as greves, os transtornos, a bicicleta

são paulo tem hoje parte de seu sistema público de transporte em greve. sim, estão parados os trens da CPTM e parte da rede de ônibus na zona leste da cidade, assim como no ABC paulista.

passageiro diante do portão de estação. imagem do portal r7

se o metrô também parar a cidade pára. hoje a cidade já está manca. com metrô parado ela estanca. também pára se houver greve de ônibus.

é interessante, pois quando falamos de CPTM, falamos de mais de 2 milhões de pessoas sendo transportadas por dia. ontem deixaram de ser transportados cerca de 1,7 milhão de passageiros, hoje, o sistema CPTM está todo parado e deixa de transportar cerca de 2,5 milhões de pessoas a boas distâncias. no entanto, se essas pessoas morassem mais perto, seria necessário tanto deslocamento? claro que não. mas moram longe por que querem? também claro que não.  é por que há especulação e a área mais central, com toda a infraestrutura já instalada (hospitais, escolas e etc, em grande parte já ociosas, como as escolas do centro, fechando por falta de alunos), é reservada à especulação.

há um prédio na avenida prestes maia, perto da estação da luz, que já sofreu diversas ocupações populares. nunca conseguiram que fosse desapropriado e convertido em moradia popular. nunca. pois a dona do prédio, há anos desocupado, é uma construtora….

no entanto, uma reforma aqui perto de casa não parou. a cidade parando e a reforma não parou. conversei agora há pouco com o dono da casa sendo reformada. casa antiga, de dois quartos, sendo reformada por 4 ou 5 pedreiros e auxiliares. no mercadinho ao lado dois funcionários faltaram (2/3 dos empregados). os pedreiros vieram, todos nas suas bicicletas.

como pedreiros e auxiliares carregam ferramentas, às vezes volumosas, e muitas vezes sujas e cimento e etc, nem sempre podem entrar em ônibus. às vezes são impedidos de entrar no metrô ou trens. e claro, usam bicicletas. a velha monark 10 com uma enxada amarrada ao quadro e um bagageiro com um caixote em cima é um clássico nesse meio. mesmo para distâncias maiores.

quem anda pela marginal do tietê, segundo pela ayrton senna/trabalhadores está acostumado a ver as bicicletas dos que vão e voltam ao trabalho  pelos acostamentos. muita gente usa esse trajeto para ir da região central a ermelino matarazzo, cangaíba, são miguel paulista. é uma quantidade considerável de pessoas, trabalhadores simples, que hoje, inobstante a falta de trens, essas pessoas não chegaram atrasadas ao trabalho nem farão nenhuma gincana especial ao voltar pra casa.  com greve ou sem greve, continuam a ir, diariamente, ao trabalho. garantindo seu emprego, e sem gerar dores de cabeça aos patrões.

ontem, no local onde trabalho, dois professores faltaram por falta de transporte, diversos outros que vão de carro chegaram atrasados e reclamando demais do trânsito. o único que não alterou sua rotina fui eu, de bicicleta. tanto que alunos não faltaram a prova pois tinham certeza que se havia um professor que não deixaria de ir à faculdade, seria eu.

a obra não parou, mas o mercadinho ao lado fechará as portas à tarde, já em um aviso na porta. prejuízo na certa. culpa dos grevistas? não, sua reivindicação é justa, e a greve é seu único recurso na negociação. injusto é o modelo de ocupação da cidade que gera deslocamentos gigantescamente desnecessários, e a ausência de uma política pública efetiva de investimento no uso da bicicleta como transporte, que não é solução para todos, mas para uma substancial parte das pessoas é sim.

é, enquanto são paulo vai mal, congestionada, poluída, e eu vou de bicicleta.

 

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12 Respostas para “as greves, os transtornos, a bicicleta

  1. opa!

    isso é verdade. Os dois pontos explorados em seu texto são a mais pura verdade… Os moradores da periferia não estão lá porque querem, estão lá pela pura falta de opção e porque ocorre uma tremenda especulação imobiliária no centro da cidade. Não sei se estou certo, mas há uma estimativa de que o número de imóveis inabitados podem abrigar os moradores de rua e outros em condições precárias com folga. O que falta é vontade política para isso.

    Sobre o uso da bike pelos “diferenciados” (desculpe o uso deste termo, não aguentei), é isso mesmo. Experimente dar uma volta pela periferia de São Paulo, Mogi das Cruzes, Poá, Itaquá, Ferraz, etc, etc que você verá um grande número de ciclistas, ou bicicleteiros, indo e voltando do trabalho/escola em suas bicicletas simples e bem usadas.

