a frase da renata

ela, em foto do willian.

a renata é conhecida. todo mundo conhece aquela figurinha serelepe com cabelos de fogo que nem um curupira. a mulher responsável pela explosão do MTB no brasil e da primeira geração do cicloativismo, bike-repórter, arquiteta e urbanista. uma pessoa que está na mídia e isso não se torna diminutivo, defeito, mas engrandecimento da mídia brasileira.

mas a renata vai além disso. renata é alguém com olhos de ver. engraçado, as pessoas não percebem isso. o que define a renata é o olhar, é o que olha. e olhar, ver e enxergar é tão importante!

eu voltei a pedalar, depois de adulto, por culpa da renata. por culpa da renata e do olinto. não conhecem o olinto? olinto era advogado, jogou tudo pro alto, foi dar uma volta de bike na europa e isso virou uma volta ao mundo. até aí a história dele não é diferente de outros tantos que a gente conhece pelo mundo afora. a diferença do olinto foi, de novo, o olhar. o livro do olinto, “no guidão da liberdade”, não é daqueles livros chatos de quem viajou e fica apenas descrevendo o seus camihos, num blá-blá-blá superficial. não. olinto tem olhos de ver, ouvidos de escutar.

uma vez, subindo uma montanha em sua bicicleta carregada, olinto viu uma moto parada na mureta lateral da estrada e ouviu uns gemidos. um motoqueiro havia caído da moto. a moto ficara encostada na mureta, e o motoqueiro estava atrás dela, todo machucado, gritando por socorro há horas. carros passavam, e apenas viam uma moto parada. se não fosse o pedalar vagaroso do olinto, na subida, que permitiu ao olinto ouvir seu já tênue pedido de socorro,  aquele homem morreria.

olinto fez a volta ao mundo, escreveu o livro, a renata fez o prefácio, meu pai comprou o livro (na verdade um amigo de família comprou pro meu pai mas não teve coragem de pedir o autógrafo em nome de outrem, e o livro é do meu pai autografado para outra pessoa…), meu pai leu o  livro e me emprestou…. e então eu me deparei com uma frase do prefácio que é daquelas que fisgam a gente, chacoalham a cabeça… a frase?

“Mas o Homem precisa ver para crer, e Olinto foi além. Muito além: Escreveu este livro, para imortalizar sua história e inspirar outros a se auto-conhecerem. Olinto levou 5 anos para defender outra tese, mais terrena, mais complexa e igualmente nobre: Só há real leitura de tempo e espaço quem vai a pé ou no máximo de bike. O resto é pressa.

leitura do tempo e espaço… o resto é pressa… o olinto lá dentro do livro acrescenta: “A bicicleta é a melhor forma para se viajar pelo mundo; somente a pé poderia conhecer mais, entretanto, é demasiado lento.”

conhecer… real leitura… interpretar… hermenêutica! conhecer o mundo não é simplesmente sair por aí. o nosso entorno já é parte do mundo. wittgenstein escreveu no tratactus logicus-philosoficus: “O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas”. e mais adiante: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”.

pedalar é ler o mundo. é nisso que a renata bate, o tempo todo. pedalando em são paulo nós lemos a cidade. lemos o relevo, lemos as pessoas, lemos os fatos.

aqui cabe uma pequena digressão. temos a partir do final do século 19 toda uma corrente filosófica gigantesca em torno da fenomenologia. a fenomenologia procura entender os fenômenos. desmontar as camadas de discurso inautêntico para entender o fenômeno. “ir às coisas elas mesmas”, como diria hurssel. intepretar. olhar. perceber….  esses filósofos são chamados de fenomenológicos, existencialistas e etc. todos eles recusam esses rótulos. heidegger preferia ser rotulado de empirista, por exemplo. não precisamos aqui nos aprofundar, descer às minúcias do pensamento heideggeriano, mas basta lembrar do que escreveu no “ser e tempo”: “interpretar não é atribuir o sentido correto, mas elaborar todas as possibilidades.”.

