os intere$$e$ de kassab, ou tudo muda para nada mudar

quem fala em bicicleta em ambiente urbano, fala em mobilidade.

quem fala em mobilidade, fala em distância.

quem fala em distância fala em ocupação urbana.

só os bobos não percebem que as questões da mobilidade são, no fundo, questões de ocupação urbana.

se a moradia fica no extremo leste de uma cidade, e o emprego no extremo oeste, o cidadão vai ter que atravessar a cidade duas vezes ao dia: leste-oeste para trabalhar, oeste-leste pra voltar pra casa. como fará esse trajeto e quanto tempo levará é a discussão sobre mobilidade. mas pq não mora do lado trabalho é discussão de ocupação urbana….

são paulo sempre foi o paraíso da iniciativa privada no setor imobiliário. o perímetro urbano, onde as leis de ocupação são mais rígidas, sempre foi mantido, durante décadas, bem restrito, permitindo que áreas mais distantes crescessem ao deus-dará, ou seja, quem tinha terra loteava do jeito que queria, criava ruas do jeito que queria e vendia a quem quisesse. quem tinha sede de moradia e pouco dinheiro ia a esses locais e se ajeitava do jeito que desse.

note que até 1935 santo amaro era um município separado. note que havia um sistema de trens que saia do centro e vinha à cantareira, ou ia até o jaçanã (e foi desfeito em 1965 deixando espaço pra avenidas, ônibus, e isolando pessoas na zona norte de são paulo). note que a zona leste foi ocupada de qualquer jeito (sempre dando lucro a alguns poucos espertos) e depois teve sua ocupação regularizada por sucessivas anistias.

o centro comercial de são paulo já foi o centro velhíssimo, o triângulo das igrejas: são bento, são francisco, do carmo. depois, em razão a importância da região da luz, migrou para lá. mas voltou ao novo centro, que era o outro lado do anhangabaú: república, são luiz… subiu para a avenida paulista (desde cedo reduto de endinheirados, e por isso só os desinformados não entendem o aspecto revolucionário da bicicletada sempre sair da paulista, pois isso é a reocupação dos cidadãos sobre a apropriação do poder do dinheiro). depois então o centro vem se deslocando pra sudoeste: faria lima, berrini….

mas a população cresceu mais para leste. tatuapé já foi um bairro pobre e distante, hoje é tido como bairro chique. inclusive parte dele mudou de nome: jardim anália franco.

a população cresceu também para os confins da zona sul, mas distante das zonas de dinheiro. cresceu ao deus dará: grajaú, jardim ângela. capão redondo, até o cantinho do céu!

o arruamento do grajaú, com subidas incríveis, sem seguir curvas de nível, mostra bem como a área foi loteada: riscaram ruas num mapa e abriram do jeito que queriam…. e venderam praqueles que precisavam comprar.

a forma como é feito o arruamento em regiões cheias de morros demonstra o grau de interferência do poder público na consolidação da região. onde apesar de morros as subidas são suaves e as ruas são cheias de curvas denota a intenção de não criar caminhos quase impossíveis de transitar. é o caso do pacaembu. mas ali no vizinho sumaré, a rua aimberê mostra que não se seguiu nenhuma regra básica de urbanismo ao se traçar o trajeto: a rua é reta, subindo e descendo o tempo todo! o pacaembu foi bem loteado, mas o sumaré era área de habitantes mais pobres, há décadas atrás quando as ruas foram abertas.

a história dos bairros está no trajeto das suas ruas. e o valor dos imóveis reflete os intere$$e$ em cada área: o valor baixo pode ser resultado de uma desvalorização proposital, e a súbita valorização também resultado de uma política proposital.

vide a cracolândia: durante mais de década a área ficou abandonada pelo poder público. hotéis vagabundos ficaram abertos sem sofrer fiscalização. o destacamento policial sempre anêmico de modo a nunca dar jeito no tráfico de drogas… mas depois se criam estruturas que geram afluxo ocasional à área: a pinacoteca é repentinamente foco de investimentos e interesses, reformada. a sala são paulo é inaugurada…

a classe média de repente volta a frequentar a área que há décadas atrás era chique. claro, são assaltados. aparecem as reportagens nos meios de comunicação. e aí, claro, as idéias de revitalização…  ambiente perfeito para se fazer uma grande negociata.

