fogo nos carros!

ferrari pegando fogo. cena linda.

e um dia os paulistanos acordaram sábios, pegaram muito álcool, despejaram sobre seus carros e os incendiaram. durante alguns dias a fumaça imensa deixou a cidade muito suja, mas depois de 72 horas o ar começou a melhorar. uma semana depois o ar de são paulo já mal mostrava a “tampa” cinzenta, durante tanto tempo a maior característica de são paulo. e no primeiro ano, 4.000 mortes a menos. progressivamente, menos atendimentos em cardiologistas, em endocrinologistas… a população emagreceu apesar de comer bem, comer cada vez mais, ter mais prazer ao comer sem culpa pois ao deixar de usar a bunda pra se locomover, e passar a usar as pernas para tanto, o cidadão passou a gastar mais calorias….

no começo os ônibus e metrôs ficaram lotados. mas logo os ônibus passaram a andar muito mais rápido pelas vias livres dos carros. trajetos antes feitos em 3 horas passaram a ser feitos em meia hora. a marginal perdeu tanto movimento  que resolveram tirar 70% das suas faixas, sem uso. o terreno restituído ao rio foi todo arborizado. capivaras voltaram a habitar as margens do tietê, ali, pertinho da ponte das bandeiras. a água ficou mais clara, mesmo sem ter melhorado o saneamento, mas como a chuva não tinha mais aquela poeira fina pra varrer das ruas e carregar para os rios, a água não enegrecia.

um certo partido nunca mais elegeu prefeitos e governadores, acusados de terem feito, nos tempos anteriores, uma cidade para carros. sem tantas obras as oportunidades de corrupção diminuíram.

tudo queimado....

e claro, outras obras programadas se mostraram desnecessárias. não fizeram o trecho norte do rodo-anel, não destruíram, portanto, um importante manancial pra cidade nem deslocaram mais de 100 mil famílias só pra fazer passar uma estrada.

mais um!

e de repente são paulo se viu mais humana. sem trânsito, sem mortes no trânsito. os cadeirantes diminuíram sua população no decorrer do tempo, não havia mais quem sofresse acidentes terríveis. o setor de trauma dos hospitais virou a ala menos frequentada.  e também a pneumologia registrou diminuição nos atendimentos: as crianças bronquíticas e asmáticas passaram a não mais ter aquelas crises horrorosas que traumatizam a família inteira.

turismo pra quê?

aumentou a taxa de empregos: fábricas que antes tinham saído voltaram: não havia mais o problema de escoamento de sua produção, os caminhões não ficavam mais presos em congestionamentos. o emprego começou a sobrar, e os empregadores passaram a preferir estabelecer-se em são paulo: os funcionários chegavam bem humorados ao trabalho, faltavam menos, tinham menos problemas de saúde, não eram sedentários, pois por tudo circulavam em suas bicicletas.

e de repente morar em são paulo passou a ser uma coisa boa, e a cidade passou a ser feliz, mais rica, mais tranquila, mais silenciosa, mais justa. até a criminalidade baixou a níveis próximos a zero.

ficção? não, realidade num universo paralelo. mas nesse universo não é assim que as coisas se dão.

hoje de manhã, passando pelo centro apenas ziguezagueei  entre os carros parados. são paulo está parada nesse 13 de novembro de 2010, começo de feriadão. a marginal parada e seus acessos idem. nunca foi tão fácil atravessar as pontes, sem perigo algum para ciclistas (que sempre sofrem nos acessos), pois estavam os veículos grandes todos parados. o som das buniznas vai ao longe. mesmo aqui, nesse bucólico bairro onde moro enquanto o rodoanel não destrói tudo, o barulho das buzinas na esquina é gigantesco.  o inferno é aqui, mas é mais infernal par aquem tem síndrome de pinto pequeno e portanto tem um carro grande.

eu, hj de manhã, fotografado pelo andy singer

é monstrorista, eu, ciclista, não sou como vc. ainda bem. eu não congestiono as ruas. eu não atropelo e mato pessoas, e não tenho em minhas mãos o sangue dos cerca de 4 mil mortos por ano por conta da poluição do seu carro. sim, vc, monstrorista, mata todo ano alguém mesmo sem atropelá-lo, sem tocar em seu corpo com essa carcaça de metal de mais de uma tonelada que serve pra carregar seu corpo flácido e imóvel.

ciclo vital

é, monstrorista, eu não sou como vc. eu não onero o sistema público de saúde por conta de doenças ligadas ao sedentarismo. eu posso ser magrelo ou gorducho, mas sou saudável, eu falto menos ao trabalho, eu pego menos gripe, eu não transmito os vírus sazonais dentro de um veículo fechado com outras pessoas, eu não poluo, eu não congestiono, eu apenas transito.

é, monstrorista eu não sou como vc, e me orgulho disso.  pois se pessoas como eu não salvam o planeta, tampouco são responsáveis pelo mundo como se encontra. e, se num dia vc tiver um lapso de consciência, taque fogo no seu carro.

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3 Respostas para “fogo nos carros!

  1. É.
    Conheço gente que não é capaz de ver algo muito errado em resumir seus dias em acordar e casa, entrar num carro, descer no trabalho, entrar no carro de novo, descer em casa (ou em outro lugar). Não sentem o sol, o vento, a chuva, mal movimentam as pernas. E o pior é que estas pessoas são a maioria.

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