a experiência e a urgência das ruas

retomar as ruas dos carros é preciso.

carros destruíram nossas cidades. o exemplo é são paulo, onde uma obra de bajulação à carrocracia, a ampliação da marginal do tietê, apenas piorou o problema das enchentes.

arte: andy singer

o fato é que as diversas manifestações de hoje, em buenos aires (meu deus, que crônica linda! “El miedo es un dolor individual; pero la victoria está en lo colectivo.”), santiago do chile, porto alegre, maceió, a de ontem, em são paulo (da qual tomei parte) e as que se seguirão, todas batem na mesma tecla: há violência, o cidadão não-quadrúpede, ou seja, que  não anda de 4 rodas, anda exprimido, excluído.

urge uma mudança na forma como conhecemos o espaço público, é preciso abandonar a visão tradicional do espaço de predação, onde cada um arranca o que puder, para a construção de um espaço de convivência. mas isso contrariará interesses poderosos.

pensemos, quantos milhões rodam nas rodas da indústria automobilística? basta olhar o intervalo dos programas televisivos com inúmeras peças publicitárias sobre venda de carros…. associa-se o carro à liberdade, à maturidade, ou a qq outro valor sem limites muito precisos. e claro, apra caberem tantos carros é preciso de mais ruas, mais asfalto, moradias mais longe, de preferência excluíndo os não motorizados.

mas nós temos leis! o que urge é o cumprimento delas. o artigo 201 do CTB, que é claro ao estabelecer que o carro deve passar a 1,5 metros de distância do ciclista, deve diminuir a velocidade. e em são paulo, temos leis que determinam a implementação de um plano cicloviário, e também que locais de grande acesso público tenham bicicletários e para-ciclos.

o que urge é aquilo que a experiência diz que deva acontecer: cumpram-se as leis existentes. não são precisas ciclovias mirabolantes, pois é impossível que cada rua tenha uma ciclovia. afinal, se lugar de bicicleta é só na ciclovia, como chegar da minha casa a ela?

o que é preciso é muito pouco. como lembrou o aragonez, custa pouco pra prefeitura de são paulo fazer um viaduto, mas parece que custa tanto pintar uma simples ciclofaixa…. há dinheiro para campanhas publicitárias sobre obras para carros, mas não há um tostão para um simples cartaz pedindo respeito a pedestres e ciclistas. aliás, desde que o grupo pró-ciclista foi transferido da secretaria do verde e meio ambiente, para a secretaria de transportes, nenhuma, repito, nenhuma reunião foi feita.

ou seja, a prefeitura de são paulo não faz porra nenhuma, pra usar a expressão certa. não fiscaliza o cumprimento de leis, não multa estabelecimento que não coloca para-ciclo, não institui um plano cicloviário efetivo, não faz ciclovia (as que existem ao largo do metrô e da linha de trem da CPTM foram feitas por metro-sp e CPTM, não pela prefeitura) e se há ciclofaixa ela é de lazer e bancada pela iniciativa privada. e a prefeitura?

sejamos sinceros, a prefeitura não faz porra nenhuma.

poderia fazer muito, e há o que se fazer, como mostra o lúcio gregori, no vídeo abaixo, explicando o que é tarifa zero no transporte público. poderíamos ter isso também. mas não, por conta de fantasiosos paradigmas continua-se a acreditar que mobilidade é uma questão de haver avenidas mais largas para carros. a coisa vai mal….

abaixo, colo o manifesto dos invisíveis. atualizadíssimo, embora já possa contar sua história em mais de ano. assinaturas atualizadas até 28/02/2011. disponível no site da bicicletada-sp. não sabe pq somos invisíveis? o poder público não nos vê. e muitos motoristas também, aceleram como se não estivéssemos ali…. não foi isso que aconteceu em porto alegre?

Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizam a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, um grande exemplo de soluções criativas: Bogotá.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. Às leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa. “Só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana, do que acreditar que a solução dos nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também.

Nós, ciclistas, que também somos o trânsito:

Adriana de Oliveira Branco
Afonso Savaglia
Alberto Pellegrini
Alex Gomes
Alexandre Afonso
Alexandre Borba
Alexandre Catão
Alexandre Loschiavo
Alexandre Palmieri
Aline Cavalcante
Alonzo “Chascon” Zarzosa
Álvaro Diogo
Ana Paula Cross Neumann
Andre Galhardo
André Mezabarba
André Pasqualini
André Vinicius Mulho da Costa
Antonio Lacerda Miotto
Arlindo Saraiva Pereira Junior
Aylons Hazzud
Ayrton Sena Santos do Nascimento
Beto Marcicano
Bruno Canesi Morino
Bruno Cézar Grego
Bruno de Crudis Rodrigues
Bruno Giorgi Crisóstomo Ianoni
Bruno Gola
Bruno Rodrigues
Caio Yamazaki Saravalle
Carlos Cabral
Cármen Sampaio Amendola
Carolina Spillari
Célia Choairy de Moraes
Chantal Bispo
Chico Macena
Daniel Ingo Haase
Daniel Albuquerque
Daniel Guth
Daniel das Neves Magalhães
Daniel Moura
Daniel Ranieri Costa
Daniela Pastana Cuevas
Danilo Martinho May
Drielle Caroline Alarcon
Edson Ishida
Eduardo Girão
Eduardo Lopes Merege
Eduardo Marques Grigoletto
Eric Machado Coelho
Evelyn Araripe
Fabiano Faga Pacheco
Fabricio Mouret
Fabrício Zuccherato
Flávio “Xavero” Coelho
Felipe Aragonez
Felipe Antônio Paulon Fontes
Felipe Martins Pereira Ribeiro
Felippe
Fernando Guimarães Norte
Filipe Franco de Souza
Francisco Pellegrini
Frank Barroso
Gabriel Silveira de Andrade Antunes
Gerhard Grube
Guilherme Henrique Maruyama da Costa
Gustavo Bianchini
Gustavo Fonseca Meyer
Hélio Wicher Neto
Henrique Boney
Henrique Mogadouro da Cunha
Hilton Luis Moreira Bulhões
Ian Thomaz
Isaac Akira Kojima
Jeanne Freitas Gibson
João Guilherme Lacerda
Joao Paulo Pedrosa
Joel Pinheiro
José Alberto F. Monteiro
José Paulo Guedes Pinto
Juliana Mateus
Juliana da Silva Diehl
Júlio Boaro
Jupercio Juliano de Almeida Garcia
Kelaine Azevedo
Keline Cajueiro Campos Barreto
Laércio Luiz Muniz
Larissa Xavier Neves da Silva
Lauro Martins de Oliveira
Leandro Cascino Repolho
Leandro Coletto Biazon
Leandro Kruszielski
Leandro Valverdes
Leonardo Américo Cuevas Neira
Lewis Clementino da Silva
Lincoln Eduardo Paiva
Luciano César Marinho
Luciano Ogura Buralli
Lucien Constantino (Lilx)
Luis Sorrilha
Luiz Humberto Sanches Farias
Maíra Rosauro Zasso
Manuela Ortiz
Marcel Manzano Lima
Marcelo Bunscheit
Marcelo de Almeida Siqueira
Marcelo Império Grillo (MIG)
Márcia Regina de Andrade Prado
Márcio Campos
Marcos Miranda Toledo
Mariana Cavalcante
Mariana Zdravca
Mariane Palhares
Mário Canna Pires
Marla Estima Vargas Ranieri Costa
Matias Mignon Mickenhagen
Mathias Fingermann
Maurício Rodrigues de Souza
Mauro Baraldi
Michelle Bertolazi Gimenes
Mila Molina
Neide Gaspar
Odir Züge Jr.
Otávio Remedio
Paula Cinquetti
Paulo V. Delgado
Pedro Gontijo Menezes
Polly Rosa
Poti Campos
Rafael Dias Menezes
Rafael Ehlert
Rafael Rodolfo Chacon
Rafael Soriano Martins
Renata Falzoni
Renato Kairalla Costa (Tinho)
Renato Panzoldo
Ricardo Lacerda Bruns
Ricardo Nunes
Ricardo Shiota Yasuda
Ricardo Sobral
Roberto Piani
Rodrigo Arnoud
Rodrigo Mendonça
Rodrigo Navarro
Rodrigo Sampaio Primo
Rodrigo Squizato
Ronaldo Toshio
Santiago de Moura Luz
Silvia Düssel Schiros
Silvio Duarte Moris
Silvio Tambara
Soraia Lopes de Miranda Silva
Talita Oliveira Noguchi
Thatiane Hijano Costa
Thiago Benicchio
Vado Gonçalves
Valdinei Calvento
Verônica Mambrini
Victor Kazuo Teramoto
Victor Y. G. Takayama
Vinicius de Araujo Sant’ Ana
Vinicius Zanona
Vitor Leal Pinheiro
Wadilson
Walter Feldman
Willian Cruz
Yorik von Havre

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6 Respostas para “a experiência e a urgência das ruas

  1. Ogum, ontem em BH também teve manifestação, no passeio semanal que o grupo MountainbikeBH chama de RUTs – Rolé Urbano das Terças. Saiu na imprensa local, em matéria de capa, em:

    e:

    http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=164841,OTE&IdCanal=7

    Também saiu em outros veículos, mas só achei esse na net.

  2. só um adendo (pode apagar esse comentário), foram 70 ciclistas (15 deles, raparigas).

  3. Odir, sei que o arquivo é editável. Mas seria justo assinar se não ajudei a escrever? Gostaria, mas estou em um conflito “ético” de “apropriação”.

    • matheus, não, não é apropriação.
      manifestos às vezes são redigidos por uma única pessoa. as pessoas que assinam embaixo apóiam as idéias. daí a expressão “assinar embaixo”. endossar.

  4. Odir,

    O manifesto, foi redacionado ( ou seria redigido) por múltiplas mãos. Confira na lista da bicicletada ( 2008) nos dias que antecederam sua publicização.

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