a brancura das bicicletas

eu gostaria de estar escrevendo agora sobre outras coisas. sei lá, sobre algo legal como quadros de titânio, pneus que não furam… mas não, meu entusiasmo em escrever hoje esvaziou-se como um pneu furado por um prego.

ghost bike de antônio bertolucci. foto de gonzalo cuéllar.

um prego no meu coração, no coração de cada ciclista. hoje morreu mais um ciclista, um empresário amante das bicicletas, prensado por um grande e imponente ônibus. já vimos essa história, não? semana passada morreu um médico no interior de são paulo, transitando no acostamento da rodovia washington luís, atropelado por um caminhão. há pouco mais de um ano foi um porteiro, morador de uma favela, que foi morto por um motociclista, na avenida vereador josé diniz. há puco mais de dois anos, foi a márcia prado, esmagada por um ônibus, na avenida paulista.

ghost bike de manoel pereira torres. foto de carlos alckmin.

são dezenas de mortes de ciclistas ao ano, só na cidade de são paulo. motoristas imprudentes que sempre dizem que a bicicleta saiu do nada, que o ciclista desequilibrou-se e foi parar justamente debaixo das rodas do veículo… que azar né? foi acidente…

acidentes ocorrem ao acaso. esses casos citados acima não foram acidentes. eles resultam da ação humana imprudente, negligente, violenta. sempre depois de ocorrida a tragédia os motoristas dizem a mesma coisa: o ciclista desequilibrou-se, saiu do nada, materializou-se ensanguentado debaixo do veículo. é, parece que o ciclista assassinado é uma espécie de ser que surge do além, já morto, ali debaixo das rodas…

nem todo “acidente” termina com morte. indo para a manifestação de hoje o ciclista felipe centrone simplesmente foi fechado por um veículo. sim,  o veículo acelerou e virou à direita, ligando pisca-pisca só na hora de virar a direção à direita. felipe ainda tentou desviar, mas o choque foi inevitável. um dente quebrado, um capacete inutilizado, lábios cortados e inchados. sexta-feira passada, à noite, foi a arquiteta carina chandan que foi atropelada por uma motorista bêbada na rua teodoro sampaio. felizmente sofrendo ferimentos bem leves.

felipe centrone por ele mesmo, após o acidente. lábios machucados, dente quebrado.

como bem lembrou o thiago benicchio numa conversa aos pés da ghost bike instalada hoje, nós, ciclistas urbanos vivemos num eterno “quase”. quase morremos a todo instante.

por mais que sigamos todas as normas de trânsito, andemos sinalizados, iluminados, e etc. alguém não nos vê e nos mata. hoje, 13 de junho, dia de santo antônio, foi antônio bertolucci, que foi morto no trajeto que fazia há décadas, diariamente. morto num local sem buracos, sem lugares para que a bicicleta se desequilibrasse, mas onde um grande veículo pode esmagar um ciclista facilmente, se em vez de prestar atenção à via que trafega, olhar apenas à esquerda visando entrar na avenida sumaré.

são assassinos os que dirigem mal seus veículos e matam. não importa se não tiveram a intenção. acaso se eu usar uma arma e der tiros para cima, e uma das balas disparadas atingir alguém (a famosa “bala perdida”) e matar essa pessoa, deixará de ser homicídio? não. mesmo que eu não tenha a intenção, mesmo que eu não mire na pessoa atingida, ela terá sido morta por mim, serei eu um homicida.

aquele que está no comando de um veículo automotor, que tem uma massa considerável,desloca ar enquanto se move, é responsável pelos danos que causa. se não tem tempo de reagir pois está rápido demais, é responsável pela velocidade que desenvolve, pelo dano que causa, por trafegar inadequadamente.

ciclistas hoje se perguntam: até quando? até quando aqueles que se deslocam sem poluir o ar, sem causar barulho, sem oferecer grande perigo, serão os que são esmagados pelos veículos automotores? será que os mortos e feridos no trânsito já não causam custos médicos gigantescos a ponto de passarmos a questionar essa estrutura de transporte que adotamos?

