#WNBR 2011: ser, ter, fazer

sartre, em “o ser e o nada” , logo no início da quarta parte, nos adverte: “ter, fazer e ser são as categorias cardeais da realidade humana. classificam em si todas as condutas do homem. o conhecer, por exemplo, é uma modalidade de ter.” e ele acrescenta que estas características não têm conexões entre si.

como vemos as pessoas? uns vêem o que os outros tem, o que os outros são, eu vejo o que fazem.

ontem à noite, mais uma vez, a cidade de são paulo surpreendeu-se com um uso diferente das ruas. um uso dionísíaco. e pode? pessoas nuas em suas bicicletas, fantasiadas, corpos pintados, pode? a passagem alegre gritando lemas como “mais amor, menor motor”, ou “você aí parado, vem pedalar pelado”? pode? quem disse que não?

ora, acontece todo ano. no mundo inteiro. chama-se World Naked Bike Ride, ou se vc preferir, pedalada pelada mundial. ora, são paulo não faz parte do mundo? é festa? é protesto? o que é?

a incompreensão de muita gente deve-se à compartimentação das mentes, às cabeças quadradas. a pessoas que são incapazes de reconhecer e entender as coisas, e precisam de algo ou alguém externo para lhes dizer: “olha, isso é protesto”. “agora começa a aula”. “isso é roupa pra trabalhar”.  “agora é festa”. “isso é sério”. “isso não é sério”. “você é adulto”. “você ainda não tem idade”.  são aquelas pessoas que não percebem que uma aula pode ser divertida, que o trabalho pode ser prazeroso…. que a vida pode ser boa, que se pode viver fora da caixa: do caixote que é o carro, o apartamento, o shopping center, a baia do escritório. caixote, em bike, é pra carregar coisas, não pra viver dentro. cabeças quadradas…

 

pelado não polui. foto: santiago luz

dionísio era o deus da bebedeira. baco, para os romanos. mas não era apenas o deus do vinho. era o deus da cultura, dos ciclos vitais, do cultivo árduo das uvas. do alimento. da vida, da vida vivida como deve ser.

com assim, vida? viver é uma forma de fazer. como vc vive sua vida? acumula coisas (e dívidas no cartão de crédito), preocupa-se com status social e não percebe nada do que faz? vive em caixotes? dirige o seu carro como se o que existe fora e vive de outra forma não existisse? acha que quem está na rua é coisa? pode ser atropelado, pode ser agredido? você só vê o que está la fora pq é uma pessoa sem roupas, e andar sem roupas não se faz na rua?

pelados na paulista. foto: ian thomaz puech

pois é, para que você, motorista, veja os outros é que eles tiram as roupas. ciclistas anualmente tiram as roupas para lembrarem você que eles estão ali e você não deve atropelá-los. pois, sem roupas, você os vê. com roupas, você os ignora.

diz-se que houve certa vez uma raça de homens invisíveis que viveram junto com os demais humanos por milênios. mas daí inventou-se o automóvel, as ruas se encheram deles e os invisíveis foram mortos, todos atropelados por velozes motoristas que não os viam ao atravessarem as ruas.

vida a bordo. foto: renata falzoni

pois é… ciclistas pelados e claro, nem todos lindos. corpos comuns, não torneados em academias e esculpidos em silicone. corpos vivos. teve gente que gritou: “que coisa feia!”, mas feio é o trânsito, feio é alguém morrer no trânsito, em acidentes que não são acidentais.

ontem foi a 4º WNBR realizada em são paulo. a primeira noturna, a primeira também sem a presença da polícia, talvez por isso também a primeira que não registrou tumultos. uma grande coincidência….

pedalando pelado nas alturas. foto: santiago luz

a massa, de mais de 250 pessoas, em grande parte desnuda, cada um mostrando o que quer, o que pode, o que tem coragem, singrou ruas de são paulo a bordo de suas bicicletas. não são playboys mauricinhos e patizinhas malhadas de academias em shoppings. ali no meio havia entregadores. jornalistas. professores. bike-couriers. médicos. arquitetos. músicos. publicitários. administradores. advogados. secretários. funcionários públicos. gente que todo dia trabalha, que se sustenta, e que muitas vezes sofre em silêncio na opressão do trânsito de são paulo. gente que é agredida gratuitamente, pelo simples fato de escolher uma forma de transitar que causa muito menos danos à cidade. gente que sabe que sapatos se gastam ao se andar, pois não pulam do assoalho do automóvel pro piso liso dos shopping centers. gente que tropeça nas calçadas. gente que vive no mundo real.

