bauhaus – e as bicicletas

o mundo do design divide-se em aB e dB. antes e depois da bauhaus.

bauhaus foi uma escola de arquitetura que voltou-se mais para o desenho industrial, na alemanha do pós I guerra e funcionou até a ascensão de hitler, em 1933.

saiu da cabeça de gropius, veterano da I guerra, que imaginava uma escola que não se voltasse par ao ensino histórico da arquitetura, mas desse base técnica para a criação livre de seus alunos. então, nada de história, mas aulas de técnica, técnica, técnica, criatividade e etc.

mas é pretensão minha querer resumir a bauhaus a poucos parágrafos aqui. basta ressaltar que o desenho simples, a linha reta, a funcionalidade, e sobretudo a capacidade e possibilidade de industrialização barata nortearam a produção da bauhaus.

a bauhaus marcou a produção industrial pós anos 20. nãopodemos negar sua influência em basicamente tudo industrializado que hoje consumidos. enxergo as linhas retas da bauhaus no desenho do monitor do computador que está sendo usado para digitar esse texo, na caneca de café comleite aqui ao lado do teclado, na estante de livros aqui ao lado. quem projetou essas peças proisaicas talvez nem imagine o que seja bauhaus, mas projetou algo que fosse fácil de industrializar, fosse funcional, e fosse barato.

mas a bauhaus, nascida em meio ao fordismo incipiente, não poderia prever o toyotismo, não poderia prever também que submeteríamos o homem aos produtos, e não o inverso. nós é que temos que caber nos manequins de numeração padronizada, não a roupa que tenha que cair bem em nossos corpos imperfeitamente diversos e variados. as mulheres sabem o que é isso muito bem, na luta que possuem em busca do soutien perfeito:  uma coisa é tamanho de seio, outra o tamanho do tórax, portanto há uma diferença entre o manequim do soutien e o tamanho do bojo que nem sempre é respeitada pelos fabricantes – vale dizer que, no brasil isso quase não existe.

a produção em série, seja em massa pelo modelo fordista ou em menor escala e mais diversa como no modelo toyotista (espanto-me como os chineses são toyotistas, produzindo hoje tudo pra qualquer mercado até tênis nike que nem a nike produziu ainda), visa muito mais do que satisfazer o consumidor plenamente, mas vender o produto. se um produto barato e de qualidade mediana vende bem, vende muito pois quebra logo e é logo substituído, ele permite ao produtor girar a produção, com muito mais lucro do que sempre produzir algo que dure muito tempo.

assim, há o fenômeno da obsolescência programada. não é obra do caso ou marcha inefável da história que tenhamos um ciclo de inovações tecnológicas no mundo das bicicletas que faça com que em poucos anos nós não tenhamos mais peças de reposição para nossas bikes. no máximo, o que é “defasado” some do mercado ou permanece com algumas peças de reposição de baixa qualidade. exemplo, os thumbshifters, virtualmente a à prova de falhas, que muita gente no mundo ainda quer usar, inclusive com mais marchas (esse é um dos mercados da paul compnents, com  os paulthumbies), mas que não são produzidos adequadamente mais pelos grandes fabricantes.

quem tem bikes com 21 marchas muitas vezes se vê obrigado a migrar para 24 ou 27 (daqui a pouco 30 ou 33 marchas) não por que suas 21 marchas anteriores não as satisfaziam, mas por falta de peças. quero lembrar que 21 marchas é uma infinidade de possibilidades, antonio olinto deu a volta ao mundo usando uma bike de 21 marchas.

existe sim a obsolescência programada: ela agita o mercado. e cria a predisposição quase neurótica e fóbica ao upgrade, como se houvesse uma verdadeira fobia ao “atraso” tecnológico. conhecemos ciclistas que a cada lançamento renovam sua bicicleta  inteira, como se o fato de não estarem com a peça mais nova fosse acarretar uma perda no desempenho simplesmente homérica ou brutal: em resumo, como se o mundo acabasse.

mas não é bem assim. podemos estar muito bem servidos com bicicletas produzidas a 20 ou 30 anos. minha vitus que uso em audaxes tem quase 2 décadas, é bela, mas “defasada”. já fiz audaxes usando alavancas de quadro, e há quem use ainda. não precisamos ter a bicicleta do campeão do tour de france para andar pela cidade ou fazer uma viagem. assim com não usaremos uma ferrari de fórmula 1 para fazer uma viagem ao interior ou ir fazer compras num supermercado.

mas voltemos à bauhaus. na ânsia de reduzir o custo de produção, muitos fabricantes simplesmente padronizam seus produtos. aí entra o alumínio.

o alumínio, por uma série de fatores, se presta muito bem à produção industrial de quadros. há uma produção dos anos 70 e 80 de quadros artesanais em alumínio e mesmo fibra de carbono (cachimbados), mas não pode-se confundir essa produção quase artesanal, dependente fortemente de mão de obra, com a produção industrializada de quadros de alumínio 6061 que nos chega do oriente.

