rota márcia prado, ou a realidade paralela dos ciclistas

no sábado passado, 10 de dezembro, o instituto ciclobr promoveu mais uma descida coletiva de ciclistas pela rota márcia prado.

é uma rota cicloturística em consolidação, ligando a zona sul de são paulo a santos, no litoral. essa rota, por esse ou outro trajeto é sonho antigo de ciclistas. há uma ilegalidade atualmente ocorrendo no estado de são paulo: embora haja várias estradas ligando a cidade de são paulo à baixada santista, todas são interditas aos ciclistas, que têm o seu direito de ir e vir cerceado.

mas esse assunto merece um post mais longo e será publicado mais adiante. não é essa a questão desse post.

a questão é a seguinte: pessoas pegam seu carro, vão numa estrada e cerca de uma hora depois estão em santos. estressadas. ou ansiosas pra sair da caixa de lata com 4 rodas e então “curtir” a viagem.

mas o trajeto em si não pode ser “a” viagem? sim. é necessário que o trafegar seja chato? não, definitivamente não. o ato de ir de são paulo a santos pode ser sim uma aventura, uma experiência de superação, uma forma de descobrir pedaços escondidos da dessas cidades. mas vamos à rota.

a rota está mapeada por GPS nesse link aqui (cortesia do ricardo yasuda). saímos da estação vila olímpia do trem, mas vamos pela ciclovia do rio pinheiros, que é paralela à linha do trem, até a estação grajaú. então atravessamos o grajaú, com suas ladeiras íngremes. após o grajaú chegamos à APA bororé.

pegamos a primeira balsa. pedalamos por asfalto, pegamos a segunda balsa, pedalamos por estrada de terra até mesmo passar por baixo da via imigrantes. então pegamos a imigrantes até a entrada da estrada de manutenção da mesma, descemos até cubatão, atravessamos cubatão e então estaremos em santos. falando assim é fácil.

mas cada uma dessas etapas tem suas dificuldades, e também suas belezas. o ciclista não tem a visão enquadrada por uma moldura que é a janela do carro. é uma visão ampla. estamos também numa outra postura em cima da bicicleta, que facilita ainda mais vermos as coisas. andamos mais devagar, e portanto temos tempo para ver as coisas.

eu já me acostumei com essa visão ampla do mundo. não me espanto mais por ter visto coisas que carrólatras nunca vêem, saber caminhos muito diferentes e mais bonitos, enfim, ter os olhos abertos, olhos de ver.

mas gosto muito do encanto de quem acaba de descobrir isso. descobrir os limites – ou a falta deles – do seu corpo. descobrir outras visões da cidade. outras formas de ver o mundo. é bonito ver as pessoas simplesmente enxergando o mundo com outras cores, outras formas, outras sensações. a bicicleta tem essa capacidade maravilhosa de nos desentorpecer. pois o mundo moderno nos entorpeceu. fez-nos perder a real dimensão da distância, do relevo, da temperatura, das classes sociais. estamos fechados no nosso mundinho, mas a bicicleta nos arranca de lá. pra usar uma imagem do filme “matrix”, a bicicleta é a pílula vermelha.

não é necessário que eu faça meu relato dessa descida. fomos em mais de 3000, a contagem parou em cerca de 2800 e mesmo assim chegaram muito mais ciclistas. choveu pra dedéu o tempo todo. e como sempre eu encontrei um monte de gente legal.

é melhor eu usar o relato de outra pessoa. a paula, ciclista nova, na sua primeira pedalada acima de 30 kms, enfrentando chuva, frio, fome, cansaço, limo na estrada, e tudo de bom humor. o link está aqui. a leitura vale muito à pena.

minhas notas sobre essa descida são apenas à deplorável atuação da ecovias e da polícia. a ecovias até a véspera do evento estava se opondo ao mesmo. e a polícia preferiu represar os ciclistas na imigrantes montando grupos gigantes de mais de 1000 ciclistas por vez. isso causou um congestionamento monstro na entrada da estrada de manutenção e atrapalhou muito, mas muito mesmo o trabalho dos voluntários do instituto ciclobr, que estavam com uma oficina gratuita de revisão dos freios e também tentavam cadastrar todo mundo que descia, além de fazer a tradicional preleção sobre o estado da estrada.

pois a ecovias descumpre o contrato de concessão do sistema anchieta-imigrantes e não mantém a estrada de manutenção em bom estado. é absurdo que a ecovias deixe a estrada suja e cheia de limo. mas claro, quem passa de carro não vê isso. mas nós, ciclistas, vemos, e quando vamos atrás das informações descobrimos sempre os descumprimentos de concessões, de contratos públicos. com um valor tão alto cobrado pelo pedágio, como não fazer a manutenção simples de uma estrada onde veículos pesados raramente circulam? por que deixam acumular folhas podres?

