DMSC S22

setembro, 22, dia mundial sem carro.

carros são para os fracos!

não é de hoje. todo ano tem, e talvez você nunca tenha ido. eu vou. há anos. pra mim, todo dia é dia mundial sem carro. eu não acredito em carros, e não é de hoje.

vai ter muita coisa nesse setembro 22. café da manhã pra ciclistas na avenida paulista. de graça, passe lá. cortesia da ciclocidade, associação de ciclistas urbanos de são paulo. apareça, coma, tome seu café, pedale feliz.

deixe a lata velha em casa.

à noite, ali na praça do ciclista, bicicletada! bicicletada especial do dia 22. não perca. vale matar a aula. dessa vez vale.

quer saber como é uma bicicletada de 22 de setembro? é linda. não digo mais, é linda. uma festa gigante, olhos brilhando com tanta gente linda pedalando. colo abaixo meu relato sobre a bicicletada de 22 de setembro de 2003. isso, 2003, quando ainda não existia praça do ciclista. baixou polícia. deixamos de lado. éramos mais jovens. mais magros. mas não menos raivosos… mas a nossa raiva nunca foi violenta, pois há algo pior que o ódio, a indiferença. ignoramos a tentativa de nos cercearem direitos. deixa pra lá! leia e divirta-se com a minha ingenuidade. eu era tão bobo… e  de lá pra cá, só engordei. gordo bobo!

mas a gente sempre acredita que algo pode melhorar. assim se segue adiante.

  • Subject: a invasão da avenida paulista, ou éramos todos anarquistas e não sabíamos.
  • Date: Tue, 23 Sep 2003 12:23:35 -0300
ontem a noite estava linda. não choveu, não sei se havia estrelas no céu,
mas parecia que elas estavam no chão, em suas bicicletas.pena que uma das minhas c10 quebrou o câmbio, não pude emprestá-la ao léo,
que acompanhou o ato de outro modo: a pé.

mas elas estavam lá, as bicicletas, com seus donos, ali, quase no final da
avenida paulista, na intersecção com a rua da consolação.

estavam lá as bicicletas, ostensivas, desafiadoras, como se dissessem aos
outros veículos, principalmente os carros: “estamos aqui, e hoje ocuparemos
o nosso espaço, que é de direito, e já foi reconhecido em lei. respeite-nos.
respeite-nos, pois ocupamos menos espaço que vocês, e não emporcalhamos o
ar, como vocês fazem cada vez que seus condutores pisam no acelerador.”

as bicicletas estavam lá, com seus donos, tão variados quanto as máquinas.
havia gente de todas as classes sociais, com todo tipo de bicicleta, muita
gente para uma noite de segunda-feira, nessa megalópole selvagem, cinzenta,
poluída e ao mesmo tempo tão fascinante.

fui até lá. já estavam outros, uns conhecidos, outros não, mas todos com um
mesmo objetivo: ocupar o espaço, dar visibilidade a uma outra forma de
transporte, mais humana, mais saudável, menos predatória, menos
individualista, antítese do egoísmo estampado nas gigantescas vans pretas
ocupadas, normalmente, por apenas um egocêntrico imbecil, para quem o outro
ser humano não é o companheiro de jornada, mas apenas um estorvo.

saíram em torno de 70, após uma entrada ao vivo na rede globo (que eu,
inadvertidamente, atrapalhei com um grito a um amigo…, mas dane-se, era a
rede globo…).

andamos lentamente, com a majestática calma de quem ocupa seu espaço. apenas
um ou outro chato egoísta reclamava (pra variar, alguém me gritou que lugar
de bicicleta era no mato. tsc, tsc, tsc, desde quando bicicletas são sapos,
corujas, cobras, gambás?).

pedalamos, paramos, panfletamos, pedalamos, paramos panfletamos…. na
esquina da rua pamplona, dois PMs, “homens da lei”, queriam saber quem era o
“responsável” pela manifestação, apenas para “anotar, registrar e passar
adiante”. até algum tempo atrás, esse passar adiante era o destino para o
finado GRADI, órgão da repressiva secretaria estadual da segurança. o GRADI
foi dissolvido por seus excessos, por assemelhar-se a uma espécie de gestapo
tupiniquim, restolho do repressivo estado militar. mas a PM, a polícia
militarizada, que premia aqueles que “matam em combate”, que ainda acha que
“quatro crioulos num opalão” é atitude suspeita (pois “negro de carro é
bandido”, quanto racismo!), essa mesma PM mandou dois sargentos tentar
descobrir quem era o responsável. tentou num sofisma extrair um nome
“responsável”. se há organização, TEM que haver um chefe…

