o diferencial moral

escrevo ainda sob o impacto do atropelamento proposital de ciclistas em porto alegre, mas as ideias aqui expressas estão sendo desenvolvidas há tempos. “as ideias têm consequências”, disse certa vez john stuart mill. eu entendo essa frase. tenho ciência do seu significado.

bato na seguinte tecla: bicicletas não matam, carros sim. ciclistas não matam, motoristas sim.

crédito: tiago costa nepomuceno

bicicletas não possuem massa física para matar pessoas por impacto, nem poluem. nunca ouvimos falar que alguém ensandecido tenha feito um atentado jogando sua bicicleta contra uma multidão.

e bicicletas não poluem o ar ao serem utilizadas. não soltam fumaça, não exalam monóxido ou dióxido de carbono. não são responsáveis pelo aquecimento global, por exemplo.

mas carros sim.

há um dado que nos é fornecido pelo professor paulo saldiva de que a poluição em são paulo mata cerca de 4.000 pessoas ao ano (o que configura um genocídio) e gera custos somando-se internações, mortalidade e redução da expectativa de vida, em torno de US$ 1,5 bilhão de dólares.

você acha pouco? acrescente a isso os custos das mortes e tratamentos de acidentados no trânsito. é, o valor acima, os números do parágrafo anterior não levam em conta atropelados, por exemplo.

pois bem, hoje em dia cada vez mais pessoas infelizmente têm percepção do sofrimento que a poluição produz. mas dou um exemplo, em cima dos problemas respiratórios que atingem as crianças.

quem já viu uma criança num ataque de asma bronquítica entenderá o que falo. vemos uma criança fazendo uma força descomunal para respirar. ela arfa fortemente e nos dá uma agonia danada pois parece que não há ar no entorno dela, parece que vai morrer sufocada. e sim, há casos em que isso acontece.

agora estenda o impacto disso aos pais. aos irmãos. pense na criança de 4 ou 5 anos que acorda e se vê sozinha dentro de casa pois os pais no meio da noite correram para ir a um hospital levar a irmãzinha  que está em coma. acha essa cena dramática e fictícia? não, não é. acontece diversas vezes, diariamente. economias familiares são corroídas por tratamentos médicos que são um enxugar gelo sem fim: a verdadeira causa dos problemas de saúde permanece no ar….

pense no impacto da futura geração: mulheres que deixam de trabalhar fora para cuidar de seus filhos com problemas respiratórios. com impacto na renda familiar e na qualidade da escolaridade de seus filhos, o que impactará a carreira profissional futura destas crianças.

agora ampliemos a visão sobre a extensão dos danos. pensemos nas guerras nos países produtores de petróleo e também no trabalho escravo  e penoso dos cortadores de cana no brasil. pensemos nos impactos sociais disto tudo. eles são mundiais. podemos supor que o radicalismo islâmico não teria campo fértil para crescimento senão entre os pobres e desescolarizados que vivem sob ditaduras brutais mantidas durante décadas pelo maior consumidor de petróleo do mundo, os e.u.a.

claro, o motorista poderá dizer: eu não sou responsável por tudo isso, eu dirijo apenas um carro. mas quando alguém morre em razão de milhares de picadas de abelhas, acaso cada uma das abelhas que o picou não é responsável também pela sua morte? quando alguém morre em razão da infecção por AIDS, acaso cada um dos milhões de vírus em seu sistema circulatório não é parte da causa de seu falecimento?

a indiferença em relação à vida alheia é característica da psicopatia. temos um zilhão de psicopatas enrustidos. não matam pois não querem ser recriminados depois pelos demais. mas ausente qualquer tipo de punição social ou jurídica, eles matariam.

pois é, motoristas fazem isso cotidianamente. espalham a morte, conscientemente ou não, mas sempre indiferentes e usando sempre a desculpa de que “precisam”  andar de carro. salvo pessoas com efetivos problemas de locomoção, isso é a mais deslavada mentira. é só ohar no trânsito quantos carros estão com apenas uma pessoa dentro, e saudável o suficiente para andar.

e nessa indiferença à mortandade espalhada pelo mundo que reside o diferencial moral entre o motorista e o ciclista.

não é um diferencial ético, mas moral. pois faz referência algo interno à pessoa, à sua consciência, e não ao que é exigível por outrem.

