o fim de algumas indústrias

a era do carro acabou. acabou, pois entrou em declínio.

não podemos dizer que a era de uma indústria acaba apenas quando desaparece toda a produção, pois a produção nunca desaparece. ainda há quem fabrique espadas japonesas, katanás, mas não se pode dizer que vive-se na era dos samurais. ainda há alfaiates, mas não se vive mais na era da roupa sob medida.

muitos relógios mecânicos são produzidos, mas vivemos a era do relógio a quartz. ainda se caçam baleias, mas a era da caça da baleia passou. a idade da pedra não passou por falta de pedras….

durante boa parte dos últimos 300 ou 400 anos, da primeira revolução industrial em diante, gordura de baleia e couro, de vaca ou búfalo americano, foram essenciais pra produção. as correias das máquinas eram feitas de couro, e precisavam ser engraxadas, e pra isso se usava gordura animal, óleo animal (e baleias tem muito disso em seus corpos).

assim, com o incremento da produção industrial nos séculos XVIII e XIX explodiram as atividades de produção dessas coisas: couro e sebo. o final do século XVIII marca o ciclo do couro no brasil sulino, chegava-se a matar o boi apenas pelo couro, desprezando-se a carne. tudo sendo exportado….

mas o século XIX marca-se também pela construção da tecnologia da borracha. charles goodyear patenteou a vulcanização da borracha na primeira metade do século XIX e a borracha vulcanizada substituiu o couro nas correias das máquinas, nos mancais e etc. e também o progressivo aproveitamento do petróleo, não apenas como combustível, mas como lubrificante, eliminou a caça às baleias. a gordura da baleia, antes usada pra lubrificar e para acender lamparinas, foi substituída por graxa e querosene….

há 20 anos atrás, em cada esquina da avenida paulista havia uma copiadora. se tinha um negócio bom há 20 ou 25 anos, era comprar meia dúzia de máquinas de xerox e instalar numa esquina. e hoje? primeiro a chegada das impressoras a jato de tinta nos escritórios, depois a disseminação do uso da internet para a troca de informações mudou tudo…

a era do automóvel começou seu declínio em 1973, com o embargo dos países da opep à venda de petróleo para a europa e estados unidos, cessando naquele momento a produção de carros equipados com motores de até mais de 7.0 litros de capacidade, motores muito beberrões.

naquele momento começou-se a questionar o modelo de produção e transporte baseado no carro, pois isso tinha impacto não apenas no trânsito das cidades, mas na própria política internacional dos países.

ao mesmo tempo, esse questionamento se faz no âmbito cultural também. se no final dos anos 60 o carrão aparece em tudo quanto é filme, nos anos 70 e 80 outros objetos aparecem. nos filmes que retratam a II guerra o soldado aparece no jipe. na imensa filmografia acerca da guerra do vietnã, até por ocorrer num teatro de guerra diferente, o soldado aparece a pé.

em alguns clássicos dos anos 70 e 80 (como a série “mad max”) a escassez de petróleo é retratada. os veículos já não aparecem glamourizados, mas modificados, “monstrificados”.

ao mesmo tempo, carros cada vez menores, mais leves, compactos, e com motores menores invadem o mercado. subitamente a indústria aprendeu a tornar mais eficientes os motores.

mas o aumento de produção deformou as cidades com o afluxo de mais veículos às ruas. no brasil, isso ocorre agora.

ruas estão invadidas por carros. mas isso não significa que a indústria esteja bem. embora as filiais brasileiras de algumas montadoras seja as únicas relativamente lucrativas (caso da GM), é fato que só há explosão de venda em razão de sucessivos incentivos fiscais.

isso pois a indústria já vendeu a quem poderia comprar um carro, e hoje vende a quem não pode pagar. não à toa a inadimplência nos contratos que financiaram carros a perder de vista é alta. e outros ramos de comércio, como mercadinhos de bairro, lanchonetes, notam uma diminuição na procura. o custo mensal do carro, mal calculado, implica em sacrificar outras contas….

isso demonstra a inviabilidade do modelo. custa muito aos países esse modelo. custa muito às cidades. custa muito aos consumidores.

não à toa vê-se um numero proporcionalmente maior de bicicletas chegando às ruas. há apenas 2 ou 3 anos não se registrava um terço do que hoje se vê trafegando. se em 2003 escrevi sobre dobráveis e fui taxado de excêntrico, hoje há diversas marcas disponíveis no mercado nacional.

a mudança cultural é visível. não é homogênea, claro. levando-se em conta que há diferenças cerebrais importantes entre os que trabalham bem com situações complexas e os que são simplesmente medrosos, não é estranho perceber que é no meio artístico e na intelectualidade que se manifestam os sintomas da superação do modelo carrocrata. sintomas esses que começam a assustar as montadoras.

um outro sintoma visível do aumento do número de bicicletas em uso, no mundo inteiro, é o ressurgimento do uso do aço na produção de quadros de bicicleta. quadros de alumínio são mais facilmente produzidos em linha industrial, usando menos mão de obra. quadros de aço nem sempre.

