bicicletada, festa ou protesto e mais além: um novo paradigma de ocupação das ruas.

era pra eu estar escrevendo sobre materiais de quadros. mas por provocação do palmas, vamos mudar um pouco o foco dos posts.

a massa. foto do palmas.

ontem, 28/01, tivemos em são paulo uma bicicletada gigantesca. gigantesca meeeesmo, com direito a helicóptero sobrevoando pra ver  o que acontecia e PMs sem saber o que fazer até que se tocaram que era melhor fazer corking pra galera. uns PMs ainda perderam tempo tentando liberar algumas faixas, mas desistiram. outros reclamaram que andamos na ciclofaixa de lazer em dia e horário não permitido, e foram ignorados.

a massa, em foto do participante adriano.

a imensa massa, a imensa multidão, acúmulo de singularidades, é um pesadelo para os teóricos e práticos da submissão, os autoritários. a bicicletada não tem líderes. seus trajetos não são previamente escolhidos, são simultâneos, quem tá na frente vai indo e o resto vai seguindo, uns fazendo corking expontaneamente, outros conversando e ajudando quem tá pedalando pelas primeiras vezes pela cidade, outros apenas conversando, rindo, divertindo-se, festejando a cidade de uma forma muito crítica ao status quo, uma festa que é subversiva sem ser criminosa: e isso é complicado demais para ser entendido por uma estrutura anacrônica que ainda é um resto da ditadura militar. temos 2 polícias – uma civil e uma militar – isso sem falarmos na guarda civil metropolitana, que anda uniformizada, bate continência e etc – e isso pq é civil…

a bicicletada é um estorvo pro partido da lei e da ordem. aqui e em qualquer lugar do mundo. enquanto ontem estávamos na bicicletada, o pai de todos, chris carlsson publicava no site da bicicletada de san francisco um daqueles seus textos fantásticos – o link está aqui. nós temos muito em comum e também muita diferença em relação às bicicletadas nos e.u.a. temos mais em comum com as bicicletadas da europa, mas mesmo assim não somos iguais. pra entender isso, precisamos descer a alguns detalhes.

– no que tange ao comportamento da massa, seres humanos são todos iguais. há os que querem extravasar  uma raiva contida contra os carros.  isso em qualquer lugar do mundo capitalista, pois o carro caro é a manifestação prepotente do poder econômico sobre os valores humanos. vale dizer, é a manifestação de que o consumidor vale mais que o cidadão. conter essa raiva é sempre um problema, e eu não sei como fazer isso. mas aqui a turma do deixa disso é sempre gigantesca então isso não me preocupa. a cultura do deixa pra lá, tão brasileira, nessa hora é até positiva.

a massa ocupa a paulista, em foto do everton.

a grande diferença, a gigantesca diferença se manifesta na manifestação dos direitos, na fundamentação política (aqui política com P maísuculo, de pólis – cidade – de percepção e  governo da pólis, o lugar de convivência, e não das disputas partidárias) do exercício do nosso direito de ocupar a cidade de outro modo.

vamos ter que descer um pouco à filosofia política, e mesmo à filosofia do direito, na sua vertente fenomenológica.

jeannette a. maman, num magistral livrinho curto mas que é extremamente profundo e se manifesta cada vez mais profundo a cada leitura que se faz (intitulado “fenomenologia existencial do direito”), nos adverte que a liberdade individual é apenas um resíduo da liberdade coletiva.

a bicicletada prova isso. nesse sentido, embora jeannette a. maman não cite bakunin (e não creio que o tenha lido, não faz parte da sua linha de pesquisa na filosofia do direito), podemos fazer uma ponte com a frase de bakunin: “a liberdade do outro estende a minha ao infinito”.

aqui, portanto, estamos falando das liberdades coletivas. e é nesse sentido que nossos problemas diferem daqueles que os americanos possuem e os europeus se nos assemelham.

a criação dos e.u.a. se dá dentro da noção de contrato social. se analisamos o processo de formação dos estados unidos, em seus pensadores como benjamin franklin, thomas jefferson, george washington e mesmo os imediatamente posteriores, como henry thoreau, perceberemos uma relação com os pensadores do contrato social europeus mais conhecidos, como john locke, thomas hobbes, jean-jacques rousseau e mesmo voltaire (baruch de spinoza não, depois explico o porquê).

a massa vai até onde a vista alcança. foto do everton.

todos esses pensadores imaginam o ser humano como anterior e externo à sociedade. claro, uns imaginam o ser humano bom na sua origem (o “bom selvagem” de rousseau), outros o imaginam mau na sua origem (“o homem é o lobo do próprio homem”, segundo hobbes, nascido crescido e morto no século das guerras civis inglesas, da ditadura anti-monárquica que oliver cromwell). mas não importa: imaginam o homem capaz de viver por si próprio e então, para explicar a sociedade precisam da figura do contrato social.