não há leis que proíbam às pessoas usar carros. então não é uma questão legal. até por que às vezes quem mata o faz dentro das leis, cumprindo-as.

talvez o leitor deste texto nunca tenha ouvido falar em albert pierrepoint. esse senhor simpático e sorridente enforcou 433 homens e 17 mulheres. era o enforcador oficial do reino unido, à época em que essa pena era aplicada. enforcou um amigo condenado, cumprimentando-o sorridente enquanto ajeitava a corda em seu pescoço, e também um inocente postumamente perdoado pelos crimes pelos quais fora condenado, pois descobriu-se que eram de autoria de um vizinho psicopata em cujo quintal foram encontrados diversos corpos.

albert pierrepoint talvez seja o caso de um psicopata agindo a soldo do estado. elevou a técnica do enforcamento à perfeição: calculava o tamanho da corda de acordo com o peso da vítima, tanto para que ela morresse logo mas sem arrancar a cabeça do corpo. lavava ele mesmo o corpo dos executados. sua história está relatada num filme estupendo: o lavador de almas.

pois bem, qualquer pessoa com um mínimo de consciência horroriza-se com isso. mas albert pierrepoint nunca agiu fora da lei.

a questão, repito, não é legal. não se cinge ao direito. é moral. motoristas matam, atropelando intencionalmente ou não, ou simplesmente ligando seus carros. são indiferentes à vida alheia.

ciclistas não matam. motoristas sim.

repito, a questão é moral, é ser ou não um assassino, de fato ou em potencial, tendo tido a oportunidade de sujar as suas mãos com sangue ou ainda não.

é interessante que essa distinção é feita nos mais diversos locais. o quinto mandamento é: “não matarás”. nas cadeias existe uma clara divisão entre os homicidas e os demais criminosos. eventualmente alguém que tenha cometido homicídio precisa ser separado dos demais presos. aquele que mata sem intenção costuma carregar durante o resto de sua vida traumas insuperáveis. mas, e o indiferente?

a pergunta que faço é, diante de todos os fatos narrados acima, diante de todo o conhecimento disseminado sobre o assunto, não mais contestado por ninguém (quem ousa falar que carros não poluem, e que a poluição é responsável pelas alterações climáticas que entre outras coisas causaram as tragédias recentes do rio de janeiro?), de que lado vc está? em que lado do diferencial moral vc se coloca?

há uma linha divisória e ela é clara. a sua pressa, os seus interesses mesquinhos valem mais do que uma ou mais vidas? valem mais do que o sofrimento dos outros? afinal, a bala perdida também mata. e como diz a música, também morre quem atira.

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o horror do holocausto começou na indiferença do povo alemão na década de 30 com as primeiras violências a cidadãos alemães de etnia judaica. alguns ainda aplaudiam. nós sabemos como terminou isso.

hannah arendt, ao cobrir o julgamento em jerusalém do carrasco nazista adolf eichmann em 1963 cunhou o conceito de “banalidade do mal”.

a carrocracia tem há décadas mostrado o que há de pior na alma humana. já na década de 50 do século XX se conhecia muito bem o poder transformador para pior que o carro possui, tanto que há até um desenho animado tratando disso: motormania. ora, se chegou à produção da disney, como dizer que era desconhecido?

roberto da matta recentemente publicou um livro soberbo, “fé em deus e pé na tábua”, onde demonstra a relação entre esse nosso egoísmo carrólatra e a herança perversa do escravagismo.

quando dos debates em torno da abolição da escravatura haviam os cínicos que diziam que não se podia abolí-la pois isso desorganizaria a economia brasileira. usavam argumentos econômicos para justificar uma das mais horrendas práticas.

hoje nossas cidades se tornaram cancerosas. o câncer caracteriza-se pelo crescimento anormal de um grupo de células que passam a drenar as forças do adoentado a ponto de matá-lo. uma das formas possíveis de diagnosticar um câncer é perceber o aumento exagerado de vasos sangüíneos numa região do corpo, pois o tumor pede alimentação sangüínea.

a carrocracia impermeabilizou nossas cidades. as margens dos rios foram asfaltadas. rios foram tampados para dar lugar a largas avenidas. gastam-se milhões e bilhões para construir novas vias mas não há dinheiro para apenas pintar faixas coloridas no chão reservando um pequeno espaço para bicicletas.

dinheiro que hoje é aplicado no trânsito e que poderia estar sendo aplicado na educação, na saúde, em moradias, na melhora da qualidade de vida geral.

qualquer semelhança entre a carrocracia e um câncer maligno não é mera coincidência. o mal banalizou-se, alimentado pelo egoísmo, pela indiferença, pela vaidade desmedida.

