é disso que eu falo – ou vamos tirar a cabeça do buraco!

há alguns dias eu publiquei um post chamado “o diferencial moral”. muita gente simplesmente odiou. simples, coloquei o ciclista moralmente acima do motorista, do ponto de vista do comportamento social, do ponto de vista da pegada de carbono. e mais, para fazer isso aleguei que o motorista, mesmo o que não atropela, mata, pois polui. e ainda pergunto de que lado o leitor está. como brasileiro não gosta de tomar partido, muita gente odiou. mas como disse certa vez o meu finado professor sérgio de moraes pitombo, um homem que não tem inimigos é um homem que nunca tomou posições.

não vou me estender mais sobre o assunto. deixo que outras pessoas falem. colo abaixo um artigo do gilberto dimenstein, com dados do paulo saldiva. o outro artigo é uma breve entrevista com o roberto da matta. juntem as coisas. juntem os dados: a poluição filha-da-puta dos carros e a filha-da-putice que é usar um carro pra se sentir superior aos outros.

como esse é um comportamento socialmente disseminado, deixemos a análise barata da psicologia particular, individual, e pensemos do ponto de vista social, como bem levantou a lebre meu amigo isaac a. kojima. rareiam os estudos sobre psicopatia a nível social. no frigir dos ovos, eu continuo usando bicicleta, mesmo nos dias de chuva. em tempo, como andam sujas nossas ruas! hoje consertei um furo de pneu na faculdade (troquei a câmara), mas impressionei-me com o pó preto nas rodas. como diz o márcio campos (um dos meus gurus), é cocô de carro. na roda não faz mal, mas nos pulmões….

FOLHA DE S.PAULO
10/03/2008

Como morrer mais cedo em São Paulo

Por dia, a poluição mata prematuramente 12 pessoas e produz 200 vítimas de pneumonia e outras doenças

CHEFE DO LABORATÓRIO DE POLUIÇÃO DA USP , integrante do comitê científico da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard e professor titular de patologia, Paulo Saldiva chegou ao topo de sua carreira, mas sente-se um médico frustrado: “Faço diagnósticos, mas não consigo curar”, lamenta.
Ele e seu grupo de 30 pesquisadores da USP diagnosticam que, por dia, na cidade de São Paulo, a poluição mata prematuramente 12 pessoas e produz 200 vítimas de pneumonia, infarto do miocárdio, asma, otite, entre outras doenças. É o suficiente para reduzir em um ano a expectativa de vida do paulistano.

As invisíveis partículas que saem dos escapamentos dos automóveis mataram, em 2007, o dobro- isso mesmo, caro leitor, o dobro -do que os assassinatos. Se imaginarmos um estádio superlotado do Morumbi, teremos uma idéia do que representam anualmente as 200 pessoas que todos os dias adoecem por causa da poluição.

A frustração de Saldiva é que, apesar de seu diagnóstico baseado em pesquisas científicas, a poluição aumenta e mata cada vez mais gente, mas não gera tanta mobilização como a violência, a maior preocupação dos paulistanos.

As duas últimas semanas serviram para aumentar a frustração de Saldiva –um médico que, para dar o exemplo, se locomove pela cidade montado em uma bicicleta.
De 2006 a 2007, como noticiou a Folha, aumentou em 54% o número de vezes em que a qualidade do ar estava imprópria. Nesse mesmo período, a taxa de homicídios na cidade de São Paulo caiu 22%. Desde 1990, a redução foi de 73%.

Nas duas últimas semanas, foram noticiados recordes de congestionamento, inclusive em períodos razoavelmente sossegados para os padrões locais. “Não vemos os políticos dispostos a enfrentar os donos de automóveis”, critica o médico. Politicamente, isso é explicável.

Convivem na cidade 11 milhões de habitantes e 6 milhões de automóveis, 800 dos quais licenciados a cada 24 horas. Não é necessário ser um matemático para ver que a imensa maioria dos eleitores está motorizada.

São agradados, no geral, com pontes, viadutos, alargamento de ruas e avenidas, levados à ilusão de que a circulação vai melhorar. As obras rendem votos (e, quem sabe, ajuda em caixa de campanha), mas não soluções. Tanto não rendem soluções que já existem cálculos sobre o dia e a hora em que a cidade vai, literalmente, parar.
Existe luz no fim do túnel? Existe. Mas ainda está muito difícil enxergá-la justamente por causa do excesso de fumaça.

