pelo fim do cicloativismo

ante-ontem, 14 de janeiro, fez dois anos da morte da cicloativista márcia prado. comentei com alguns que lá estavam, na cerimônia que fizemos na paulista, que havia algo de bom e de ruim naquele ato. o bom era perceber que seu legado era grande, que após seu passamento as pessoas a relembram e se dão ao trabalho de deslocar-se num dia chuvoso para fazer uma caminhada pela avenida paulista, acender velas, e fazer um minuto de silêncio interrompendo o trânsito. e pasmem, nenhum carro buzinou. foi um momento de silêncio mesmo, na avenida paulista em horário de rush.

o ruim é termos que fazer o ato. seria desnecessário se ela estivesse viva.

o JP, um amigo meu, esteve há algum tempo atrás em amsterdam, cidade conhecida pela imensa profusão de bicicletas. procurou o ciclo-ativismo por lá e não achou nada. reclamou com um holandês que respondeu: “ué? ativismo? pra quê? mais bicicletas ainda? precisa?”

é, de fato não precisa. o joão lacerda sempre repete que sonha com o fim do ciclo-ativismo. de fato, eu também. no dia em que eu não precise explicar pq prefiro usar a bike, pq uso camisetas ultra-coloridas em vez de usá-las pretas como de fato preferiria (mas a camiseta amarela me deixa mais visível no trânsito), ou pq bicicleta não é brinquedo e não, eu não sou uma criança grande e nem todos meus amigos são retardados (ok, alguns são mas não andam de bike), aí sim saberei que a coisa engrenou, que a cidade melhorou e corrigiu a rota rumo a um progresso sadio.

claro, hoje parece uma utopia. não é, tanto que muitas cidades no mundo já o fizeram. mas isso depende estrutura, isso depende de governança, depende de uma boa administração pública dos recursos existentes e da escolhas corretas por parte do poder público.

peguemos um exemplo trágico. há uma semana a mídia se ocupa com a tragédia ocorrida na região serrana do rio de janeiro, em razão das fortes chuvas (fortes mas não excepcionais, chuvas fortes temos todos os anos, as médias históricas precisam ser atualizadas, e temos chuvas assim fortes pelo menos uma vez por década, portanto precisamos estar preparados para elas). no momento em que escrevo esse post já se fala em mais de 630 mortos. mas uma das cidades atingidas por ali, pequena, chamada areal, não registra nenhuma vítima. pq, não foi afetada? foi sim, areal teve uma grande destruição. mas areal beneficiou-se de uma medida simples mas competente do poder público: os alertas de que a destruição estava a caminho. a população conseguiu escapar para locais mais altos. não há mortos, portanto.

há uma tendência generalizada de atribuir à ira divina todas as catástrofes que nos acontecem. roberto da matta escreveu um livro interessante chamado “fé em deus e pé na tábua”. o motorista gosta de rezar e daí dirige de qualquer modo. se morre, é claro, é a “vontade divina”.

uma vez ouvi de um velhinho judeu aqui de são paulo uma historinha interessante:

recomeça o dilúvio. mordechai era um judeu cumpridor dos mandamentos bíblicos. bem ortodoxo no cumprimento das regras. a água começa a subir, jacob passa num barco e grita:

– bora mordechai! a água tá batendo na bunda! sobe no barco aí, mano!

(sim, no meu relato esses judeus de algum shtetl da polônia do século XVIII falam que nem os manos).

– não, jacob! eu sigo as regras, ha-Shem vai me salvar! não vou nesse bote cabritado que vc tem! (detalhe, a voz do mordechai é igual a do chris rock)

e o jacob foi embora, xingando o mordechai de burro. mas apareceu outro conhecido do mordechai, oferecendo ajuda, era o moshé.

– bora, mordechai! se liga, mano, a água tá subindo, tu vai ficar boiando que nem presunto na guarapiranga!

e o mordechai, turrão, recusa:

– sai pra lá, seu infiel! moshé, não entro no teu barco impuro! vc roubou esse barco aí que eu tô ligado! sai pra lá!

moshé sai remando e xingando de burro o mordechai, mas chega um outro amigo do mordechai, o schlomo:

– vamu, mordechai! se liga no movimento que o barato é louco e o processo é lento! bora vazá! se liga, pula aí e pára de tirar chinfra!

e o mordechai reclama:

– sai pra lá, schlomo! te conheço! eu sei de quem era esse barco aí, era daquele mano que tu apagou com 3 pipocos! sai pra lá, ladrão sangue ruim!