será que não está na hora de perguntarmos se com tantas leis já existentes, por que há tanta INCOMPETÊNCIA do poder público em aplicar uma simples multa com base no artigo 201 do CTB, que diz que o motorista deve guardar distância de 1,5 m (um metro e meio) do ciclista ao passá-lo?

sim, não nos faltam leis, e não precisamos de planos elaborados e faraônicos de implantação de ciclovias em toda a cidade. basta simplesmente permitir que o agente de trânsito multe com base no artigo 201 do CTB! para relembrar, leiamos novamente o manifesto dos invisíveis, infelizmente tão atual…

pergunto-me o tempo todo o que passa na cabeça desses burocratas do trânsito. lembro-me de quando fui tirar carta de motorista há algum tempo e em nenhuma das aulas teóricas citou-se o artigo 201 do CTB. só falaram de bicicletas depois que quase fiz uma revolução naquela auto-escola.

a incompetência, o desconhecimento, a imprudência, são generalizados. é fato. desumanizou-se o trânsito. bestas-feras atrás do volante, não deixaram de acelerar e buzinar nem durante o protesto realizado hoje, com a fixação da ghost bike de antônio na avenida sumaré. veja o vídeo da reportagem do jornal da rede globo, nesse link aqui.

já viram as fotos de um acidente fatal? já viram as fotos do corpo de um ciclista com o crânio esmagado pelas rodas de um ônibus? eu já vi. as rodas do veículo com restos de massa encefálica. o rosto esfacelado. as marcas dos pneus na pele das costas.  é isso o que um veículo automotor pode fazer a um ciclista caso passe a menos de 1,5 metro de distância do mesmo.

cansamos de bicicletas brancas. cansamos do luto de familiares de pessoas de todas as classes sociais, sejam empresários ou porteiros, pedreiros ou engenheiros, não importa, são vidas humanas que a ninguém atrapalham e ainda por cima foram tiradas.

cansamos dessa conversa mole de foi “acidente”. cansamos da incompetência generalizada das autoridades de trânsito em fazer valer uma simples regra constante de um único artigo do CTB (o artigo 201). cansamos de ser invisíveis no trânsito.

pois os motoristas só nos vêem no trânsito quando tiramos as roupas. e daí somos presos por obscenidade quando obsceno é o trânsito, a brutalidade motorizada.

paro esse post por aqui. digito com meus dedos ainda brancos pela tinta usada para pintar mais uma bicicleta, mais uma ghost bike, e meus olhos marejados por um desconhecido que como muitos outros aqui citados, são meus irmãos. quantas ghost bikes mais teremos que pendurar por aí? não aceitamos mais nenhuma morte. e como bem relembra a querida talita noguchi, “Se o Estado falha, surge a luta pessoal.” sorte dos motoristas que ciclistas são pacíficos. mas um dia as u-locks usadas para evitar furtos pode ter outro uso. como já cantou ani di franco, every tool is a weapon – if you hold it right.

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9 Respostas para “a brancura das bicicletas

  1. “Don´t thou askt for whom the bells toll, cause it tolls for thee”
    John Donne

    mas

    “Go, and catch a falling star;
    make wish for worlds unseen”
    John Donne

  2. O prefeito de Copenhague estava certíssimo quando falou sobre como é perigoso andar de bicicleta em São Paulo (e no Brasil). Realmente ninguém está se importando com esse maravilhoso meio de transporte, sempre estamos atrasados com relação aos países europeus

  3. O bizarro, Rafael, é que por mais “perigoso” que seja ou pareça, ainda é mais seguro do que andar a pé ou dirigir.

    É este silêncio que me assusta: morre gente todo dia por dirigir ou andar a pé (o que não ocorre com bicicletas), mas está-se “cego de tanto vê-la”.

