bike hype? zeigeist?

havia uma época em que éramos inocentes e acreditávamos que poderíamos mudar o mundo. o problema era esse, estávamos certos. o mundo muda. quem viu bicicletada na paulista com meia dúzia de gatos pingados e agora vê estimativas de centenas (400? 500?) e gente planejando colocar 1000 pessoas na rua, numa bicicletada, se espanta, é claro.

a moça em copenhagen, mostrando a beleza cotidiana em cima da bicicleta. mulheres bonitas sempre apontam as novas tendências.

eu sempre me espanto, não há como espantar-se. a bicicletada anda sozinha, renova-se a cada edição. não tem líderes formais, manda quem grita e se quer gritar, obedece quem quer e se quer obedecer, o que vale é o bom senso, nem sempre bom, nem sempre senso, mas quase sempre sim. hoje a bicicleta está na pauta. ontem aparecemos num programa matinal de tv daqueles cuja audiência se conta aos milhões. aparecemos nas revistas. marcas colam a imagem da bicicleta para poderem ganhar destaque. vemos bicicletas em reclames de tv, de carros, de margarina, de banco… a imagem do bem estar está colada na bicicleta.

esse é o detalhe relacionado à percepção da bicicleta que está no inconsciente coletivo e raramente aflora. quem percebe são os publicitários, sempre tão atentos a esses insights. não à toa que aparecem bicicletas ao fundo de tantas peças publicitárias. bicicleta transpira e exige equilíbrio. firmeza na condução, velocidade mais baixa mas mais constante e imune às turbulências externas. de bicicleta sabe-se sempre a que hora chegaremos em algum lugar. isso o senso comum sabe. a bicicleta também está ligada à diversão, ao prazer. diversão entre as pernas, com certeza… todo mundo sabe disso, e por isso às vezes a raiva de motoristas estressados: a inveja da diversão do outro, que se diverte, passeando ou indo ao trabalho, simplesmente transportando-se, mas com uma certa alegria que só quem anda de bicicleta é capaz de ter numa rua qualquer….

pra lembrar uma expressão antiga – já ouvi há décadas – que hoje relembrada pelo denis burgierman, vivemos tempos interessantes. tempos interessantes são os tempos de mudança. os hippies falavam tanto na era de aquário… e ela chega.  percebemos a mudança de valores progressivamente aparecendo, nas pequenas coisas. há décadas seria impossível termos uma revista chamada “vida simples“. ou livros intitulados “o sucesso é ser feliz“. antes desejávamos às pessoas um bom casamento, ou muito dinheiro, e hoje desejamos que realizem seus sonhos. talvez por que nunca a humanidade viveu tanta fartura de bens, os valores estejam aos poucos, muito aos poucos, mudando. vemos nessa semana os e.u.a. correndo o risco de causar o primeiro calote em seus credores em toda a sua história. vemos jovens bem nascidos desprezando os símbolos exteriores de status, como o carro.

isso sim é interessante. há 20 anos alguém de classe média optar pela bicicleta era coisa de abestalhado. renata falzoni pode atestar isso.  hoje há quem diga que o carro é brega e vemos grandes griffes como chanel, gucci e hermès lançando… bicicletas!

não afirmo que a bicicleta está mudando o mundo. não se trata disso, mas de se perceber que a própria valorização da bicicleta apenas faz parte de algo muito maior. a bicicleta é um detalhe de uma mudança naquilo que chamamos de “zeitgeist” – espírito do tempo. max weber fez um belo retrato do zeitgeist europeu nos séculos XVIII e XIX em “a ética protestante e o espírito do capitalismo” – não se enganem, é um livro de sociologia e não de religião, como uma vez um evangélico sorridente pensou numa época enquanto o li hospitalizado.  weber, em linhas gerais, demonstra como o calvinismo e o luteranismo foram responsáveis por uma ética da acumulação de bens.

hoje vemos essa mudança do zeitgeist também nas religiões. num momento pregavam ortopraxias, num segundo momento ortodoxias e hoje vemos líderes religiosos os mais diversos pregando de outra forma: a redenção é viver bem, e viver bem não significa mais ter muitos bens, mas ter menos problemas… menos pressão, menos stress. essa mudança é perceptível no mercado de móveis. os móveis do século XIX são opulentos. no começo do século XX a bauhaus coloca em pauta a produção industrial de móveis. o final do século XX nos traz as habitações minúsculas, os móveis se tornam menores… mas as pessoas procuram um certo conforto, e então progressivamente vemos crescer o ramo da marcenaria sob medida. antes privilégio de muito ricos, e hoje dissemina-se na classe média. este é um consumo interiorizado.