    Na época que eu fazia, diariamente, o trajeto Mogi das Cruzes -> Av. Paulista, sempre encontrava com vários destes, principalmente na região de cumbica. Pena que estes não entram nas estatísticas dos modais de transporte, sendo sempre ignorados pelos gestores públicos. Espero que isso mude logo.

    bom, e isso.
    []’s

  2. Gostei do texto e devo dizer que concordo com tudo o que está escrito.

    Em minha cidade, João Pessoa/PB, está acontecendo um fenômeno interessante e assustador: as pessoas de menor poder aquisitivo estão deixando de usar a bicicleta e o transporte público em seus deslocamentos diários para usar ciclomotores e motocicletas de pequena cilindrada. Até pouco tempo atrás não se exigia desses condutores nem autorização para condução de ciclomotor (ACC) nem habilitação (CNH) para motonetas com menos de 100cc. Não se fazia necessário emplacamento, não havia fiscalização do uso dos equipamentos obrigatórios… enfim, não havia controle algum. Estava um caos nas ruas. Sabem o que o Poder Público fez? Passou a exigir tudo isso de tais condutores, inviabilizando para muitos o próprio uso de tais veículos. Mas não houve nenhuma melhoria no sistema de transporte público nem tampouco se promoveu o uso da bicicleta através das respectivas ações públicas que a torne possível. Assim, à população de menor poder aquisitivo resta andar no “coletivo lotado”, verdadeiro pau-de-arara dos dias de hoje.

    Abraços e boas pedaladas

  3. concordo com vocês dois, textos verdadeiros aqui que eu li,

    a bicicleta não resolve o problema de todos mas de uma parcela sim, a Soninha Francine assim como o Odir o RDias, eu e muitos sabem que cada zona da cidade é como uma cidade diferente e deveria ter empresas, locais de trabalho, infraestrutura como bons hospitais, ou seja cada zona deveria ser auto-sustentável sem que as pessoas para terem que fazer alguma coisa tivessem que atravessar um oceano de pedra.

    abraços

    • você chegou no cerne da questão.

      Porque o pessoal da periferia tem que se deslocar tanto? Deveria ter ações dos administradores públicos para descentralizar os postos de trabalho e evitando essas grandes movimentações de pessoas. Sou a favor disso, do home office e etc.

      • Confesso que nunca tinha pensado à respeito do assunto que você aborda, a distância cada vez maior entre o local de moradia e o local de trabalho e as consequência para a sociedade e para o indivíduo. Até que um amigo recomendou a leitura do livro “Apocalipse Motorizado”, organizado por Ned Ludd, que traz uma análise muito interesante sobre o assunto. Eu recomendo à todos, apesar de achar que muitos daqui já o leram. Abraços

  4. Agora imagine se as pessoas fizessem greve para usar o transporte público?? Imaginem se 2 milhões de pessoas não pagassem por transporte público por alguns dias. Será que algo não aconteceria para reduzir esta tarifa abusrda de R$3??? Apenas uma reflexão…

    JP – o “neo-mendigo” que anda de bike com caixote e ninguém entendia até ler este post…

    • Um boicote à empresa de transporte público municipal de Montgomery, Alabama, provocado pela prisão da Sra. Rosa Parks pela prática do crime de não ceder seu assento à um homem branco, deflagrou um movimento que lutou para que os Direitos Civis fossem assegurados à população negra dos EUA.

      Assim, com um boicote ao transporte público seria possível não só baixar o valor da tarifa de transporte público…

    • nem vem, evelynda, neo mendigo pela caixa de leite no guidão e buzina de carnaval na bike do chacrinha! caixote é hype, eu sempre gostei pq é lá q coloco as latinhas de cerva depois que tomo! agora essa greve seria linda né?

  5. Bem lembrado, eu me irrito com essa ideia difundida de que a solução para o problema do deslocamento é transporte eficiente para todos. Não é! A mobilidade em SP passa pela solução do problema de planejamento da cidade.
    Os vazios urbanos que vemos hoje na região central – em grande medida transformada em deserto, região de passagem – representam bem a tacanheza do nosso desenvolvimento enquanto cidade.
    E o que dizer daqueles privilegiados que, podendo muito bem escolher seu lugar de moradia, optam por uma vida de trajetos longos e desnecessários, unicamente porque foram convencidos pelo marketing de que estavam adquirindo qualidade de vida ao morar longe? É tão óbvio que chega a ser desanimador… vejo todos os dias esse tipo de gente reclamando do congestionamento causado pelos seus próprios carros, indignados porque o governo deveria fazer isso ou aquilo, colocar Metrô e ônibus (que eles jamais vão usar, né), como se não tivessem nada a ver com a causa do problema!

  6. Parabens Odir e parabens a todos os participantes,
    gostei muito do nivel de discussão, com opiniões e argumentação sólida. questionar, e bom senso mostram nível de maturidade, que continue assim, abraços e bom pedal,

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