– quer saber, mordechai, se vira aí. sai nadando sozinho, seu vacilão! – e o schlomo foi embora.

e a água subiu, e o mordechai que nadava tão bem quanto o maluf é um político honesto, morreu afogado.

lá do outro lado, mordechai consegue uma audiência com D-us, pra reclamar. chega lá na frente do altíssimo extremamente irado:

– pô ha-Shem, mó vacilo, né?  mó vacilada! custava me puxar com a mão? eu sempre rezei, segui todos os mandamentos, os 10 do monte os 613 do deuteronômio, sei mais os mandamentos de cor que do que cadeeiro sabe o código penal! pergunta aí pra ver! e tu dá uma vacilada dessa?

e então ha-Shem, com sua voz tonitruante como a do isaac hayes, ao som da música celestial (segredo que conto pra vcs, no céu a trilha sonora é groove, e pra entender o que é isso e ouvir o isaac hayes, clique aqui):

– eu, vacilão? se liga mordechai! baixa bola aí,mano! cê ficou vacilando lá, ficou moscando quando eu te mandei 3 barcos de resgate! se liga mané! agora tu vai saber oque é purgatório, seu trouxa!

essa é só uma historinha ilustrativa da postura que o brasil tem adotado nas últimas décadas, que perspassa toda a sociedade brasileira. do governante ao morador mais pobre. antes se atribuía tudo à ira divina, hoje é o aquecimento global. ok, aquecimento é fato. mas vamos ficar parados esperando o mundo acabar?

os barcos nos são mandados. pensem na quantidade de advertências que o governo de são paulo tem recebido nas últimas décadas sobre a questão do trânsito, a impermeabilização da cidade, a opção burra pela carrocracia. há mais de dez anos ouço especialistas que batem na tecla de como a desocupação do centro da cidade é perniciosa: cria um espaço vazio na noite, que facilita a formação de cracolândias. desperdiça a estrutura pública: escolas do centro fecham por falta de alunos, enquanto na periferia elas faltam. acaba-se por ser necessária a construção de novos hospitais em locais mais longínquos, quando já existe uma estrutura central disponível. acaso o hospital umberto primo não fechou?

em português claro: a administração pública vacila. vacila. vacila. e claro, tragédias, inundações, soterramentos, tudo é questão de tempo. a ineficiência da fiscalização das construções a longo prazo gerará desabamentos. a incapacidade de restringir o uso do carro força a realização de obras caríssimas cuja verba poderia muito bem ser aplicada no transporte público. o não investimento adequado na educação cria uma bomba-relógio no futuro: falta de escolaridade adequada gera desemprego futuro, problemas de saúde, diminuição de qualidade de vida, insatisfação.

o brasil sofre de desestrutura crônica. cada real investido em prevenção economia de 7 a 14 reais gastos no conserto. e isso em qualquer setor da vida nacional. da saúde à educação, do trânsito às catástrofes naturais.

sim, falta estrutura. exemplo. querem coisa mais burra do recolher doações de água mineral em manaus para levar a nova friburgo? qual o custo disto? só o gasto em combustível no transporte permite que se compre essa água no ri de janeiro mesmo e ainda com economia. afinal, um litro de água pesa exatamente um quilo. transporte custa!

mas há a desestrutura em razão da falha sistêmica. devemos lembrar que a falha da máquina faz parte do seu sistema normal…. aliás, são paulo tem gente morando no jardim romano, no jardim pantanal pois há especulação e portanto os pobres não podem morar na região central. aliás, ninguém mais mora, até que a área seja “revitalizada” e portanto haja mais especulação. sim a degradação de certas áreas é proposital.

deixemos de ser inocentes. a estrutura pública não funciona pois assim gera mais lucro. vejamos o caso do transporte público paulista. nem perco tempo comentando o aumento para 3 reais a pssagem. sim, 3 reais. o ônibus mais caro do brasil. mais que um pão com  manteiga e um cafezinho em muita padoca da periferia. acho que ninguém fez um comentário melhor que o sakamoto, sobre o assunto. tá aqui, leiam.