o consumo exteriorizado é aquele que serve para expor ao outro a afirmação de classe: o relógio caro, o carrão, a roupa de marca, e o sapato que não serve para andar. o consumo interiorizado é aquele despido dessa afirmação de classe. ele pode até gerar num breve momento uma exposição, mas ela se esvanece.

alguém pode até ver uma ou outra vez seu colchão caro e confortável. mas é seu corpo, de fato, que usa esse colchão, 8 horas por dia. vocề pode até colocar fotos da sua visita ao louvre no facebook ou orkut. mas é só você que pode avaliar o que você aproveitou da sua visita ao louvre, é só você que pode avaliar se na sua visita ao masp você conseguiu apreender e compreender as pinturas de velázquez. você não leva a pintura para casa e nem sobe na vida vendo um quadro num museu. mas a sua compreensão de mundo se altera se você tiver olhos de ver. e olhos de ver não se compram.

enquanto escrevo agora vejo, na tv, um reclame da folha de são paulo sobre a venda de uma série de dvd’s, de filmes de cinema europeu. o que se vende?sensações. aquela cena de marcelo mastroianni e anita ekberg em torno da fonte em “la dolce vita” de fellini é algo que cada um apreende de uma forma diferente. não há como quantificar essa sensação. não há como expor como símbolo de status.

anita ekberg e marcelo mastroianni na fonte...

claro, mudanças são lentas, e são dialéticas: resultam de conflitos. a hegemônica indústria automobilística que venceu a disputa nas últimas décadas hoje começa aos poucos mostrar-se esgotada. vemos as grandes montadoras americanas fazendo água, e a indústria asiática – onde ainda há espaço para ascensão – começa a aparecer. novas marcas de automóveis, oferecendo garantia de 6 anos, aparecem no mercado. é interessante esse detalhe da longa garantia. a longa garantia passa a sensação de não haver problemas com o carro nesse tempo, e, se houver, não renderá dores de cabeça ao proprietário do veículo. a garantia futura é uma sensação.

pois sim, podem haver problemas com o carro, pode sim a garantia não ser cumprida, pode nesse prazo de 6 anos a empresa sair do país e etc. no futuro, tudo, absolutamente tudo é possível – e portanto tudo é inseguro – mas se passa a sensação de segurança.

sensações. interiorização, formas de vida baseadas em bem estar. isso nós vemos perpassando as peças publicitárias, a formulação dos produtos, os discursos religiosos, os discurso políticos e mesmo as mudanças legais. a própria e progressiva aceitação pública dos relacionamentos homossexuais é sintoma. há mais de um século oscar wilde referiu-se ao homossexualismo como “o amor que não ousa dizer seu nome”. mas hoje ele se escancara em marchas, movimenta decisões da corte suprema, vira pauta de discussão no congresso, e de ridicularização de quem se opõe à sua normalização. os héteros que apóiam essa movimentação costumam usar sempre o mesmo argumento: “cada um deve ser capaz de perseguir a própria felicidade, desde que não prejudique os demais”.

felicidade é sensação, não é posse. alegria, tristeza, depressão, euforia, chapação, entorpecimento, medo, segurança, prazer, dor, amor, paixão, ódio, apreensão, ansiedade, calma… tudo isso são sensações e estão na ordem do dia.

essas palavras inundam a mídia, ou claramente pronunciadas ou estão no fundo das questões. a própria ascensão do uso das drogas está nessa esteira. o mundo muda. o que matará o uso do carro não é a bicicleta, mas as sensações ruins no seu entorno: stress, perigo, isolamento… o que antes era uma discussão de um ou outro ecologista radical, coisa da visionária – e então tida como maluca – renata falzoni no início dos anos 80, hoje é tema de pauta de blgs de economia no prestigiado the new york times. aqui o artigo falando dos dividendos da bicicleta, e aqui sua versão traduzida.

sim, hoje os meios de comunicação, atentos ao zeitgeist, recolocam a bicicleta na discussão. seja numa revista econômica, de negócios, como a revista exame, seja numa revista de consumo masculina, como a revista alpha.

