uma pedalada importante

alguns pedais são importantes na vida da gente. pedais que  marcam não a experiência ciclística da gente, mas marcam a vida.

meu primeiro pedal importante não durou meia-hora. não é o pedal do aprender a pedalar. eu já sabia. já andava sem rodinhas. era setembro de 1977, eu já tinha a bicicleta há quase um ano. mas tínhamos mudado daqui de são paulo para recife. era o segundo dia na casa que meus pais alugaram lá. uma mudança que eu sabia traumática, motivada por doença em família.

lembro muito do choro da minha mãe no momento em que o carro saiu da frente da casa em que morávamos. choro convulsivo. viagem em clima tenso, 3 dias dentro do carro. chegamos e ficamos em casa de amigos, e dias depois chegou a mudança, e com ela minha bicicleta.

uma caloi branca. berlinettinha, dobrável. não sei se era branca por se antever meu fascínio décadas depois pelas bicicletas brancas dos provos de amsterdam, ou por que talvez seja a cor de minha última bicicleta: todo ciclista urbano paulistano está sujeito a ganhar uma ghost bike.

mas a mudança chegou e no dia seguinte, acho que um domingo, pois tanto meu pai quanto minha mãe (como meus irmãos) dormiram à tarde. e eu estava só. da cidade nova conhecia apenas o jardim de frente daquele sobrado de 3 andares.

morava numa rua que dava numa outra onde havia um canal. era tudo terra, ou melhor, areia. era na boa viagem, então não tão chique quanto hoje.

era depois do almoço, todos tiraram um cochilo e eu escapuli coma bicicleta. saí de casa, virei à erquerda, fui até o fim da rua e virei de novo à esquerda na rua que ladeava o canal. segui uns 3 quarteirões. desviando das poças de água – havia chovido, estava nublado. 3 quarteirões adiante, numa cidade desconhecida, um moleque que nem sabia o endereço de onde morava, era longe pra dedéu. confins do universo.

senti medo. voltei temendo ter me perdido. mas voltei pra casa. senti aquela adrenalina da descoberta, o desamparo do novo, o sentir-se só tendo que confiar apenas nos próprios instintos. cheguei em casa com o coração na boca.

mas virei um explorador. e nunca mais tive medo de me perder. em lugar nenhum. em situação nenhuma. posso até não saber onde estou, mas sei voltar. isso vai ser útil quando eu for um velhinho. duas coisas essenciais na velhice: saber voltar pra casa, e chegar no banheiro a tempo, antes de vazar na roupa.

outros pedais vieram depois desse. incontáveis. acho que daquele dia até hoje já pedalei daqui até marte, e voltei.

um outro pedal. 31 anos, voltando a pedalar, um final de ano, indo de bicicleta pra casa de praia de uma namorada. estrada velha de santos… muita chuva. e passei reto numa curva. deitado no chão levanto as mãos e vejo através da minha mão direita. vejo meus ossos. uma bela fratura exposta.

descemos o resto da estrada e eu passei o reveillon no hospital.

tenho sequelas até hoje. e comemorei os 10 anos desse acidente indo de bicicleta de rio negrinho, em santa catarina, até são francisco do sul (passando por jaraguá), fazendo 140 kms, pegando umas subidas e descendo uma serra linda, numa estrada horrorosa sem acostamento e esburacada na borda.

outro pedal importantíssimo. meu primeiro audax, acho que o primeiro audax do brasil. 2003. 200 kms. os últimos 70 eu pedalei só, debaixo de chuva. com furo no pneu, com o remendo sem pegar direito, sem conseguir encher direito a roda dianteira da bicicleta. a mesma adrenalina. os faróis fortes de hoje ainda não nos eram acessíveis. usava um cateye halógeno que usava duas pilhas médias, grande, cuja carga durava pouco. a mesma adrenalina daquele pedal aos 7 anos. era o primeiro pedal longo depois do acidente da virada de 2000 pra 2001, o teste pra ver se a mão aguentaria.

e meu último grande pedal. durou pouco, mas lembro dos cheiros e sobretudo da luz. não pedalei nem 20 kms. mas que felicidade!