mas existem leis, plano diretor… mas então pq não se passa em cima da legislação? e não é isso que está sendo feito? duvida? leia o que escreveu a urbanista raquel rolnik, em seu blog.

claro, o projeto nova luz é uma fonte de dinheiro interessante… uma empreiteira indica à prefeitura onde quer mexer, a prefeitura desapropria e tira pessoas de lá (há diversos moradores, não criminosos, não adictos, gente simples que mora e trabalha no centro sofrendo as agruras da ineficiência da administração pública). e entrega a área pra construtora fazer a “revitalização”, ou seja, construir algo que está fora do alcance de quem lá morava.

o que será feito dessas pessoas? o mesmo que se fez com os mais antigos moradores da cidade tiradentes: moravam no centro em cortiços e habitações baratas que foram desapropriadas e demolidas pra dar acesso à uma alça da av. 23 de maio. e então foram deslocados lá pra cidade tiradentes.  se antes iam a pé ao trabalho, passaram a tomar 3 conduções. se antes levavam 20 minutos em seus trajetos, passaram a levar 2 horas, se antes a questão era de moradia, ocupação do solo, transformou-se em discussão de mobilidade….

um outro exemplo foi a degradação da área da avenida são joão com a construção do malfadado minhocão, pelo então prefeito paulo maluf, célebre pelas acusações de desvio de dinheiro. “rouba mas faz” virou um bordão que sempre é lembrado quando seu nome é citado.

prefeito biônico, ou seja, nomeado pela ditadura e não eleito. implementou obras viárias gigantes pela cidade, grandes avenidas, viadutos. sempre deslocando os mais pobres pra mais longe. sempre abrindo mais espaço para carros – de acesso apenas à classe alta e mais recentemente à endividada classe média. aumentando os problemas de mobilidade mas dando aparência de querer solucioná-los.

claro, com tantos problemas de mobilidade a cidade pára algumas horas por dia. os níveis de congestionamento batem recordes sucessivos. mês a mês, ano a ano, década a década.

são paulo chegou ao ponto de criar o just in time de gente. just in time é o sistema de produção que transforma as ruas e estradas em local de estoque, pois os insumos da fábrica nela chegam justo na hora de serem usados. em são paulo as pessoas vivem assim: saem de casa cedo, chegam no trabalho justo na hora de trabalhar, saem do trabalho e chegam na faculdade justo na hora de estudar, saem da faculdade noturna e chegam em casa justo na hora de dormir, e dormem pouco para acordar justo na hora de se deslocar para o trabalho.

muita gente só vive sua moradia nos finais de semana. é só assim que percebem que moram mal, em espaços pequenos, sem ventilação, sem vegetação. e claro, não conseguem ficar em casa e saem para ficarem paradas na fila de carros para o estacionamento do shopping, ou na fila de compra das entradas do cinema….

pessoas que vivem em deslocamentos insanos, lentos, gastando seu tempo assim até que sua vida tenha escoado em filas, congestionamentos e etc.

claro, a alternativa a isso é sempre perigosa demais: alguém que se recuse a viver assim está questionando a grande máquina de fazer dinheiro que está montada. sim, dinheiro. dinheiro circulando em serviços, em consumo de mercadorias que duram cada vez menos, em consumo de comida que poderia vir de hortas no fundo do quintal, frutas que poderiam vir das árvores das praças, de bosques…

quem vende seu carro e prefere andar de bicicleta não está contribuindo pra circulação de dinheiro no entorno do carro: o lucro de montadoras, revendedores, mecânicos, seguradoras, postos de combustível e etc.

mesmo os ativistas pro-bicicleta não têm ideia de quão revolucionário é recusar-se a participar do just in time de gente.

isso contraria muitos, mas muitos interesses. intere$$e$.