claro, todo progresso, toda evolução, toda mudança, tem seu lado bom e seu lado ruim. e também há as reações. não se fazem omeletes sem quebrarem-se os ovos. a indústria automobilística contra-ataca com seus lobbys. construtoras que sempre lucraram à larga com a construção das supervias, hiper-avenidas, grandes avenidas, túneis e etc, fazem de tudo para eleger gestores públicos afinados com seu negócio.

mas nada detém o zeitgeist. os samurais japoneses tentaram resistir à força à ocidentalização das forças armadas japonesas em 1877, mas foram derrotados. hoje, contrapor katanás a fuzis nos parece anacrônico, embora à época não o fosse. o futuro nos julgará da mesma forma.

os que hoje resistem à internet, à modernização dos costumes, à mudança nos padrões de consumo e mobilidade, serão no futuro vistos como mentes anacrônicas. é fato. e claro, mais uma vez a frase de john stuart mill, pronunciada há mais de século e meio, provar-se-á atual: “nem todo conservador é estúpido, mas quase todos os estúpidos são conservadores”.

e viva a bicicleta, símbolo da nova alegria de viver. coloque um pouco de alegria entre as suas pernas, sem ter que pagar pensão ou criar um barrigão: compre uma bicicleta.

aqui, entrevista com jan ghel

aqui, página na internet de missão evangélica inclusiva.

aqui reportagem de como n.y. encheu-se de bicicletas.

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23 Respostas para “bike hype? zeigeist?

  1. Mandei um like pois esse é o tipo de post que temos que reler daqui a alguns anos.

    • valeu, obrigado. espero que seja lido daqui a alguns anos e seja considerado atual, e não anacrônico e defasado, como os textos dos anos 60 que diziam que nos anos 2000 usaríamos carros-foguetes…. hehehe

  2. Ótimo texto, parabéns !

  3. O futurismo dos anos 50 e 60 previa, talvez órfã doutrinária do nazismo e de forma inconsciente, a eugenia e consequentemente uma população mais rarefeita e abastada, com maior concentração de renda. Não contavam com quase 7 bilhões de pessoas em 2010 e portanto era possível sonhar com carros voadores.no futuro. Mas enfim, o carro dos Jetsons não seria a solução perfeita para os engarrafamentos?

  4. correção importante: os móveis do século XVIII (barroco e neoclassico) são opulentos.

    o design por excelencia do século XIX, a art-nouveau, tenta extrair da natureza vegetal (e eventualmente mineral ou animal, como no caso respectivamente de Gaudi e da bicicleta) o maximo de funcionalidade com beleza singela e leve.

    a bauhaus e a art-decor querem formas inorganicas, sem leveza ou beleza, de uma funcionalidade plenamente artificial – suplementar e contra a natureza, e nao complementar e com a natureza

    sobre isso tenho escrito a série Artefatos Vitorianos Para Uso de Cidades -> http://ultimobaile.com/?s=artefatos+vitorianos&x=0&y=0

    • lucas, referia-me ao mobiliário brasileiro do século XIX, que seguia o padrão manuelino, quando muito. móveis gigantescos, como encontram-se hoje em algumas dependências do largo de são francisco. art nouveau, aqui, é já na virada do século, pós declaração republicana, quando muito. se pegarmos os 1830, por exemplo, veremos as imensas cômodas de jacarandá, poltronas grandes de encosto de couro esticado preso com tachões e etc.
      sim, a bauhaus não primava exatamente pela funcionalidade, coisa que faz a arquitetura agora contemporânea. mas foi muito importante pra enterrar a produção de mobiliário, utensílios e etc que usavam materiais demais. ou seja, eram puro desperdício. se pegarmos como exemplo a poltrona wassily, ela é confortável, e se construída conforme os planos originais (tubos de ferro apenas com tratamento anti-ferrugem e lona), é leve e barata. portanto, agride menos o meio ambiente do que uma grande poltrona de madeira e couro no padrão oxford, por exemplo. não à toa, foi inspirada em bicicletas.

      • Desculpe, Odir, mas não é após o Golpe de 1889 (chamado erradamente de Proclamação da dita República) que ocorre uma implantação art-nouveau e ecletista no Brasil.

