bicicleta: redescoberta do corpo, redescoberta do mundo

pedalar pela cidade é bom. quem já fez isso sabe. mas, porquê? vamos tentar entender.

jean baudrillard afirmou em “simulacros e simulações” que vivemos numa hiper-realidade. o hiper-real não é real nem irreal. hiper-real é o que não distinguimos se é real ou não. e mais, afirma ele, acabamos por simular e dissimular. simulamos o que não temos, dissimulamos o que temos.

ora, essa talvez seja a melhor definição do viver contemporâneo. pensemos, quanto de realidade temos no mundo contemporâneo? por exemplo, em relação a distâncias, o que sabemos? hoje, nas cidades, não conhecemos mais as distâncias reais. pela internet, é tudo próximo. comunicamo-nos com pessoas a milhares de kms de distância em tempo real. uma amiga em barcelona pede opinião sobre a compra de uma bicicleta pela internet com mais rapidez do que faria uma vizinha que não tem internet e teria que andar até minha casa para fazer uma pergunta semelhante.

por outro lado, no transporte, nos confundimos. durante a semana as distâncias são longas, pois somos lentos nos congestionamentos, e  somos mais rápidos nos finais de semana, sem congestionamentos.  mas, se for na fila de entrada para o estacionamento de um shopping….

quanto aos nossos corpos, estamos entorpecidos… olhamos as formas, não as funções. implantes de silicone para dar forma ao que deveria ter sido moldado por músculos são a prova. implantes de silicone para moldar as formas da panturrilha são prova disso… e claro, a cada sensação ruim, cada mal estar, nos entupimos de drogas. acaso remédios não são também drogas? não nos medicamos mais apenas por real necessidade, por doença – o uso mais legítimo dos remédios é esse, todo mundo tem direito à cura – mas nos medicamos apenas para tirar as sensações ruins decorrentes dos abusos diversos. não curtimos mais as ressacas – didáticas ressacas, aliás – mas tomamos um monte de remedinhos no dia seguinte….

não nos damos mais ao direito ao mal-estar, à tristeza, à falta de concentração. ritalina sendo consumida por pessoas que não são efetivamente portadores de TDAH. um real portador desse transtorno sabe o quanto ele o prejudica em sua vida pessoal, profissional e afetiva. mas quanto da ritalina hoje vendida é consumida pelos reais necessitados? quanto dos anti-depressivos consumidos são usados por reais deprimidos? quanto dos hipnóticos vendidos são consumidos por reais insones, e não apenas por gente inativa que não cansou-se o bastante para ter sono?

esse é o nosso mundo contemporâneo.

não é de espantar então o entusiasmo que provoca a redescoberta do mundo real, do corpo real. pessoas há, inativas em boa parte da infância e adolescência que descobrem (parcialmente, e no mais das vezes motivados por questões estéticas) o funcionamento dos próprios corpos nas academias. descobrem a endorfina e suas sensações de bem estar. o sono mais fácil no horário certo. o comer com gosto sem explodir, e também sem se entupir. descobrem seus órgãos funcionando mais adequadamente: pulmões, coração, intestinos….

mas ainda é o mundo do hiper-real. embora façam aulas e aulas de step, não sbem escadas no metrô, optando pelas escadas rolantes. embora pedalem muito nas aulas de spinning, não sabem pedalar nas ruas, subir algumas ladeiras…

esta percepção um tanto alienada do corpo, desligado do mundo real, se acrescentada a alguma ideologia um tanto esquisita acaba por dar um sentido deformado da percepção do corpo e do mundo. para essas pessoas, correr é correr simplesmente, sem significar o deslocamento a uma certa velocidade de um ponto A a um ponto B, como o era para os nossos ancestrais quando corriam. levantar pesos é apenas fazer força, e não levantar um objeto de um ponto mais baixo para um ponto mais alto.

e mais, como esses exercícios quase sempre direcionam-se ao moldar certa parte do corpo, não temos o desenvolvimento equilibrado dos membros: homens cujos braços são tão grossos quanto as coxas atrofiadas, por exemplo. ou a musculatura da frente do tórax hiper-desenvolvida e encurtada em detrimento da musculatura das costas, atrofiada, causando desequilíbrios na coluna. isso é comum? sim, pensemos em quantos não fazem exercícios por aí sem a menor assistência de um profissional de educação física.

