subidas!

montanhas! elas são mágicas! desde a aurora da humanidade nós somos fascinados pelas alturas. todas as culturas desenvolveram crenças acerca de montanhas, criando santuários e templos em locais altos. isso vale para o oriente médio, as américas, a ásia…

no vídeo acima, lance armstrong (camisa amarela) e marco pantani (camisa rosa), no tour de france de 2000, subindo o monte ventoux.

hoje subir montanhas ainda é uma grande aventura. respeitamos os montanhistas que chegam ao topo das maiores montanhas. pessoas pagam para participar de expedições comerciais ao everest, ao aconcágua.

de certa forma, o mesmo acontece no ciclismo. subidas, principalmente se muito íngremes, muito longas (ou as duas coisas), são grandes desafios. mas enquanto montanhistas precisam viajar, ciclistas deparam-se com desafios dentro das próprias cidades onde moram – claro, isso depende do relevo da cidade.

mas como subir bem? técnica e humildade, esse é o segredo. e claro, prática, ou seja, treino!

a técnica e a humildade andam juntas. saber colocar a marcha certa é técnica, e também a humildade de não querer parecer algo que não se é, tentando subir numa marcha muito mais pesada do que a adequada. um erro de muita gente é querer usar pedivela com coroas grandes demais. 53-39, por exemplo. essa medida é para trechos mais planos. mas mesmo os profissionais evitam usá-las em etapas de montanha das grandes provas.

alguns novatos ficam meio irritadinhos quando alguém lhe recomenda usar pedivela compacta e/ou cassete com pinhões maiores. essa irritação é a maior prova da falta de humildade. esse novato pensa: “essa pessoa acha que não sou capaz de usar 53-39′? sinto dizer, a pessoa não acha isso. ela vê isso. se alguém mais experiente recomenda marchas mais leves, é por que está visível que as marchas que está usando são pesadas demais.

quem popularizou pedivelas compactas (50-34) foi ninguém menos que lance armstrong. em grandes voltas com muitas montanhas, como o giro d’italia, é comum que os pros usem pedivelas triplas, e cassetes com pinhões maiores.

mas como o novato não sabe disso, insiste em usar 53-39 x 11-21e é o primeiro a abrir o bico num passeio. fica mal-humorado, e começa a colocar a culpa na bicicleta, em quem escolheu o caminho, e etc. e, por trás, todos riem. não da dificuldade, mas das desculpas.

se for subir pedalando sentado, suba girando leve. e para isso vc precisa de marchas leves.

o segundo detalhe técnico é a altura do selim. ninguém consegue subir bem pedalando com selim baixo. aliás, se só consegue andar de selim baixo, a pessoa até anda de bicicleta, mas não pedala. simples assim.

a altura mínima do selim não tem nada a ver com o ossinho da bacia. isso é mito. pra saber se o selim está na altura mínima pra se ter bom desempenho, faça um teste simples. suba em cima da bicicleta (com alguém seguraado a bicicleta para você, ou apoiado numa parede), apoie os calcanhares sobre os pedais e pedale para trás. se com os calcanhares sobre os pedais você não esticar a perna inteira, inteirinha, seu selim está baixo, e você está forçando a articulação do joelho e seu desempenho, principalmente em subidas, é uma lástima. coloque o selim na altura certa. e aprenda a pedalar assim.

pois bem, com o selim na altura certa e girando leve, você sobe até o everest, se quiser. mas isso não quer dizer que subirá rápido.

subir rápido é uma questão de treino.  se você está bem treinado marchas mais longas ainda serão leves o suficientes para você subir, e você subirá mais rápido.

a outra forma é subir pedalando em pé. e aí, você precisa de mais treino ainda. pois pedalar em pé eleva a pulsação em até 20%, e você usará maior quantidade de músculos do corpo. inclusive os músculos dos ombros e dos braços. ou seja, é preciso condicionamento físico adequado para pedalar longas subidas pedalando em pé. portanto, sem treino, nada disso. a não ser que você queira ficar com o coração na boca em poucos minutos, e ser passado por outro sorridente ciclista subindo sentado.

aprenda a não se irritar com outros ciclistas que estejam subindo mais rápido. e se ficar irritadinho, não manifeste sua irritação. na última grande descida da rota márcia prado, numa subida embarreada eu subia tranquilo, cantarolando uma musiquinha, quando passei por uma moça que me ameaçou de morte caso  eu continuasse cantando naquela “subida horrorosa”. pedi desculpas, engatei uma marcha mais pesada e subi em pé, mais rápido (era uma subida curta) pra sair logo de perto daquela mau-humorada.

