ciclovias e enchentes

ciclovias deveriam estar em fundos de vales?

dá pra pedalar por toda são paulo em dia de chuva…

não, na verdade não. nem ciclovias, nem avenidas, nem moradias, prédios comerciais. fundos de vale devem ser apenas fundos de vale, cheios de mata.

mas não é essa a lógica do urbanismo brasileiro. não a lógica recente.

o aldeamento antigo respeitava as enchentes. índios conheciam onde enchia de água, os primeiros colonizadores se apropriaram desses conhecimentos e respeitaram esses detalhes (é só pensar no triângulo histórico de são paulo: igreja do carmo – igreja de são bento – igreja de são francisco, que mesmo tendo o rio tamanduateí a um lado, o córrego do anhangabaú no outro, e atrás o córrego itororó – que virou a 23 de maio – que nunca teve enchente).

enchente no centro de são paulo

aqui onde moro, o bairro tem um nome tupi cuja tradução é “brejo grande”.  em frente à minha casa há uma praça onde havia uma estação de trem, e a rua é uma antiga estrada.

o interessante é que moro numa das casas mais antigas do bairro, mais do que centenária, e ela não sofre nas chuvas com enchentes. mais abaixo, uma rua abaixo, que está realmente abaixo no sentido vertical da palavra, enchentes sempre existiram, pois logo além está um córrego. ali é efetivamente o “brejo grande” e, como é da tradição da ocupação paulista, há um clube.

túnel do anhangabaú, 1963

os clubes antigos da cidade ocupam áreas de várzea, o que segue uma lógica: eram cedidos terrenos municipais de pouco ou nenhum valor, a várzea é relativamente plana e mais adequada à construção de campos de futebol e outros esportes, e a proximidade do rio facilitava a atividade do remo esportivo. assim, se prestarmos bem atenção às marginais de sãopaulo, veremos muitos clubes: espéria, tietê, portuguesa, corinthians, pinheiros, hebraica, entre tantos outros. nas várzeas do tamanduateí também, como o ypiranga, o são caetano…

essa prática é anterior à construção das grandes avenidas nos fundos dos vales, nas várzeas. mas à medida em que a cidade cresceu, ela ocupou a várzea dos rios.

marginal do tietê, 1960

assim como aqui no meu bairro, o arruamento mais antigo, de presença imemorial, é sinuoso, estando à meia altura: nem tão próximo ao córrego a ponto de ser atingido pelas enchentes, não tão alto a ponto de cruzar os morros da cantareira. mas o arruamento posterior, já dos anos 40 e 50, não respeita mais essa característica: é de quando data a ocupação das margens do córrego, e também as primeiras histórias de casas invadidas pelas enchentes. esse arruamento é “quadradinho”, de ruas retas, que sobem e descem morros, e que gera subidas fantásticas de tão íngremes….

vale do anhangabaú, 1967

esse padrão de ocupação a partir dos anos 50 ou 60 de áreas alagáveis é regra no brasil inteiro. podemos dar como exemplo a cidade de catanduva, no interior de sãopaulo, cuja região central está dividida pelo rio são domingos e pelo córrego do minguta. a ocupação mais antiga da cidade é de regiões altas. mas hoje as margens do rio são domingos e do córrego do minguta hospedam grandes avenidas, entrepostos comerciais, e mesmo o paço municipal, construído no início dos anos 80. não é preciso dizer que o arquivo histórico da cidade, no subsolo da câmra de vereadores local, perdeu-se numa grande enchente nos anos 80, enchente na qual o então prefeito recém eleito entrou no prédio da prefeitura para tomar posse em um barco….

holanda, cycle-chic under the rain. as havaianas na mão.

mas de modo geral o poder público é que estimulou a ocupação de áreas alagáveis. construiu avenidas. loteou, concedeu habite-se, recolheu IPTU . e quando da enchente opera uma ou outra obra inepta, ineficaz, pois a região alagada tem sido alagada cada grande chuva desde o final da última grande glaciação, ou seja, há pelo menos 12 mil anos.

túnel do anahngbaú, há poucos anos.

neste sentido há um artigo na net brilhante, dolorosamente brilhante, da autoria do professor de urbanismo do departamento de arquitetura e urbanismo da UFSC, roberto gonçalves da silva. está disponível aqui, em pdf. este artigo é de leitura obrigatória pra se entender que todas essas enchentes urbanas aqui em são paulo, tal qual aquelas do vale do itajaí em santa catarina, não são desgraças naturais, mas obra humana, decorre da ocupação errada do solo, ignorando propositadamente o conhecimento já existente do local.

pensem, já viram notícia de enchente em aldeia de índio?

pensem mais. pq nenhum dos sambaquis de santa catarina ficaram submersos nas grandes enchentes da década de 80? ora, os pré-históricos habitantes já sabiam onde se enchia de água e onde não….

scarpins para dias chuvosos em são paulo

scarpins para dias chuvosos em são paulo

então agora volto à questão inicial: devemos usar fundos de vales na construção de ciclovias?

são áreas alagáveis. e talvez por isso ainda estejam em alguns locais desocupadas. isso é fato. claro, seria muito melhor que ciclo-faixas, ciclovias, e ciclo-rotas estivessem a meia altura, fora do alcance das águas.

mas podemos nos dar a esse luxo?

eu não sei como está projetada a ciclo-rede que se diz projetada para são paulo. gostaria de ver o projeto. mas conhecendo bem a história da cidade onde moro, não me espantaria se as ciclovias projetadas sigam as grandes avenidas que, por sua vez, estão sempre às margens de rios, sempre sujeitas a enchentes. afinal, esta tem sido a regra, não é?

mas de bike sempre podemos ir por outros caminhos. a bicicleta liberta do e no transporte. chegamos molhados, mas pela água da chuva, não pela água da enchente que invadiu os carros. nada que uma boa capa de chuva e um bom pára-lamas não dê jeito.

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3 Respostas para “ciclovias e enchentes

  1. Olá, parabéns pelo Blog!! Já vi nele muitas bikes de estilo limpo como a Alchemy e me interessei pela dica que vc deu do Romeo em Curitiba.. Vc poderia me dizer como achar ele? Acho que o Poloni está fora do meu alcance, abraços Joao

  2. existe um projeto de ciclovia que já está em andamento na zona leste de sp que é bem na margem do rio tietê, é bem como vc observou mesmo.
    curti bastante essas fotos antigas de sp.
    muito legal o post!

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