elas e o pedal

homens são violentos, é fato. é só conferir a história das guerras, onde a participação nas frentes de batalha é de longe predominantemente masculina. homens tem o péssimo costume de tentar resolver muita coisa pela via violenta. brigas de trânsito são um exemplo. não é comum vermos mulheres esmurrando-se no trânsito. não que não haja mulheres violentas. há. mas o número é proporcionalmente muito menor.

mas não se resume a isso a violência masculina. ela se estende ao sexo. sim, estupro. estupro não é o sexo violento por si só, é o sexo não consentido. sexo forçado, pela força propriamente dita, ou pela grave ameaça. pois o sexo violento pode ser consentido. é o caso dos adeptos do S&M.

o que talvez muitas mulheres não saibam é que a grande maioria dos homens considera o estupro um crime pra lá de hediondo. é só lembrar o que costuma acontecer com estupradores nas cadeias. se no direito a pena é de prisão, nas cadeias a pena é de morte.

mas para a mulher estuprada, basta um em um milhão para que a tragédia ocorra.

esse fantasma persegue as mulheres, de uma forma ou outra. se não está em sua mente está na fala dos demais. sempre há os que alertam para a presença do fantasma. cuidado! palavra sempre ouvida pelas mulheres de uma forma enfática. e claro, sempre relembrada se algo lhe acontece: eu lhe avisei! é a estratégia da culpabilização da vítima.

mas é vítima. culpar a vítima? não se deve. não numa sociedade estruturada, civilizada.

uma das características da civilização é o controle da violência. monopólio da violência é atribuição do estado, portanto sofrer violência nas ruas é falha do estado. sentir-se seguro na cidade é o motivo pelo qual o humano nela vive. por isso, nós, gregários por excelência, nos ajuntamos tanto.

a mulher é a vítima dessa violência. deveria? não. claro que não. mas sofre. poucas percentualmente sofrem de fato a violência física do estupro. para cada mulher estuprada há milhares que não foram.

no entanto milhares sofrem da violência psicológica da ameaça constante. do aviso: cuidado! mesmo quando no mais das vezes não é necessário.

isso acontece constantemente com a mulher ciclista. principalmente a que pedala à noite. embora o crime que mais deva temer a ciclista seja o roubo da própria bicicleta, o que lhe sussurram e gritam é sobre a violência sexual.

conheço centenas de mulheres ciclistas. conheço aquelas que tiveram suas bicicletadas tiradas à força. não conheço nenhum caso de estupro por estarem pedalando. mas todas sem exceção ouvem de pessoas próximas, homens e mulheres, que poderão ser estupradas se estiverem sozinhas, se estiverem pedalando à noite, se forem livres ao pedalar.

é uma forma de violência simbólica, pra usar um conceito de pierre bourdieu. ela mantém a mulher inferiorizada, diminui sua mobilidade, a mantém no constante e estressante estado de vigilância, no mais das vezes absolutamente desnecessária. e é em parte responsável pelo ainda pequeno número de mulheres pedalando nas ruas.

mulheres pedalando são o termômetro da segurança de uma sociedade. e também no trânsito, na violência de trânsito, que é outra violência.

a tolerância ao risco é menor por parte das mulheres – por isso elas têm um número menor de mortes idiotas, tão caracteristicamente masculinas: excesso de velocidade, manobras perigosas, mania de se achar um ayrton senna na direção do seu carrinho popular ou pior ainda, no seu caro carro importado e gigante. homens esquecem constantemente da equação: carro grande = pinto pequeno.

mas há mulheres guerreiras. as que ultrapassam essas barreiras. as que não se deixam acorrentar pela constante violência simbólica sexista. de uma forma ou outra elas passam por fissuras nesse muro. e são cada vez em maior número, ainda poucas, mas, para mim, tantas! todas belas pois felizes. e todas na esteira da renata falzoni, que fez aniversário por estes dias.

são as evelyns pedalando sozinhas no nordeste e mostrando que os nordestinos são mais civilizados do que a visão preconceituosa quer fazer crer. são as lous pedalando num mundo distante onde as mulheres não eram vistas sozinhas. são as célias e alines e taízas e natalys pedalando no trânsito pesado diariamente, as verônicas mostrando que não se perde a elegância ao pedalar, as talitas botando a mão na graxa, as amandas aprendendo a rodar na marginal, e tantas outras que agora se chegam.

o mundo muda. e o futuro chega, nos alforjes das bicicletas femininas.