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retomo a pergunta: de que lado você está?

decida-se.

e lembre que por você usar seu carro em algum lugar numa manhã fria em dias de inversão térmica alguma criança acordará sozinha dentro de casa, sentindo-se abandonada, pois os pais correram com o irmãozinho que está em coma numa UTI infantil por problemas respiratórios. se acha o exemplo exagerado, entre em contato comigo que osso lhe passar nomes, datas e contatos que lhe descreverão isto.

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de que lado você está?

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20 Respostas para “o diferencial moral

  1. MAIS UMA VEZ TEXTO REDIGIDO COM MAESTRIA! PENA QUE A INSPIRAÇÃO É TÃO TRÁGICA, MAS O TEXTO É FANTÁSTICO!

  2. “bicicletas não matam, carros sim. ciclistas não matam, motoristas sim.”

    Acho que não é bem assim. Você generaliza como se em todas as mortes de ciclistas o culpado fosse o motorista.

    Você sabe que não é bem assim… Aqui em Brasília por exemplo, o que tem de ciclista andando na contramão, no “corredor” como se fosse uma moto, no meio da faixa de trânsito como se fosse um carro não está no gibi.

    Querer cruxificar o automóvel e os motoristas por conta de um idiota desses é demais para mim.

    • filipe, não se trata de crucificar pessoas. carros matam: poluem, pessoas morrem pela poluição dos carros. bicicletas não poluem. esse é o diferencial. releia o texto, é nessa tecla que bato.

    • Se vc acha que crucificar o automóvel e os motoristas por conta de um idióta apenas, me diga uma coisa. O que vc acha do “desarmamento”. Acidentes por arma de fogo causam um número consideravelmente inferior do número gerado por acidentes de caro”. No entanto não se vê ninguém querendo proibir o uso dos carros.

      • pois é, eu sou coerente: votei “sim” ao desarmamento. não acredito em posse responsável de armas pois é fato que cerca de 94% dos homicídios no brasil são causados por pessoas sem antecedentes criminais. portanto, o problema está em grande parte na disponibilidade de armas: o “cidadão de bem” de cabeça quente ou bêbado dá um tiro na esposa ou no vizinho.
        o mesmo em relação a carros: carros não matam apenas atropelando. carros poluem. e muito. sou de uma família marcada por problemas respiratórios decorrentes única e exclusivamente em razão da poluição. moro em são paulo. no inverno, a soma de ar seco + poluição já me fez ir a hospitais. mas se eu morasse em israel ou na arábia saudita, ou em algumas regiões mais secas do líbano, ou em boa parte da síria, com ar mais seco ainda, eu não passaria mal. o problema não é o ar seco: nesses locais não há a quantidade de carros que há em são paulo.
        e há uma diferença entre o número de mortos por armas de fogo e os mortos por carros. vc está levando em conta apenas os acidentes. leve em conta os problemas de saúde da poluição e a conta mais do que triplica. a arma mata quando atira. o carro começa a matar no momento em que é ligado na garagem. aliás, é fácil se matar comum carro sem sair da garagem: é só ligá-lo e ficar lá parado. vc morre por intoxicação por monóxido e dióxido de carbono.

  3. O animal que fez isso merece ser punido severamente, o que fez é imperdoável e inexplicavel. Esse “ser” que atropelou os ciclistas é qualquer coisa menos um motorista. Pessoas morrem dirigindo carros, motos, bicicletas e ate tomando banho. Acho louvavel trocar o carro por bicicleta, mas acho perigoso o radicalismo de quem dirigi carro é o diabo. No final do texto voce diz: ” de que lado voce está?” òbvio que qualquer pessoa normal nao vai avalizar o que esse animal fez. Mas ja que voce citou o holocausto, o radicalismo foi o fertilizante para levar um animal como o hitlter ao poder.
    Existe um proverbio chines que diz algo assim: Existem 3 verdades, a minha, a sua, e o que realmente aconteceu .

    • por favor, releia o texto. eu trato da poluição. não é opinião minha, sua ou de qume estava lá: poluição de carrosmatam 4.000 pessoas ao ano em são paulo. são dados objetivos levantados peloprofessor paulo saldiva, professor da USP e consultor da ONU, um dos maiores especialista no assunto. é fato, eu não poluo. vc polui? então estamos em lados diferentes.

