morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego

o título desse post é um verso de chico buarque. profético.

o corpo, o sangue, a bicicleta, o ônibus. quantas vezes ainda veremos essas cenas?

ciclistas e pedestres são mortos e o que se noticia são os congestionamentos… é fato, a cidade e o veículo automotor causaram um embrutecimento fortíssimo nas pessoas. a morte não impressiona mais, a não ser que seja de alguém muito próximo. um corpo estendido no chão à espera da remoção, uma família em desespero, e as pessoas apenas buzinando…

o protesto de ciclistas - foto de t. benícchio

depois um protesto, uma manifestação e mais buzinas, e alguém grita que se deviam fazer protestos no sambódromo, sem atrapalhar o trânsito. o que é isso senão uma forma de manifestação de uma indiferença brutal?

indiferença, ausência de compaixão, centralização do foco nos próprios interesses, isso tudo é característica de comportamento psicopático. já escrevi aqui sobre psicopatia social – e só o isaac kojima, que é cientista social, ao ler o texto percebeu quese tratava desse assunto, e o valdson cleto, que percebeu que se tratava do resultado dos atos, não da “consciência individual” de cada um, do que cada um acha de si.

“saiam da frente, estou passando! quem ficar no caminho eu mato!” assustadora essa formulação?

muitas pessoas desconhecem figuras penais como o dolo eventual, onde o agente pode não querer o resultado, mas assume o risco do mesmo ocorrer. “vou passar no vermelho, se bateu, bateu!”

essa conduta está generalizada entre motoristas. seja nos motoristas de carros caros que saem dos bares embriagados e dirigem seus carros em alta velocidade, seja nos motoristas de ônibus e caminhões que jogam seus veículos sobre os demais, que se quiserem sobreviver que saiam da frente.

o excesso de velocidade predispõe a isso. a arquitetura das ruas, estradas, avenidas e viadutos, cada vez menos parecidas com ruas efetivamente e cada vez mais parecidas com inóspitas vias expressas atulhadas de veículos, também predispõem à velocidade. técnicos de trânsito sabem que o fato de uma via ser larga predispõe o motorista a correr mais.

em santo andré, município da região metropolitana de são paulo, nos anos 80 havia uma avenida, dom pedro II, muito aberta, sem canteiro central, onde num tempo sem radares, os carros voavam. à época, a prefeitura construiu um mínimo canteiro central e as velocidades diminuíram no local. não sei mais como está aquela avenida.

nessa quinta-feira passada mais um corpo estendido no chão. um camelô de 41 anos, cearense, morador da baixada do glicério. versões desencontradas citam que tentou mudar de faixa, mas morreu em cima da faixa de pedestres. pelo menos seu corpo, banhado em sangue, por lá permaneceu durante algumas horas, a bicicleta esmagada, mais à frente, arrastada pelo ônibus que o matou.

gente simples, migrante, pai de família, conhecido por muitos dos seus iguais em vida, e na morte igualou-se a antonio bertolucci, o presidente do conselho de administração da lorenzetti, igualmente esmagado por um ônibus num daqueles acessos a avenidas, viadutos, pontes, os locais inóspitos para pessoas que não estejam dentro de latas com rodas.

a cidade grande tornou-se uma imensa máquina de alienação. tornou-se um ambiente propício para que cada um demonstre o pior de si. o apagamento de identidades muitas vezes vai além do confortável anonimato que garante a privacidade, e atinge os limites do apagamento da própria personalidade, gerando distúrbios psiquiátricos e psicológicos que levam a muitos querer de alguma forma chamar a atenção por atos, exposição de corpos e bens, necessitando afirmar-se aos outros para afirmar-se a si.

quantos não sonham com porsches e ferraris, pra desfilar perante os outros e deslizar em altíssimas velocidades, mesmo sabendo que há limites de velocidade e desfilar num carro caro é atrair a bandidagem? quantos não bancam o ayrton senna acelerando indevidamente em ruas que deveriam ser tranquilas? quantos não agem como ignorassem o tamanho, o peso, a força, a massa do veículo que conduzem, tirando “finas educativas” de pedestres e ciclistas, não raro matando-os, como fizeram com márcia regina prado, há pouco mais de 2 anos?