mas isso não quer dizer que eu seja um bom escalador. num audax 600, em 2010, eu tive como companheiro o meu amigo silas batista. numa longa subida de vários quilômetros eu fui o melhor ouvinte do mundo. silas contou e conversou sobre um monte de coisas e eu concordei com tudo. ele falava  tranquilo, pois o ritmo para ele era leve, e eu, acompanhando, só conseguia concordar com a cabeça e dizer: “aham!” – afinal, ele conversava e eu mal conseguia respirar subindo naquele ritmo!

aí o segundo fator. quanto mais peso, mais difícil subir. isso serve para a bicicleta mas, principalmente, para nós. não adianta gastar milhares de reais pra deixar a bicicleta mais leve se nós não nos tornamos mais leves – o que é mais barato também. e é até perigoso alguém muito pesado em cima de uma bicicleta muito leve, e esse conjunto pode ser ineficiente. algumas rodas leves pedem ciclistas com pesos máximos baixos, sob pena de flexionarem demais e mesmo quebrarem. então, antes de endividar-se para conseguir uma bicicleta 2 kg mais leve, perca 3 kg de peso.

claro, você pode tornar-se até mais pesado, se você substituir peso corporal. aprenda a ter peso útil, e não peso inútil. peso útil é constituído por aquilo que é necessário para pedalar: músculos, cérebro, ossos, órgãos…. reserva de gordura é só peso morro acima.

sim, mas pessoas possuem compleições diversas. respeite sua compleição. os grandes montanhistas normalmente são pessoas pequenas, e naturalmente muito magras. sabe aquele ciclista que usa bermuda de ciclismo e ela fica frouxa nas nádegas? o famoso “bunda de gaveta”, obviamente gaveta fechada? pois é, tem uma grande chance desse ser esquálido ser um bom montanhista, um ótimo escalador.

ser um ótimo escalador é questão de genética. mas pode-se ser um escalador razoável, aquele que não faz feio perante os amigos, embora não seja exatamente a referência da turma, treinando bastante. pois sabemos que no ciclismo, o que faz a diferença é a perna, não a bicicleta.

a bicicleta só implica em alguma diferença a partir de um certo padrão de condicionamento e desempenho. a partir desse ponto, algumas diferenças serão manifestas.

boas bicicletas para subidas são as que pouco flexionam lateralmente. ou seja, pouco se perde da força aplicada ao pedal na flexão lateral do quadro. essas bicicletas normalmente tem as traseiras bem curtas. ou seja, não as mountain-bikes, mas speeds específicas, com traseiras bem curtinhas e leves – e bem desconfortáveis.

lembre sempre. não importa quem é o ciclista, subir bem depende de treino. no pain, no gain.

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6 Respostas para “subidas!

  1. Grande Odir, como sempre um ótimo texto!

    Já vi em muitos fóruns ciclistas que procuram melhorar o desempenho na subida de sua bicicleta escrever com orgulho dos 300g a menos que conseguiu trocando alguns componentes. E quase pedindo desculpas por ousar experimentar um pedivela compacto.

    Como você bem explicou aqui, o maior diferencial está sempre em quem pedala. E no caso da bicicleta, para o ciclista usar um pedivela compacto basta ter a humildade de admitir a hipótese de que Contador e Armstrong talvez, quem sabe (?), possam ser melhores que ele nas subidas.

    Para quem se preocupa com “status”, olhar uma bicicleta com pedivela compacto deveria despertar a admiração de seus pares: “O cara é fodão, preparou sua bike para montanhas!”

    Melhor que isso é mesmo focar no seu próprio corpo, desenvolver a propriocepção e criar intimidade com ele e com as subidas. A minha maneira é não evitar as rotas mais bonitas em meu dia-a-dia só porque podem ser mais íngremes.

    • e sabe o pior, mig? é que usam 53-39 com pinhão 12! não sabem que o pinhão 11 – que muita gente nem tem no cassete – com coroa 50 dentes dá uma marcha mais longa que 53X12. é, 50X11 é mais pesado que 53X12.

  2. gostei muito interessante

  3. sou um escalador medio subo com facilidade onde muitos abrem o pico, treino muito subidas , que é o que faço + ou -, com altura de 1.82 cm x 62kg,e bike leve, sempre recomendo pedivela compacto aos amigos que geralmente são piores e nao sobem nada ae tiram sarro da minha cara, do que adianda subir a rio do rastro de 53×39 e toma 15/20 min na cabeça
    compacto é tudo de bom

  4. Excelente texto, bastante esclarecedor e pé no chão. Diminuir um quilo na bicicleta sai bem mais caro do que dimimuir 2 ou mais quilos no próprio corpo. O resto é treino (meu maio perrengue)… Nunca andei em outra speed além da minha, mas acredito que precisar realmente de uma bicicleta cara leva um bom tempo e merecê-la ou não é algo que a balança da farmácia é quem vai dizer…

  5. EXCELENTE artigo, muito bom e esclarecedor!
    Parabéns!!!

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