nesse sentido, o poder emana do indivíduo que o cede ao estado e pode de vez em quando retomá-lo. até hobbes admite uma possibilidade de desobediência civil – sim, está no “leviatã” e foi objeto de uma belíssima dissertação de mestrado na faculdade de direito da USP, de autoria de edgard solano. lembremos do grande herói dos modernos: robinson crusoé: sozinho na ilha constrói tudo o que precisa, e quando arranja um parceiro, este não se torna seu sócio, mas seu escravo: é o sexta-feira….

toda essa linha de pensamento coloca a questão do poder de algum modo na transcendência. o indivíduo tem o direito divino, concedido pela divindade. é nesse contexto que os e.u.a. são primeiro colonizados e depois fazem sua independência. e isso marcará a história deles: abraham lincoln, sempre lembrado como o homem que chegou a sacrificar sua vida em nome da liberdade dos escravos, moveu um aguerra civil em razão disso, não era exatamente muito amigo dos negros. não conviveu com eles em illinois e apenas a partir da lógica de que todos os homens são livres por direito divino e os negros são homens, portanto devem ser livres, é que defendeu a abolição da escravatura.

os e.u.a são filhos da reforma protestante.

na europa, o panorama era inicialmente igual mas modificou-se como tempo. a paz de westfália em 1648 funda o conceito de estado-nação e de soberania do mesmo. até então soberano era quem a igreja dizia que era (olha o poder manifestando-se de forma transcendente). a paz de westfália encerra a guerra dos trinta anos e também o conflito hispano-holandês de mais de 80 anos: holandeses lutando pela sua nação e a corôa espanhola exigindo direitos de soberania sobre o mesmo povo e possessões territoriais.

é nesse contexto que os e.u.a. são colonizados, e o brasil também. mas há uma diferença fundamental. conforme já os ensinou jacques legoff, um dos grandes historiadores da idade média, a idade média cede espaço aos modernos na europa mas se transfere para a américa latina. e é fácil entender: se não tínhamos nobres, tínhamos senhores de engenho. se não tínhamos servos, tínhamos escravos.

a escravidão, nos e.u.a., era particularidade de alguns estados. aqui, era do país inteiro.

e mais, enquanto e.u.a. promovem uma independência a partir da noção de nação (como nós temos em diversos países europeus até hoje), aqui o estado chega com cabral em 1500 e a noção de  nacionalidade começa a aportar apenas a partir da guerra do paraguai. portanto, não desenvolvemos ainda a noção do espaço público a partir do contrato social, e muito menos ainda a partir dos direitos das coletividades como os europeus desenvolveram a partir das guerras e revoluções dos séculos XVIII, XIX e XX (revolução francesa, reunificação da itália, reunificação alemã, 2 revoluções russas em 1917 – uma em fevereiro e outra em outubro -, a independência da irlanda, a reunificação alemã do pós-guerra, o desfazimento da união soviética, o demsonte e guerra na iugolsávia, entre tantos outros).

passamos ao largo dos grandes, gigantescos movimentos das massas, do absoluto universal de hegel, da revolução do proletariado mundial de marx: enquanto a europa vivia a efervescência do proletariado no século XIX nós fomos predominantemente agrários até pouco tempo.

a grande máquina disciplinar de produção capitalista descrita por foucault aqui não chegou a ser montada. enquanto o mundo desmonta progressivamente a sociedade disciplinar e a substitui pela sociedade do controle, nós estamos passando diretamente à ela. antes cometemos o pecado de tentarmos sermos neo-liberais sem termos sido liberais antes. e hoje abandonamos a noção de propriedade privada, de iniciativa privada não por concepção, mas por inviabilidade prática: qualquer idiota preso no trânsito de são paulo sabe que que não há espaço para que todos tenham carros. que há carros demais, e que o transporte individual que privilegia a bunda (o carro) em vez das pernas ataca a liberdade do outro e a minha também que fico parado sentado no meu carrinho fedorento no asfalto quente….

é na paisagem, no pano de fundo, que a bicicletada de são paulo (e por extensão a de salvador, de florianópolis, de curitiba, de brasília) vai diferir das bicicletadas de outros países. enquanto lá pode ser  a recuperação do espaço público, aqui é a construção do mesmo.

e claro, como bem nos diz heráclito, já há mais de dois milênios, o mesmo homem não cruza duas vezes o mesmo rio.

não há como nós contruirmos noções de espaço público nos mesmos termos de como se fez na américa do norte ou na europa. a própria noção de mobilidade difere: nossa herança escravagista faz com que muitos ainda tenham horror a fazer qualquer esforço físico – coisa de escravo, as mãos e pés do seu senhor – nos faz enfrentar o obstáculo, a dificuldade em mostrar que a bicicleta é sim veículo viável (coisa que a frança, p.ex., com o tour de france e paris-brest-paris já demonstrou a si própria há pelo menos um século). aqui ainda somos taxados de loucos  quando fazemos cicloturismo, enquanto os alemães gastam por ano mais dinheiro nessa modalidade específica de turismo do que o brasil arrecada em todas as formas de turismo. não tivemos a etapa dos bike-couriers (novidade por aqui), pois passamos do office-boy que andava de bumba direto para o motoboy, motorizado, pulando a etapa da bicicleta.