mais uma ghost bike - foto de luddista

márcia prado tinha mais de 40 anos quando foi assassinada. antônio bertolucci beirava os 70 anos, francisco jander da silva martins, a mais recente vítima, 41 anos.

não eram crianças brincando em suas bicicletas. não eram bêbados acelerando carros possantes e velozes, ou mesmo dirigindo pesados ônibus como se fossem carrinhos de brinquedo.

eram apenas humanos, ciclistas, que descobriram de forma trágica a única certeza que une a todos os humanos: a morte.

uma arquiteta, um empresário, um camelô. em comum o uso da bicicleta, não importa se por gosto, opção ética ou pura necessidade. em comum viver numa grande metrópole, não importa se bem ou mal, por opção ou necessidade. não importa se homem ou mulher. em comum morrer esmagados pelo mesmo tipo de veículo, o ônibus.

morte matada. morte trágica. morte absurda. morte evitável.

todas essas mortes seriam evitadas se as pessoas que os assassinaram estivessem dirigindo com atenção, com diligências, com respeito à vida humana. ciclistas não surgem do nada, à frente do veículo, como muitos motoristas descrevem. não, ciclistas não são dotados desses poderes sobrenaturais.

nesses 3 casos acima citados, as mortes aconteceram de dia. à luz do dia. em dias ensolarados. foram alcançados pelos veículos que os mataram. bastaria que os motoristas reduzissem a velocidade ao passar por eles.mas,o que são? ciclistas apenas. nem deveriam existir, não é?

atrapalham o trajeto das máquinas poderosas, não tem direito à via, não é?

que saiam da frente para a máquina passar. se à frente ficarem, que arquem com as conseqüências… é isso que passa na cabeça de muita gente. buzina-se, pois nada pode sobrepor-se a sua pressa mesquinha.

entende-se. a mídia fomenta esse comportamento. a mídia transmite corridas, alimenta-se da publicidade da indústria do automóvel, que vende idéias e conceitos e não soluções – pois o carro definitivamente não é solução. um exemplo? o novo lançamento da hiunday, intitulado “veloster”, invocando a velocidade que, diga-se de passagem mais uma vez, além de proibida, é impossível no horário do rush. publicidade que fomenta a ilegalidade mostrando o carro acelerando e cantando os pneus….

não é de espantar o comportamento de alguém “acima da lei” praticado por diversos motoristas. acreditam poder andar acima da velocidade permitida, acreditam que é direito seu privatizar área pública ao estacionar seus carros na rua, acreditam mesmo que possuem direito adquirido nessas práticas, conforme se percebe na notícia desse link.

frequentemente pedalamos pela direita e recebemos inúmeras buzinadas de motoristas que querem simplesmente que sumamos da sua frente.  acontece todos os dias. sim, o ciclista atrapalha, pois existe.

e casos como o de francisco jander, antonello, márcia, apenas nos lembram que ao ciclista é negado não apenas o direito de se locomover (sem congestionar, sem poluir, sem matar), mas também o direito a existir.

sobram então as ghost bikes, bicicletas brancas penduradas em diversos locais como lembrança dos que ali tombaram de cima de duas bicicletas, assassinados naquilo que como bem lembrou o pásqua, não é uma guerra (pois numa guerra morrem pessoas dos dois lados), mas um massacre, pois só morre a parte fraca, assassinada – e se motoristas morrem, é de “fogo amigo” ou mesmo o suicídio involuntário, a conduta perigosa na direção.

se nas posses ciclistas não se igualam, na fragilidade, no eterno “quase” (“quase o caminhão me pegou”, “quase que o ônibus me pega”…), e mesmo na morte, somos todos iguais. ninguém melhor do que nós para entender as palavras do pregador: o rico e o pobre, o justo e o ímpio têm a mesma sorte, e o resto é tudo vaidade, tudo vaidade e correr atrás do vento.

vá em paz francisco jander. que o post mortem lhe seja mais leve do que o foi a vida de migrante, camelô, morador de área degradada, pai de família, trabalhador, ciclista. pois do lado de cá não há novidades. não há nada de novo debaixo do sol pois, como certa vez escreveu iessiênin, “se morrer nessa vida não é nada, tampouco há novidade em estar vivo”.