        Esta vem ocorrendo desde a Vitória no Chaco (Guerra do Paraguai), isto é: no auge do Segundo Império. O que são os elevadores urbanos de Salvador (o Lacerda inaugurado em 1875), a Floresta da Tijuca, os parques amazonicos de Belem e a proliferação de pontes e diques no Recife?!

        São claramente soluções Nouveau. O mesmo vale para a expansão de linhas de bonde e de ônibus de tração animal, e a implantação da primeira linha regular de navios a vapor fluvial intermunicipal do planeta: Salvador-Cachoeira-Maragogipe.

        Os próprios hábitos da Casa Bragança, similares as “monarquias pedestres” da Escandinávia (apesar da Constituição da Mandioca ser institucionalmente inglesa, Pedro II e sua prole eram duplamente Habsburgo: por mãe e por casamento) são art-nouveau. Um Imperador que ia a pé, com seus netos, à missa, em Petrópolis. Aliás, o plano diretor de Petrópolis é um rococó austriaco tardio, leve leve, quase art-nouveau.

        O que a República faz é implantar um ecletismo (que já não é nouveau) arrrasa-quarteirão, demolidor. Quando o Imperador fazia de tudo para não dilapidar o patrimonio urbanistico-arquitetonico de sua pátria – por exemplo construindo Belo Horizonte (tambem bastante nouveau) para evitar reformasem Mariana e Ouro Preto, então capitais das Minas Gerais.

      • errado de novo: a BauHaus primava pela funcionalidade, sacrificando intencionalmente qualquer organicidade estética ou semiológica.

      • uma funcionalidade com limites na construção. claro, comparando com outras coisas por aí, não é lá muito funcional limpar aquela chaleira. ela é difícil de acessarmos o interior dela pra limpar-mos, por exemplo, e seus talheres podem agredir algumas bocas, pelos cantos retos. a gente tem que lembrar que a bauhaus não exatamente gostava do humano. gropius eliminou o estudo de história na escola, e le corbusier era um urbanista que mais do que gostar de linhas retas, declarou claramente que era preciso eliminar as ruas!
        o mérito é trazer a produção industrial mais econômica à construção das coisas, mas vai ser preciso que outros bebam em suas fontes, critiquem para então achar outros pontos de equilíbrio. um exemplo é a casa gerassi, pelo paulo mendes da rocha. é uma casa de 1990. não podemos negar influência da bauhaus, principalmente no aspecto do uso de peças de concreto pré-moldadas. mas é bauhaus? não sei. é muito muais funcional no aspecto do morar que os projetos de le corbusier.
        bauhaus traz a escala do humano, as tabelinhas de ergonomia e etc, mas é o início desse processo. ainda precisava ser aperfeiçoado. traz a iluminação natural pra dentro de casa com grandes janelões e esquece como fechar essa luz, quando queremos dormir até tarde… hehehe ou pra proteger os equipamentos eletrônicos da luz.

        agora sabendo que vc mora em salvador, entendo de onde vê as coisas. morei no nordeste.

        a art nouveau de onde olhamos agora é desperdício, mas à época não era, claro. foi acusada de falta de adornos, né? não era exatamente a preferida de ramos de azevedo, por exemplo. há muitos prédos no centro de são paulo em art nouveau. e lado a lado de outros art déco, esses em grande quantidade também.

      • De resto, a Art-Nouveau (e não apenas a art-decor, posterior e onde se inscreve a BauHaus) já combatia o desperdicio, com seu uso de pilotis de ferro- fundido, finissimos e ocos, e sua organicidade radical – optanto por ornamentos, sim, mas sempre se eles tiverem alguma função nem que seja semiologica (de mostrar a similitude entre o industrial e o vegetal, por exemplo).

        Não me entenda mal, Odir: moro numa cidade que, apesar da fama de patrimonio barroco e com razão (Salvador), tem conjuntos bauhaus e art-nouveau (um nouveau quase barroco, é verdade) bastante integros, vivos, usados e já tombados pelo Governo do Estado em seu Programa de Tombamento do Patrimonio Modernista. Idem alias pro funcionalismo e brutalismo baiano dos anos de 1950 a 1970 (a chamada Avant-Gard de Octavio Mangabeira – uma das mais vitais gerações de intelectuais e artistas das americas. Dela vieram Glauber Rocha, Jorge Amado, Diogenes Rebouças, Milton Santos, Dorival Caimmy, Anysio Teixeira, e incontaveis outros) que deu obras-primas como o Teatro Castro Alves, o Estádio da Fonte Nova, o Largo da Graça (integrando palacetes nouveau, uma igreja barroca, 4 viadutos e predios modernistas sem agredir o pedestre sequer visualmente – coisa de genio!), etc.

