mão na roda: o desemburrecimento ciclístico

o brasil até hoje paga pela herança escravagista.

não temos muito disseminado entre nós o orgulho de fazer as coisas com as próprias mãos. é fato. é só comparar o mercado de bricolagem brasileiro com o americano ou europeu, ou a imensa quantidade de sites na linha “faça vc mesmo” que existem em inglês, francês, alemão… isso nas mais diversas áreas. em sites de montanhismo, alpinismo e etc, em fóruns de discussão, existem diversas infos e trocas de idéias sobre equipamentos feitos em casa, customizados e etc. aqui isso rareia, infelizmente.

essa característica do ethos do brasileiro permeia o meio ciclístico em geral. por meio ciclístico não me refiro apenas ao meio competitivo, mas ao universo que abarca todos usuários, compradores, vendedores, e até publicitários que atuam com esses produtos.

esse “não colocar a mão” gera uma ignorância generalizada. não falo da ignorância individual, mas da ignorância coletiva. ignoramos algo e todo mundo à nossa volta também ignora. nosso pai ou mãe nos ensina a andar de bicicleta mas não sabe regular a altura do selim, ou não tem a mínima idéia de que precisamos de uma bicicleta adequada ao tamanho, e não da cor X.

e então acontece algo estranho. temos toda uma primeira geração de gente que de fato se encanta com a bicicleta. que se encanta, busca infos, mas não tem aquela carga de conhecimento familiar. é diferente do moleque nova iorquino que agora vai trabalhar de bike messenger, seu pai se encantou com greg lemond sendo o primeiro americano a ganhar um tour de france. seu avô lembra das corridas em velódromos, valendo dinheiro. o japonês que vai de bicicleta ao trabalho orgulha-se da shimano, assiste e aposta dinheiro nas corridas de keirin. isso significa que quando vc tem alguma dúvida, algum problema, seu vizinho, seu pai, sua mãe, sua irmã sabe solucioná-lo ou sabe indicar como solucioná-lo.

aqui não. essa primeira geração de pessoas que se encanta com as bicicletas tem dois grandes desafios: desenvolver a cultura da bicicleta e provar aos outros todos (pai, mãe, namorado, professor) que não tá doido ao usar a bicicleta. esse último desafio nos toma tempo demais, e faz com que não dediquemos muito tempo ao primeiro desafio.

e claro, quando se é um ser limítrofe, espremido entre duas eras, se tem características de ambos os lados. o homem da renascença era meio medieval e meio moderno.

isso chega a criar situações tragicômicas. vemos gente fazendo longas distâncias sem saber que cassete está usando na bicicleta, ou gente que adora montar bicicletas mas não tem coragem de ir além de uma volta no parque. quem pedala não entende de bikes e quem entende de bikes não pedala. enquanto é só historinha de algum conhecido, não há problema, mas quando isso é o retrato da indústria da bicicleta, ai temos uma tragédia.

claro, ninguém nasce sabendo quem é eddy merckx. alguns vão saber agora ao clicar no link. outros, desinteressados, vão continuar sem saber quem é. eu sei que eu sou um privilegiado, pois aprendi sobre eddy merckx quando era criança, meu pai citava, e citava pessoas que pedalavam 200 kms num dia. pertenço à quarta (senão quinta) geração sobre duas rodas na família, meu avô desenvolveu junto com os irmãos uma espécie de suspensão dianteira pras rodas grandes das phillips,  dürkops e outras bikes que usavam há mais de 50 anos, com freio contra-pedal.

nasci de certo modo no meio, então não me espanto ao encontrar um tiozinho na esquina que pedalou com bikes cujas rodas usavam aros de madeira. pq eu mesmo já fiz isso.

mas isso não é surpreendente para quem é do sul do país ou é filho de gente do sul do país. o depositório da cultura ciclística brasileira está no sul, em razão da transferência de cultura ciclística da europa. imigrantes do norte da itália, da alemanha, noruega, e etc, difundiram a cultura que permeou a sociedade local. não é à toa que grandes nomes do ciclismo nacional, como mauro ribeiro, murilo fisher, luciano pagliarini, milton della giustina, paulo jamur, irmãos romeo e etc sejam do sul do país. a volta de santa catarina não é o maior evento ciclístico brasileiro, mas o mais antigo.

