ciclovia para quem?

eu não sou exatamente o modelo de ciclista. nem modelo de nada. uns me classificam como corajoso, outros como irresponsável. estou entre os dois, não à toa meu apelido é ogro.

é fato que pedalo em locais “inóspitos”. faz parte do meu trajeto diário ao trabalho, na ida e na volta, a rotatória mais inóspita de são paulo, a praça campo de bagatelle. rotatória imensa, rápida, sem radares, sem câmeras filmando as besteiras dos motoristas. ela não predispõe à calma: um de seus trechos fez parte do circuito paulista de rua da fórmula indy.

cruzo-a no sentido norte-sul e sul-norte. há uma passarela para quem vai a pé no sentido leste-oeste, visando basicamente pedestres que estejam indo a pé da estação de metrô tietê ao pavilhão do anhembi. não me serve essa passarela, passo por debaixo dela.

já fui atropelado lá. meu santo é forte e me sobraram algumas poucas dores no corpo e um conserto de 70 reais no quadro de cromo – se fosse de alumínio teria ido para o espaço.

segunda-feira, como todo santo dia, eu trafegava por ali. notei uma ciclista ilhada num determinado ponto, acabei “puxando-a” para fazer a travessia, acompanhou-me no trecho seguinte na avenida santos dummont, com uma saída rápida à direita par a marginal e 500 metros adiante, ainda antes da ponte das bandeiras, uma alça de acesso na qual os carros vindos da marginal sobem rápido.

ela seguiu em direção ao centro.

não sei quem é a moça, mas já a vi pedalando muito por aí. pedala só, em grupos, já foi à bicicletada, é uma ciclista experiente, não é uma neófita.

mas estava intimida naquele ponto da praça campo de bagatelle. não sofre da baixa percepção de risco da qual devo eu sofrer. afinal, transito pela marginal também, já fiz a avenida aricanduva à noite e dia, já desci a imigrantes, serras de santa catarina sem acostamentos…

não sou parâmetro. a moça “resgatada” por mim, sim. eu qualquer hora poderei aparecer em algum noticiário como vítima do trânsito, assumo. não se pode esperar que as pessoas pedalem assumindo muitos riscos. muito antes pelo contrário, é necessário que as pessoas sintam-se seguras ao pedalarem pelas cidades, coisa que é rara na cidade de são paulo.

talvez por ter muito contato com os meus “amiguinhos” de pedal, ordinariamente ogros como eu, outros ainda piores, às vezes fiquemos nós com a sensação de que as pessoas não pedalam mais por simples corpo mole. em parte é verdade, mas há uma imensa massa de pessoas que se sentem inseguras no trânsito, e elas têm razão.

pedalar pela cidades muitas vezes implica em ter posturas muito agressivas para cavar um espaço no trânsito. esse não é o comportamento comum das pessoas. o fato é que o grande incentivo para que as pessoas venham a pedalar por são paulo é a construção de uma estrutura cicloviária, semelhante à que vemos em santos, por exemplo.

santos está cheia de ciclovias, não apenas aquela à beira da praia, mas diversas outras. acompanhei a construção delas e foi incrível o aumento de ciclistas na cidade. vemos muito mais mulheres pedalando em santos do que há 5 ou 6 anos atrás.

mas ciclovias não são a única solução. não bastam. como diz o manifesto dos invisíveis, é inviável pensarmos em ciclovias em todos os cerca de 17.000 kms de ruas de são paulo. é preciso mais do que isso: ciclo-rotas, ciclo-faixas (que não sejam só de lazer!), locais para se estacionar e preder a bicicleta com segurança e sobretudo, acima de qualquer coisa, uma forte atuação da CET, a Companhia de Engenharia de Tráfego no sentido de fiscalizar o cumprimento dos artigos 201 e 220 do Código de Trânsito Brasileiro, que são de fácil fiscalização: basta treinar os fiscais e permitir que apliquem essas multas.

ciclo-rotas já são um passo adiante. pena que ainda por uma área pequena da cidade, o bairro do brooklyn, mas já resultam em maior número de ciclistas na região, já há quem se manifeste, como se pode ver nesse post do vá de bike.

mas é preciso que se ampliem as ciclo-rotas. sua sinalização indica ao ciclista vias mais seguras e também aos motoristas que prestem mais atenção aos ciclistas na rua, respeitando-o.

na prática, seria necessário re-educar o motorista brasileiro. senão pelo respeito, pelo temor. especialistas em trânsito sabem: é multa a melhor educação, pois a parte mais sensível do corpo do motorista é o bolso. é necessário que o motorista brasileiro aprenda a agir em relação ao ciclista assim como faz o motorista europeu: teme tanto causar-lhe dano (em razão das penalidades altíssimas) que mantém uma distância sempre segura.