existe uma diferença entre usar um quadro feito sob medida e comprar um pronto. é como usar uma roupa sob medida ou uma roupa pronta. alguns mais espertos ajustam a roupa comprada pronta. outros não.

o mesmo se dá com a bicicleta. a bicicleta sob medida é mais cara, com certeza. melhor. mas há como ajustar uma bicicleta de série (de fabricantes + sérios) desde que se tenha o conhecimento (próprio, ou de outrem) adequado. mas a bicicleta deve ter o tamanho também adequado à pessoa.

como bem lembrou o arturo alcorta na palestra de bike fit do cleber anderson da festa da ciclocidade, a ânsia de reduzir preços faz com que grandes fabricantes de bicicletas simplesmente vendam produtos relativamente padronizados em permitir o ajuste correto da distância entre o selim e o guidão. e, malfadadamente, quadros slooping dão a impressão que basta abaixar o selim para que uma pessoa mais baixa o utilize. por isto esta epidemia de pessoas que usam bicicletas na cidade com guidões excepcionalmente mais altos que o selim. simplesmente estão usando bicicletas grandes demais:  o guidão precisou ser levantado de algum modo para encurtar a distância entre o quadril e a frente da bicicleta.

na bicicleta de tamanho correto com angulação do tubo de selim entre 73 e 74 graus, no tamanho adequado à pessoa, um guidão na altura do selim ou mesmo um bom tanto abaixo não é desconfortável. muito antes pelo contrário, essa posição será progressivamente buscada pelo ciclista. e é ereta o suficiente para não forçar os músculos da coluna cervical (não dá torcicolo). e então usar o guidão mais alto deixa de ser uma escolha baseada numa necessidade de conforto.

mas numa bicicleta muito grande, o guidão, mesmo alto, já força a pessoa inclinar-se demasiadamente para frente.

ora, tendo os corpos humanos uma imensa variedade de tamanhos de tórax e também de sua proporção com o comprimento das pernas, é até maldade fornecer determinados modelos em um tamanho único ou em três tamanhos genericamente classificados como P, M ou G.

 

trek madone 6.9 ssl wsd.

esses problemas de geometria atingem de sobremaneira as mulheres, cuja estatura mais baixa na média e também o maior comprimento das pernas em relação ao tórax pede que usem quadros bem mais curtos para o adequado ajuste. a indústria ciclística comete uma imensa maldade quando induz as mulheres a acreditarem que quadro feminino é simplesmente um quadro rebaixado, e pintado de cor de rosa. não é isso, mas sim um quadro mais curto, não necessariamente rebaixado, pois a mulher não terá dificuldades para descer do selim e colocar os pés no chão se o quadro, mesmo de geometria tradicional (com o tubo superior  do quadro paralelo ao chão), tiver o tamanho adequado. que o rebaixamento eventual do tubo superior seja apenas por uma comodidade no pedalar usando saias, mas não na maquiagem da inadequação do tamanho das bicicletas.

mas é um erro querermos creditar à bauhaus a culpa por essa canalhice da indústria ciclística. a bauhaus abriu caminho para a funcionalidade com baixo custo de produção, e não estava na cabeça de seus mentores a não adequação dos produtos aos seus usuários. a bauhaus pensou a casa como máquina de morar, não como masmorra (local de sofrimento) e, estendendo esse conceito, a bicicleta seria, aos olhos da bauhaus, a máquina de pedalar, não de sofrer.

penso que seja importante repensar na nossa relação com os bens industrializados. infelizmente consumimos movidos não pela necessidade, mas pelo desejo alimentado pela publicidade.perco toda semana diversas horas respondendo e-mails de pessoas que querem ou compraram determinadas bicicletas movidas pelo apelo visual, não pelo adequação ao seus biotipos. e, claro, sobrevêm então as dores no corpo. e depois, essas pessoas simplesmente largam as bicicletas e passam a defender que as bikes não podem ser meios de transporte adequados. viram carrólatras empedernidos.

em tempo, que não se permita uma interpretação errada. eu sou fã da bauhaus. da visão de gropius da máquina domesticada pelo homem, e não o contrário. gostaria de ter sido aluno desta escola. não sou arquiteto, designer, engenheiro ou projetista, mas nada me ipede de perceber a genialidade da bauhaus. e dói-me perceber a distorção de suas idéias, invertendo a fórmula: o homem sendo domesticado pela máquina, principalmente a máquina poluidora de quatro rodas.

para entender melhor a bauhaus, um documentário português em 7 partes, no youtube, com a primeira parte aqui.

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Uma resposta para “bauhaus – e as bicicletas

  1. Mavavilhoso artigo!!! Quase um TCC!!! Parabéns!!!

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