mas não nos enganemos achando que a cultura ciclística só vive da transferência da cultura européia. o nordeste brasileiro tem desenvolvido nos últimos anos muitas provas, o MTB avança em muitas regiões do país.

mas o ciclismo esportivo é sempre a exceção. pra cada ciclista esportista há zilhões de ciclistas não esportistas, não competidores, e é entre estes que grassa a ignorância generalizada. alguns dentre desses resolve competir, e é então um grande consumidor de coisas não correlatas: só vai pedalar se tiver um imenso SUV pra levar a bicicleta até a estradinha, em vez de ter 3 ou 4 bicicletas (uma pra uso esportivo, uma pro barro, uma pra andar na cidade, outra pra viajar e, pq não, uma dobrável tb), ele tem uma bicicleta só, caríssima, cujas peças troca com frequência, não sai de casa sem seu monitor cardíaco e eventualmente pedala todo dia… no rolo! e nem lhe passa pela cabeça ir ao trabalho de bicicleta… ah, claro, faltam ciclovias… como se fossem necessárias ciclovias em todas as vias da cidade.

ora, diante de toda essa situação estranha que encontramos entre os ciclistas em geral (“essa bike é de ferro?”, “sei lá que tubulação tem o quadro!”, “pedivela é tudo igual”, “eu gosto de usar o selim baixo e pronto”, “é im-pos-sí-vel fazer longa distância de fixa!”, “ué, selim tem tamanho?”), uma iniciativa como a “mão na roda”, a oficina comunitária da associação ciclocidade é mais do que  um grande presente, mas principalmente uma cunha pra rachar o muro de desconhecimento.

mexer na própria bike, quebrar a cabeça regulando um freio, meter a mão na graxa, é a melhor forma de tirar o atraso na cultura ciclística. não é pq vc chegou à idade adulta sem nenhuma cicatriz de tombo de bike (sinal de infância infeliz) que vc não possa recuperar o atraso (inclusive em relação às cicatrizes). ficar mexendo numa bicicleta com as ferramentas adequadas com um monte de gente que é da área e é amigo seu, trocando idéias, batendo papo, ouvindo a experiência dos outros, aprendendo e ensinando.

mão na roda. clique, pegue as infos, vá. vamos, achegue-se, sente, aprenda a contar os dentinhos das corôas da pedivela da sua bike (“hã? onde fica a pedivela?”), aprenda a diferença entre um cassete e uma catraca de rosca, aprenda que muitas vezes uma peça de 20 reais muda completamente o comportamento da bike e claro, vc não precisa gastar 1700 reais numa bike nova se basta trocar a pedivela e o cassete.

aprenda isso, conheça seu veículo. bicicleta é diversão no meio das pernas, e ninguém deve colocar entre as pernas algo que não sabe exatamente o que é.

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14 Respostas para “mão na roda: o desemburrecimento ciclístico

  1. legal Odir, é isso aeh
    a cada dia vou aprendendo uma coisa nova,
    parabéns pelo post,

    Mário

  2. Boa Odir, pegou num ponto que vale pra tudo. E você começou lá em cima, mas não enfatizou no tom que isso me incomoda. Existe mesmo aqui é essa “vergonha” de tarefas que sujam. Triste. “Imagine se eu vou desmontar uma coisa que vai sujar minha mãos de graxa”.

    Mãos sujas são más refrências…coisa pra quem “só sabe fazer isso, não tem capacidades para coisas mais complicadas, intelectuais”.

    Enquanto isso num país como os EUA, ferramentas são “fetiches”…

    É isso

    grande abraço

    Márcio Campos

  3. Saber mexer na sua própria bicicleta é mais do que economizar uns trocados. É ser independente dos horários da bicicletaria, é adquirir a capacidade de ajudar os outros, principalmente os iniciantes e suas bikes quebradas; é ter a confiança de ir para onde quiser com a bike, pois você consegue resolver qualquer tipo de pepino, é não depender mais da boa vontade dos outros de consertar sua bike sempre que der problema, é também melhorar a auto-estima, principalmente das mulheres, que repetem constantemente que “não levo jeito para essas coisas” ou de que é incapaz de realizar trabalhos manuais.