mas precisa tirar a roupa? ora, com roupa, o cicloativismo tem lutado há décadas. são da década de 80 as primeiras pressões em cima de governantes para que se realizem ciclovias, para que se faça cumprir o código de trânsito. e se fez algo? pelamordedeus, temos alguns míseros kms de vias sinalizadas entre ciclovias e ciclo-faixas (de lazer???) numa cidade de 17.000 kms de ruas! quantas multas foram aplicadas com base no artigo 201 do CTB? acho que uma. tente trabalhar e ir de bicicleta a qualquer empresa que fique na região da marginal tietê. cadê ciclovias nessas vias expressas? nada. ciclovia lá no parque não conta. ciclo-faixa de lazer não conta. pois esse é o uso apenas recreativo da bicicleta, mas o que se precisa é do uso da bicicleta para transporte.

compartilhe a pista. foto: ian thomaz puech

mover-se é uma forma de fazer. não de ser. não de ter. mas de fazer. como você faz? quais as conseqüências da sua ação? vivemos em um mundo infestado pelo outro. que pode nos tolher a liberdade ou estendê-la ao infinito. como você se diverte num sábado à noite? ordeiramente vestido, consumindo bastante os tecidos industrializados, movendo-se num SUV poluidor e gastador? pedala pelado?

get nude, keep calm. foto: renata falzoni

há diferenças, elas são marcantes. ciclistas pelados com corpos imperfeitos espalhando alegria é uma das formas de protesto mais contundentes: protestam não só contra a atual organização do trânsito, mas criticam a própria estrutura de valores atuais. mostram a bunda para os padrões artificiais de beleza que só espalham frustração, pois as pessoas não são perfeitas. mostram que debaixo do sutiã, seja ele de uma loja barata ou da victoria secrets, existem seios que são reais: grandes, pequenos, empinados, caídos. reais. simplesmente reais.

mostram que sobre aquela bicicleta ali ao lado existe uma pessoa. um corpo vivo, não um produto do mundo industrial, uma coisa. existe um ser humano, não um objeto. não é um pino de boliche, mas uma pessoa.

um sorriso lindo, um ser humano. foto: nacho doces/reuters

lembre-se sempre, motorista. ali há um ser humano. que se sente nu diante da sua violência. respeite-o.

clique aqui e confira a coleção de links sobre a 4º WNBR de sp do luddista.

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14 Respostas para “#WNBR 2011: ser, ter, fazer

  1. Gostei da história dos humanos invisíveis…
    O problema nessa relação é que os visíveis precisam dos invisíveis para co-existirem, Irônico!

  2. Pingback: Peladada em Sampa « bicicletada curitiba

  3. Pingback: Sucesso « FIXA SAMPA

  4. Pingback: Como foi a Pedalada Pelada 2011 | Vá de Bike!

  5. Texto excelente. Encerra a explicação sobre o evento.
    Sugiro que no ano que vem você junte as duas partes abaixo e use na divulgação.
    Parabéns.
    Abraços.
    Fabiano

    pois é, para que você, motorista, veja os outros é que eles tiram as roupas. ciclistas anualmente tiram as roupas para lembrarem você que eles estão ali e você não deve atropelá-los. pois, sem roupas, você os vê. com roupas, você os ignora.
    +
    mostram que sobre aquela bicicleta ali ao lado existe uma pessoa. um corpo vivo, não um produto do mundo industrial, uma coisa. existe um ser humano, não um objeto. não é um pino de boliche, mas uma pessoa.

  6. Pingback: Sem pudor de mudar o mundo « Outras Vias

  7. Tá tudo lindo.
    Eu pedalei pelado!
    Eu consegui!
    Eu posso!
    Meu coração e minhas pernas estão me agradecendo todos os dias.
    Amei estar ao lado de vocês!
    Fim de mês tem mais, ano que vem tem mais.
    Bjs e abs.

  8. Tá tudo lindo.
    Eu pedalei pelado!
    Eu consegui!
    Eu posso!
    Meu coração e minhas pernas estão me agradecendo todos os dias.
    Amei estar ao lado de vocês!
    Fim de mês tem mais, ano que vem tem mais.
    Bjs e abs.

  9. Pingback: Non Ducor | Pedalante

  10. Pingback: Obsceno é o Trânsito | Silvia e Nina

  11. Pingback: Peladada em Sampa | Bicicletada Curitiba

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