300 não é 200 + 100

– você entendeu agora por que 300 kms não é 200 mais 100?

toda grande pedalada começa assim

respondendo a minha pergunta, silvia apenas chorou. sim, ela acabava de brevetar um 300km. naquele ano, completaria a série, até os 600 kms. mas só pôde pensar nisso pois terminou um 300 kms. 300kms é o salto. o começo da separação entre os adultos e as crianças.

300 kms, numa vez, é mais do que fazer uma etapa de uma grande volta, como o tour de france, a vuelta de españa, o giro d’italia. nenhuma dessas grandes voltas de 3 semanas tem uma etapa de 300 kms. nenhuma clássica tem essa distância. claro, o ritmo dos profissionais é outro. mas o suporte também. só houve etapas tão ou mais longas no início dessas provas, há quase 100 anos. havia etapas de até 400 e poucos kms, sem carro de apoio. o competidor levando pneus tubulares de reserva pendurados no corpo… comida nos bolsos…

peraí, tá sentido a semelhança com os audaxes? sim? claro que há. na origem era tudo a mesma coisa, depois as competições foram prum lado, randonnés pro outro… 300 kms não é pra qualquer um. é pra quem tem espírito randonneur. 200 kms é pra qualquer um, tanto que qualquer um pode se inscrever num audax 200 kms. mas pra fazer 300 kms você brevetou 200 kms no mesmo ano. mas o 200kms é um brevet curto. começa de manhã cedo e termina no início da noite. uns estão extenuados. outros estão no final com aquele brilho nos olhos e uma vontade secreta de pedalar um pouco mais….

claro, se você terminou um 200 kms querendo jogar a bicicleta fora, pensando em nunca mais pedalar, é por que vc não nasceu pra isso. de fato não, é melhor voltar pra ciclofaixa. não se agrida, reconheça seu limite.

mas se você percebeu que a partir de 120, 150 kms a diferença não é o corpo, mas a cabeça… eita! você está a caminho de se tornar de fato um grande randonneur. pois você percebeu o barato da coisa… sim, randonné é uma coisa que se faz com o cérebro. com o controle da ansiedade, com segurança, com o controle do medo, das carências. pessoas inseguras não fazem um troço desses. não fazem um 300 kms. ele avança na noite. se seu ritmo é mais lento, você começou a pedalar às 7 da manhã e pode chegar no ponto final lá perto das 3 da manhã… do dia seguinte! sim, seu limite de tempo é de 20 horas. muita gente não tem ideia do que é pedalar por 19 ou 20 horas. eu tenho. pois eu digo.

primeiro você descobre como funciona seu corpo. você toma uma coca-cola e é capaz de ver ou sentir cada molécula de açúcar ou de sódio sendo absorvida por cada fibra muscular. você come uma paçoca de amendoim e sente o sal sendo processado no seu corpo. depois de um 300 kms sua relação com a comida muda. claro que muda. você entende por que motivo uma coca-cola é uma bomba. você entendeu o efeito dela no seu corpo quando precisava, e sabe que no cotidiano ela lhe estufa. o mesmo com o gatorade. todo dia um gatorade e seu rim virará uma pedra. mas num 400 kms extremamente quente, eu tomei 9 litros e ainda não foi o suficiente pra me hidratar. pode isso? pode.

num 300km você também descobre o seu ciclo circadiano. você descobre como seu metabolismo se relaciona com a luz. se ao anoitecer seu desempenho baixa drasticamente, você descobre que você é diurno, seu ciclo é curto. você é das pessoas cujo metabolismo exigirá ritmo. você sentirá desconforto no final do pedal. não apenas físico, mas psicológico. mas se você sentir que a brisa noturna é gostosa, que as estrelas são lindas (aquelas estrelas que nunca se vê nas grandes cidades), que a lua brilha. que há paz no acostamento escuro, que é gostoso pedalar assim mesmo depois de tantos kms, de tanto cansaço… que você está cansado mas feliz, de alguma forma feliz, não aquela alegria idiota de um carnaval, mas as felicidade serena…. ah, então você é um noturno, notívago, pessoa com ciclo circadiano longo, longo, seu metabolismo não apenas prescinde de alguma regularidade, como ele também gosta das variações. mas como descobrir isso sem pedalar tanto? talvez escalando o aconcágua…