pobres PMs. vontade organizada não precisa ser dirigida. não pedalamos por
que nos mandam. pedalamos pq é da nossa essência. pedalamos pq é um ato de
liberdade, e, se pedalamos ontem unidos, foi pq havia uma comunhão de
interesses, de vontades, de determinação. e o sargento não entendia…
afinal, quem era o chefe daqueles anarquistas? hehehe

ensaiei um bate-boca (cá entre nós, há muito tempo não saio no braço com a
PM, acho que estou ficando frouxo…). mas até aquele momento pensava que
era o único advogado ali presente, e pensei: “não posso ser o primeiro a ser
preso. posso ser o segundo, na defesa do primeiro preso, daí chamo o plantão
de prerrogativas da OAB.” acabei por começar a gritar, depois de uma
sugestão do pablo, para irmos embora.

ficaram os PMS a ver navios, ou melhor, bicicletas saindo e carros
passando…. se quisessem engrossar, o que poderiam fazer? nos prender por
exercermos nosso sagrado direito de ir e vir, nosso sagrado direito de
manifestação?

apenas uma nota: a PM deve ter ministrado cursos de relações públicas aos
soldados. quando a renata falzoni começou a filmar a fala do sargento, ele
passou a dialogar sorrindo, pra sair bonitinho na tela…

mas seus intentos de conter a subversão ciclística não deram certo.

subversão ciclística…. têm idéia do quanto é subversivo pedalar na cidade?
a economia mundial está organizada em torno do petróleo. países do
hemisfério norte são os maiores consumidores, e dependem do fornecimento de
outros países. ter uma grande jazida de petróleo costuma ser uma maldição
para os povos. significa que a américa do norte ou a europa não hesitará em
bancar regimes autoritários, massacrantes, despóticos, desde que o
fornecimento de petróleo e gás não seja interrompido. quando um país
produtor de petróleo ameaça os intentos dos países hegemônicos, seu governo
é, no mínimo, desqualificado. no irã a mulher tem mais liberdade que na
arábia saudita. todavia, o que se fala da arábia saudita, fiel fornecedora
petrólifera? e o que se fala do irã, grande exportador de gás, mas cuja
política externa é independente?

e mais. quando do final da II guerra, a imensa capacidade instalada
norte-americana, para a produção de caminhões, ficou ociosa. pq não fomentar
a exportação de caminhões? ora, pq não desarticular as ferrovias dos outros
países? pois bem, desde então, no brasil, ouve-se que governar é abrir
estradas.

por isso pedalar é tão subversivo, tenhamos consciência disso ou não. quem
anda de bicicleta talvez não troque de carro todo ano. não gera pagamento de
royalties às montadoras transnacionais (quantos fabricantes de veículos,
genuinamente nacionais, temos?).

pois nós, os subversivos anarco-ciclistas estávamos lá, ontem, na avenida
paulista. fomos do final ao começo da avenida, e de volta, do começo ao fim.
calmamente, a 8 km por hora. panfletamos muito, fizemos nosso espetáculo
nessa sociedade espetaculosa. subvertemos a ordem reivindicando uma nova
ordem. sem chefes. sem líderes. cada um por si e todos juntos. parabéns a
todos os que, de algum modo, participaram.

ontem talvez não houvesse estrelas no céu da avenida paulista. elas estavam,
com certeza, no chão. brilhando nos olhos dos ciclistas.

[]’s
odir
http://www.bicicletada.org
metralhas bike team: o seu programa de índio ou a sua rotina de volta.
p.s. pra quem não me reconheceu lá, eu era aquele tapado numa speed, com uma
camiseta do “pânico”, e um capacete roxo.
p.s.2. juca, mantivemos a mítica metralha: onde há dois metralhas, a polícia
aparece….

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3 Respostas para “DMSC S22

  1. como diria Nega Jô, legendária trançadeira de cabelos do Terreiro de Jesus, Pelourinho, Maciel de Cima, Taboão & arrabaldes: ME DÊ LUZ QUE EU SOU ESPÓTICA!

  2. Lindo. Deixou-me com lágrimas nos olhos. =o)
    Que sejamos mais felizes em nossas magrelas do que sempre fomos!

  3. Incrível. Em menos de 10 anos um evento tão singelo cresceu e se tornou referência nacional. E continua crescendo! Quem sabe onde isso tudo vai parar? Espero que num lugar bom.

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