Os crescentes incômodos com o trânsito e com a ecologia, traduzidos nas horas paradas e nas mortes e doenças, abrem espaço para que, nesta eleição municipal, se discuta até que ponto vale a pena apoiar medidas impopulares e, ao mesmo tempo, gestões urbanas mais sofisticadas.

Sofisticadas significa integrar diferentes níveis de governo no financiamento de transportes públicos. Apenas agora, depois de quase três décadas, a prefeitura deu dinheiro para a expansão do metrô, que não recebe um centavo (exatamente isso, centavo), de Brasília -um desdém indesculpável diante de uma região com tanta importância nacional.

Assim como são sofisticados os planos de integração dos vários sistemas de transportes, formando uma malha eficiente, acoplados a projetos destinados a aproximar moradia ao trabalho. Um dos planos mais ousados é a recuperação da orla ferroviária, antiga área de fábricas e hoje subutilizada, em pólo dinâmico, tirando-se proveito da existência de centenas de quilômetros de trilhos.

Medidas dessa complexidade exigem uma política diferenciada para as regiões metropolitanas, a começar da aliança de vários prefeitos vizinhos, em parceria com o governador e o presidente.

Mesmo que saiam do papel, esses planos não bastam. Os mais experientes especialistas de trânsito asseguram que serão exigidas medidas antipáticas. Uma delas é limitar as entregas de carga a determinados horários, o que desagrada aos comerciantes. Outra, ainda mais impopular, é fazer pedágio urbano para tirar os carros das ruas e, ao mesmo tempo, financiar o transporte público.

Vai dar muita briga, mas, depois, todos vão aceitar. Ninguém quer mais tirar o rodízio nem se pede mais o fim dos talões de zona azul, duas medidas que provocaram incômodos quando lançadas. O que não sabemos é se, desse pleito, vai sair um plano capaz de colocar seu projeto político individual abaixo dos interesses coletivos e topar uma briga que pode-se perder no presente, mas se ganha no futuro.
O prefeito de Londres impôs o pedágio, apanhou de todos os lados, mas venceu e hoje é reverenciado pelos londrinos e aplaudido mundialmente pela sua coragem.

O que está em discussão não é o trânsito, mas a construção de uma sociedade civilizada. Provavelmente, vai aparecer a luz no fim do túnel quando os eleitores ficarem tão irritados com as mortes provocadas pela poluição como os assassinatos cometidos por marginais.

Não fosse a pressão, São Paulo não teria reduzido em 73% o número de assassinatos.
Coluna originalmente publicada na Folha de S.Paulo, editoria Cotidiano.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd100308.htm

 

usar etanol não adianta...

Da Matta: atropelador foi cavalo usando cavalos de potência

HERMANO FREITAS

O automóvel é considerado pelo cidadão brasileiro uma couraça de proteção contra os semelhantes. Neste contexto, em que a máquina é um instrumento de realização pessoal que distingue quem tem e quem não tem, o pedestre e o ciclista que atravessa vias públicas é visto pelo motorista como um ser inferior, sem os mesmos direitos que o motorista e que, portanto, pode e até deve ser desrespeitado – e até ter o espaço que ocupa (indevidamente, para o motorista) invadido.

Esta é a análise que um dos mais importantes antropólogos do País faz sobre o atropelamento de mais de dez ciclistas – deixando oito em estado grave – na última sexta-feira em Porto Alegre pelo funcionário do Banco Central Ricardo Neis.

Professor de antropologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e consultor de trânsito, com participação em pesquisas do setor e publicação de clássicos como “Carnavais, Malandros e Herói”, Roberto Da Matta publicou o livro “Fé em Deus e pé na tábua – Ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil”, no qual analisa o fenômeno da brutalização humana potencializada pelo automóvel no País.

“Atravessar a faixa de segurança, no sinal vermelho, se torna um insulto para o motorista.” Confira os principais trechos da entrevista:

Terra – No caso específico do atropelamento dos ciclistas, o que o senhor acha que ocorreu?