deixemos de ser ingênuos. os dados estão aí. os governos, principalmente municipais e estaduais, ligaram o boão de “foda-se” há muito tempo. jogam pelo pão e circo. no estado de são paulo agora chegou ao mercado a classe méRdia ascendente e emburrecida pelas décadas de ensino público ruim. não é à toa que tantos imbecis se endividem por 70 meses pra ter uma lata fedorenta e assassina chamada carro. sim, hoje eu olho com um misto de pena e ódio pra cada dono de ecosport, de pajero, de l200, de tucson, qeu acha que seu prazer pessoal, sua vontade de afirmar-se socialmente permite que ele contribua pra morte de cerca de 4000 pessoas ao ano em são paulo em razão dos problemas de poluição, causados ou agravados por ela.

claro, essa postura é estimulada. cada vez que passa um reclame na tv, vemos essa postura reforçada. compre seu carro novo, seja feliz, mesmo que vc seja um dos causadores das chuvas e outras catástrofes que hoje acontecem. sim, assim como alguns comemoram dando tiros pra cima – e produzindo balas perdidas – outros poluem. constroem mansões de luxo em encostas. expulsam pobres de bairros centrais. consomem exageradamente. enchem o mundo de garrafas pet, fumaça preta, pedaços de plástico, entulho, lixo.

eu não pertenço a esse mundo em falha permanente. nem meus amigos. hoje passei uma tarde divertida conversando sobre bicicletas, trocando peças usadas, trocando idéias, aprendendo muito. mas nós, que não estamos destruindo o mundo ainda somos poucos, e ainda corremos o risco de sermos dizimados como foi a márcia prado na avenida paulista, há exatos dois anos e dois dias. eu mesmo hoje tomei uma fechada enquanto voltava pra casa. claro, uma tucson preta, um desses carros do mal.

pena, pena mesmo. sinto pena dos 630 mortos nas tragédias do rio, nos desabrigados de minas, nos feridos pela ação criminosa da PM paulista na repressão a um protesto contra o aumento das passagens de ônibus. sinto pena dos que lutamos por um mundo onde ser cidadão seja mais importa do que ser consumidor. mas não, o mundo segue em desmanche.

em tempo. apesar de tudo, há mais gente de bike na rua. hoje uma das ciclovias de lazer de são paulo, mesmo fechada foi ocupada por ciclistas. pena que seja de lazer. devemos brigar por mais espaço. não acredito mais em conversas…. como disse a renata falzoni dia 07/12 na câmara municipal, nas gavetas da daministração pública repousam projetos lindos….. chega de projetos, precisamos de ações, e dos ciclistas. ciclista, perca o medo, discuta e, se for o caso, chute a porta de quem te fecha. ocupe seus espaços. filme as ilegalidades.  denuncie.

e claro, fiquemos atentos à má ocupação da cidade. são paulo possui inúmeras áreas de risco. apenas ainda não pegamos uma chuva tão forte, e a cidade está tão impermeabilizada que tudo direciona-se ao tietê em minutos. já passou da ora de quebrarmos o asfalto e plantarmos árvores no lugar. eu adoraria ver baobás no meio da avenida paulista, sequóias no vale do anhangabaú, jequitibás no meio da 23 de maio, jacarandás na berrini. carros abandonados com plantas crescendo. apenas bicicletas nas ruas, e as pessoas felizes. não mais ghost bikes, não mais contagem de corpos, não mais doenças por ignorância. que todos os ativismos um dia se tornem desnecessários. um dia seremos desnecessários, espero por isso.

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4 Respostas para “pelo fim do cicloativismo

  1. Pingback: Bicicleta é meio de transporte | Pedalante

  2. Oi Odir, só uma correção:não foi em Amsterdam que ouvimos a frase “nós não precisamos de massa crítica e nem de Dia Mundial sem Carro”, foi em Copenhague, na Dinamarca=) Apesar, que os ciclistas de Amsterdam, provavelmente, dariam a mesma resposta! hehehehehhe

    Beijos querido!!!!
    Evelyn

  3. Falou e disse!!!

    “o brasil sofre de desestrutura crônica. cada real investido em prevenção economia de 7 a 14 reais gastos no conserto”
    … e tem gente que acha que PIB é sinal de progresso, de qualidade de vida!!

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