isto acontece quando a forma torna-se mais importante que a função. assim, a panturrilha de silicone tem lógica, os kms corridos numa esteira por alguém que sequer anda na rua….

mas há a terceira possibilidade. nem a vida encapsulada e sedentária, nem a vida encapsulada e ativa como a de um hamster numa gaiola, correndo naquela roda….

a terceira hipótese é  vida real. é sair das caixas: sair de casa, sair dos prédios. ir ao mundo externo, que pode ser ali na esquina. renata falzoni sempre disse que só se tem real leitura de mundo a pé ou de bicicleta. e à pé é muito lento. e de fato é isso mesmo.

em cima de uma bicicleta é que estudantes de urbanismo estudam as cidades. ciclistas de uma cidade sabem muito bem onde estão os vales dos rios, as piores ladeiras, os topos dos morros. portanto, conhecem os caminhos das águas. conhecem os caminhos dos antigos, mais suaves pois traçados numa época em que o carro não mandava no traçado das ruas, portanto mais adequados outrora a carros de boi, e hoje, a ciclistas.

caminhos antigos que sobem espigões suavemente, serpenteando as encostas, e não subindo reto como a sempre desafiadora rua ministro rocha azevedo, em são paulo, próxima à avenida paulista.

ciclistas sabem que a avenida paulista não é exatamente plana. e ciclistas sabem também que podem estabelecer relações cordiais com aqueles que normalmente são os mais temidos pela classe média, os mais pobres, os que exercem profissões menos valorizadas, ou mais discriminadas.

passamos e cumprimentamos, somos cumprimentados por garis, por carrinheiros recicladores de papelão e outros objetos descartados, por guardas de trânsito. num dia de sol forte, parado num semáforo, comentei com um catador de papelão do extremo calor – nós dois muito suados – e ele me ofereceu com um sorriso água gelada que carregava num recipiente escondido embaixo do papelão. acaso esse tipo de relação ocorre entre aqueles que estão dentro de um carro e os que estão fora?

esse outro olhar e outra percepção da cidade não deixar de marcar a forma de ver o mundo por parte de quem pela cidade pedala. não é, portanto, estranho perceber visões progressistas acerca da real política da cidade. aqui, política temo sentido original: ocupar-se dos problemas da pólis, e não de participar de disputas entre partidos.

ciclistas acabam por ter um duplo olhar mais refinado: olhar para dentro, do próprio corpo, e para fora, do mundo.

olhamos o corpo, pois, por exemplo se de bike não tem lei seca, há a lei da gravidade. alimentação passa ser nutrição, e não apenas a satisfação de alguns sentidos.bebe-se água como sempre deveria ser, e não tantos refrigerantes e outras bebidas industrializadas mais. a vida mais saudável não chega por imposição, por crença, mas simplesmente pela necessidade, sem sacrifícios. o corpo pede o que necessita.

andar de bicicleta pela cidade nos reconecta com o que nós efetivamente somos. seres vivos na real acepção da palavra, seres humanos conscientes da nossa humanidade, da nossa fragilidade e da nossa força. em resumo, seres humanos como nunca deveríamos ter deixado de ser.

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10 Respostas para “bicicleta: redescoberta do corpo, redescoberta do mundo

  1. Belo texto, Odir.
    Tenho a impressão também que enquanto seres humanos, somos dotados de neocórtex, polegar opositor e um par de pernas dispostas a percorrer muitos e muitos quilômetros.

  2. Correção, Odir:

    olhamos a Imagem (que é o “singificante da metáfora esvaziada”, para usar o termo de Barthes a respeito do mito burguês), mas não a Forma (que seria a sintaxe), nem a Função (pragmática).

    É que eu sou mais do que estruturalista: formalista. A Imagem é precisamente a semântica (ou paradigma) cujo valor é zero.

    *Semântica/paradigma, sintagma e pragmática são três eixos de linguagem – tal-qual os eixos dos matemas de René Descartes, pra quem não sabe.