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12 Respostas para “elas e o pedal

  1. lindas palavras odir. obrigada pela sensatez =)

  2. Obrigada pela sensibilidade!
    Mandei para todas as minha amigas que, assim como eu, enfrentam a cidade de Salvador em bici! Assim que tiver acesso ao face, vou postar lá no grupo Meninas ao Vento- Pedal Feminino de Salvador.
    Ana Elisa

    • “enfrentam” por que? Não é melhor dizer que “desfrutam”?

      Eu não enfrento cidade alguma. Eu amo-as demais para brigar com elas. Eu gozo delas, e de preferência com elas. Nas suas delicias como nas suas desgraças. (tem a ver com a lição que Calvino extrai da primeira fala de Mercúcio. Romeu se queixando do “peso de estar apaixonado”, e Mercúcio responde: “ora, tens as asas do amor! – voe, e pare de se queixar…”)

      • , lucas. acho que sua vida melhor que a da ana elisa. a condio feminina atual impe um “enfrentar” mesmo, um enfrentar cotidiano que difere do nosso desfrutar. o assdio mulher aparece de vrias formas, at a forma “cordial” do aviso do perigo inexistente, que s serve pra criar um clima constante de tenso. e vc acabou de fazer isso, ao recomendar que andem armadas. se necessrio que se ande armado, temos portanto algo que contradiz o paradigma da urbe, que fornecer segurana em relao ao mundo que lhe externo. e como se desfruta uma cidade se necessrio andar com estilete?

        ________________________________

  3. ai que lindo! muitos, muitos alforjes femininos a espalhar cor e alegria pela cidade! vc sabe seduzir com palavras, f.d.m.!!

  4. sou solidário com todas…
    concordo , um motoqueiro tentou roubar o celular de minha noiva e ela tava de bike ….

  5. se há um deus, ele é piedoso: não deixou eu nascer mulher.

    Eu, se femea fosse, estava 30h por dia no melhor estilo puta armada de navalha! Isso não é ofensa: uma grande amiga, das pessoas mais independentes que conheço, é assim.

    “Luciana, e se tu for assaltada?!”

    “Coitado do assaltante!” – diz ela do alto de seu 1,5m de altura, mostrando o estilete pronto para ação escondido no punho. Detalhe: sem descer do salto…

  6. Não recomendei que andei armadas. Até porque, a melhor arma que tem uma mulher vem em sua anatomia – só pra não perder o prazer de citar Chordelos de Laclos, que está bem longe de ser machista.

    Eu sou contra qualquer discurso vitimizante. Sentou na posição de vítima? Perdeu! – mesmo que a posição de vítima tenha sido construída por um Outro, ela só há se o sujeito a ela aquiescer.

  7. mas hei-de reconhecer: há um prazer insuperável em sentir-se vítima. É o que não cansam de nos ensinar Etiene de La Boetie, O Barão de Sacher-Masoch e a grande feminista não-idiota Pauline Reagé.

    Não vitimizar-se já é dificil se nada nos empurra a ser vítimas, quanto mais quando tudo nos empurra. Mas talvez negar-se a ser vítima justo quando tudo nos leva a sentir-mo-nos vítima seja, precisamente, o Ubber-Mensch de Nietzsche. É o momento de mais plena soberania subjetiva, de total he-auton-crateia, da capacidade do organismo gerar e gerir novas normas.

  8. oh, Odir, você não entendeu.

    a amiga que citei não tem “o fardo de andar com estilete”. Ela tem o prazer de vir a usa-lo! – é sadismo benigno mesmo.

    Ela usaria mesmo que não fosse necessário. Ela assume que adora sacanear um macho, qualquer que seja ele, sempre que possível (ela se chama a si mesma de Marquesa de Meurteil, por aí você tira). E está longe de ser lésbica – mas ela sabe que os homens devem atender ao prazer dela, e não o contrário. E aí de quem tentar diferente!

    Falta a ti, gigante-baixinho, certa dose de perversão. Sade te manda lembranças…

  9. Belíssimo texto!

    Vou encaminhar para minha garota. Ela já tem uma bicicleta, mas ela é um pouco, digamos, sedentária… (risos)

    Ótimo pedal a todos(as)!

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