Roberto da Matta – Aquilo foi um sujeito, que é um cavalo, soltando os cem cavalos (a potência de um Golf é de 99 cv) que tinha em cima da multidão de ciclistas. Ele próprio declarou que estava irritado com a calma deles (os ciclistas). Deve ter passado pela cabeça do motorista algo como “estes caras, em bicicletas, eles só podem estar de brincadeira comigo, me atrasando, eu que tenho um carro e meus compromissos”. E aí tocou por cima, com a proteção que o carro lhe dá.

T- Por que as pessoas se tornam mais agressivas no trânsito do Brasil?

Da Matta– É uma coisa antiga, da sociologia do automóvel, uma teoria da brutalidade no trânsito. O trânsito virou no Brasil um cenário de grande violência, em grande parte por conta da popularização do carro, que muito tempo foi visto como um bem móvel de cunho aristocrático. Você tem um automóvel, que é uma realização do sonho burguês, e mesmo que não seja burguês sente-se realizado. E sente-se também protegido do outro, do pedestre, que é alguém inferior, sem a mesma proteção, sem a separação do resto do mundo que você, que está dentro do seu automóvel.

T- Qual a origem de encarar o pedestre e o ciclista não como um igual, mas como um ser inferior?

Da Matta – Trata-se de uma contradição cultural. O trânsito é um meio em que todos são iguais e devem respeitar as mesmas regras, mas ao mesmo tempo você quer se sentir diferente, personaliza seu carro, coloca adesivo de “a inveja é uma m…” e aí precisa ser igual ao outro. Quer dizer, precisa ser igualitário em um ambiente que não é igualitário. O brasileiro tem um desconforto natural, próprio da cultura, com a igualdade. Ele se sente melhor com a desigualdade, mesmo que seja ele o inferior, porque aí sabe como agir com quem é superior.

T- E a agressão, como surge o momento em que o motorista agride o outro?

Da Matta -Aquilo que é um direito do pedestre, de atravessar a faixa de segurança, se torna um insulto. Ele, o motorista, pensa “ele só pode estar me sacaneando, atravessando a faixa no sinal vermelho”. E toca por cima. Tem também a nossa origem cultural, a herança portuguesa da aristocracia, de se achar superior ao outro, com o carro servindo para este diferencial.

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4968663-EI306,00-Da+Matta+atropelador+foi+cavalo+usando+cavalos+de+potencia.html

bom, se vc leu esses dois textos, conseguiu fazer a ligação: o mané, usa carro pra se sentir superior aos outros. e vai matando outras pessoas só pra satisfazer suas pseudo-necessidades. mundo difícil, né? como disse o da matta, brasileiro tem uma dificuldade danada com o igual. bicicleta iguala: não adianta ter grana, diferencial mesmo é perna…

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3 Respostas para “é disso que eu falo – ou vamos tirar a cabeça do buraco!

  1. Esses dias ouvi de um colega de trabalho: a Suécia é um país muito legal, o único problema lá é que tem muita igualdade…

  2. Odir,
    É preciso tomar posições nesta guerra. No entando, carecemos do entendimento do “inimigo”. Quem anda de carro não quer ouvir quem pedala e quem pedala não quer ouvir quem anda de carro.
    É preciso pensar na igualdade, no compartilhamento da via, na igualdade material incondicional e perene…
    Certa vez um prof. falou sobre a dificuldade em ter visões macro dos problemas. Amadureci muito nesse dia. É mais fácil buscar o problema em coisas pequenas e individualizadas. E semáforo que não anda, a via que poderia ter mais uma faixa, o limite de velocidade…só vemos o que está na frente dos nossos olhos, as vezes nem isso.
    Ótimo texto.

  3. pois é guilherme. essa é uma das situações em que o macro e o micro não se diferenciam. manés de carro, carrólatras, são o público, a paltéia, pra quem os administradores das cidades jogam. fazendo um paralelo com o holocausto: o holocausto foi possível graças a um anti-semitismo disseminado não apenas entre a população alemã, mas francesa, italiana e sobretudo no leste europeu.

    existe o campo do estrutural e existe o campo das pequenas liberdades dentro da estrutura. há um campo de escolhas, muito condicionadas e limitadas, mas há. e o comodismo e a indiferença pelo outro. todos nós que andamos de bike conseguimos exercer a duas penas uma escolha que não seja a da mainstream. mas quem anda de carro já está sendo ouvido há décadas. nós, os outros, que pedalamos, pegamos ônibus, metrô, trem, é que não somos ouvidos. nos somos os outros.

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