por outro lado, esse mundo novo, confuso, de fronteiras não muito claras, de misturas, descrito por deleuze sob as bençãos de foucault como sociedade do controle, esse mundo das celebrações, dos espetáculos públicos mediando as relações descrito por guy debord (em “a sociedade do espetáculo”), essa sociedade cuja instituição é imaginária, descrita por castoriadis, apaga progressivamente as diferenças de nação, as substitui por diferenças de classe mas que não são mais as classes descritas pelo pensamento marxista do século XIX.

o europeu ainda tem dificuldade de entender espaços simultâneos, mas os brasileiros não: entedemos perfeitamente quando dizemos que quem trabalha o último andar do banco, na diretoria, está no primeiro mundo e o porteiro do mesmo prédio vive no terceiro mundo. em berlin e paris condomínios fechados são novidade, aqui não, assim como subúrbios pobres e explosivos.

a gigantesca sociedade global favelizada mistura o pobre e o rico, coisa que pode ainda ser novidade em londres, mas pra nós é a regra, no carnaval, na praia, sem deixar de lado as assimetrias e conflitos, e muito antes pelo contrário, muitas vezes acirrando-os.

então, possuímos um imenso know-how de subversão dos mecanismos de controle: é o famoso jeitinho brasileiro.

pedalar em são paulo é o jeitinho de se deslocar com alegria: com diversão entre as pernas, muito mais rápido e menos estressante do que preso dentro de um carro. e também de ocupar as ruas e transformá-la em espaço público de celebração por algumas horas como fizemos ontem em diversos locais – não só em são paulo, em outras cidades também: recebi um telefonema direto da bicicletada de floripa ontem à noite mesmo, enquanto pedalava, e hoje assiti a um vídeo da bicicletada de salvador.

é interessante perceber que os estrangeiros estão com uma visão diferente do que a nossa sobre nós mesmos. essa semana assisti a uma entrevista de slavoj zizek na qual ele dizia que antonio negri o alertou para observar o brasil pois aqui estavam ocorrendo coisas muito, muito interessantes.

as nossas bicicletadas são uma delas: uma multidão gigantesca e totalmente horizontal que simplesmente se reúne e festeja a cidade que no mais das vezes lhe é hostil. uma explosão de sorrisos. uma outra leitura do mundo.

aquilo que explodiu até violentamente em maio de 68 em diversos locais do mundo agora se manifesta novamente de modo suave, brincalhão, gozador, irreverente, e desesperadoramente anárquico diante das “otoridades”.

é, PM, acostume-se com a ideia. o mundo  novo se aproxima. hoje os vídeos estão a rodar pela internet, as fotos, os depoimentos sobre o desespero dos policiais em achar “o chefe”. é, não tem chefe, é espontâneo, é não-hierárquico, é horizontal, é colaborativo. e isso é novo nesse país, é novo no mundo. e o novo, que é sempre saudado pelos progressistas é o horror dos conservadores, das mentes embutidas.

é, são paulo, quem diria que as bicicletas tão mudando a cara da cidade….

e aqui precisamos voltar a spinoza. na verdade, a spinoza e maquiavel. maquiavel demonstra que a ação pública está além da moralidade religiosa.  e portanto há espaço para a construção de uma outra forma de se viver o mundo. mas maquiavel ainda não coloca o poder nas mãos do povo.

quem o faz é spinoza. spinoza não tira o poder das mãos da divindade, mas os coloca nas nossas mãos, quando afirma: “vive-se em deus”. ora, o poder nos é imanente, não transcendente. emana do povo. da massa, da multidão.

foucault refina essa visão do poder ao demonstrar que o poder não é uma coisa, mas uma relação. o poder se manifesta nas relações.

ora, e o que vimos ontem? uma forma diferente de relação entre as pessoas e a cidade. é essa forma diferente de se relacionar com o mundo que se apresenta desde os anos 60 de diversas formas, mas sempre de forma episódica, mas que ontem apresentou-se de forma tão natural….

a bicicletada foi surpreendente pois não teve absolutamente nada de surpreendente. apenas pedalamos, distribuímos alguns panfletos, conversamos, rimos e só. nada além disso mas tudo tão…. zen!

um novo paradigma de ocupação das ruas se instaura. esse é o futuro que atropela o passado e confunde os acomodados. dêem passagem. a bike quer passar. e vai.

p.s. esse é um blog de e sobre bicicletas. pra discutir ciência política, filosofia política, há outros sites e fóruns mais adequados. esse texto é dirigido a ciclistas, não a estudantes de filosofia ou ciência política. mas se vc estuda filosofia e/ou ciência política, e gostou do texto misturando spinoza às bicicletas, arranje uma bike e apareça na próxima bicicletada: última sexta-feira do mês, a partir das 18 hs, na praça do ciclista em são paulo e em outros locais do brasil. vá até www.bicicletada.org e ache sua cidade.

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6 Respostas para “bicicletada, festa ou protesto e mais além: um novo paradigma de ocupação das ruas.

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  4. Eae Galera, Toh dentro!!! ate 25/02/10, praça das bicicletas!!!

    Abs

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