  4. O texto é brilhante, mas não tenho fé que mude as pessoas.

    Acho que os ciclistas tem que influenciar as pessoas que gostam de bicicletas a usar Mais a bicicleta.

    Os motoristas barrigudos, preguiçosos e exibicionistas nunca usarão a bike. Continuarão comprando carros enormes pelo simples prazer em ter um carro enorme.

    Quem compra um carro, não pensa. Apenas quer um carro e fim de papo.
    Se pensassem, não teriam carro!

  5. eae galera… blz..
    fikei chocado com o q vi… naum é coisa de humano isso…!!! sempre gostei de carro… e gosto muito mais de bike (tenho 4 em casa e ando com todas)…
    o que custa um FDP desse esperar o comboio passar…!!! isso é tipico motorista que se transforma no gigante golias quando está atraz de um volante…!!! é ridiculo..!!! se ker correr vai para velopark lugar ideial para alta velocidade e não em uma via publica…!!!
    garanto q é dakeles machão no volante e corno da mulher… por isso q vive stressado…

  6. Odir, sempre adoro seus textos, mas nesse caso não gosto da polarização. Primeiro, porque ela não é exata: como diz o panfletinho de DO´s and DONT’s da Critical Mass de San Francisco: “DON´T imagine that you are morally superior just cuz you’re on a bicycle (you’ll be in a car again soon enough)”. Cada um de nós estará em um carro (táxi, carro de amigo, van de mudança…) mais rápido do que pensamos.

    Segundo, porque a questão não é apenas de escolha individual. Colocando assim, até parece que qualquer pessoa poderia simplesmente escolher andar de bici todo dia; a verdade é que, sem infra-estrutura, a maioria não fará isso. Não podemos resumir isso a uma escolha individual, sendo que a questão de políticas públicas é determinante. Copenhagen tem mais pessoas moralmente corretas que SP? Não; tem mais estrutura, teve políticas públicas no passado, criou as condições pra isso. Aqui temos pessoas que gostariam de andar, mas sentem medo, o que é legítimo. E ainda pessoas que poderiam andar, mas ainda não se conscientizaram da longa cadeia de acontecimentos que você descreve. Não faz sentido julgar os outros – os motoristas estão do nosso lado; são todos, de certa forma, vítimas de um sistema que faz parecer mais fácil andar – e ter – um carro que pegar ônibus ou pedalar. Sim, somos todos parte do sistema, mas a dimensão coletiva e de Estado é importante.

    A terceira razão pra eu discordar é de ordem prática. Simplesmente não é efetivo tentar educar pela culpa; as pessoas não mudam hábitos por culpa, elas mudam quando é conveniente, e quando acham atrativo. Fazer o pessoal se sentir culpado por andar de carro gera um backlash, uma carga de frustração e raiva que não pode ser resolvida tão facilmente. O legal é atrair para a bicicleta, demolir os argumentos contrários (morro, segurança, chuva etc), e mostrar que é bacana, apesar da falta de estrutura.

    Ufa! acho que era isso, hehe. Beijo!

    • jeanne, sinto dizer isso, mas vc está usando a mesma argumentação anti-abolicionista que havia no século XIX. enquanto não houver recusa sistemática a participar do sistema, enquanto a questão não pegar fundo na alma do sujeito, enquanto ele não se sentir mal mesmo em pegar a p. do carro pra dar uma volta num domingo, enquanto ele não sentir dor na consciência por ir de carro ao trabalho, a coisa não muda.

      pra dar um exemplo, entre os discursos anti-abolicionistas haviam os que diziam que as viúvas velhinhas morreriam de fome ao final da escravidão por ficarem seu seus escravos de ganho!

      pois bem, enquanto não houver o sentimento de culpa generalizado, enquanto não for moralmente reprovável ter um SUV gigante e preto, enquanto as pessoas que trabalham na indústria automobilística não tiverem vergonha de dizer o que fazem como hoje acontece com muita gente que trabalha na indústria dos cigarros, nós vamos ter que radicalizar.

      a culpa faz o cidadão vencer o medo. ele sente medo de andar? que se sinta mais mal ainda em pegar o carro, que isso o empurrará a andar.