é, poucas atividades comparam-se aos audaxes. um audax é uma experiência intensa. não é à toa que de vez em quando a gente vê pedalando num audax um grande montanhista. nesse ano tá o davi marski filho, que tem várias subidas ao cume do aconcágua no currículo, divertindo-se nos brevets. brevet é a aventura de bolso. só depois de um brevet longo você começa a entender o que é planejar uma viagem à lua. o cuidado com os detalhes que não é estético, mas funcional. fazer brevets longos faz você mudar sua forma de consumir as coisas no cotidiano. você começa a perceber o sentido de consumo adequado, e não puramente estético. que adianta a bicicleta bonita que é desconfortável? e o selim? pode ser que a sua bunda combine com um selim caro, ou com um selim barato. a cada bunda o seu selim! e embora todas se pareçam, pelos selins sabemos que não são todas iguais…. hehehe

você não entenderá isso se seu pedal resume-se a voltas e voltas na ciclovia. não entenderá. é nas situações mais extremas que a gente enxerga as coisas. é fácil pedalar com um carro de apoio atrás. mas o bom ciclista não precisa disso. ele não apenas entende o que é pedalar, ele entende pelo menos o básico do que é a sua bicicleta. ele sabe fazer os consertos mais básicos e necessários. ele sabe ser solidário e ajudar o colega em apuros. fazendo brevets mais longos você muda a sua forma de comer, de beber, de dormir, de comprar, de usar. você entende o seu corpo, sua cabeça. você entende o conceito de adequação.

as coisas não são boas ou más em si. não existe a qualidade em si. qualidade, algo ser bom, é antes de tudo ser adequado. adequado a você, e o que é adequado a você pode não ser adequado a outrem.

essa é uma boa forma de entendermos o que no cotidiano é tão difícil entender: a diversidade. há quem faça brevets com speeds, outros com mountain-bikes, outros com bicicletas híbridas, dobráveis. com STIs, ou alavancas de quadro. cada um sabe o porquê desta ou daquela opção. como diz a música, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

é nesse sentido que um audax 300 kms é zen. é ter essa outra percepção das coisas, se si, dos outros. a percepção direta e indescritível. é difícil explicar.

mas isso explica o choro da sílvia no final daquele 300 kms. o choro da sílvia, o choro do china. e de tantos outros que não admitem. são lágrimas não de dor. mas a fala da alma.

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num 300km nós descobrimos se a bicicleta está adequada. nós aprendemos a pedlar à noite (leve um bom farol!). aprendemos a trocar uma câmara no escuro. a manter a calma. a aprender a olhar pro lado e usufruir do momento.

não é só fazendo brevets que se tem isso. mas o brevet é uma forma legal de se ter isso. tá disponível. à mão. e depois você mostra o seu diplominha e as fotos pra turma do trabalho, e fica uns meses com aura de super-homem. faz parte. é até engraçado…

como explicar que não se é um super-homem, só uma pessoa normal que decidiu tomar as rédeas da própria vida e aprendeu a administrar as pequenas coisas? deixe pra lá. não vão entender mesmo…. mas o que os outros percebem e você não, é que você passa a ter uma outra relação com as adversidades da vida.

é por isso que tanta gente que faz audaxes por aí tem fama de ogro, de zen, de feliz. e não deixa de ser verdade.

(boa parte desse texto deriva de um bate-papo de ontem, enquanto eu e o daniel santini tentávamos explicar a uma pessoa que ainda não pedala, o que é esse troço. a parte divertida foi o santini descrevendo as moléculas de sódio percorrendo as veias, e o arrependimento por não ter usado um relógio no último audax, pois o ciclo-computador voou e foi perdido depois que ele passou num buraco. é,um reloginho, a planilha e as placas da estrada são essenciais pra gente administrar o tempo, o espaço, a velocidade. afinal, foi pedalando que einstein teve a sacada da teoria da relatividade. tá vendo? ciclistas sempre têm uma leitura melhor de mundo!)

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fez um 200k esse ano e quer tentar um 300km? as inscrições em são paulo estão abertas. percurso novo, bonito, muito bonito. mais informações aqui.