    Aprendi a grande parte do que sei pela boa vontade de muita gente, que publicou o que sabia na internet e explicou passo a passo o que deveria ser feito. O curioso é que aprendi quase tudo em sites gringos e quase nada por aqui, o que diz muito sobre a cultura brasileira do faça você mesmo.

    • nem todo o sul é porto alegre, como dizem meus amigos de bagé, venâncio aires, uruguaiana….
      mas vamos ver essa notícia sendo revertida logo. o povo se mobiliza por lá, ao contrário daqui.
      mas é fato que o museu da bicicleta é de joinville, e curitiba tem velódromo público.
      sp tem o que mesmo?
      precisamos construir + por aqui.

  4. Sempre que faço alguma manutenção em minhas bicicletas com minhas próprias mãos, me sinto esse cara aqui em pessoa, ó: http://www.youtube.com/watch?v=U01xasUtlvw

    Ótimo texto!

  5. lindo post…como sempre mandando muito bem!!!!

    eu sempre fico espantado quando a bike de alguém quebra e o cabra nem tenta mexer…vai do lado e sai empurrando e as vezes para não sujar as mãos…de um tempo para ca eu consegui um espaço e montar minha própria oficina…pequenina que é para mexer em minhas bikes, da família e de alguns camaradas….mas quando eu não tinha isso, mexia dentro do AP mesmo….rsrsrs…quem quer fazer FAZ….como oce disse tem um monte de manés que tem bike de 5k e não tem noção de nada….sou muito feliz por ter começado com bike bem simples e não ter tido grana para ficar levando em bike shops…com isso aprendi bastante

  6. Hehehe
    quando eu fazia as minhas cicloviagens, a primeira pergunta que me faziam era se eu não tinha medo (de pedalar sozinha). A segunda era o que eu faria se o pneu furasse. Se o raio estourasse. Se a corrente caísse.

  7. Conceitualmente, conheço. Nunca vivenciei a experiência de pedalar ou aprender com elas. Acho que elas ganharam força quando vim pra Rondônia.

  8. tô começando agora e curtindo muito os textos e dicas daqui.

  9. Uhu, belo texto!!!

    Sinto até hoje na pele o fato de ter que vencer preconceito e ignorância quando chego de bike pra tocar em um restaurante bacana aqui de Curitiba, ou pra deixar a bike na garagem do prédio de algum amigo meu…

    Agora to enfrentando o maior desafio, que é explicar pras pessoas o meu novo empreendimento, quando digo que trabalho com cicloturismo urbano a primeira pergunta é o que é isso???

    Mas é nossa missão levar à diante o pouco que aprendemos com os amigos e você tá de parabéns pelo texto e pelo blog!

  10. Pingback: mão na roda, o retorno! | as bicicletas

  11. Tenho 57 anos,sou mecânico de motos á 42 e fui morar em Tramandaí no litoral do RS á dois anos.Lá quase todos andam de bike pois o trânsito é seguro e o terreno é plano.Comprei um caloi TRS alum.e comecei a fazer melhorías nela. Comecei instalando freios á disco e para isso tive que por uma suspensão diant. melhor com suporte para pinça de freio.Na traseira tive que furar o quadro e criar um suporte adaptador para a pinça. Fiz um canote mais longo (55cm) de tubo de molibidênio pois no mercado os maiores tem 40 cm.-Aí gostei da brincadeira e já fiz uma suspensão up-side hidráulica com sistema pneumático…sem molas, á partir de suspensão de moto! Pesa 1330 gramas e funciona que é uma beleza com óleo hidr. SAE 25 de motos competição e 3lbs ar! Tem curso de 150mm. -Dá show em descida de serra á 100Km/h…-é melhor que muita importada de 3000reais que tem no mercado! Tem freio á disco duplo de 203mm na dianteira que chega á torrar as pastilhas apos 20 Km de uso! -Mas sobra freio! Agora estou terminando um curso de laminação em fibra de carbono e vou partir para construção de rodas viáveis as carteiras Brasileiras.Em breve estarão no Mercado Livre á venda! Abraço á todos! Renato

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