o início de uma mudança, muito mais barata que a construção de ciclovias, vias segregadas e etc, é treinar os agentes públicos de trânsito para que apliquem multas com base no descumprimento aos artigos 201 e 220 do CTB. é um escândalo o fato de o agente público de trânsito não poder aplicar essas multas previstas em lei.

estive nessa quarta na cidade de santos. passei um bom tempo vendo um acesso a uma ciclovia. o movimento de bicicletas nela era imenso. fiquei imaginando aquelas pessoas em ônibus, carros… gerariam um transtorno grande.

a ciclovia segue em direção a cubatão. é longa, e segue em meio a uma grande avenida, pelo canteiro central. os ciclistas seguem confiantes, sem medo, mesmo que a um metro carros passem em altas velocidades. o espaço segregado lhes dá segurança, é essencial naquele caso.

então cabe resposta à indagação do título desse post: ciclovia para todos, nos locais onde ela é necessária em razão do imenso tráfego de grandes veículos, de veículos motorizados. nas demais áreas da cidade, ciclo-faixas, ciclo-rotas, e claro, o temor do motorista, resultando em respeito ao ciclista, ou seja, multas!

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13 Respostas para “ciclovia para quem?

  1. Verdade, Santos eh um paraiso das bicicletas comparado a Sampa

    • Em algumas partes lá é o paraiso… Tenta dar um rolê na zona noroeste de lá, especialmente na av. nossa senhora de fátima. Aquilo alí torna a rotatória do Odir um passeio no parque!!! Sério, lá não tem ciclovia, o asfalto é ruim e tem um tráfego monstruoso de caminhões, especialmente aqueles que levam contêiner! E para piorar tudo, os monstroristas desses caminhões tocam o foda-se para tudo e todos! A minha mina quase virou paçoca nessa avenida… ela deu sorte e pulou para a calçada no momento em que um caminhão destroçou a bike dela… o motorista do caminhão só parou pq uma galera foi atrás dele, e pior ainda, quando a PM chegou, o monstrorista ainda tirou uma da cara dos policiais, dizendo que (essa tentativa de homicídio) não ia dar em nada! Detalhe que um dos pms era o irmão da minha patroa, legal, né? No final das contas não aconteceu nada.. o monstrorista apenas perdeu umas horinhas, teve que pagar pelo prejuizo na bike e os gastos médicos, nem multa ele levou!!!

  2. Essa “praça” é uma m$#@!, a brás leme ou a cruzeiro não serve pra você?

    []s

    • Acho que passei lá umas 2,3 vezes, vindo da santos dumont, mas nem tentei atravessar, peguei a primeira saída a direita seguindo pela voluntários ou pela cruzeiro.

      []s

  3. oi,
    não adianta ter a melhor infraestrutura do mundo, quando os participantes não seguem as regras básicas de comportamento no tránsito.

    acabo de receber um e-mail de uma francés, cyrille, que fez um tour de america latina de bicicleta, junto com a sua esposa. ele participou no audax 200 de campos e vai participar no pbp2011. interessantemente, escreveu-me, que o pais, onde teve as piores experiencias como ciclista na america do sul, foi o brasil. escreveu, que no pais da america do sul com a melhor infraestrutura, foi onde percebeu a maior desorganização e falta de eduçação dos participantes do tránsito. a esposa dele quase foi atropelada duas vezes, numa delas o caminhao levando o espelho dela, recusando-se a mudar de direção e na outra situação, ela percebendo um caminhao perto, jogando-se para a calçada. e, o caminhoneiro passou dando risada.

    eu percebo regularmente, que os ciclistas não seguem nenhuma regra, circulando na contramão, na calçada, passando o farol vermelho, pedalando na faixa de ultrapassagem dos carros, etc. colocando-se desta forma eles mesmos em perigo.

    quando paro no farol vermelho, o domingo de manhã, sem carros na rua, todo mundo fica olhando, pensando que sou marciano ou estúpido.

    acho, que o que esta fazendo a prefeitura de sao paulo, com a ciclofaixa, tem sido um bom primeiro passo, para educar o ciclista. para ele seguir as regras de tránsito. este comportamento já vai fazer a sua participação no tránsito mais segura.

    abraços e bom pedal,

    • Bicicleta parar em farol vermelho é relativo, muitas vezes é mais seguro pro ciclista furar o farol, saindo na frente dos carros. Além disso o risco oferecido pelo ciclista nessa “infração” é infinitamente menor que a de outro veículo. O mais importante é a vida, acima de qualquer sinalização, regra ou placa, todos respeitando a vida do próximo é o ideal. Não vejo problema um ciclista furar o farol em baixa velocidade, dando total preferência ao pedestre, à vida. Eu não me arrisco a enfrentar a arrancada dos carros quando não há pedestres pra atravessar e nem carros vindo nas transversais. No entanto, deixo claro que sou contra a atitudes de alguns ciclistas aloprados, que avançam na faixa de qualquer jeito em velocidade, ou andam correndo na calçada assustando os pedestres.