trek 520

mas quadros de aço são melhores para se acrescer bagageiros, são mais confortáveis pra quem usa por mais tempo, e mais duráveis se devidamente cuidados. quase desapareceram no final dos anos 90, e hoje pipocam marcas nos e.u.a. e europa fornecendo quadros de aço. surly é um exemplo de fornecedor que só aumenta suas vendas. mas voodoo, niner e outros também fornecem quadro de aço.

o fato é que o mundo vive uma inflexão. ela atinge até as vestimentas. o terno, roupa ridícula, tem se tornado um sintoma de desprezo pelo meio ambiente e também uma forma de manutenção da discriminação racial e social. e, como sempre representou poder econômico, também é por vias transversas ligado a formas sutis de opressão feminina, opressão cultural. ter atração por homens ricos e poderosos é sintoma de uma cultura de dominação do feminino.

glória khalil, que é da moda mas não é superficial (citou antonio negri num livro de moda) já sente a mudança. algumas coisas nunca mudarão (afinal, quanto menor a inteligência maior a atenção apenas à aparência das coisas e pessoas, e isso vale desde avaliar o outro pelas vestimentas a escolher uma bicicleta pela cor do quadro, e não pelo seu material ou geometria), mas seria impensável há décadas atrás vermos um grande executivo indo a reuniões usando jeans e moleton, embora o setor de tecnologia eletrônica tenha dado exemplos, que vão de steve jobs a mark zuckerberg, passando por bill gates.

assim como o terno foi há quase 200 anos uma revolução que derrubou os excessos barrocos da casaca, hoje se torna anacrônico.os tempos mudam, tecnologia idem, costumes também. e cada vez mais rápido. o fato é que os inseguros em geral terão uma vida cada vez mais difícil. vide as carreiras profissionais. se há 40 anos quem entrasse como empregado de umaindústria poderia ter a certeza de nela se aposentar, hoje é difícil saber-se onde se estará trabalhando daqui a um ou dois anos.

a imensa quantidade de pessoas que ficam inadimplentes em financiamentos mais longos por conta do desemprego, quantidade essa que cresce ano a ano, e a imensa procura pelos postos de trabalho no estado, por concurso é a prova disso.

ora, diante disso, como acreditar que uma indústria baseada num paradigma anacrônico como a matiz automobilística de transporte? não há como crer. sobre o futuro da profissão de engenheiro automobilístico, incerteza é eufemismo…

o carro parte. e vai tarde. o motor a combustão logo partirá. a idade da pedra não foi deixada pra trás por falta de pedras. o mesmo acontecerá com a era do petróleo, a era do carro. nossos netos verão as garagens das construções antigas assim como nossos pais viram as cocheiras no ambiente urbano: restos de uma outra era.

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a arte retrata bem algumas atividades ou seu declínio. herman melville (“moby dick”), jack london (“chamado selvagem”) e joseph conrad (“no coração das trevas”) retrataram bem a vida nos extremos do mundo da produção, respectivamente a caça da baleia, a mineração do ouro e a extração de bens naturais na áfrica.

aqui em são paulo, vale o registro da música de skowa e a máfia, da música “atropelamento e fuga“, tratando da lógica pedestre e seus riscos em são paulo. som dos anos 80.

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12 Respostas para “o fim de algumas indústrias

  1. Maravilhoso textual. Que se rompam as barreiras da ideologia do ato de transportar-se.

  2. Odir, segue uma matéria que vi esses dias:
    Por que os jovens americanos estão dirigindo muito menos http://abr.io/288X

  3. Mas uma vez mandou muito bem Odir. Um lance que você apontou algumas vezes no texto: o medo. Viver nesse preríodo de ruptura traz incertezas, e somente quem vai além da superfície é capaz de detectar a real transformação. Abração!

  4. é neste mesmo sentido que digo que o Axé-System acabou. “Mas ele continua dominante no carnaval de Salvador” – sim, mas não crescente: está em declinio, e toda tentativa dele de reverter este declinio o acirra, seja por aumentar contradições seja por adotar taticas do anti-axé (sair sem cordas, por exemplo).

    Lembro que o trinômio abadá&corda&camarote são os equivalentes do automóvel no Carnaval de Salvador. Pedestre mesmo só quem sai na pipoca – e eu sou pipoqueiro ideológico desde antes de nascer!

  5. Odir, mais um belo texto. como tudo na evolução do ser humano, há começo, meio e fim. Mas acredito que o automóvel não irá acabar, não. ele é necessário – mas não essencial… acho que teremos muitas mudanças daqui em diante, certamente.

