o lance do doping

há algumas semanas corre no noticiário algumas informações sobre o processo que se move nos e.u.a. acerca de doping que teria usado lance armstrong em sua carreira. saiu até uma reportagem muito grande na sports ilustrated, que está neste link, com uma série de informações vazadas do processo.

como se pode ver na reportagem, a grande investigação foca no período de 1999 a 2004, justamente o período em que lance armstrong tornou-se praticamente especialista numa prova só, o tour de france, vencendo-o na classificação geral em 7 vezes.

aqui vale uma explicação acerca dos tours (giros, voltas, vueltas e etc). são provas seriais, ou seja, há uma sucessão de provas todo dia durante um certo período. cada prova tem um relevo diferente, e algumas são contra-relógio, às vezes individual, às vezes por equipe.

ora, como ciclistas possuem aptidões diversas, uns são naturalmente bons montanhistas (pequenos, extremamente magros), outros são bons sprinters (fortinhos, com muita massa muscular), e outros são bons passistas (medianos, nem magros demais nem fortes demais), é claro que na sucessão das provas nós tenhamos as aptidões diversas manifestando-se neste ou naquele momento:

– nas provas de montanha veremos os montanhistas destacando-se.

– nos contra-relógios os passistas brilharão.

– nas provas planas veremos o pelotão com as equipes tentando arrastar seus sprinters pra chegada, enquanto alguns passistas de equipes sem bons sprinters empreenderão fugas longas tentando aumentar o ritmo do pelotão pra cansar os sprinters de outras equipes fazendo-os chegarem cansados.

claro, pra apimentar ainda mais, há metas volantes que distribuem pontos no meio da corrida, algumas metas para sprinters e outras pra montanha.

temos ao final de cada prova o ganhador da etapa. temos também a atribuição de pontos de montanha e o melhor montanhista usa uma camisa sinalizando que é o melhor (no TDF, a camisa de bolas vermelhas, no giro d´italia, a camisa verde). o melhor sprinter – que venceu muitas provas e/ou colecionou pontos das metas volantes – usa também uma camisa (verde no TDF, vermelha no giro).

e aquele que está na soma geral dos tempos, de todas as provas, com o menor tempo, usa a camisa de líder geral: amarela no TDF, rosa (a lendária “maglia rosa”) no giro.

uma camisa amarela que é um outrdoor

ora, por essa sistemática vemos que há uma sucessão de corridas e ao final temos pelo menos 3 disputas: melhor na classificação geral, melhor nas montanhas, melhor nos sprints. e há também uma quarta, normalmente atribuída aos mais jovens, sobre a classificação geral para os menores de 25 anos. tanto no TDF quanto no giro o melhor entre os jovens usa uma camisa branca.

mas onde entra o doping aí? peraí, já explico.

estas competições sempre foram cercadas de cobertura da imprensa, desde o começo. o tour de france surgiu do jornal francês l´auto (em 1903), o giro da gazzetta dello sport 1909). num mundo sem internet, uma competição de vários dias garantia notícias para todos os dias durante um certo tempo. vendia jornais, aliás, muitos jornais.

tem espaço pra mais patrocínio?

quem conhece um pouco o meio jornalístico sabe que o extraordinário vende bem. é só pensar nos vírus de computador que nos chegam anunciando as fotos de não sei quem na balada e voilà! o desavisado internauta, curioso demais, clica no link e seu computador está infectado por alguma praga informática mortal. é a curiosidade que vende.

a própria sistemática das camisas foi pensada pelos jornais: a camisa amarela do TDF tem essa cor pois era a cor do papel utilizado pelo l´auto, e como a gazzetta dello sport usava papel cor de rosa, a maglia rosa tem essa cor.

compre o tênis

percebe-se, portanto, a ingerência dos patrocínios, financiadores e etc, nesses eventos, desde o seu surgimento.

sim, ciclismo é negócio! e dos grandes!

ora, imagine-se portanto a pressão sobre os competidores.

mas nisso os tours não diferem, na verdade, de grande parte do esporte profissional: patrocinador quer retorno. jornal (aqui no sentido amplo, seja impresso, TV, internet e etc), quer vender.

compre o relógio

e onde ficam os ideiais puros do esporte, da disputa justa, do “vença o melhor”? ficam de fora, claro: todo mundo tem que pagar aluguel, sustentar a família, achar seu lugar ao sol.

se não gostou do outro modelo, compre esse.