eu havia sobrevivido a uma infecção que quase virou endocardite. passei aquele natal hospitalizado. só, na noite de 24 de dezembro de 2009, ouvindo o choro e soluços de outros pacientes. um desfibrilador por perto. passei a noite pensando em bicicletas. minha fuga.

dois dias depois estava fora do hospital, mas enfrentei ainda um tempo com o pescoço aberto. tomando antibióticos fortíssimos que me deram reações alérgicas que envolviam tendinites generalizadas no corpo.

mas o médico me permitiu exercício físico no dia em que percebesse o corte fechado. e assim foi. num dia ainda havia uma secreçãozinha no curativo. na manhã seguinte, nada. olhei no espelho, olhei e o corte parecia fechado. tudo inchado ainda, mas fechado.

passei a manhã inteira pensando se pedalava naquela tarde ou não. no meio da tarde, coloquei a fantasia de ciclista, peguei a vitus e fui.

o corpo dolorido. as subidinhas perto de casa, até a av. engenheiro antônio álvares nunca foram tão íngremes. havia perdido quase 10 kg em 12 dias de hospitalizado, os joelhos e tornozelos doíam a cada pedalada, as articulações todas! tudo inchado de tendinites…

mas como foi bom aquele pedal. o sol batia numa poça de água e refletia um milhão de cores. nunca a água suja de uma poça no asfalto do ponto onde a engenheiro antônio álvares encontra com a marginal tietê – um lugar feio pra dedéu – me pareceu tão bonita. até o lixo jogado no chão era bonito. era um domingo. tudo fechado, menos movimento, pessoas nos botecos e restaurantes. e eu ali, pedalando, feliz, dolorido, mas feliz. depois vieram trocentos audaxes (o primeiro menos de 2 meses depois, menos de 1 mês após terminar o tratamento, fiz 200 kms.

os 200 kms que começaram com menos de 20 kms, os 20 kms mais doloridos e belos.

cheguei em casa exausto, com as pernas trêmulas. sentei no gramado, e chorei só, olhando a grama onde deitei, arfando, olhando o céu azul e as nuvens a passar, como passam os dias nas vidas nossas.

uma pedalada importante.

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8 Respostas para “uma pedalada importante

  1. Grande relato Mestre Ogrodir.

    O meu pedal mais importante foi o meu primeiro pedal depois de adulto.
    Tenho poucas recordações de bicicletas na infância. O local onde eu morava com a minha família não era muito propício para ter bicicletas, em primeiro lugar pela ladroagem que inibia muitas pessoas de terem alguns bens e o outro motivo é que não havia muitas ruas na São Miguel de 1983. Havia é um monte de picadas pelo meio do mato e lá passávamos o dia. Os momentos de civilização era quando ia para o présinho, quando ia de carroça.

    Aprendi a pedalar em uma berlineta (ou monareta, não me lembro). Aos 6 anos não tinha mais bicicleta pois a subtrairam do quintal de casa. Não senti muita falta pois estava mais preocupado em ficar explorando a baixada do Tietê (quando ele era relativamente limpo ainda), pescando e procurando bichos nas suas margens ainda não povoadas. Quando não estava fazendo isso estava em casa estudando.

    Já estava com 30 anos e sentia que deveria fazer alguma atividade física. Estava a mais ou menos 15 anos parado, sem fazer nada, somente atarefado com o curso técnico, com a faculdade e depois com o mestrado. Morando em Mogi das Cruzes e trabalhando no centro, não encontrava tempo para fazer nada…

    Resolvi comprar a minha primeira bicicleta em 2008. Uma caloi 100 Sport. Foi amor a primeira vista. O rapaz da loja, pelo telefone, disse que entregava em casa. Quando fui pagar… nhém, nhém, nhém. Fiquei preocupado pois, do trabalho para casa dava 70km. No final do dia passei na bicicletaria, comprei luzinhas, capacete (aquele famoso de skatista que ainda tenho), luvas, peguei Sophia e me enfiei na Marginal Tietê às 19:00… bem no meio do horário do rush.
    Nem sei porque eu fui pela marginal. Na época não haviam muitas opções… Metrô ainda não aceitava bicicletas, não sabia chegar na ciclovia da radial leste e celso garcia estava fora de cogitação devido o grande fluxo de ônibus.

