os nus e os mortos

roubei o título desse post de um livro do norman mailer. o livro fala de guerra, de mortos e feridos. falar do trânsito no brasil é também falar de mortos e feridos.

ontem aconteceu mais uma edição da world naked bike ride, ou pedalada pelada. aconteceu em são paulo e outros locais do brasil. ciclistas, de corpos nus e pintados circularam pelas cidades, reivindicando o básico: respeito.

mas podem os que se desnudam reivindicar respeito? tirar a roupa é protesto? sim, é, desde que lady godiva cavalgou nua pelas ruas de coventry. 

mas para os conservadores isso é apenas safadeza. aliás, para os conservadores, qualquer forma de protesto é safadeza. qualquer mudança é safadeza. afinal, conservadores são… bom, john stuart-mill os definiu bem, não é preciso aqui repetir.

mas o que tem os nus com os mortos? simples, os nus são vistos, os que foram mortos não foram vistos. acaso julie dias não gritava, antes de ser atropelada, “ei, olha eu aqui?”. gritava e gesticulava para o motorista do ônibus que a derrubou, fazendo com que outro ônibus que vinha atrás a matasse.

estivesse julie dias nua, seria vista. o que alega todo atropelador de ciclistas é que não viu. que a bicicleta e o ciclista como num passe de mágica se materializasse em sua frente. é, ciclistas devem ser com duendes, gnomos, sacis, seres que de repente aparecem à nossa frente. e depois desaparecem….

se assim é, é justo dizer que muitos motoristas não passam de mulas sem cabeça.

mas deixemos os contos de fadas de lado. o mundo real é outro. o mundo real é de prazer e dor. transitar pode ser um prazer, e pode resultar em dor.

ciclistas costumam ser alegres. não é raro vê-los sorrindo nas fotos. mas semanalmente um desses sorrisos é apagado em são paulo. uma vez por semana um ciclista morre. há atropelamentos todos os dias. e um a cada sete mata o ciclista.

mas claro, ciclistas são invisíveis. afinal, até se manifestaram como tal. gente louca, não é? andam de bicicleta pelas ruas, que obviamente são feitas para os carros. colocam diversão entre as pernas, e essa diversão não resulta em disputas por pensões alimentícias… ah, bicicleta, instrumento maldito que faz com que a pessoa tenha que se relacionar com o próprio corpo, essa origem do pecado! claro, o corpo é pecado. sentir seus músculos atuarem é pecado!

bom mesmo é mofar dentro de um carro num congestionamento, desnecessariamente. não é mesmo? poluir, poluir, poluir….

e mais, dentro de um veículo automotor podemos não ver um desses invisíveis e atropelá-los. diz a anedota que o homem-invisível morreu atropelado. o mesmo que se faça com esses ciclistas que insistem em dizer que bicicleta é para adulto e fora dos parques!

mas como, de repente eles tiram as roupas que os deixam invisíveis e voilà! todo mundo os vê! é incrível como há pessoas para ver ciclistas pelados! elas batem fotos, colocam na internet! riem, batem palmas, xingam, saúdam! não entendem nada, pois é a primeira vez que os vêem. como gritou a menina, “pelada você me vê, não é?”.

é. às vezes é preciso estar nu para ser visto. agora, nesse domingo pela manhã, pouco depois das sete horas, fui mais uma vez quase atropelado. quase. a palavra tão constante no nosso vocabulário: quase fui atropelado, quase morri.

e quando o quase se esquece de aparecer na frente da frase? ah, sim, somos invisíveis. e se somos invisíveis, que diferença faz estarmos vestidos ou nus?

é, nus nos sentimos no trânsito. expostos. expostos à indiferença, omissão, raiva e agressão, pois não?

pois sim. nus, e eventualmente mortos. até quando? essa é a questão.

até lá, serão necessárias bicicletadas, serão necessárias manifestações, serão necessários protestos, serão necessários corpos nus de quem nu já se sente.