é nesse ponto que o esporte profissional vira uma soma de fatores explosivos: o apelo econômico de um lado e o perfil competitivo – muitas vezes ao extremo – de alguém que se sujeita muitas vezes a condições duríssimas de esforço físico.

compre as luvas

assim, a tentação do uso de qq coisa que antes de melhorar o desempenho, diminua as dores, já é grande. quem já fez uma pedalada mais longa e ficou com dores no corpo já recorreu  ao famosíssimo dorflex… sinto dizer, dorflex é doping… a lista de substâncias controladas é grande, veja nesse link.

agora imagine-se fazendo 200 kms por dia, às vezes com montanhas duríssimas do meio do caminho, durante 21 dias. seu corpo doerá? como será a recuperação de um dia para o outro das fibras musculares? como se chegará ao final da prova?

compre o capacete

mas esse moedor de carne gera dinheiro. pense na quantidade de publicidade que pode fazer um grande campeão. no merchandising. quanto não venderá sua biografia? seu método de treino? pensemos: há quanto tempo pelé vive da publicidade? há quanto tempo não joga futebol?

agora pensemos na alternativa: vc não tem curso superior. vc não investiu numa outra carreira profissional, não tem experiência de trabalho. vc não é articulado o  suficiente pra virar um bom comentarista, ou o esporte que vc pratica raramente tem cobertura na imprensa que exija comentaristas especializados….

vemos, portanto, que o atleta profissional sempre se encontra diante de uma fortíssima tentação.

por outro lado, nos escândalos vemos sempre, sempre, técnicos e dirigentes envolvidos. afinal, quem fornece essas substâncias para os atletas? que faz a pressão sobre resultados?  o show não pode parar. é preciso vender os jornais, é preciso ter audiência. a caravana dos patrocinadores quer atenção.

a história do doping remonta aos 1800. é anterior ao próprio ciclismo pois é anterior à bicicleta. o ser humano manipula o uso das substâncias há muito tempo, o melhor exemplo é o onipresente café: pq o tomamos? para ficarmos acordados quando o corpo não quer!

o show não pode parar. notemos que a própria discussão acerca de doping vende jornais. a mesma sport ilustrated que fez a imensa reportagem acerca do caso do lance amstrong já o premiou como atleta da década ou coisa parecida. vendeu àquela época, em cima de seu sucesso e hoje vende em cima de seu insucesso.

e no caso do lance armstrong, há um segundo fator. ele foi um dos casos de markentig pessoal no ciclismo de maior sucesso, tanto que extrapolou os limites do esporte. muita gente hoje acompanha o ciclismo pois antes conheceu lance armstrong, e não conheceu lance armstrong pq acompanha o ciclismo. a hagiografia em torno de sua pessoa foi muito bem montada. tão bem montada que é muito comum que se repita que tudo o que ele venceu foi após o episódio de seu câncer, quando na verdade ele à essa época já tinha um título mundial, já havia vencido algumas clássicas de renome. após o câncer ele apenas especializou-se no tour de france e em nada mais.

lance armstrong tem sido vendido para os leigos como o melhor ciclista de todos os tempos, embora muita gente saiba que ainda não nasceu ciclista que venha a se igualar a eddy merckx (quantas pessoas terminaram um tour de france usando a camisa amarela, a verde e a de bolas vermelhas?), cuja lista de vitórias é simplesmente impressionante, e era tão competitivo, pra não dizer fominha, que acabou gerando histórias curiosas, como essa aqui.

compre os óculos

o produto lance armstrong gerou uma esteira de fãs apaixonados que consomem seus produtos: usam a pulseira amarela que financia o tratamento de cânceres diversos nos e.u.a. (quando há diversas entidades precisando de ajuda aqui mesmo), lêem sua biografia como se tratasse de um livro de auto-ajuda – a superação de um câncer é sempre respeitável, mas transformá-la numa competição a ser vencida é um desrespeito à memória dos milhares que todo ano “perdem”  essa batalha). seus fãs compram as bikes das marcas que o patrocinam (aliás, lance armstrong já andou de caloi!), compram bonés, camisetas, óculso da oakley, vêem comerciais, e agora aferram-se a uma falaciosa teoria da conspiração para explicar essas notícias ruins sobre seu “herói”.

l.a. numa caloi

temos o péssimo costume de santificar atletas. projetamos neles as características que gostariamos de ter em nós. “ídolo” vem de “eidolon”, “espelho” em grego, o local onde se projeta nossa imagem.

talvez o único ciclista que possamos chamar de herói seja gino bartali, um ciclista excepcional cujo único grande oponente na época era fausto coppi, que o haase diz que é o pai dos hipsters.… gino bartali contribuiu para salvar mais de 800 judeus de perseguição na II guerra, coisa de que nunca se gabou e ainda hoje se descobrem mais fatos referentes a essa atuação que à época implicava em correr risco de vida.

deixemos lance armstrong em paz. sabe-se que dificilmente sairá do processo que o acusa de conspiração, fraude, lavagem de dinheiro, extorsão, tráfico de drogas e de fraudar o governo dos e.u.a. sem algum tipo de condenação, mas é preciso lembrar que ele é apenas uma peça de uma gigante máquina de moer carne que dá lucro mesmo é para pessoas que nunca andaram numa bicicleta. e mais, não sejamos ingênuos pois quem com ele competiu e por ele foi vencido também não estava limpo. a despeito do que possa resultar desse processo judicial, ele é sim um grande ciclista. não o maior de todos os tempos, mas um dos grandes com certeza.