        Todos alias meus vizinhos, uma vez que moro na Gamboa de Cima (muro-com-muro com a casa em que nasceu Genaro de Carvalho, o grafiteiro-before-it-was-fashion).

      • uma curiosidade: a sala de estar de meu avô (casa de Fernando Peixoto com jardins de inverno e de verão por Eduardo Jobim) tinha duas cadeiras wassily e um enorme sofá-elefante, de Lina Bo Bardi.

        Não se se você sabe, mas é comum encontrar mobiliario de Lina em Salvador: cadeiras-girafa de varios tamanho no café do Museu Rodin, os sofrás do foyer do TCA.

        Aliás, quando é que você vem em Salvador mesmo?

  5. Parabéns! Espero como o Pasqualim, poder ler esse texto daqui a alguns anos e vê-lo atual-futurista.

  6. Excelente texto. Obrigado por compartilhar suas sensações conosco. Abraços

  7. Otimista essa sua leitura do zeitgeist. Otimista…

  8. sim, a BauHaus (e toda a art-decor) focava a forma inorgânica (enquanto a art-nouveau focava a forma tão organica que chegava a ser vegetal. Dai a bicicleta ser uma tecnologia vapor-punk e um design art-nouveau por excelencia).

    Mas de novo voce se engana: Corbu não era da Bauhaus, mas do funcionalismo, escola suiça.

    Que no Brasil vai dar em gente que detesta cidades como Lucio Costa (a Barra da Tijuca não é um acidente), ou em gente que as ama e faz adaptacoes barrocas adoraveis ao funcionalismo de Corbu (como o bahianérrimo Diogenes Rebouças).

    • corbu e bauhaus andam juntos desembocando no internacionalismo, a diferença se apaga. como no positivismo jurídico, one temos a escola escandinava (alf ross, p. ex), kelsen e etc, tudo depois mais ou menos sintetizado em bobbio ou mesmo em tércio. não afirmei que corbu é da bauhaus, mas da mesma onda, a turma do concreto. não afirmei que paulo mendes da rocha é bauhaus, onde tá isso? mas o uso do concreto em formas pré-fabricadas, de donde vem? não vem apenas da bauhaus, claro, mas a bauhaus é uma fonte que dialoga com um zilhão de pessoas e é ícone. se é brutalismo (e é) ou funcionalismo, é discussão barroca. o q importa nessa discussão é apenas o uso econômico dos materiais. nesse aspecto, a escala do humano real é trazido sim pela bauhaus. a escala humana trazida pelo barroco é a escala humana do homem disciplinar (aqui a referência é foucault). o homem disciplinar tem um determinado padrão de altura, peso, e postura. tudo o que difere é desvio. portanto o humano do barroco, do neo-clássico, de rocha azevedo, é o humano que não existe. é o homem vitruviano, que não tem pança e pode sentar adequadamente pois tem músculos nas pernas, ao contrário dos humanos reais, às vezes pesados e de pernas finas, que não sentam, se jogam em cima das cadeiras, e não levantam dela, mas se jogam pra cima ao se levantar….

      o humano real chega na década de 10 e 20 do século XX. nos pesadelos de gropius como sobrevivente das lutas da primeira guerra, nos alunos da bauhaus dexando os cabelos compridos – imagino a turma usando cabelões a la banda de heavy metal nos anos 20… – a escala do humano real aparece no mobiliário de marcel breuer. voltando à poltrona wassily, veja como o corpo simplesmente fica jogado e acolhido quando se senta nela. é um ninho. as diversas cadeiras em cantilever tem um jogo típico da montagem em aço em balanço, uma flexibilidade. senta-se e ela flexiona, levanta-se e ela nos impulsiona. não vemos essa percepção do movimento humano no barroco. e se pegarmos a poltrona mole do sérgio rodrigues (q fique claro, não tô afirmando que é bauhaus) vemos os mesmos conceitos aparecendo. podemos imaginar que sua dimensão do humano, sentado de lado, torto, de frente, refestelado nas almofadas dessa poltrona, venham da escala do humano do barroco? não. não à toa seria a poltrona mole considerada arte degenerada por parte dos nazis ou stalinistas. a escala do humano do barroco desemboca, em última análise, nos totalitarismos. o barroco adapta o homem à roupa (vide as perucas…) e não a roupa ao homem.
      quando sullivan coloca o cânone máximo do funcionalismo, a forma segue a função, em pauta, temos uma inflexão em direção ao humano real. se essa arquitetura dita funcionalista vai de fato conseguir chegar aos seus intentos, aí é uma outra questão. mas coloca o tema função, portanto uso real, em pauta.

