geometrias de quadros II – ângulo do tubo vertical

continuando o post anterior sobre geometrias de quadros, analisemos o ângulo do tubo vertical do quadro. esse ângulo é muito, mas muito importante.

C: o ângulo do tubo vertical do quadro! (diagrama de um quadro giant ocr).

para entender que ângulo é, imagine uma linha saindo do meio do selim, passando pelo eixo da pedivela e chegando ao chão. o ângulo dessa linha com o chão é o ângulo real do tubo vertical. existe o ângulo efetivo e o real. o ângulo efetivo é simples de imaginar: é só estender uma linha pelo tubo vertical do quadro até o momento que toca o chão. mas esses ângulos podem ser diferentes? podem, pois podemos deslocar o selim para frente ou para trás.

quando deslocamos para frente ou para trás mudamos o ângulo real entre o ponto onde o fêmur gira na bacia, o eixo do pedal na sua posição mais baixa, e o chão.

mas por quê esse ângulo tem importância? simples. o selim está sempre paralelo ao chão. quanto mais próximo a 90 graus, mais o ciclista estará usando os músculos da parte anterior da coxa, a parte frontal. também é mais fácil estar inclinado para a frente, numa posição aerodinâmica. já quanto menor o ângulo, mais usamos a parte posterior da coxa, melhor para fazer realmente força numa subida, mas mais difícil é ficar inclinado para frente.

a questão é: qual ângulo é o ponto mágico onde temos um equilíbrio entre o uso da parte anterior e posterior da coxa, e uma certa facilidade para inclinar-se pra frente? depende. depende do uso que se dará à bicicleta, e também ao tamanho do fêmur do ciclista em relação ao próprio tamanho da perna. pois é, duas pessoas com o mesmo tamanho de perna podem ter tamanhos de fêmur diferentes…

mas de modo geral, 74 graus é a média. podemos corrigir para 73 ou 75 graus apenas movimentando o selim para frente ou para trás. também há canotes que deslocam a posição do selim mais para trás ou mais para frente, de acordo com as necessidades do ciclista.

74 graus é o ângulo mais comum nas bicicletas de estrada. 73 graus é mais comum em mountain-bikes (que desprezam a aerodinâmica em favor de força para pedaladas morro acima e de mais conforto), e em bicicletas de contra-relógio, é comum que esse ângulo seja de 76 graus (mais ou menos o limite máximo permitido pelas regras da UCI). muitas bicicletas de triathlon – em desacordo com as regras da UCI – costumam ter 78 ou 80 graus.

aqui vale uma explicação específica para as bicicletas de triathlon. triathlon é um esporte complexo: nada-se, pedala-se e corre-se. esse detalhe, da corrida após a pedalada é importante.

com 78 graus, o uso da parte anterior da musculatura da coxa será privilegiado. mas os músculos da parte posterior da coxa serão poupados. é vantagem esse detalhe se vamos depois de muito pedalar, ainda correr uma maratona… na corrida, usamos bastante a musculatura da parte posterior da coxa.

além disso, com 78 graus de ângulo, fica bem mais fácil pedalar usando o guidão aero, apoiando-se sobre os cotovelos, numa posição bem aerodinâmica.

mas quem usa uma bicicleta de triathlon deve cuidar da musculatura posterior da coxa, sob pena de ficar hipertrofiado na frente e “seco” na parte de trás da coxa.

por uma questão de geometria, o ângulo do tubo vertical do quadro pode interferir no comprimento da traseira da bicicleta. quanto menor esse ângulo, mais inclinado para trás o tubo vertical e, portanto, mais acima da roda traseira ele deve tocar, levando a posição do movimento central a ficar mais distanciada da roda. algumas bicicletas, para evitar esse efeito, são construídas com o tubo vertical curvo. assim, o tangenciamento do tubo à roda contorna-a.

com tubos curvos, podemos ter as traseiras bem encurtadas (chegando a ter a traseira apenas o espaço justo para a entrada da roda), mas mantendo ângulos do tubo vertical abaixo dos 90 graus – o único ângulo que permite ter uma traseira bem curta sem que se tenha que recorrer ao tubo curvo, mas uma bicicleta com ângulo de 90 graus é simplesmente uma tortura ao pedalar e deformará a musculatura da perna, se muito usada.

algumas bicicletas possuem ajustes de angulação maiores. as chamadas “beam bikes”, nas quais o selim está montado num tubo superior do quadro montado em balanço, e desliza pra frente e para trás, permitem esses ajustes. são bicicletas como as antigas softrides e as atuais titanflex. elas não tem o tubo vertical do quadro. muito confortáveis e aerodinâmicas, e ilegais para as provas da UCI.

softride qualifier SE. o selim pode ser ajustado horizontalmente.

outras bicicletas de contra-relógio possuem um canote com duas posições de montagem do encaixe do selim. assim há uma posição bem à frente, mais adequada ao triathlon, e outra, um pouco mais atrás, que deixa a bicicleta de acordo com as regras da UCI (mais especificamente regra 1.3.013), ou seja, permitindo que se monte o selim com sua ponta no mínimo 5 cms atrás da linha vertical que passa pelo eixo do movimento central. o que dá, em média, no máximo 76 graus.

cervélo p3. tubo vertical curvo. note abaixo do selim, aquele buraco que na verdade é a segunda posição de montagem do selim, mais atrás. na foto, está montado mais à frente.

a essa altura quem lê esse post já deve estar achando essa discussão um tanto complicada. mas vamos resumir: quanto menor o ângulo do tubo vertical, mais força podemos fazer numa subida, mais confortável fica uma bicicleta. mas quando maior o ângulo, mais aerodinâmica fica a bicicleta, ou melhor, ela permite que se pedale mais inclinado para frente. então, dependendo de que bicicleta se está usando, de sua finalidade, teremos ângulos menores de 72 ou 73 graus (comuns em mtbs), 74 a 76 graus (bicicletas de estrada e de contra-relógio), e de 78 a 80 graus (bicicletas específicas para triathlon).

o porquê destes ângulos é que tornou este post um pouco mais longo. mas está tudo explicadinho. e claro, numa subida, deslize em cima do selim, um pouco para trás. pedalará melhor.  na descida, deslize para frente, o que permitirá abaixar bastante, e oferecer menor resistência o vento.

e se sua bicicleta preferida não possui o ângulo vertical que deseja, há canotes especiais que permitem ajustes maiores. procure, sempre há solução.

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9 Respostas para “geometrias de quadros II – ângulo do tubo vertical

  1. Mais uma excelente postagem! Abraços

  2. sempre uma aula os seus posts…
    falando em selin, o q fazer quando não se encontra um na medida (29.6 ou 29.8) para substituir um antigo q quebrou?

  3. Oi odir

    achei que voce nao existia mais, demorou muito desde o seu ultimo artigo.
    o artigo está ótimo, espero voce em boituva, abs e bom pedal,
    richard

  4. Odir,
    vi que vc estava doido atrás de uma bike com quadro de titânio com tamanho pequeno, q tal esse? http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-212214882-bicicleta-quadro-litespeed-titanio-com-rodas-titanio-_JM
    só fica esperto pq não sei se ela é para aros 700 ou 650c….

  5. Pingback: geometrias de quadros III- ângulo da caixa de direção | as bicicletas

  6. Pingback: Road ou Mountain Bike? » Ciclomundo

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