      medo e insegurança são tb uma questão de comodidade. nós temos medo do incômodo. a questão agora não é atrair pra bicicleta, é fazer o motorista se sentir mal sim, ele espalha a morte cada vez que liga um carro. quer conversar com uma mãe que viu seu filho entrar em coma 2 vezes por problemas respiratórios antes dos 3 anos, eu te apresentominha mãe. quer conversar com uma criança que acordou sozinha em casa pq a família inteira tava no hospital com o outro filho, conversa comigo.
      esse é um assunto que domino muito bem, conheço na carne.

      copenhaguen hoje tem estrutura. amsterdam tb hoje tem estrutura. mas não tinham antes. nos anos 60 a coisa radicalizou-se em amsterdam, foi parar na porrada… é só olhar a história dos provos. a estrutura vem DEPOIS da pressão popular. a pressão popular vem do debate que foi provocado pelos radicais! essa é a lógica da ação. é isso que estou começando.

      são paulo não é san francisco. san fracisco não enfrenta os problemas que enfrentamos. o brasil não é os .e.u.a., as questões religiosas, éticas ou morais são diferentemente discutidas. a própria estrutura jurídico-legal-estatal diverge demais. lá eles usam a common law, aqui o direito positivo. logo, as dinâmicas sociais divergem demais, demais, demais.

      lá o ciclista pode ser instado a não se sentir superior. mas aqui ele é muito inferior, e precisa ser elevado, o ciclista, o pedestre, o usuário de transporte público. o motorista já está nas alturas e com toda uma infra-estrutura a seu favor, precisa ser rebaixado. isso para se estabelecer um equilíbrio, e aí sim nós podemos discutir no âmbito das discussões que se fazem hoje em san francisco. no dia em que tivermos a justiça de trânsito que há nos e.u.a, aí sim seus argumentos estarão certíssimos. assim como no dia em que tivermos a estrutura holandesa ou dinamarquesa, ou a conduta de motoristas como as da alemanha, aí sim.
      mas estamos na etapa anterior. muito anterior.

      em tempo: esse sistema, essa estrutura, só funciona pra 29,5% das pessoas de SP. essas podem ser inseguras… e o resto? o resto não anda de carro. precisamos sair da bolha da classe méRdia. um dia vou te apresentar meus aluninhos da zumbi. eles não podem se dar ao luxo de serem inseguros e sentirem medo ao trafegar. o medo deles é outro, é tomar tiro mesmo. foi um aluno meu da zumbi que me deu um toque na aula: o pavilhão dos assassinos é separado dos pavilhões do resto da bandidagem. e ele é taxista, hein?
      o buraco é mais embaixo.

      • Odir, não é o mesmo argumento anti-abolicionista. A questão não tem as mesmas implicações. Só pra ficar na questão da eficácia, penso nas campanhas anti-drogas, que tentam fazer a garotada se aterrorizar, dizendo que drogas vão te deixar no fundo do poço, matar, roubar a vovó… E aí o sujeito vê uma turma fumando um baseado, e os caras não são nada daquilo. Daí ele pensa que o discurso inteiro é falho, pois metade dele é falha: se as consequências não são as descritas, como pode alguma parte dele ser correta? (Falácia ad sei lá o quê…)

        E aí ocorre que a maioria das pessoas NÃO SÃO psicopatas. Elas NÃO se identificam com o motorista do Golf psicopata, e não deveriam, pois não fizeram nada parecido com AQUILO. E colocá-las no mesmo papel não aproxima, só afasta; o sujeito pensa “isso não é comigo, não sou um monstro”.

        Todos os dias, pessoas decentes e honestas tentam nos matar; é válido questionar o que tem de tão neurotizante na cultura do carro que faz que todos os Senhores Andantes virem Senhores Volantes, mas não dá pra polarizar desse jeito.

        Tem que radicalizar, mas não nessa direção. Acho que a tônica da radicalização tem que ser outra, e os alvos, outros também. O mundo hoje também não é mais como na época do Provos, e se nossa realidade é diferente da de San Francisco, também é diferente da de Amsterdã.