      vamos ver o que dará isso. ainda há muito desperdício na feitura das coisas. mas não no mundo das bicicletas. embora projetistas de bicicletas devam ignorar o funcionalismo, sullivan, breuer, corbu, se tem uma área da produção onde a forma segue a função de fato é na concepção da bicicleta. tudo o que é mero ornamento e não é simples pintura é peso desnecessário morro acima. nos modelos de bicicleta nos últimos 100 anos, salvo algumas schwinn e umas pseudo choppers (e na bmx tanquinho), todas as formas são pensadas pelo viés da funcionalidade, até as cecizonas, as bicicletas femininas holandesinhas, que são belas pq são funcionais (quadro step through é pra usar com saia), e não o contrário. na bicicleta, o único ornamento possível é o uso da cor. todo o resto, sem exceção, é em razão da função, seja num triciclo de carga, seja numa bicicleta de competição, de contra-relógio ou de triathlon.

      • pois, e você não percebe que todos estes atributos da bicicleta (organicidade, funcionalidade, leveza e – eureka! – ser em ferro-fundido) é 200% art-nouveau / steam-punk?! Ou a Primeira Leva da Bike-Culture foi em 1890 por acaso?

        de resto, eu não falei do barroco como funcional e economico. Falei 1) da art-nouveau e 2) de como a art-nouveau é a universalizacao pragmatica do que era o ludico do Rococó (do Rococó isto é: onde já não há barroco).

        E isso, suponho, você não discorda (por eu ter demonstrado com alguns exemplos, mas haveria outros. O sandwich mesmo surge para que o Conde não interrompa o jogo de cartas para comer – Rococó lúdico – mas se universaliza no fim do sec XIX para que o operario possa comer com apenas uma das mãos, ou enquanto anda, etc – praticidade Art-Nouveau vapor-punk).

        (o sandwich e os habitos de comer na rua tambem serão contemplados na série Artefatos Vitorianos Para Uso das Cidades).

  9. a escala humana não começa com, a BauHaus, é aí que você erra o foco.

    Ela começa com o Rococó (que é a simplificação vegetal e lúdica do barroco – é o estilo de epoca do Despotismo Esclarecido, do primeiro Iluminismo portanto. Pense As Relações Perigosas, de Laclos, o romance rococó por excelencia: é um jogo de cartas!) e se aprofunda quando este é retomado pela Art-Nouveau.

    A Art-Nouveau produz em metal e escala industrial, para fins praticos, aquilo que o Rococó fazia em madeira como brinquedo. A bicicleta é um brinquedo no Rococó, e um utensilio urbano na Art-Nouveau; a sombrinha, o chapeu, o leque, e o lenço são um ornamento brincante no Rococó, e uma utilidade fundamental (proteger do sol, do calor e da chuva, imitando folhas e frondes) na Art-Nouveau.

    até mesmo na música: a forma-canção (isso vai ser tema do proximo Artefatos Vitorianos, se der escrevo hoje) que surge no periodo Nouveau (das grandes reformas urbanas como a de Hausmann – que admitamos, era bem pedestre) é uma retomada do formato brincavel e portatil da musica de Mozart, que havia sumido com o panejamento romantico de Beethoven e Wagner. Tanto assim que o que porta a canção (radiolas e realejos) existiam nos palácios Rococó, mas se proliferam como utensilio domestico do proletariado na Art-Nouveau.

    essa mania de colocar no sec XX o inicio do design industrial de massas. Balela: ele estava ja na Reforma de Paris. Essa união do industrialismo do ferro fundido com a dimensão humana de flores desabrochando: a Art-Nouveau.

    (como você sabe, sou Proustiano convicto, e Proust é o único romancista art-nouveau puro-sangue…)

  10. Odir, pela mão do guarda: Paulo Mendes da Rocha nunca foi bauhaus! A Casa Gerassi é brutalismo puro e simples (e é linda).

