizada de se confinar os ciclistas àquele espaço, preservando o resto para outros modais, inclusive o pedestrianismo. é por isso que há também ciclovias em parques. as bicicletas na ciclovia e os pedestres no resto do parque inteiro. parece justo, não?

não para um certo sr. luis antonio giron, que escreve no site da revista época. ele relata que estaria alegremente e distraidamente andando pela ciclovia do parque vila-lobos quando foi atropelado por um ciclista. e que teria sido ameaçado de multa pelo atropelador, que teria se identificado como ciclo-ativista, blogueiro e tuiteiro…

como bem é colocado em dúvida o relato pelo vá de bike, o relato é mais coerente se ele estivesse de carro avançando sobre um grupo de pedal noturno. mesmo assim estaria errado.

o mais interessante é sua pregação de ódio. quer que se arrebentem os ciclistas nas ruas. chama-os de bárbaros. mas é um discurso delirante, mas coerente com as formas verdadeiramente bárbaras de preconceito.

ele começa dizendo que já pedalou, inclusive longas distâncias, quando jovem – aqui, claro, a intenção é restringir o uso da bicicleta aos adolescentes, como se adultos não pedalassem. e claro, hoje é atacado pelos bárbaros.

é a mesma lógica usada por homofóbicos que dizem que casais homossexuais não devem adotar crianças. sempre começam dizendo que não são homofóbicos, até têm amigos gays…. (se perguntarmos o nome de um apenas, gaguejam). ou racistas que declaram a “injustiça” de qualquer política afirmativa, sempre dizendo que têm amigos negros, ou conhecem negros… quando perguntamos o nome de um gaguejam… ou dizem que tinham uma empregada negra…

é o discurso bárbaro, que nega a possibilidade da existência digna do outro, tentando disfarçar-se. negando inclusive ao outro a indignação por ter seus direitos ultrajados. ou seja, o ciclista que é derrubado da bicicleta por um nefelibata que presta mais atenção ao seu smartfone que o que o circunda, está errado ao se indignar.

por essa lógica torta, se tropeçasse numa criança pequena (é comum sua presença em parques, não é?) também diria à criança pisada que ele é que teria direito ao choro? pois sim, nada mais importa a ele que seu caminhar despreocupado, mesmo que em lugar inadequado, os outros é que se submetam à sua vontade imperial.

essa é a lógica do saqueador. é a lógica de guerra, por exemplo, de hitler. da doutrina do espaço vital da alemanha de outro tempo. sendo necessário um espaço vital, os países circundantes que o cedessem, ou eram invadidos. ou a lógica dos hunos: precisando de pastos, invadiam outras terras, precisando de coisas, tomavam-nas de outros povos.

é, é sorte de giron, se seu relato for de fato fiel, que tenha sido atropelado por um ciclista. fosse por um motorista, talvez não estivesse vivo para escrever suas besteiras, suas pregações de ódio.

é, é dura a vida do ciclista. nas ruas atropelado por carros, nas ciclovias por nefelibatas.

mas resta a pergunta: quem são os civilizados, civilizantes, e quem são os bárbaros? os que gastam seu tempo voluntariamente educando outros e promovendo regras de convivência, como os voluntários da ciclocidade, os bike-anjos, as pedalinas e tantos outros grupos, ou os que usam a internet para  destilar seu ódio? quem é quem? pois ao responder a essa pergunta, peço apenas que não me coloque ao lado do sr. luis antonio giron. coloque-o ao lado de bárbara gancia. e eu e tantos outros em outro lado. a minha turma não é essa, a minha turma é outra… muito mais legal e divertida.

em tempo, as expressões sublinhadas contêm links. clique e abra-os.

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8 Respostas para “entre civilizados e bárbaros

  1. Lembrei que eu mesma já atropelei um pedestre na ciclovia em Barão Geraldo. Eu estava de Caloi 10, era uma baixada, e dois pedestres caminhavam na ciclovia à minha frente. Acionei os freios, o cabo estourou. Não deu tempo de gritar. Fui de cabeça na bunda de um deles, caímos todos no chão. Ao levantarmos, disse que não deveriam, nunca mais, caminhar na ciclovia, porque imprevistos como aquele podiam acontecer. Me contaram que eram novos na cidade e que tinham sido instruídos a caminhar na ciclovia, que era arborizada e sem os acidentes das calçadas.

  2. Acho errado, só pq alguém tem uma opinião diferente da sua vc já classifica como nazista, racista, homofóbico, etc.
    Pq não ficar só no debate de idéias sem querem atacar a pessoa?
    Independente do lugar, veículos maiores são responsáveis por menores, e INDEPENDENTE DO LUGAR, bicicletas tem prioridade sobre carros e pedestres tem prioridade sobre bicicletas.
    O pedestre não pode reclamar que foi atropelado por um grupo de ciclistas mas nós podemos reclamar quando somos atropelados na Marginal!
    Tem alguma coisa errada aí!