        As pessoas são complexas: mesmo quem pedala 90% do tempo eventualmente vai precisar do carro. Nem que seja pra levar a mulher grávida no hospital. Eu concordo contigo que é inevitável que ter carro vá ser cada vez menos motivo de status, e que será natural que as pessoas se envergonhem de dirigir; cantei essa bola há alguns anos, em dois posts curtinhos no meu (pouco atualizado) blog: http://jeannecallegari.wordpress.com/2008/07/27/o-carro-e-o-novo-cigarro/ e http://jeannecallegari.wordpress.com/2008/07/27/o-carro-e-o-novo-cigarro-p-ii/). Acho que isso irá acontecer, mas não deve ser nossa abordagem. Será natural isso. E virá não dos ativistas, mas das pessoas “normais”. Só acho que não vale a polarização, pois no fundo, o pedestre, o ciclista e o motorista são, muitas vezes, a mesma pessoa. Forçar as pessoas a decidir desse jeito é entocá-las, e forçá-las a não querer ser nem uma coisa, nem outra.

      • jeanne, retomando uma observação do nosso amigo isaac kojima: não se cinge a discussão da psicopatia enquanto fenômeno psicológico individual, mas à psicopatia social, do meio. à indiferença coletiva. peguemos o caso de adolf eichmann. o que hannah arendt enxergou nele foi o zeloso funcionário público. mas um zeloso funcionário público numa máquina estatal terrorista como o estado nazista foi um zeloso matador de judeus.
        claro, talvez eichmann fosse um bom vizinho, uma pessoa afável…. como ele, quantos na alemanha daquela época?
        agora um outro comentário. desta vez do willian: é preciso tirar a cabeça do buraco e enxergar.
        o motorista pode até não se identificar com o atropelador de porto alegre. mas por acaso, seu carro deixará de poluir? um carro a cada 400 kms rodados consome o oxigênio que uma pessoa consome em 65 anos de vida. esse é um dado objetivo, pode variar pra mais ou pra menos dependendo do modelo, mas é característica dos motores a explosão. isso é física. agora, escolher usar o veículo automotor ou não é uma escolha pessoal, moral portanto. tanto eu quanto vc sabemos a limitação que é não ter carro. mas tb é libertador em outros aspectos da vida. são escolhas.

  7. Eu poluo e vc tb, nao é so o carro que polui, é o estilo da vida moderna que vivemos. Agora o que talvez nao tenha me expressado bem é que o que realmente é perigoso no seu texto e resposta é a polarização e o tom belico que voce toma. Eu nem carro tenho, mas tenho opiniao e respeito qualquer outra que seja divergente sem que o proximo esteja “de um lado diferente”.

  8. Odir, quero ser tão prolíxo quanto você, um dia.

  9. Pingback: é disso que eu falo – ou vamos tirar a cabeça do buraco! | as bicicletas

  10. Jeanne, te parafraseando, sempre adoro suas ideias, mas nesse caso tenho a princípio algumas discordâncias. 😉

    Pelo que entendi o argumento principal do texto foi resumido pelo Odir no primeiro comentário dele: “carros matam: poluem, pessoas morrem pela poluição dos carros. bicicletas não poluem. esse é o diferencial.”

    Me parece um argumento correto, não vejo erro nele.

    Dizer que todo mundo usa carro uma hora ou outra me parece uma falácia “Tu Quoque” , ou “você também”, que ocorre quando se argumenta que uma ação é aceitável apenas porque seu oponente a fez. É uma variante da falácia Ad Hominem.

    O que as pessoas fazem ou deixam de fazer não torna aquilo que elas estão fazendo mais correto ou menos correto. A moralidade não está nas pessoas, está nas ações.

    Não dá pra dizer se Kopenhagen tem mais pessoas moralmente corretas que SP, mas dá pra dizer que em Kopenhagen as pessoas se locomovem de forma moralmente mais correta. Sim, a estrutura facilita para que elas se locomovam de uma forma moralmente mais correta.

    Entendo que o argumento do Odir diz que andar de bicicleta é moralmente superior a andar de carro, com estrutura ou sem estrutura, independente do Odir ou qualquer outra pessoa anda de carro ou não, eventualmente ou sempre. Não se está a julgar pessoas, está a se julgar ações.

    Entendo o argumento como uma regra geral. De modo geral o benefício de se andar de carro é menor que o malefício. Mas essa relação é diferente caso a caso e em alguns casos o benefício pode superar o malefício. Claro que estou falando de benefícios e malefícios para a coletividade, não para o indivíduo, que é apenas parte da coletividade.