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13 Respostas para “300 não é 200 + 100

  1. SILVIA N. B. OLIVEIRA

    adorei! eh 300 nao eh 200 +100…e aquele choro nao tem como esquecer. foi a unica forma de expressao da alma naquele momento. unico! libertador! de felicidade, de alivio, de missao comprida e cumprida! 🙂

    aconselho a todos tentarem ao menos uma x! eh uma experiencia indescritivel!!

    esprito de randonnuer na veia!!! lml

    dessa x por causa dos ultimos acontecimentos irei apenas de espectadora e colaboradora! =/

    allez, allez allez!!

  2. hahaha, legal a comparação (elogiosa) que você fez com o montanhismo :-).

    *se* eu voltar pro Brasil “inteiro”, devo tentar encarar os 400Km lá de Holambra em 02 de agosto. O detalhe é que estarei uns 2 meses sem sequer subir em cima de uma bicicleta…

    Mas como você disse: o lance é “a cabeça” 🙂

    Excelente texto ! E só falta agora eu descobrir que 400 não são 300 + 100….rsrsrsrsrs

  3. Fiz os 300 em Rio das Ostras esse ano, mas sei que o verdadeiro desafio serão os 300 de Holambra!! Que venha meu Brevet!!!!

  4. Show de bola o resumo da coisa toda… só não sei quem escreveu.. Richard, Rafael “A lenda”, Labadia ou tantos outros randonnueiros de plantão… tentarei sentir este espírito maravilhosamente descrito… fiz 200k duas vezes e tá na hora de virar gente grande… abraços a todos e inté lá em Holambra city

  5. Show de texto Odir!
    Eu tb vou “pras cabeça”. Vou pedalar sexta, na prova do organizador. Largo as 3 da matina pra tentar chegar até as 23h pra poder descansar um pouco para a organização do sábado.
    This is Sparta!!!!
    Abração!!!
    Fabio

  6. Ontem fiz meu primeiro 300km, em companhia do meu pai que é um ciclista bem mais experiente, com muitos brevets no currículo, inclusive um de 1.000km. O apoio moral e a companhia dele foram essenciais para que eu resistisse aos contratempos. A largada foi à meia noite e passamos a madrugada inteira pedalando, o que foi agradável por causa da temperatura, mas tenso por causa da cerração que prejudicava a visibilidade, especialmente embaçando os óculos (e eu, que já levei pedrada no rosto lançada pelo pneu da bike da frente, faço questão de usar sempre!). Eu só tinha feito um brevet de 200km e achei difícil, mas possível, mas esses 300km exigiram de mim até a última gota de teimosia. Os últimos 60km eu fiz chorando! Chorando de dor nos joelhos. Meu lado racional me dizendo pra desistir, minha teimosia mandando os joelhos às favas, porque desistir não era uma opção. E como eu agradeço por ser uma pessoa tão teimosa! Porque a satisfação de receber aquele certificado e aquela medalha é indescritível. O orgulho de dizer “Consegui! Superei meus limites!” é muito grande!
    E foi aí que eu entendi que 300 não é 200+100. Entendi tão bem que desisti de fazer um 400km esse ano, vou treinar mais e fazer na série de 2013. Não tenho preparo físico pra encarar outro 300km, quem dirá um 400km!
    Ah, e quem me disse que o principal do Audax ta na cabeça, não nas pernas foi minha mãe. Ela e meu pai fizeram vários brevets de 200km em uma tandem. Inclusive o meu primeiro 200km, Audax familiar 🙂

    Muito bom texto! Mandarei o link para meus pais, também audaxiosos, lerem.
    Um abraço.

  7. Pingback: O Audax e o espírito Randonneur « 360 Extremes Expedition

  8. “há quem faça brevets com speeds, outros com mountain-bikes, outros com bicicletas híbridas, dobráveis. ” E as fixas?????????????????

    • pra fazer de fixa tem que preencher esses pré-requisitos: 1) ser roteiro flat como no rio. 2) o ciclista tem que ter a cara do cazé. 3) a bike tem que ser amarela. 4. a bike tem a marca “tá cendo!”. 5) o fixeiro que faz isso precisa ter treinado no trâsnito de SP, com morro e busão perseguindo….