  3. Vc desqualifica o cara e agora quer que eu compare vc com ele?
    O cara é mala mas não está totalmente errado, e se ao invés de um imbecil com um smartphone o pelotão de ciclistas atropelasse uma criança?
    Vc mesmo escreveu que os parques estão cheios delas…
    Agora além de tentar desqualificar o colunista, tem gente que já “DESCOBRIU” que na verdade ele estava de carro e avançou sobre um grupo de ciclistas que pedalavam a noite…

    E sou eu que tenho que ler o texto…

    • se um pelotão de ciclistas estivesse ali na ciclovia, seria a primeira vez na história em que veríamos isso. pelotões, gostam de andar a mais de 40 por hora. nenhum ciclista treinando, sozinho ou em grupo – o pelotão – vai para ciclovias. ciclovias são sabidamente locais para trânsito mais lento, em torno de 20 por hora. é assim no vila-lobos, é assim nas ciclovias de santos ou cubatão. pelotões e crianças não são vistas no mesmo ambiente. e claro, a maior prova de que os ciclistas estavam em baixa velocidade – se o relato dele é é de fato fiel aos fatos – é que ele saiu sem maiores danos físicos. um pelotão pode matar uma pessoa, pois são uma quantidade grande de ciclistas andando a mais de 35 por hora, a mais de 40, não raro a 50 por hora. por isso o pelotão do jóquei anda na marginal. e não no ibirapuera… note que a maior prova de que ele estava errado é que ele mesmo confessa que estava desatento, andando e tuitando qq coisa no smartphone. essa conduta é tão reconhecidamente perigosa que já há cidade norte-americana que multa pedestre que mande sms andando na rua, conforme o link abaixo. e se ele estava desatento, sim estava errado. se fizesse o mesmo atravessando a avenida paulista e fosse atropelado por um carro, estaria certo? ora, ele estava desatento, invadiu área que não era apropriada, causou uma queda de ciclista, e propõe que todos os ciclistas se explodam nas ruas. ele mesmo se desqualifica, ou melhor, o texto dele se encaixa na lógida dos textos fascistas. não afirmo isso sozinho. márcia tiburi dá bem os limites do fascismo diário e cotidiano brasileiro. favor ler a notícia abaixo sobre distração:

      http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2012/05/14/cidade-americana-proibe-envio-de-sms-por-pedestres-multa-e-de-us-85.htm

    • Olha, ainda que toda a história do colunista for verdade, e ele realmente encontrou um ciclista e auto-denominado tuiteiro, bloggeiro e ciclo-ativista correndo e ameaçando pedestres na ciclovia, isso prova o quê? Só prova que ele topou com um idiota. Não quer dizer que todo ciclista ou ciclo ativista deva ser condenado pelo ato dessa pessoa. O colunista escreve todo um texto condenando o ciclo-ativismo, e não só, todo “insano” que se atreve a usar a bicicleta diariamente, baseado em uma única experiência pessoal. Isso é certo? Por definição isso já é pré-conceito. Mas lendo o texto, vemos que ele vai mais longe, destila ódio e deseja a morte a toda uma classe de pessoas. Neste ponto sua atitude se assemelha a técnicas de propaganda nazistas. Veja, existe um judeu mau! Vamos matar todos os judeus!

  4. Odir, embora eu largamente concorde com você, não posso negar que o ensaio da Época acerta em cheio em dois pontos – e colateralmente num terceiro:

    1) cicloativismo, como qualquer ativismo, é contraproducente, tem lógica de motor (“produz mais calor que luz”, para usar uma metáfora que o padre jesuita, e marxista autonomista da escola austro-francesa, Ivan Illich, muito gostava);
    2) bicicleta, por si só, não civiliza ninguém. O Rio de Janeiro, orgulhosamente uma das melhores políticas cicloviárias do mundo, tem uma cacetada de usuários de bicicleta pedalando sobre calçadas – mesmo em Z-30s! E como disse Ignácio de Loyola Brandão em seu excelente romance destópico Não Verás País Nenhum: “quase já não há carros nas ruas, e as bicicletas as dominam, mas a grosseria é a mesma dos melhores tempos do automóvel”.

    O terceiro ponto colateral do rapaz está no inter-dito do texto, vem de ato falho, de sua sintaxe mais do que de sua semântica: se, como eu já disse alhures, é possível haver um “cicloviarismo motorizante” ( http://ultimobaile.com/?p=3636 ), não é menos possível haver um pedestrianismo motorizante, e é o caso deste autor, como você mesmo mostrou.

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