  4. olá, achei esse site devido a morte de aontonio ontem, vcs acham que o governo quer que a população comecem a andar de bicicletas??? se isso acontecer quantos milhoes ou bilhoes eles vao perder??? por que as pessoas não vão precisar abastecer o carro com tanta frequencia e acredito que em varios outros fatores, mas vejo que talvez esse seja o principal…..eu queria muito começar a andar de bicicleta para ir trabalhar, mas o medo é maior e não me arrisco…. admiro todos vc ciclistas, que tem coragem de andar em sp todos os dias….

    • deza, o argumento econômico também foi utilizado pelos contrários à abolição da escravatura, no século XIX. diziam que iria desorganizar o setor agrícola brasileiro, até então respondendo por quase toda a economia do brasil. pense por outro lado: por ano, a poluição de veículos automotores mata cerca de 4000 pessoas em são paulo. veja bem: mortos pela poluição, não por acidentes. o número de casos de problemas de saúde agravados pela poluição pode ser 10 vezes mais. qual o custo disso? e é bancado pelo SUS… é fato que teremos um dia mudar a base econômica, em direção à chamada “economia de baixo carbono”. a questão da diminuição de veículos otorizados é apenas um desses fatores. o mais fácil de se modificar, atualmente.

  5. Foda. Odir, nesses momentos passa um filme na cabeça, nesse filme estrelam acontecimentos parecidos como o caso da Márcia, o medo de que seja eu ou alguém querido ali estirado ao chão, o receio de não estar aproveitando a vida ao máximo antes que tudo se acabe, a necessidade de rever o orgulho besta de ter algum assunto mal resolvido com alguém querido, a imaginação de uma medida extrema de contra ataque aos opressores, enfim, vem tudo misturado no começo, meio difícil de explicar, mas quando a poeira baixa e o sol surge novamente, o que resta é aquela vontade de agir mudando para melhor o meio em que estamos inseridos, essa é a única saída.

  6. Pingback: Enquete: é viável andar de carro em SP? « Outras Vias

  7. Fiquei muito tocada pelo seu post. Até escrevi um comentário, mas ele sumiu, acho que o computador não quis mandar!
    Queria dizer que o seu texto tem um sentimento muito forte, que toca fundo a gente. Eu sou ciclista em Floripa. Se aqui fosse tranquilo andar de bike, seria um verdadeiro paraíso. Para onde você olha, tem paisagens lindas. Eu ainda sou uma ciclista eventual. Vou pro trabalho de bike quando consigo acordar cedo, me organizar. Preguiçosa, sabe? Mas tenho vergonha disso. É só eu colocar o pneu da bike na rua que eu sinto o quanto o meu dia vai ser maravilhoso. Quer saber? A morte do Seu Antonio não me desanimou. Pelo contrário. Estou pilhada. Quero levantar essa bandeira ainda mais. Isso tudo é muito errado, muito injusto e eu não quero viver num país como este. E a melhor forma de mudar este país é sendo mais um, mesmo que seja mais uma vítima. Parabéns pelo blog, pelos toques, pelo texto. Eu já escrevi sobre isso também no meu blog. Já faz alguns meses, mas me lembro de uma coisa que se passou pela minha cabeça: “O CICLISTA VIRA UM ATIVISTA SEM QUERER”. E eu virei.
    Hoje um amigo compartilhou este vídeo: http://youtu.be/2pUBH8zmg8w que é uma memória da infância… o Sr. Walker e o Sr. Wheeler, feitos pelo Pateta, que se transforma assim que entra num carro. Parece familiar??

    • mayra, postei o vídeo aqui há algum tempo. o texto que te tocou apenas foi escrito com o que senti, e o que senti é o que sentimos aqui em são paulo. somos a parte fraca que não atrapalha, não polui, não contribui par ao caos e mesmo assim somos massacrados. é fato, a sensação de injustiça com as coisas do mundo é gigantesca. na segunda-feira o clima era de consternação. mas a vida segue, a gente não desiste, um dia as cidades voltarão a ser um lugar onde vivem pessoas, e não veículos motorizados, como são hoje em dia. obrigado pela visita ao blog.

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