 

Anúncios

8 Respostas para “morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego

  1. Lindo texto! Acho importante que comecemos a usar os termos ASSASSINOS, HOMICÍDIOS e CRIMINOSOS para nominar esses inomináveis seres e fatos que ocorrem entre os carros/ônibus/caminhões e as bicicletas. E também gosto da impropriedade técnica dos repórteres que definem a dolo eventual e frisar “COM INTENÇÃO DE MATAR”, pois é isso mesmo. A pessoa que dirige como uma retardada, debilóide, psicopata TEM INTENÇÃO DE MATAR, é uma ASSASSINA do mesmo calibre que o outro que pega uma arma e atira em alguém. O único porém nessa comparação bizzarra, porém profundamente lúcida, é que não há lei que coloque na CADEIA esses homicidas do trânsito. Se eu fosse um juiz, não deixaria a moça responder em liberdade, pois ela É UM PERIGO PARA A SOCIEDADE a cada gole que ela toma e a cada km que ela percorre com seu Land Rover do CARALHO!

  2. Pingback: morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego (via as bicicletas) | Beto Bertagna a 24 quadros

  3. eu particularmente não gosto destes textos, destes discursos, que tomam uma situação séria (e grave) como algo catastrófico (e portanto, causador de um humor involuntário – porque agudo).

    Estou aí pensando com Slavoj Zizek. Muito melhor é pegar uma situação catastrófica, e dar um tratamento sério esvaziando-a justamente de sua catástrofe.

  4. Recentemente estive em Berin (Alemanha) e observei o quanto o uso da bicicleta é difundido em todas as classes sociais e idades daquela cidade. O que me chamou a atenção foi o “modelo” de ciclovia adotado em alguns pontos… simplesmente elas se localizam a esquerda da calçada… como se fosse uma pista rolamento intermediária entre a pista da direita da via e a calçada. A convivência entre bikes, carros e pedestres aparentemente era tranquila, contando – inclusive – com semáfaros próprios para as bikes. Não sou arquiteto, nem urbanista, mas notei que em VÁRIAS pistas daqui de São Paulo isto poderia ser implantado se não tivesse os malditos postes de luz, sempre a esquerda das calçadas…

  5. é preciso esvaziar as estantes e ir para as ruas, para a vida. russos virgens nao tem muito o que nos acrescentar, salvo uma boa literatura para distrair.

    • eu queria entender em que uma ação direta a-crítica e a-reflexiva (“com estantes esvaziadas”) é melhor (ou mais eficiente) do que a mesma ação, só que crítica e reflexiva (isto é: “com estantes cheias”)…

      (esse anti-intelectualismo ainda leva o Homo Sapiens à auto-extinção. Diria Nietzsche)

  6. Ola a todos, não queria ver esses posts, mas infelizmente as pessoas ou “assassinos”, não tem tempo refletir ao ler o mesmo. Estou com a @renata, mas não é preciso esvaziar as estantes, e nem falar difícil… ao viajarem em livros cheios de reflexões. meus sentimentos…..

  7. Antes de dirigir, nunca tinha pensado no carro dessa maneira, mas hoje vejo que sentar atrás do volante é o mesmo que operar uma máquina pesada como um trator ou um guindaste. A mesma coisa, com a diferença de ser muito mais difícil, por ser mais rápido.
    E aí que está o ponto: a grande maioria das pessoas não tem educação nem competência para dirigir uma retroescavadeira, ou pilotar um avião. E por que teriam para dirigir um automóvel?
    Liberar licenças para qualquer mané sair por aí com seu automotor é uma insanidade coletiva das mais graves. É o mesmo que entregar uma arma para cada um, “para se defender”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s