como “elaborar todas as possibilidades” se não vemos nem ouvimos? como se estamos fechados em nós mesmos e não percebemos eu vivemos com os outros? nos preocupamos com definições de “ser-humano”, procurando “essências” quetalvez não existam, mas esquecemos que somos o que jeannette maman (outra figurinha de cabelos de fogo, como eu queria apresentar uma à outra…) já bem descreveu: “ser-o-aí-junto-com-os-outros”.

estamos no mundo, isso é dado, e estamos ligados uns aos outros. o motorista não percebe isso, fechado na sua caixinha. o ciclista percebe, pois a bicicleta é aberta.

ciclistas veem, a renata há de concordar comigo. ciclistas elaboram todas as possibilidades, por isso não gostam de ser engabelados por discursinhos e leis que ficam nas gavetas. nós percebemos o real. para nós as coisas funcionam ou não: o freio funciona ou não, o câmbio funciona ou não, a perna dá conta ou não, na pista tem buraco ou não. não há como maquiar a realidade pra nós.

baudrillard num livrinho interessante, “simulacros e simulações”, faz a distinção entre simulação e dissimulação. simula-se o que não se tem, dissimula-se o que se tem. isso faz com que as pessoas não distingam mais o real do irreal, vivendo-se, portanto, numa outra realidade (onde o real e o irreal se misturam), uma “hiper-realidade”.

mas para nós não. as coisas não são assim. lemos o mundo de outra forma. preferimos o vagar para poder enxergar e ler melhor do que a rapidez da vista superficial de dentro de um carro, ou dos textos de 140 caracteres do twitter. o mundo contemporâneo quer que sejamos superficiais, que consumamos sem sentir o gosto das coisas, rapidamente: fast-food, filme “de ação”, via expressa, rapidinhas…

nada de textos longos, longas tomadas nos filmes, pedaladas longas, grandes quintais, conversas longas, ou um longo pôr-do-sol. esse é o mundo atual, superficial. que nada conhece, e nada tem (sartre nos adverte que “conhecer” é uma modalidade de “ter”).

e então a bicicleta nos tira desse mundo. nos restitui nossos olhos de ver, nossos ouvidos de ouvir, nossos discursos de cobrar, de apontar, nossas idiossincrasias, nossa percepção de cada um “saber a dor e a delícia de ser o que é”, pra usar uma frase do caetano. em resumo, restitui nossa humanidade.

somos humanos, e esquecemos disso, mas a renata, o olinto, o arturo alcorta, o benícchio, o pasqualini, e outros tantos de vez em quando nos lembram. a lista é imensa. cada um que monta uma bicicleta pode e deve estar na lista. os que estão aqui e os que já se foram.

mas eu paro por aqui. o olhar da renata, o que os olhos dela  veem, ela deixa explícito, em seus programas, em seus discursos.

e pra entenderem, eu cito um fato. ontem ela ganhou a medalha anchieta, por serviços prestados à cidade de são paulo. não queria receber, mas foi, em nome de todos. pra quem acha que lá estava uma pessoinha cheia de si, digo que está muito enganado. como sempre, baixou o curupira nela. graças a deus.

querem ver o discurso? o willian filmou. está aqui, na íntegra. assistam, vale muuuuuuuito à pena. afinal, só quem tem olhos de ver, de ver meeesmo, percebe que o rei está nu.


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5 Respostas para “a frase da renata

  1. demais…..estive la e quase chorei…acabei de assistir o discurso pq vale a pena ver de novo!!!

    lindo o post…..brazo,

    artur

  2. Poutz!!! Ótimo texto, como sempre!! Sabe, sempre formulei uma teoria de que o ser humano não foi desenhadao para alcançar velocidades maiores do que 36Km/h (a velocidade de um Usahim bolt nos 100m rasos) e que na verdade, toda desgraça humana decorre desta vontade de andar muuito mais rápido do que o seu design lhe permite…

    enfim, me alegra saber que a Renata seja “colega” de profissão, hehehe!! É nóis, arquitetada!!!

    Abraços

  3. realmente incrível! eu tbm estive lá prestigiando a Renata e concordo com tudo o que você escreveu! lindo lindo!!

  4. palmas palmas , belas colocaçoes !

  5. Pingback: é o público! | as bicicletas

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