      • Favor acrescentar no texto “e há os malucos que fazem de fixa”. Grata.
        hahahaha Brincadeirinha.
        No meu brevet de 200km em Porto Alegre teve um amigo que fez de fixa. O trajeto aqui tem algumas boas subidas e descidas. No final tive que ir lá cumprimentar ele pela coragem. O detalhe é que ele estava fazendo o 300km, que era na mesma data.

      • tânia, isso tá implícito, o cazé que escreveu aí, fez até o 400 de fixa… é que vc não conhece a figura! e vc precisa conhecer o rafael lenda, que faz mais de 600 kms sem usar bermudinha de ciclista, nem creminho nem nada, e não morre de assaduras. isso sim é admirável, certo, cazé? o lenda fez até o 400 usando bermudão, caloi 100 com pneus de cravo, alforjes gigantes, capacete de skate, tudo isso a temperaturas acima de 28 graus e altimetria acumulada de mais de 4.500 mts. ele fez o 300 de sábado de 29er, de cravão….

  9. MARCELO CARNAVAL MORETT

    Iniciei no ciclismo há pouco tempo. Me apaixonei. Como sempre pratiquei atividades físicas, acho que tive um progresso rápido e consigo imprimir um bom ritmo por uma distância razoável. Agora estou me preparando para meu primeiro brevet (o de 200). Tenho acompanhado a turma dos AUDAX em nossa região (pipoca) e curtido pedalar até onde consigo com o grupo. O texto 300 não é 200+100 está simplesmente sensacional. É o incentivo que eu precisava. Valeu!

  10. Acabei de postar no meu perfil do Facebook, com a minha impressão do Audax 300 km, realizado no final de semana. Adorei o texto do blog e penso que transmite o que senti.

    LARGADA: Dia 23 às 22:00 – Della Giustina Bikes
    PERCURSO: Floripa – Camboriú – retorno à Floriap e volta a Ilha
    CHEGADA: Dia 24 às 14:16 – Della Giustina Bikes
    TEMPO TOTAL: 16:16 Hs
    PARADAS OFICIAS: 04
    PNEU FURADO: 01
    Para os homens uma dica: Quer saber como é um parto?
    Ansiedade esperando o momento da largada. Contando os dias e as horas para chegar o momento. Arrumar tudo e ir para o congresso técnico. Prestar atenção em todas as dicas. Pegar o kit. Conversar com a galera reunida e se despedir das filhas e do marido. Subir na bike e começar o percurso.
    Foco, atenção. Curtir o momento.
    Depois de algumas horas as dores começam. Muita transpiração, misturada com o sereno da noite. Nas paradas, alimentação e frio. Então não dá para parar muito tempo senão o corpo trava. Segue-se em frente, mirando o objetivo. O mapa na cabeça.
    Horas e horas em cima da bike. De repente uma simbiose, você não sabe quem é quem. Se sente bike, ou ela está viva? Integração total. Coisa doida.
    O dia amanhecendo. Você olha para os lados e valoriza tudo. Cada imagem. Muita atenção no corpo, nas sensações, movimentos, tensões. Dor, dor e dor. Quase no final, nos últimos 25 km você só pensa em chegar. Não quer mais nada. Só chegar. Na reta final, quando você enxerga o ponto de chegada, uma sensação de saber que poderia aguentar mais que isso. Dai você chega. Vitória!
    Eu conclui, eu posso, eu me supero. Tenho forças para mais que isso. Estou feliz!
    Quando tudo termina você se entrega e o corpo reage. Se transforma num vulcão. Agora sim, você sente que está viva. você identifica todos os seus músculos.
    De olhos fechados, na cama, depois de um banho morno e um enorme jantar, você escuta as batidas do coração, a circulação por todo o corpo, o latejar dos músculos. A respiração, agora, tranquila. Não consegue dormir, mas tenta. E respira, satisfeita com doses e doses de adrenalina. Encharcada de dopamina, você ama.
    Sim, você sente amor! Inexplicável. É muito interessante. Você ama olhar para o céu, sentir o vento, a luz do sol, daquele dia.
    Você se sente viva, poderosa, forte
    .A recompensa: Prazer.
    Eu que fiz dois partos normais, me senti, hoje pela manhã, como se tivesse vivido outro.
    Audax 300 foi como se tivesse passado por um.
    Hoje acordei satisfeita e sem dor. Pronta para outro. E feliz!
    Hora de recomeçar a treinar!

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