    Dado essas opções, me restou a marginal. Como não havia muita noção do perigo que corria, acabei não tendo muito problemas (ou não percebendo problemas)… A Marginal estava parada e usei o corredor. Segui pela Ayrton Senna e depois subi a serra de Mogi das Cruzes e peguei a Mogi-Guararema até Sabaúna.
    Havia sido a primeira vez que fazia esse trajeto. Fiquei muito contente de poder ter conseguido vencer essa distância. Cheguei em casa com dores em todas as partes do corpo. As minhas pernas doíam, minhas mãos estavam duras de apertar o guidão, mas mesmo com tudo isso sentia uma felicidade imensa.

    Passou um mês e já estava descendo a manutenção com o pessoal do CAB. Foi o meu primeiro pedal de mais de 200km e a primeira vez que encontrei o Avalanche.

    Em 2009 fiz a minha primeira cicloviagem autonoma, para Paraty, por estradas de terra e em 2010 fiz a minha estréia no XTerra e no Audax. Se tudo der certo, estarei no PBP semana que vem.

    e tudo começou em uma tarde de agosto de 2008 conversando com o meu chefe na época…

  2. “todo ciclista urbano paulistano está sujeito a ganhar uma ghost bike.”

    catastrofismo desnecessário, que acaba sendo uma das causas das consequências que pretende combater.

    Que tal tomar as coisas apenas como sérias, sem serem catastróficas?

    De resto, tu morasse onde na Amsterdã Tropical? qual bairro?

    • ah, Boa Viagem. Boa Viagem não é Recife – pra começar, tem praia, e Recife nunca tem praia (suas orlas são de rio). Como diz o recifense João Cabral de Melo Neto “cidade calafetada, rejeita o oceano”.

      o oposto do Rio de Janeiro e Salvador, em que o mar é tão ubiquo quanto as montanhas. Em Recife, nem mar nem montanha. Só rios e rios e mangues.

      Mas como eu gosto da minha Mauricéia Desvairada…!

    • lucas, vc não tem pedalado em são paulo. se tivesse que andar na marginal ou atravessar as pontes, onde os carros entram e saem nos acessos a 60 por hora, entenderia pq o beni uma vez falou que a gente vive num eterno quase. na segunda, hove uma campanha da prefeitura por respeito à faixa de pedestres. até as 19 hs foram “apenas” 20 atropelados.

      • eu não andaria na marginal. Sou cyclechic demais pra isso. Eu não pedalaria em nenhuma rua cuja velocidade real fosse maior do que 40/50km/h, ou que tivesse mais de duas faixas em cada mão.

        Mas eu não dou a mínima para bicicletas em si. Eu gosto de cidades, bicicleta é mero utensílio. Como alguém que gosta de sopa não tem menor apreço por colheres, que é mero utensílio.

        Mas, ainda que seja uma catástrofe, tratar catastroficamente uma catastrofe não a torna menos catastrofica. Toma-la a serio, sem catastrofizar, sim. Na pratica, dizer que “pedalar é risco de vida” leva menos gente a pedalar, o que aumenta os riscos do trânsito para todos – como bem sabemos…

        Ou seja: o discurso catastrófico é quase sempre profecia auto-realizada. O que não quer dizer que é mentira, mas uma verdade que vitimiza o sujeito do enunciado e da anunciação. Já um discurso que sendo sério evita o catastrófico, este sim funciona como prevenção, racionalidade, e empodera o sujeito de ambos os discursos.

      • lucas,

        vc no pedalaria em so paulo. no h como eu chegar no trabalho a no ser fazendo isso.

        ________________________________

  3. Bah!! E eu pensando que já tinha passado por coisa ruim, tipo acidentes, na minha vida!!! Você tem um santo grande hein?!?! siga pedalando

    Abr

  4. Lembro-me de uma pedalada que teve um final surpreendente. Aconteceu em 1996. Tinha 18 anos e sempre saia pra pedalar com uma galera lá da vila. Naquele domingo, acordei bem cedo, peguei a magrela e fui de casa em casa chamando o pessoal pro pedal. Ninguém havia acordado ainda. Daí, fui sozinho pro parque do Ibirapuera. Chegando lá minha maior surpresa: um show gratuito do mestre B.B. King!!! Me lembro de cada detalhe do show, das músicas… Bicicletas têm um “Q” de deixar boas recordações…

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