é, os nus são corajosos. muito. enfrentaram o assédio de gente babaca, enfrentaram xingamentos de gente imbecil. mas pedalar em são paulo não é bem isso? é. infelizmente ainda é.

inobstante isso, pedalar é bom. nu ou vestido, pedalar é bom.pena apenas dos que ainda não descobriram isso. é bom. é divertido, prazeroso, ambientalmente desejável. e se são mortos, é preciso lembrar que às almas boas, é preferível ser a vítima a ser o algoz criminoso. almas boas. isso sim. aqueles que oferecem suas vergonhas ao sacrifício de uma causa. respeitem, portanto, esses doidos, homens e mulheres, que ousam tirar a roupa no trânsito.

hoje taxados pelos mais diversos adjetivos pejorativos, mas no futuro serão vistos como visionários. os que tentam construir um outro futuro, um outro mundo, uma cidade melhor. ah, sonhadores! o futuro é sempre deles.

em tempo, nesse post não irão fotos ou ilustrações. em protesto à atitude babaca de muitos transeuntes embasbacados com a nudez alheia.

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11 Respostas para “os nus e os mortos

  1. Excelente!!

  2. Muito bem! É pertinente qualquer manifestação (pacífica, porém marcante) que faça o Brasil acordar e desejar seu próprio desenvolvimento sustentável e de respeito. Que os ciclistas se sentem completamente desamparados nesta terra sem lei, já sabemos. Infelizmente as coisas só mudam por aqui se lutarmos, levantarmos da cadeira, e reinvindicar, seja com um motorista, seja com seu próprio chefe!

  3. sebastio r lima rodriguez

    muito bom esse texto e bem expricativo ate leigo entende

  4. hoje lei uma fina arrepiante de um carro – o pior é que atrás dele, num rack, haviam duas bikes…

    estou começando a achar que aquele desenho do pateta, do “senhor volante”, é verdade…

  5. Odir,
    Hoje você me lembrou o escritor valter hugo mãe… e isso é um elogio =)

  6. INFELIZMENTE TEMOS QUE MORRER OU FICAR NUS PARA SERMOS VISTOS….MAS SE FOR ASSIM….FIQUEMOS ENTÃO NUS….PARA CONTAR A HISTÓRIA PROS NOSSOS NETOS OU BISNETOS OU TATARANETOS SOBRE ESSA BÁRBARIE QUE É ANDAR DE BICICLETA NA MAIOR CIDADE DA AMÉRICA DO SUL.

    PRECISAMOS CIVILIZAR OS HUMANOS QUE ANDAM EM SEUS AUTO-MOTORES E QUE SE ACHAM NO DIREITO DE PASSAR POR CIMA DE QUEM TIVER SEM OUTRO AUTO-MOTOR.

  7. Hoje também quase fui atropelado, como diariamente acontece, mesmo vestindo uma capa amarela visível e que deve até ofuscar os olhos. Mas talvez tenha sido isso, acho que a visibilidade ofuscou a visão do motorista de uma BMW filmada e talvez até blindada. Alguns metros depois eu passo pelo mesmo carro, parei e bati na lataria algumas vezes para que ele me visse e depois fui embora. Estou ficando cansado de toda essa ignorância, eles correm para ficarem parados e no meio do caminho o risco de eliminar alguém.

  8. Todas iniciativas para sensibilizar este povo de BBB é válida, muitos não entenderam nada, e sempre os ditos “sábios” acharam vagabundagem como sempre. Ontem Terça feira, pedalando com um amigo na rod. carvalho pinto embaixo de uma baita chuva e todo molhado mas pedalando sem cessar, um caminhão “boa gente” passou bem próximo de nós mesmo no acostamento só pra passar numa possa d’água e mandar uma onda sobre nós, na hora eu pensei (eu já estou molhado! Com uma onda daquelas só daria pra me derrubar mas me molhar?), Santa Ignorância!

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