    Se com Jacobsen pensamos que há “dois tipos de afasia porque há dois eixos de linguagem” (afasia de uso, que seria do semantema ao trocar uma palavra por outra; e afasia de forma, do fonografema, articulando palavras ou sons em palavras que não deveriam lá estar), e portanto dois tipos de dislexia (leitura-cega para significado e leitura-cega para ordenação entre significantes), talvez tenhamos de fazer ainda duas coisas:

    1) supor uma terceira forma de afasia e uma terceira forma de dislexia, do eixo do pragmatema – que diria respeito a uma inabilidade linguageira em relação às consequências de uma dada fala nos outros (Roman Jacobsen considerou apenas dois eixos);

    2) para tanto, re-inverter os eixos (Jacobsen colocou o Sintagma na vertical, e o Paradigma na horizontal), e considerar que afasia de uso, jacobseniana, é tambem da ordem da pragmatica e não só do paradigma, por exemplo.

    E não se enganem: a Gramática é a coisa mais política que existe. Depois da Geografia, é claro, que serve como sempre serviu só pra uma coisa: fazer guerra! (Yves Lacoste).

  3. mas no final me ocorreu um haikai:

    “aquele caminho
    que pedalo
    de mim a mim”

  4. Lou,

    nos diz Freud, mas também Marx por outras vias, que é a posição bípede ereta que nos permitiu vermo-nos plenamente como um outro, mas também temermos o outro.

    E foi ela que, deixando as mãos livres, nos permitiu direcionar o jato de urina e controlar o fogo (Freud) e produzir utensílios (Marx, na verdade via Vigotsky).

    Nosso corpo é extenso: ele é mais do que ele é. Esse é o paradoxo do Imaginário (que não é a Imagem no sentido de metáfora esvaziada de que falei acima).

  5. Odir,

    Quando comecei a pedalar, há apenas nove meses, nunca imaginei que a bicicleta iria fazer eu parar de fumar.

    O motivo desse benéfico “efeito colateral” das pedaladas? Apenas a curiosidade de sentir como o meu sistema cardiorrespiratório, livre do cigarro, passaria a se comportar nas subidas fortes.

    E, quem diria, estou a sete meses sem fumar, após dezoito anos de fumo compulsivo.

    Enfim, estou postando apenas para dar provas de que há muita verdade quando você diz que, com a bicicleta, “o corpo pede o que necessita” para se (re)conectar ao mundo real.

    Ps: nos vemos em Holambra!

    • yeah! é disso exatamente que eu falo, paulo! vc parar de fumar pode ser surpreendente para vc e amigos não pedalantes, mas no meio verá muita gente que parou ou diminuiu muito. o corpo pede. de bike não tem lei seca, mas tem lei da gravidade. no final das contas, numa festa muito doida de sábado passado – festa de ciclista, claro – não faltou bebida (liberada pra todo mundo), bombou, todo mundo pulando, mas eu que fiquei até o final não vi ninguém, absolutamente ninguém passando mal. em outros meios teria pelo menos uma meia dúzia passando mal. e não falo de pessoas naturalmente moralistas. não é isso. é apenas uma outra forma de encarar as coisas. uma nova relação com o corpo, que não é dionisíaca nem apolínea. é uma terceira coisa.

      • Acho que é uma relação mais funcional (e, portanto, mais direta, instintiva, primitiva mesmo) com o corpo.

        Ultimamente, os novos “pedidos” vêm se direcionando a alimentação. O “motor” vem reclamando da “gasolina batizada”.

        Odir, parabéns pela percepção apurada.

      • é isso mesmo, paulo. é funcional, pois o corpo volta a funcionar. se vc pesquisar a evolução da espécie humana perceberá que nossos corpos se construíram de forma q serem adaptados a um padrão de atividade física maior do que o atual, da vida das cidades. daí os desequilíbrios. podemos claro ir pras academias, mas isso implica em separar um tempo no dia. aproveitando o transporte o corpo retoa a rotina de atividade física, e volta aos poucos a entrar nos eixos. vc deve ter notado não apenas o aumento do apetite, mas como ele muda também, não é? muitas meninas notam regularização da menstruação e diminuição de sintomas de TPM.

  6. arrasou no texto. tá lindo. ta redondo. parabens!

  7. Uma frase que me ocorreu hoje na doutor arnaldo:
    Eu uso a bicicleta para exercitar a minha liberdade. Mas não posso esquecer que a liberdade está em MIM, e não na bicicleta.

    Não sei se tem a ver com o texto mas queria compartilhar 🙂

    beijos de quem chegou no trabalho sedenta por uma maçã 😛

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