    Pode ser que uma pessoa nunca vá andar de bicicleta enquanto não tiver uma ciclovia da porta da sua casa até a porta do seu trabalho, mesmo que esta pessoa saiba que dirigir um carro mata pessoas. Mas se ela não souber que dirigir um carro mata pessoas, pode ser que ela não ande de bicicleta mesmo quando existir a ciclovia porta a porta.

    Dizer que quem usa drogas vai matar e roubar a vovó é uma generalização, mas, nâo vejo nenhuma generalização em dizer que que carro polui e que a poluição mata.

    Também não foi dito que todo mundo que dirige um carro é um psicopata porque não foi dito que o carro só causa um mal quando dirigido por um psicopata e sim que o carro causa um mal quando dirigido por qualquer pessoa.

    Infelizmente as coisas não mudam pra melhor naturalmente sem que ninguém faça nada, as coisas mudam quando muitas pessoas pensam e compartilham o pensamento, mudam atitudes até que se atinja uma massa crítica que force uma mudança maior.

  11. Pingback: A Maçã na Cabeceira – II | O Último Baile dos Guermantes

  12. “podemos supor que o radicalismo islâmico não teria campo fértil para crescimento senão entre os pobres e desescolarizados que vivem sob ditaduras brutais mantidas durante décadas pelo maior consumidor de petróleo do mundo, os e.u.a.”

    Desonestidade intelectual.

    Pobres e desescolarizados? Bin Laden era multimilionário e estudou na Europa. Ditaduras brutais? Muçulmanos matam gente, principalmente mulheres, onde quer que seja. Veja as estatísticas de estupro na Noruega, na Dinamarca, na Suécia. Mantidas pelos EUA? E o que dizer do Irã? E o que dizer do Egito, que, enquanto estava aliado aos EUA, era uma droga, mas relativamente estável, e onde agora, com a tal “primavera árabe”, a maioria muçulmana está queimando igrejas e matando centenas de cristãos?

    • gunnar, turcos são muçulmanos. não têm esse comportamento. talvez pq na turquia os wahabitas nunca tiveram suas idéias disseminadas. a indonésia é o maior país muçulmano do mundo, tb não têm esse comportamento. escolaridade disseminada é o maior antídoto à barbária, embora não funcione o tempo todo: a alemanha era bem escolarizada em 1900. mas 33 anos depois elegeu hitler. embora talvez esse exemplo seja falho, uma vez que a geração que elegeu hitler não estudou direito, na alemanha empobrecida pelas indenizações de guerra a serem pagas depois do tratado de versailles: as escolas deixaram de funcionar. o mundo ocidental deve muito ao islã medieval: a própria noção clássica de divisão entre razão e revelação, que será a semente par a reforma protestante, só ganhou terreno na cristandade depois que um pensador muçulmano, ibn rushd – averróis entre os cristãos – foi traduzido e muito, mas muito lido pelos ocidentais. a própria noção de batismo voluntário vem do oriente, não é original da cristandade medieval, mas uma importação teológica da conversão voluntária que se lê no corão. em tempo, desonestidade intelectual é fazer uma afirmação sem fundamento, coisa que não faço nesse texto. em termos religiosos semrpe procuro ter cuidado nas afirmações, não para proteger este ou aquele escrúpulo do adepto desta ou aquela religião, mas em fundamentar toda e qq afirmação. sobre nfluência do averroísmo na cristandade, favor ler: “filosofia na idade média”, do étienne gilson. está no capítulo IX, parte V. em tempo: colocar a culpa de problemas na religião é sim desonestidade intelecutal. posso afirmar que bush é um imbecil pq é evangélico? claro que não. bush é um imbecil APESAR de ser evangélico. assim como os tumultos da primavera árabe nesses países tão diversos. ahmed ben bella, p. ex. é muçulmano, e no entanto é militante pelos direitos humanos.
      e quanto ao irã, não esqueça que: 1. é de maioria xiita. 2. é persa e não árabe. até os anos 50 era uma democracia. mas o governo democrático do mossadegh foi derrubado por ter contrariado interesses de uma petrolífera. no seu lugar foi instalada, “restaurada”, uma monarquia do século XIX que primou pela brutalidade e roubalheira. foi derrubada numa revolução de muitas vozes, mas as dos aiatolás acabou prevalecendo. mas o irã continua não sendo um bloco hegemônico. mesmo entr eos aiatolás não há consenso. a realidade é muito mais complexa do que vc quer fazer parecer.

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