sim, nós vemos os erros da administração pública, direta e indireta. nós vemos o asfalto ruim e mal cuidado da cidade de são paulo melhor que os motoristas em seus carros com suspensões.

nós, ciclistas, enxergamos tudo isso. e incomodamos pois não temos medo de dizer que o rei está nu.

no mais, o caminho da rota está disponibilizado para GPS no link que postei no início do texto. o caminho pode e deve ser feito a qualquer momento do ano. eu mesmo em 2011 fiz várias descidas. e farei outras em 2012, sozinho ou com amigos. a rota márcia prado vive, portanto viva márcia prado!

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12 Respostas para “rota márcia prado, ou a realidade paralela dos ciclistas

  1. Que rota cicloturística em consolidação o cacete! Papinho furado pra enganar otário! Forçam a galera atravessar o fim-de-mundo do Bororé e descer pela BOSTA da manutenção que é mil vezes mais perigosa que descer pela Imigrantes, porque são sacanas e querem desestimular o uso da bike, é igual dizer: “tá vendo que ir pro litoral de bike não dá?” Tem um cartel enorme das empresas de ônibus por detrás, imagina: se vira moda, onde vai parar o lucro delas? Pra quem quiser perder tempo de ler, tem uma outra versão mais hardcore desse comentário, aqui: http://bicicletadaabc.wordpress.com/2011/12/14/rota-marcia-prado-e-o-direito-de-ir-e-vir/#comment-79

    • fred, conforme eu disse no post, a questão do uso da imigrantes eu discutirei em outro post. não podemos criar uma situação de “imigrantes OU manutenção”. essa escolha tem que ser do ciclista quando vai descer, incluindo outros caminhos, tb a anchieta ou a estrada velha de santos. são 4 caminhos. a rota márcia prado, pelo grajaú, é apenas um desses caminhos possíveis. há outros. e todos devem ser objeto de nossa luta.

  2. Pedala Gnomo! Saudação revê-lo lá Odir. Você ronca pra carai…. rs.
    Abração, mais um excelente texto.
    😉

  3. Adorei! O post, a referência, o passeio e, em especial, as descobertas!
    😉

  4. Na boa, o trecho do Bororé é muito loko e a estrada de manutenção é sensacional, tanto pra descer quaanto pra subir! Animal!

  5. Paulo Fernando Teixeira

    Ótimo texto Odir, cheio de emoção como sempre

  6. Kararyu O Dragão Fantasma – nossa, q otário vc, sem palavras o cara escreveu todo o relato da descida e vc me vem com essa de imigrantes.. cada uma!! uma coisa é vc descer no meio do verde e outra é no meio do cinza com lata de sardinha do seu lado.. ta com pressa vai de helicóptero então.

    • Qual foi a liberdade que eu te dei de me ofender, SEU CUZÃO DO CARALHO? SERÁ QUE VOCÊ IA ME FALAR A MESMA COISA NA MINHA FRENTE, SEU TROUXA? PRIMEIRO APRENDE A LER, SEGUNDO, LÊ DIREITO E TERCEIRO, PÁRA DE USAR CRACK PRA ENTENDER O QUE AS PESSOAS QUEREM DIZER, SEU IMBECIL! E VAI TOMAR NO SEU CU ANTES QUE EU ME ESQUEÇA! VOU ESTAR NA PRAÇA DO CICLISTA DAQUI A POUCO E QUERO TE VER LÁ SE VOCÊ TIVER CULHÃO, SEU VIADO!

  7. Só um detalhe Odir. A Estrada de Manutenção não é da Ecovias, é uma estrada do Parque que é usada pela Ecovias porque o parque deixa. Portanto quem seria responsável pela manutenção da pista para não criar limo por exemplo, é só o parque, se a Ecovias fizer não passa de um favor.

    Por isso que quero logo que seja criada essa rota de acesso ao parque, porque depois disso podemos mandar a Ecovias tnc e aí o Parque poderá administrar a estrada, não só tirando limo, mas fazendo proteções como vemos nas montanhas européias, para os ciclistas não se esborracharem barranco a baixo.

    Mas de nada adianta forçarmos o parque a cuidar da estrada se não temos como enfiar mil ciclistas por semana lá dentro.

    []s

    André

  8. Belo texto, Odir!
    Pena que ainda estava em Floripa e não consegui refazer o caminho da última cicloviagem de nossa amiga.

  9. Pingback: Márcia Prado, amiga e cidadã | Pedalante

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