márcia prado – dois anos

eu andei afastado uns anos do cicloativismo e voltei logo após o assassinato da márcia prado. não a conheci. mas isso não impede se falar dela.

márcia prado foi assassinada por um motorista de ônibus irresponsável na avenida paulista, quando ela, de acordo como artigo 58 do CTB, trafegava pela direia.. sim, márcia foi atropelada por alguém que num ônibus de cerca de 8 toneladas passou perto demais. desrespeitou o artigo 201 do CTB, que estabelece que o motorista deve passar a 1,5 m (um metro e meio) de distância do ciclista.

pois bem. márcia não é apenas uma vítima da selvageria do trânsito paulista. do forte cumprimento da lei de gérson no trânsito brasileiro. da irresponsabildiade, do “foda-se os outros” que vigora em nossa sociedade.

márcia era arquiteta, urbanista. quem conhece os membros dessa classe sabe que eles possuem um olhar diferente sobre o mundo, sobre o ser humano. não costuma ser o olhar frio das máquinas da engenharia. mas o olhar quente, atencioso ao ser humano. por isso márcia pedalava pela cidade, aliás, como muitos arquitetos que conheço.

márcia agitava o meio. eu, que não a conheci sei melhor que seus amigos. pois eu posso mensurar os ecos de seu legado melhor que os que lhes foram próximos.

márcia inspirou e inspira muita gente. tanto que virou o nome da rota turística que pretende descer a serra de são paulo a santos, de modo cotidiano, sistemático, consolidado, e não apenas eventualmente e sob um clima de ilegalidade. isso é uma demanda antiga da comunidade ciclística paulistana. eu mesmo arrisquei a vida certa vez num desses caminhos sem a atenção de vida doestado, que nós, ciclistas, cidadãos paulistanos, temos que recorrer para exercer o sagrado direito de ir e vir, sem poluir, sem matar.

o legado de uma pessoa mede-se pela influência que exerce quando não está mais entre nós. o de márcia é imenso, pela quantidade de gente que se mobiliza. hoje, na data em que se completa dois anos de sua morte, haverá manifestação na avenida paulista, onde deixou sua vida, e em aracaju.  ou seja, sua ação vai muito além dos limites do município.

cada ciclista que morre é uma chance a menos de um futuro melhor. o ciclista urbano, aquele que é constantemente agredido e xingado, deveria ser incensado, pois recusa-se a seguir a lógica que mata milhares de pessoas todos os anos. basta lembrar que apenas a poluição dos veículos automotores mata cerca de 4.000 pessoas ao ano, quatro vezes mais que o HIV, na cidade de são paulo.

ora, 4.000 mil mortos é tragédia, é estatística de guerra. mas todos silenciam, e vendem-se mais carros. nada mais cínico, sádico e cruel do que o olhar de alegria de quem comprou um carro novo. pois vai a cada dia matar alguém com a sua preguiça de se mover. o motorista mata, mesmo quando não bate nem atropela.

por outro lado, e o ciclista? quanto de poluição produz uma bicicleta? quantas pessoas morrem ao ano atropeladas por ciclistas? vc conhece alguém que tenha algum parente morto atropelado por um ciclista?

pois é, a diferença é essencial e manifesta. uns matam, outros morrem. mas márcia, e tantos outros, não carregam na alma a culpa da morte alheia. não, eu não mato ninguém com a minha preguiça ao me  mover. não, todas as desculpas não me afastam da bicicleta. notem como o preguiçoso arranja um zilhão de desculpas pra não deixar a quela alta mal-cheirosa em casa. “e nas emergências, como faz?” – até parece que emergências acontecem todo dia. chame-se o SAMU. as roupas, os sapatos de salto, o suor (e a preguiça de tomar um banho ao chegar ao trabalho), tudo é desculpa para não deixar o carro em casa.

pois bem. nessa disputa pelo espaço, o ético e correto ciclista sempre perde espaço para o injusto e egoísta motorista. sim, eventual motorista que está lendo: se suas necessidades justificam vc a cada dia contribuir para a morte de alguém, vc é sim um egoísta, pois coloca suas necessidades comezinhas acima da vida alheia. assim como o motorista de ônibus que nãose deu ao luxo de respeitar a lei e matou uma de nós.

sobre as homenagens, clique aqui. sobre márcia, clique aqui. e leia o manifesto dos invisíveis.

 

 

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