      []s

    • pois é richard. já leu o “fé em deus e pé na tábua” do roberto da matta? é o retrato do país a partir do trânsito. brasil foi o único das américas que coma independência virou império, e não república. o que mais tardiamente aboliu a escravatura. e o mais vergonhoso no trânsito, onde motoristas comportam-se como os antigos senhores de escravos e pedestres e ciclistas comportam-se como escravos fugidos, dando um jeitinho em tudo, sempre ao arrepio da lei.

  4. Sobre Santos, a ciclovia da Av. Ana Costa é conhecida como “plano de extermínio de ciclistas”. Não à toa. Fui lá para ver como era e fiquei envergonhado de gostar tanto de Santos. A ciclovia é no canteiro central e mal cabe uma bicicleta, sem exagero. Além da obrigação em andar em fila indiana SEM POSSIBILIDADE DE ULTRAPASSAGEM, se um ciclista cair ali, o que é provável, ele vai cair na rua, na faixa de carros rápidos. Enfim, aquela ciclovia foi feita apenas para tirar os ciclistas da frente dos carros e só atrapalhou a vida dos ciclistas. É uma imensa irresponsabilidade.

  5. otavio,

    pelo codigo de transito brasileiro somos como ciclistas mais um participante, como carros, caminhoes, motos, pedestres, etc.

    tem um randonneur muito experiente nos Estados Unidos, que faz a seguinte observação relativa a farois vermelhos: espere todos os carros passarem porque assim, voce não terá um carro atras que tenha que lhe utrapassar com risco eventual de atropelamento.

    exatamente o contrario do que voce recomenda. porque será?

    alias, seguindo as regras de tránsito como ciclista, acho que os motoristas nos vão levar mais a serio, e alguem tem que començar.

    senão, a selva vai continuar! não queremos que melhore?

    abraços e bom pedal,

    • Se eu esperar todos os carros passarem nunca vou sair de lá rsrsrs, como disse o mais importante pra mim é o respeito à vida das pessoas do que a sinalização em si. O que vejo como pior é colocar a vida dos outros em risco, jogar o carro ou a bicicleta em cima de um pedestre ou ciclista com farol ou sem farol trará um dano as essas pessoas, então um farol é coadjuvante na história do respeito no trânsito. Eu sinceramente, só passarei a ficar esperando em todos quando houver sinalização adequada, como bike box por exemplo, mas enfim, minha idéia não é discutir o certo e errado sobre isso, apenas contrapus que é relativo, o ciclista urbano geralmente vai buscar o que é mais seguro, se ele se sentir mais seguro passando aquele farol ou indo na calçada ele vai fazer, mas deve sempre respeitar os pedestres.

      []s

  6. Odir, você veio para cá e não me avisou??? Seu chato!

    Matheus,
    Algumas ciclovias da baixada foram feitas com o propósito de tirar o ciclista da rua e não de melhorar a mobilidade. Há poucos dias questionei um colega sobre o motivo de algumas ciclovias terem algumas falhas grotescas e que seria necessário ouvir o ciclista-usuário. Foi-me dito que já houve tentativas de nos ouvir, mas os interessados (entre eles um figurão da cena ciclo-politica da cidade) estavam mais interessados em discutir (e não em resolver os problemas).

  7. Olá Odir

    Obviamente a parte do código de trânsito que regulamenta a bicicleta não foi feita por alguém com experiência em pedalar nas cidades. Por exemplo: esperar no sinal vermelho quando não há nem pedestres nem carros cruzando só expõe o ciclista a arrancar junto com os carros, em óbvia desvantagem e correndo riscos (alguém sugeriu aí acima que o ciclista esperasse todo fluxo passar, foi isso? então é melhor ser pedestre). A solução? Área para o ciclista um pouco à frente dos carros, tempo de semáforo que abrisse segundos antes para o ciclista.

    Como já comentou a Renata Falzoni em um vídeo que não tenho o link agora à mão: eu sigo as regras que garantem a minha segurança e não agridem a segurança dos outros.

    E não vamos nem falar das direitas livres totalmente hostis à qualquer forma de vida que não esteja motorizada. É totalmente arriscado fazer uma conversão à esquerda em tais situações, mesmo que você seja um ciclista experiente pedalando a 40km/h, sinalizando sua manobra, simplesmente porque você não é reconhecido como veículo.

    Grande abraço.

  8. Gente, penso que andar de bike aqui em Sampa é mais tenso do que aí em Santos. Sempre que desço pra baixada eu levo minha bike, que se torna o meu meio de transporte oficial. Aqui em Sampa, só não pedalo mais do que gostaria porque os mautoristas são escravos das 4 rodas. Não respeitam nada, nem outros carros, nem animais (geralmente cachorros), nem pedestres, nem ciclistas, nem motociclistas… As ruas são “terra de ninguém”. Uma triste realidade…

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