brevets, pavés e são paulo

na europa há uma quantidade grande de provas de um único dia, as clássicas. e há muitas clássicas tradicionais, as monumentais (como a paris-roubaix), e outras, não-monumentais, mas igualmente difíceis.

que tal uma bianchi full suspension? clique na imagem

provas que usam estradas antigas, tradicionais. a paris-roubaix usa a mesma estrada, omesmo trajeto, desde o final do século XIX. como parte do trajeto não é calçado – sim, estradas de terra – e parte são paralelepípedos – os pavés – ela é cohecida como “l´enfer du nord” (o inferno do norte).

o interessante é ver quais bicicletas são usadas nesse tipo de prova. claro, elas fogem um pouco do padrão mais agressivo e especializado que vemos em provas menos duras no sentido das condições de terreno: asfalto liso.

a bicicleta com certeza muda: tem geometria mais relaxada, com mais conforto.  rodas de perfil baixo, com mais raios: é mais adequado usar rodas tradicionais de 32 raios, de preferência cruzados pois a raiação radial força um pouco mais a flange dos cubos. e a relação é usada de acordo com o relevo, como em qualquer prova (por exemplo, no giro d´italia, caracterizado por subidas duras, pedivelas triplos aparecem com freqüência).

por outro lado, durante muito tempo as regras relativas ao paris-brest-paris, a grande prova não competitiva de endurance que deu origem ao tour de france, exigiam que a bicicleta fosse dotada de pára-lamas. e durante décadas, a única forma de se ter luz, à noite, era usando dínamos. isso fez com que surgisse um tipo de bicicleta, a “brevet bike”, também com geometria mais relaxada, basicamente uma light touring.

pois bem, com o surgimento de luzes com leds à bateria – muito duradouras, pequenas, leves, fáceis de instalar – e com a revogação da obrigatoriedade de pára-lamas instalados nas provas de audax, e até também pela escassez de light tourings disseminou-se no mundo inteiro o uso de bicicletas de competição pra o uso em brevets.

mas há uma diferença entre a competição e o brevet. são raras as provas competitivas com mais de 200 kms por etapa. o brevet mais curto é de 200 kms (depois 300 kms, 400kms, 600kms…), portanto o tempo que se fica em cima da bicicleta é maior, e as estradas usadas nem sempre tem boa qualidade, muitas vezes são acostamentos esburacados…. e os randonneurs que usavam as estradeiras nos brevets começaram a sentir o desconforto. passaram a olhar com os olhos compridos para as bicicletas especiais usadas nas provas com pavés, como a paris-roubaix….. afinal, suas rodas não tinham raios quebrados na buraqueira… a geometria parecia ser menos agressiva….

os fabricantes logo descobriram o filão. o camarada até pode sonhar em ter uma bicicleta igual à do lance armstrong, mas ele vai rodar durante a semana nas ruas da cidade dele (que pode ter o asfalto esburacado e horroroso de são paulo), no final de semana vai esticar pelas estradinhas mais próximas que podem não ser exatamente um tapete, de vez em quando vai fazer um brevet, e num final de semana talvez queira passar a noite numa cidade a 150 kms da sua, indo no sábado, pedalando de volta no domingo – e tendo que carregar uma muda de roupa, uma necéssaire, lanchinhos….

esse filão de usuários é muito mais lucrativo aos fabricantes do que os poucos competidores de ponta. reúne uma quantidade consumidores muito maior. assim como quem sustenta o mercado de chuteiras é o futebol amador de final de semana, o mesmo ocorre com a produção de bicicletas.

então os fabricantes passaram a produzir uma série de bicicletas ligeiramente mais confortáveis e resistentes. muitas delas com o termo “roubaix” no nome para identificá-las. e também passaram a fornecer as estradeiras mais básicas com furação para bagageiros, como faz a trek na linha “um ponto alguma coisa” (1,1, 1.2, 1.5).

a specialized tem um modelo, a secteur elite apex, que possui a geometria que eles denominam “roubaix”, com ângulos mais relaxados, e vem com olhais para bagageiros e pára-lamas, e grupo sram apex, com cassete 11-32. para ficar perfeitinha para um brevet 400, vão faltar pedais, suportes de caramanhola e claro, pq não? um par de pára-lamas…

specialized secteur elite apex

ah, e o interessante é pensar que essas bicicletas são especialmente adequadas a são paulo. a buraqueira aqui reina. meu trajeto diário consegue desalinhar até  rodas de MTBs…

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4 Respostas para “brevets, pavés e são paulo

  1. Como sempre, ótima leitura.

    É mesmo interessante pensar em como muitas vezes, em alguns grupos de ciclistas, se procuram bicicletas que imitam as características das encontradas nas usadas pelos corredores de ponta, sem considerar as necessidades (e desempenho) reais dos usuários.

    Valeu também por ter conhecido essa Bianchi full-suspension (para quem tem curiosidade, a história dela pode ser conhecida clicando na foto. )

    • pois é, mig! existe a esfera do desejo. muitos motoristas adorariam andar numa F1, mas não podem. o mundo das bicicletas permite isso. pode-se se esforçar bastante e ter uma bicicleta igual à trek que o lance armstrong usou. uma bicicleta cara de ponta custa alguns milhares, e não alguns milhões. então há quem emule a sensação de ser o competidor dessa forma. se continuar pedalando vai perceber que a diferença não é máquina, é perna. é aí que aprende que nem pro usa cassete 11-21 o tempo todo.
      esse processo de aprendizado aqui no brasil ainda é individual, mas aos poucos vai se socializando. fóruns, listas, blogs, servem para isso.
      e assim aos poucos a gente constrói uma ciclo-cultura.
      ciclocidade, cicloBR, bicicletada, audax brasil, pedal.com.br, e etc, têm esse condão.
      é… como dizem meus alunos, “o barato é louco mas o processo é lento”. mas a gente chega lá.

  2. Sou viciado nesse blog! Odir, mais uma vez tenho que te agradecer. Nos próximos meses penso em comprar uma bike e, como eu costumava descrever, “algo próximo de uma speed, mas com paralamas, bagageiro e roda suficientemente boa para não entortar com qualquer coisinha”. Fiquei muito feliz de saber que isso já existe, vai facilitar muito a minha pesquisa. Obrigado!

    • prepare o bolso, matheus. mas até lá pode divertir-se com a mtb com pneus finos e pedivela 48,38,28. se ela tiver cabo de câmbio dianteiro passando por debaixo do quadro, dá pra coloca rum câmdio dianteiro especial pra guidão reto e pedivela de speed: 52,39,30. vai voar!

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