    Até nossos corpos serão descartáveis, dentro de algumas décadas. há várias companhias, inclusive ligadas à DARPA, agência de desenvolvimento científico dos milicos americanos, trabalhando conceitos com os vistos em “Avatar”, mas de modo bem mais radical, para dizer o mínimo. Será o alcance da imortalidade… eaí?? Teremos toda eternidade para fazer as coisa que queremos… mas será que a vida vai desacelerar?!?!?!

    enfim, você também tocou num assunto sobre o qual venho escrevendo, mas ainda não terminei, que né o renascimento das bicis de aço. Vejo isto como um indicativo de que há luz no fim do túnel, já que o aço e o ferro são materiais ambientalmente muito menos impactantes do que alguns outros.

    abraço

    • tulio, como escrevi, há alfaiates, mas passou a era da roupa sob medida, não é como há 50 anos, que havia um alfaiate em cada esquina. ainda se fazem charretes, anda-se a cavalo…. mas nas grandes cidades, qual a relevância dessa forma de transitar? carros continuarão a ser fabricados durante muito tempo. mas deixaram de povoar o imaginário dos mais jovens, e essa é a melhor indicação do fim dessa era. as bicicletas de aço nunca foram completamente embora. mantiveram-se nas tourings, e agora retomam outros espaços, mas nas competições não recuperarão o espaço que o alumínio já perdeu pra fibra de carbono. mas reinam nas tourings e nas primas bicicletas urbanas. o aço é material que tem quase 10.000 anos de acumulo de desenvolvimento tecnológico. é difícil desprezar tanto conhecimento, muito difícil…..

  6. Discordo em alguns pontos.
    Meu irmão morava em ap. na Al. Santos o ap. tinha 220m² e a garagem foi refeita para que cada ap. tivesse duas vagas, o prédio era de 1960 e, em 1960 ninguém tinha dois carros, quem tinha um já era rico.

    Hoje qualquer apartamento de 50m² tem duas vagas de garagem!

    E não é só a quantidade de carros, mas o tamanho tb! no prédio onde eu moro (e sou síndico) cada apartamento tem direito a três vagas de garagem, a maioria dos moradores tem apenas dois carros mas, mesmo assim, tenho dificuldade para acomodar todos os veículos, visto que os carros cresceram, tenho vários SUVs que não cabem nas vagas, além da dificuldade de circulação nos acessos!

    Essa época em que vivemos, eu acho, que é o apogeu do carro, temos mais inadimplêmcia, porque temos mais pessoas comprando carros! Esse declínio da indústria não é exclusividade da indústria automobilistica é reflexo da crise mundial.

    Sobre quadros de aço, também discordo, acho que são como discos de vinil, coisas de coloecionador, sobre serem confortáveis, acho que a fibra de carbono absorve melhor as vibrações além de ser bem mais leve.

    • vinícius, a nálise se dá num plano de economia internacional, não da indústria brasileira. américa do norte e europa atingiram o ponto alto do consumo de carros e iniciaram seu declínio. a afirmação não é minha, é de milton friedman, nobel de economia, neo liberal. proferiu em 2008, em jornais americanos, explicando pq era contrário à injeção de dinehiro, no auge da crise, na indústria automobilística americana. o boom de compra de carros, que vc registra, só se registra em países emergentes, e mesmo assim com limites. a inadimplência desses financiamentos tem progressivamente aumentado. contate serviços de cobrança e eles informarão isso.

      sobre quadros de aço, alguns são peças de colecionador. mas mesmo nos e.u.a. têm se visto o aumento de suas vendas. há algum tempo foi registrado aqui no brasil comptição de MTB em que um participante estava com uma niner, americana, 29″, com quadro em tubos reynolds. o BMX e modalidades conexas, como o free ride, tem produzido peças em cromo-molibdênio pois são mais resistentes aos choques inerentes às suas atividades. fixas de rua são quase sempre em aço. em santos há poucas fixas (tenho conhecimento do guilherme, apenas, como fixeiro em santos), mas em são paulo já há lojas especializadas. e não é uma só. fixas são novidade no brasil, não são relíquias.

      esses dados são termômetro. e mesmo o apogeu de alguma coisa é a etapa imediatamente anterior ao seu declínio. no brasil vive-se o canto do cisne da indústria automobilística. mas já com a percepção dos seus problemas (santos também tem trânsito, e espertamente tem investido em ciclovias, o que é bom), em diversas cidades.

  7. Blz Odir?

    Discordo em alguns pontos.

    A bicicleta já não é o veículo “de entrada” de muita gente. Em qualquer cidade do interior do nordeste e nas periferias das capitais as motos chinesas de baixa potência dominam. Se antes um ajudante de pedreiro ia ao trabalho pedalando, hoje vai de Trax poluindo mais do que um SUV!

    Claro que este não é o ponto principal do seu post.

    Admito que talvez estejamos mesmo num momento de inflexão. Mas, para mim, a cultura do automóvel só estará decrescente em nossa sociedade quando um jovem de classe média que passe no vestibular não ganhe um carro de presente de seus pais.

    Abraços!

  8. Pingback: A arte de torcer e distorcer as estatísticas | O Bicicreteiro

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  10. Texto brilhante e preciso. Parabéns!

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