é interessante como a CET, a companhia de engenharia de tráfego faz de tudo para não legitimar outros modais além dos carros. retirou as motocicletas duma das mais vitais artérias do trânsito: a av. 23 de maio. proibiu caminhões em determinados horários (forçando motoristas trabalharem com sono, aumentando o barulho noturno, prejudicando o abastecimento). confinou ônibus em corredores “exclusivos” menores do que deveriam ser de modo a fazer com que formem filas lentas… faz campanha pra confinar os pedestres às faixas de pedestres retirando a liberdade de deslocamento deles. e claro, diz que não consegue fiscalizar e multar com base em nenhum artigo do Código de Trânsito Brasileiro, conforme noticiado no jornal folha de são paulo de hoje.

o atual prefeito não difere de muitos que lhe são anteriores. na prática, só as duas prefeitas mulheres que tivemos tentaram de alguma forma quebrar essa lógica e foram engolidas pela oposição na câmara, pelas pressões contrárias dos lobbies econômicos, e pela simples inércia (corpo mole mesmo!) de muitos dos funcionários encarregados de projetos – formados na lógica inversa, não se sentiram obrigados a contrariá-la.

então, claro, uma ciclovia pode demorar mais de 20 anos pra sair. pois o projeto tá do departamento não sei das quantas e blá-blá-blá, dai vai pra comissão X e blá-blá-blá, e pra secretaria Y e blá-blá-blá, e daí tem que ser incluído no orçamento e blá-blá-blá…. e mudam os prefeitos, os secretários, e nada anda. nada é feito.

um ou outro faz de conta que tá fazendo alguma coisa (ciclovias dentro de parques, por exemplo), acaba até enganando alguns ativistas que nem perceberam que foram cooptados que passam a defendê-los!

claro, nada é entregue pra solucionar problemas, de fato.

vide que tudo o que tem sido feito na cidade em prol da bicicleta refere-se única e exclusivamente ao lazer: ciclofaixas de lazer, por exemplo.

e o governo do estado não faz diferente. no metrô, a bicicleta não entra se for ser usada por um trabalhador a caminho do trabalho. só a lazer: depois das 20:30 hs durante a semana, sábados após as 14 hs, domingos e feriados o dia inteiro. foi preciso passar alguns anos assim para que se permitisse que se levasse as bicicletas pelas escadas rolantes, pois a estratégia de corpo mole funcionou bem: pode entrar, mas leve pela escada….

soluções pra tudo isso há, desde que se queria, de fato. mas o poder público não quer.

outras cidades do mundo solucionaram diversos desses problemas “insolúveis” aqui em são paulo. em diversos países a fiscalização consegue verificar que um carro passou a uma distância X ou Y de um ciclista, cumprindo ou descumprindo a lei. só em são paulo o marronzinho não consegue….

peguemos o exemplo do artigo 201, que estabelece que o carro deve passar a 1,5 metro do ciclista. ora, tendo as faixas em média 3 metros de largura, e o carro pouco menos que isso, basta verificar se o carro teve que mudar de faixa ou invadir pelo menos em 50% a faixa ao lado ao ultrapassar o ciclista pra perceber se passou a 1,5 metro ou não. se não fez isso, passou a menos de 1,5 metro, mesmo que o ciclista esteja andando na sargeta!

isso é apenas um exemplo simples de como pode ser fiscalizado visualmente isso. há outras formas. o fiscal pode ser treinado para estabelecer a proporção por um objeto próximo. usar das técnicas mais do que conhecidas para medir objetos distantes.

mas não, é mais fácil dizer que não dá, e que vai aplicar o artigo 169 ou 170, que tratam de direção desatenta e ou perigosa. como afirmar que alguém foi desatento se não causou dano?

a intenção é clara: não deixar funcionar, não fazer funcionar. e fazer os ciclistas de bobos. restringir a bicicleta ao lazer….

não à toa, terça-feira passada, nossa amiga michelle, ciclista, pedalando à noite em direção ao local onde se instalaria a ghost bike de lauro neri, ouviu de um motorista: “mas isso é hora de andar de bicicleta?”