Leia mais:

a reportagem da sports ilustrated:

http://sportsillustrated.cnn.com/vault/article/magazine/MAG1180944/index.htm#ixzz1CXU8SyK0

o que é um câncer de testículo:

http://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2ncer_de_test%C3%ADculo

uma interessantíssima reportagem sobre o efeito do doping no corpo de um jornalista:

http://outsideonline.com/outside/bodywork/200311/200311_drug_test_1.html

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5 Respostas para “o lance do doping

  1. Li que essa” Caloi” ,era uma Litespeed Blade de titanio 6/4 .
    Ele usou a mesma bike com a marca Trek ,enquanto a uma TT Trek não ficou pronta.

  2. Bom pelo pouco que já li sobre ciclismo eu consideraria o Armstrong como o quinto melhor ciclista, vindo depois de Eddy Mercky, Jacques Anquetil, Fausto Coppi e Miguel Indurain., lembrando que os critérios de analise são variáveis para cada analisador. Mas o critério que adotei seria as vitórias nas grandes “voltas ” na Europa e outras competições importantes.
    Mas sem dúvida é o maior campeão do Tour que é a mais famosa competição desse esporte.
    É difícil entender outra cultura como a americana, pois eles gostam de ser pioneiros nos seus projetos e por conseqüência ganhar dinheiro com isso, é o que parece que aconteceu na carreira de Lance.
    Escolheram a mais importante prova e resolveram vencê-la.
    Não sabemos tudo que acontece de verdade , dai começamos a supor. Por exemplo Greg Lemond foi terceiro depois segundo e ganhou três vezes o Tour . Parou por uma doença de contaminação por chumbo. Será que é verdade ou estava fugindo de um Doping ? A verdade mesmo ainda não sabemos, daí poderíamos começar uma suposição sobre esse atleta também, mas segundo o seu pensamento não venderia mais jornal pois ele já está muito tempo fora da midea ?
    Pois bem o esporte em geral deixou de ter somente o intuito de tornar grande os seus campeões mais também milionários. A Nike patrocina os famosos como o Ronaldinho, Michael Jordan e outros como o próprio Lance, não por que eles são péssimos atletas e sim por que são bons e darão bom retorno financeiro.
    Os tênis da Nike que já comprei são muito bons melhores que de outras marcas de renome que experimentei. Ai se fossem ruins não compraria só por que Ronaldinho ou o Lance usa, …. Acho que em muitos casos nos é que devemos mudar a cabeça como Brasileiro e querer fazer melhor. Não temos uma equipe Brasileira de Ciclismo no Ciclismo mundial …. A marca da bicicleta que Lance usava é um ótimo equipamento pois tenho uma com mais de 10 anos de uso na minha mão… O catalogo dessa marca tem mais de 100 opções de modelos . E no Brasil , Caloi ? Sundow ? Monark ? Houston ? Não dá pra comparar.
    Onde estão os grandes atletas Brasileiros com suas grandes organizações para o bem do próximo com divulgação e repercussão internacional ?
    Quem pedala sabe que pra ser campeão não tem milagre e sim trabalho duro.
    O capacete também é bom e não temos nenhum nacional a altura que me lembro… E assim vai , como trabalhador da indústria percebo que falta estimulo para se produzir e melhores salários para se consumir. Procuro a todo tempo dar valor ao que se produz em nosso pais mais alguns caso não temos opção, como é o caso de alguns frisando alguns materiais esportivos .
    Criticar os americanos é fácil …. Fazer o nosso pais melhor poucos fazem intencionalmente , pois cada um procura o seu beneficio próprio.
    Agora se ele cometeu algum crime pela cultura americana será punido. Se fosse no Brasil daríamos um jeitinho…

  3. Por falar em EddY :

    Declarações de Merckx para o jornal Marca:

    Merckx: “Não podemos comparar campeões do Tour de France de diferentes gerações. “Hoje o Tour é mais importante que na minha época e do Hinault. Nós corríamos as clássicas, criteriums, e no inverno corríamos os seis dias em pista. Tínhamos de estar presentes desde a Milano-San Remo até o Giro da Lombardia para ganharmos a vida e disputávamos o Giro e a Vuelta. Não sonhávamos com recordes, e se havia algum, era somente o da Hora”.
    Sandro Sirqueira

  4. Pingback: lance armstrong perde 7 títuulos do tour de france. | as bicicletas

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