    Na Bahia há um predio brutalista invejavel (as janelas sao no chao e no teto, aproveitando os ventos verticais da Graça), por Assis Reis: o Centro Médico da Graça, onde já tive consultorio – com aquela vista fodona pro Campus do Vale do Canlea (que alias é de quem? Diogenes Rebouças, claro!).

    E Paulo Mendes sua mais concreto protendido que concreto armado. Não é a mesma coisa.

    O problema do brutalismo é a ausência de vegetação. O que no funcionalismo brazuca nao acontece (o Largo da Graça, de Diogenes com Mario Leal Ferreira, tem aqueles oitis centenarios que não deixam o asfalto conhecer luz do sol \o/). Lelé, talvez o maior arquiteto vivo do planeta, justamente quando sai do brutalismo para voltara um funcionalismo tardio (com pre-moldados de concreto e ferro-fundido – portanto, neo-nouveau ao seu modo) volta a ter muita vegetação (além de sua lendaria utilização de luz e ventilação natural de modo a aumentar o conforto climatico. Vide os hospitais da Rede Sarah).

    Desculpe o detalhismo, mas você começou a falar de arquitetura. E eu me criei no melhor da arquitetura bahiana dos anos 50: a residência de meu avo, de meus tios-avós, e dos avós de meus primos – todos, apartamentos ou casas, autorais. E fora que sou ex-namorado de arquiteto, aí, já viu…

  11. “morei no nordeste” -> como você sabe a Bahia tem nordeste mas não é nordeste. E Salvador é, com o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e Mariana/Ouro Preto, uma capital da Região Leste (que deixou de existir na reforma geográfica do Regime Militar, e sabemos bem com que intensões: dobrar um dos poucos estados que não cedeu facilmente ao golpe; isto é: abrir caminho pro Carlismo, que viria a destruir boa parte da Avant Gard de Dr. Mangabeira).

    você morou onde? Recife?

  12. Têm uns post’s que se transformam em verdadeiras aulas sobretudo de história, sociologia, um pouquinho de psicologia (bem embutido) e agora decoração …. e isso é bom … muitos temas que estimulam estudar mais ….

    Desde os 10 anos de idade ando de bicicleta, quando ganhei a minha primeira bike (Peugeot Turismo Jr. aro 22″ ). Quando em 1992 parti para o lado de competição com a primeira Caloi 12 e em 1994 fiz minha primeira corrida de MTB.
    “Regredi” e comprei um carro em 1996, depois uma moto e mais um carro.
    São fases da autoafirmação dos namoros e viagens para competir etc.
    Agora fiquei 2 anos sem renovar a carteira de motorista e penso não renovar mais… Pra que ??? Com 3 bike em uso (1 mtb, 1 speed e 1 urbana 700c) e duas em montagem (1 Olé 70 Monark que pode virar uma com roda elétrica, e uma Peugeot speed 10 marchas toda original que caiu no meu colo , pena que com um quadro pequeno pro meu tamanho . ) ta faltando pedalar mais …

    Com 42 anos agora será que vai dar pra andar em todas ? Se ficar na muleta do carro acho que não .
    O carro e principalmente as motos acomodam nosso corpo… O computador também o corpo e a mente… É ótimo nos encontrarmos os afins mesmo a distancia mas se não abrir o olho passo o dia todo no computador…

    Temos que as vezes por regras saudáveis pra nossas vidas e a minha principalmente …

    Exemplos : —– Visitar de bike é claro um ou mais amigos(as) por semana —
    —- Carro agora pra viagens com a família e acima de 60km , e eu sem carteira vou ter que arrumar uma motorista ehehehe—– Ler bons livros ou tirar das estantes aqueles bons que compramos e não lemos —-
    Visitar os parentes distantes de ônibus e levar a bike no porta malas —-
    Tirei feria durante 30 dias e o meu maior arrependimento foi não levar uma delas para passear comigo.
    Mas como está no sangue a graxa dos cubos e o óleo da corrente , aluguei uma para umas horas de diversão….
    Que a naturalidade de querer o melhor continue para nós e o planeta continue inspirando os homens e que eles possam fazer o caminho de volta também.

  13. Odir,

    seu diálogo com o Lucas, merece virar um post ….

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