como se bicicleta tivesse hora para ser usada. como se tivesse local específica pra ser usada. fora desses limites, o risco é do ciclista….

claro, é essa a mensagem que passa o poder público. tanto a prefeitura quanto o governo do estado.

afinal, quantas estradas estão cumprindo o pré-requisito legal de ter ciclovias nos trechos em que cortam os perímetros urbanos das cidades? nenhuma, não é?

sim, muito se faz para nada se fazer. isso é fato. não somos republicanos o suficiente. em são paulo muitos são os consumidores, mas os cidadãos são tão poucos! são paulo cumpre o discurso do príncipe de falconeri em “il gattopardo”, a obra prima de giuseppe tomasi de lampedusa:

“A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”

“eles”, eles, o povo, a massa, a multidão, os deserdados, os que se acotovelam nos ônibus, moram em casas sem conforto, nas favelas, os que estão nas filas dos hospitais públicos, cujos filhos estudam nas escolas públicas, que moram longe, ou até moram perto em habitações antigas, alugadas, e lutam desesperadamente por um lugar ao sol.

“nós de mãos dadas “são os grandes endinheirados que ganham fortunas pela cidade, os governantes ávidos por obras que nada resolvem a não ser problemas de caixa de campanha, todos de mãos dadas, operando a grande máquina de fazer dinheiro e moer gente, que é são paulo, o terceiro orçamento do brasil (o primeiro é a união, o segundo é o estado de são paulo, o terceiro é o município de são paulo, e só então aparecem outros estados…).

é, o terceiro orçamento da união não consegue fazer uma ciclovia na avenida eliseu de almeida e avenida pirajussara. não consegue treinar seus fiscais pra fiscalizar uma distância de metro e meio. mas consegue abrir grandes avenidas e vender muitos, mas muitos carros.

é, minha visão não é das mais otimistas. escrevo esse post ouvindo the exploited e racionais mc’s. e claro, não estou sozinho, pelo menos arturo alcorta acha mais ou menos o mesmo.

é, enquanto  vc lê esse post mais um ciclista atravessa a ponte joão dias espremido, correndo risco de morte. para ele não tem ciclofaixa de lazer.

enquanto isso o prefeito faz aprovar seus intere$$e$. a zeis da cracolândia é a prova. e claro, nada se faz, pois a secretaria blá-blá-blá, a CET blá-blá-blá,a comissão blá-blá-blá e tudo muda pra nada mudar.

domingão aproveite a ciclofaixa, pintada de vermelho da cor de um banco. mas na faixa que eu pedalo, o único vermelho que aparece é de sangue. não tem ciclovia ou ciclofaixa na praça campo de bagatelle, na ponte das bandeiras, meu trajeto diário. vermelho, lá, é só quando o carro me atropela e eu me arrasto pelo asfalto pra não ser morto.

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3 Respostas para “os intere$$e$ de kassab, ou tudo muda para nada mudar

  1. Realmente é difícil ser otimista Odir. Hoje mesmo durante o Jornal da Cultura, o Cientista Político Carlos Novaes teve a manha de falar que a bicicleta é um brinquedo e que deveria ser proibido de circular por ruas e avenidas. O cara não deve conhecer nem o umbigo dele, quem dirá a cidade. Lamentável são esses pensamentos, toda a burocracia, a má vontade e o descaso com a vida em nome do dinheiro, da pressa e do poder.

  2. Está na hora das ações de fato concretas.
    Que o sangue daqueles ciclistas que se foram não seja esquecido. Levante sua bike. Vamos dominar as ruas, elas sempre foram das pessoas, das bicicletas e outros meios de transporte não motorizados. Como gostaria de ver os carros de bois com suas sinfonias melancólicas ao que ter que dividir meu espaço com os carros de boys.

  3. Texto triste, poético, verdadeiro, de se fazer refletir. Quando estou na miha bicicleta, penso que fico muito desprotegido e leve diante dessa máquina. As vezes me sinto fugindo dela, ou correndo para ser destruído por ela. Mas pra quem pedala, com a camisa um pouco molhada, a mochila nas costas, a sensação é: estamos indo para algum lugar.

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